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As causas contrabalanceadoras contingentes

4. A CONTRADIÇÃO ABSOLUTA

4.1. A lei da queda tendencial da taxa de lucro

4.1.4. As causas contrabalanceadoras contingentes

A razão pela qual estas causas podem atenuar ou anular a queda da taxa de lucro é porque elas acarretam em um aumento da taxa de lucro. O aumento da jornada de trabalho, a possibilidade de os capitalistas poderem rebaixar o preço pago pela força de trabalho abaixo do valor desta e o surgimento de um exército reserva do proletariado aumentam a taxa de lucro pela mesma razão: por aumentarem a taxa de mais-valia.

Como já exposto em 3.3, a taxa de mais-valia expressa a relação proporcional entre a massa de mais-valia e o capital variável. Tanto maior é a taxa de mais-valia, e tanto maior é a massa de mais-valia em proporção ao capital variável. Por outro lado, a taxa de lucro expressa a relação proporcional da massa de mais-valia com os custos do capital. O valor total dos custos do capital é igual à soma do valor do capital constante com o valor do capital variável Se a massa de mais-valia cresce em proporção aos custos de um capital com do capital

variável, e se o capital constante se mantém inalterado, então a massa de mais-valia cresce em proporção ao valor total dos custos do capital. Portanto, supondo inalterado o custo com capital constante, um aumento da taxa de mais-valia significa um aumento da taxa de lucro.

O aumento da jornada de trabalho, a possibilidade de os capitalistas poderem rebaixar o preço da força de trabalho abaixo de seu valor e o surgimento de um exército reserva do proletariado aumentam a taxa de mais-valia e, consequentemente, aumentam a massa de mais- valia em proporção ao capital variável e, consequentemente, aumentam a taxa de lucro.

O aumento da jornada de trabalho eleva a taxa de mais-valia do seguinte modo: com um aumento da jornada de trabalho, os trabalhadores de uma unidade de produção capitalista produzirão mais valor em um dia de trabalho do que antes deste aumento; supondo que os seus salários não tenham sido alterados, e isto é o mesmo que dizer que o valor do capital variável não se alterou, daí se segue que todo esta parcela maior de valor que estes trabalhadores terão criado com a ampliação da jornada de trabalho se converterá em uma nova massa de mais-valia; e deste modo, a massa de mais-valia total deste capital será maior do que era antes da ampliação da jornada de trabalho. Como os custos com capital variável permaneceram iguais e a massa de mais-valia aumentou, disto se segue que a massa de mais- valia cresceu em proporção aos custos com capital variável e, portanto, a taxa de mais-valia cresceu; por fim, com este aumento da taxa de mais-valia, cresceu a taxa de lucro.

O rebaixamento do salário dos trabalhadores abaixo do valor da força de trabalho eleva a taxa de mais-valia do seguinte modo: com uma redução do valor-de-troca que é pago pelo uso da força de trabalho de cada trabalhador, reduz-se o valor total gasto com capital variável; mas a jornada de trabalho na qual os trabalhadores produzem mercadorias nas quais está objetificado um certo quantum de valor não se reduz e, portanto, o valor criado por estes trabalhadores também permanece o mesmo. Como o valor do capital variável diminuiu, a parte do valor criado pelos trabalhadores que o capitalista se apropria como massa de mais- valia aumenta. Com isto, a massa de mais-valia aumenta em termos absolutos e aumenta em proporção ao capital variável. Portanto, a massa de mais-valia aumenta em proporção aos custos do capital e, consequentemente, aumenta a taxa de lucro.

O exército reserva do proletariado aumenta a taxa de mais-valia porque, quando a oferta da força de trabalho excede a procura de trabalhadores da classe capitalista, o preço pago pela força de trabalho pode cair abaixo do valor da força de trabalho. Sendo assim, é o mesmo caso da causa contrabalanceadora citada acima.

Com vimos anteriormente, com o desenvolvimento da produtividade do trabalho, há um aumento da composição orgânica dos capitais sociais, o que pressiona as taxas de lucro

destes capitais para baixo; mas este movimento pode vir acompanhado de um aumento da jornada de trabalho ou de uma redução do salário que é pago aos trabalhadores abaixo do valor da força de trabalho, o que pressiona a taxa de lucro pra cima. A pergunta que devemos fazer é: qual o efeito destas causas contrabalanceadoras sobre a lei da queda tendencial da taxa de lucro? Há dois efeitos possíveis: a atenuação da queda da taxa de lucro e a anulação temporária da queda da taxa de lucro.

