4. A CONTRADIÇÃO ABSOLUTA
4.1. A lei da queda tendencial da taxa de lucro
4.1.5. O rebaixamento do valor dos elementos do capital constante como causa
O rebaixamento do valor dos elementos do capital constante está vinculado à lei do valor segundo a qual o valor de uma mercadoria específica é inversamente proporcional ao aumento da produtividade do trabalho que produz esta mercadoria. O valor de uma mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para produzir esta mercadoria. Se há um aumento da produtividade na produção de uma mercadoria de modo que passe a ser necessário apenas metade do tempo de trabalho socialmente necessário para produzir esta mercadoria em relação ao tempo que era necessário antes deste aumento da produtividade, então o valor desta mercadoria também cai pela metade. Se num primeiro momento, a produção de uma cama exija um tempo de trabalho socialmente necessário de 8 horas, então o valor monetário desta cama será de 8 unidades monetárias. Se a produtividade na produção de camas aumenta, de modo que agora seja necessário apenas 4 horas de tempo de trabalho socialmente necessário para produzir 1 cama, então no mesmo período de 8 horas terão sido produzidas 2 camas ao invés de 1, e cada cama terá o valor de 4 unidades monetárias ao invés de 8. Do mesmo modo, se há um aumento na produtividade dos ramos que produzem os elementos do capital constante, como máquinas e matérias-primas, então há um barateamento dos elementos materiais do capital constante.
Se há um barateamento dos elementos do capital constante, supondo que a composição técnica do capital não se modifique e que a massa de mais-valia não se modifique, então a massa de mais-valia cresce em proporção aos custos do capital e, consequentemente, a taxa de lucro sobe.
Vejamos um exemplo. Vamos supor um capital cujos custos se dividem entre 500 unidades monetárias de capital constante e 500 unidades monetárias de capital variável. Vamos supor também que a taxa de mais-valia seja 50% e, deste modo, a massa de mais-valia será de 250 unidades monetárias. Neste caso, a taxa de lucro será de 25 %. Agora vamos supor que tenha havido um aumento generalizado nos ramos que produzem os elementos do capital constante, de modo que a produtividade nestes ramos tenha duplicado. Sendo assim, o valor dos elementos do capital constante caiu pela metade. Consideraremos também que o capital que estamos usando como exemplo não tenha tido um aumento de sua produtividade e, sendo assim, ele utiliza a mesma quantidade de máquinas e matérias-primas. Deste modo, o valor do capital constante que este capital tem de desembolsar caiu pela metade. Em razão disto, a massa de mais-valia, embora tenha permanecido a mesma, cresceu em proporção aos custos do capital e, portanto, a taxa de lucro subiu. Agora o capital de nosso exemplo tem de desembolsar 250 unidades monetárias com capital constante. Não tendo sido modificado o
valor do capital variável nem a massa de mais-valia, a taxa de lucro agora deste capital subiu de 25 % para 33,33 %.
Vemos assim que o aumento da produtividade do trabalho nos ramos que produzem os elementos do capital constante acarreta que o valor destes elementos caia e, deste modo, que os custos dos diversos capitais da sociedade com capital constante também caiam, aumentando a taxa de lucro destes capitais.
A pergunta que devemos fazer agora é a seguinte: de que modo o rebaixamento dos custos dos elementos do capital constante afeta a lei da queda tendencial da taxa de lucro?
A lei da queda tendencial da taxa de lucro decorre do aumento da composição orgânica do capital. Com o aumento da produtividade do trabalho, aumenta a quantidade de meios de produção que os capitalistas devem comprar para cada quantum de trabalho despendido pela força de trabalho que eles comandam. Com isto, aumenta o custo com capital constante em proporção ao custo com capital variável e, consequentemente, aumenta a composição orgânica do capital; e em razão deste aumento da composição orgânica do capital, a taxa de lucro cai. Mas o barateamento dos elementos do capital constante pode fazer com que o aumento da composição técnica do capital não reflita no aumento da composição orgânica do capital, como já vimos em 3.4.8. e 3.4.9. Se a composição técnica do capital dobra, mas o valor dos elementos do capital constante cai pela metade, então a composição orgânica do capital permanece a mesma; consequentemente, a taxa de lucro permanece a mesma. Mas se a composição técnica do capital cresce mais do que o rebaixamento do valor dos elementos do capital constante, então a composição orgânica do capital aumenta, e a taxa de lucro cai. É deste modo que o rebaixamento do valor dos elementos do capital constante afeta a lei da queda tendencial da taxa de lucro: impedindo que a composição orgânica do capital aumente na mesma proporção que a composição técnica do capital.