No primeiro caso, as causas contrabalanceadoras não impedem que a taxa de lucro caia, pois a pressão para que a taxa de lucro caia exercida pelo aumento da composição orgânica do capital terá sido maior do que a pressão para que a taxa de lucro cresça exercida pelo aumento da jornada de trabalho ou pela redução do preço da força de trabalho abaixo do valor desta última. Mas neste caso, a queda da taxa de lucro será menor do que se não houvesse as causas contrabalanceadoras. Aqui acontece o mesmo que no exemplo que extraímos da física em que há a influência de duas forças antagônicas sobre um corpo que se encontra em movimento de queda. A resistência do ar diminui a velocidade do corpo que está caindo pela influência da força da gravidade; mas não anula esta força.

No segundo caso, a pressão para que a taxa de lucro caia exercida pelo aumento da composição orgânica do capital terá sido a mesma que a pressão para que a taxa de lucro cresça exercida pelo aumento da jornada de trabalho ou pela redução do preço da força de trabalho abaixo do valor desta última. Sendo assim, a taxa de lucro não varia. Mas isto só pode acontecer quando consideramos o movimento de variação da taxa de lucro num curto período de tempo, pois há limites dentro dos quais o aumento da taxa de mais-valia em decorrência das causas contrabalanceadoras que estamos considerando pode compensar a pressão para queda da taxa de lucro exercida pelo aumento da composição orgânica do capital. Vejamos que limites são estes.

O capital constante pode crescer em proporção ao capital variável de maneira quase ilimitada. O único limite para o crescimento do capital constante é o de que, para que as relações capitalistas sejam possíveis, é preciso que haja exploração da força de trabalho e, portanto, é preciso que os capitais sociais, em média, sejam compostos também por capital variável; e deste modo, o capital constante não pode corresponder a todo o valor dos capitais da sociedade. Mas ainda assim, o crescimento da composição orgânica do capital pode se dar dentro de um limite muito amplo. Mas a diminuição da jornada de trabalho e o rebaixamento do salário pago aos trabalhadores abaixo do valor da força de trabalho somente pode se dar dentro de limites muito estreitos. A jornada de trabalho não pode crescer muito além de um certo tempo de trabalho diário, pois há certos limites físicos dentro dos quais os trabalhadores

podem aguentar uma jornada diária de trabalho. E o preço do salário não pode baixar além de certo limite, pois se os trabalhadores não ganharem o suficiente para manter sua existência física, acabariam morrendo e com isto os próprios capitalistas perderiam suas “galinhas de ouro”.

Deste modo, quanto mais longo for o período de tempo em que se considerar o desenvolvimento das forças produtivas no interior das relações capitalistas, e tanto maior será o desenvolvimento da composição orgânica do capital e tanto menor será a possibilidade de o crescimento da taxa de mais-valia, em decorrência do aumento da jornada de trabalho e da redução do salário pago aos trabalhadores abaixo do valor da força de trabalho, poder compensar a pressão para queda da taxa de lucro acarretada pelo aumento da composição orgânica do capital.

Por fim, entre as causas contrabalanceadoras contingentes, falta falarmos do comércio externo. Este permite atenuar a queda da taxa de lucro pois, por meio de transações realizadas por capitais de nações diferentes, torna-se possível adquirir meios e objetos de trabalho mais baratos, produzidos com um grau de produtividade maior. Mas o comércio externo não pode impedir a lei da queda tendencial da taxa de lucro, pois como vimos em 3.4.9, o barateamento do valor dos elementos do capital constante não impede que a composição orgânica do capital aumente no longo prazo.

Sendo assim, causas contrabalanceadoras contingentes podem atenuar ou mesmo impedir a queda da taxa de lucro numa escala de tempo curta, mas não podem anulá-la numa escala de tempo longa. Precisamente por isto, a contenda marxista acerca de se a tendência à queda da taxa de lucro é a tendência dominante ou não gira em torno da relação desta tendência com as causas contrabalanceadoras que são necessariamente engendradas pelo desenvolvimento da produtividade do trabalho. Estas causas são o rebaixamento do valor dos elementos do capital constante e a mais-valia relativa. Elas estabelecem uma contra-tendência à tendência de queda da taxa de lucro precisamente porque criam uma tendência oposta de elevação da taxa de lucro. Já tratamos no capítulo 3 desta dissertação tanto do barateamento dos elementos do capital constante quanto da mais-valia relativa. Agora trataremos de ambos os fenômenos em sua relação com a taxa de lucro e com a lei tendencial da queda da taxa de lucro

4.1.5. O rebaixamento do valor dos elementos do capital constante como causa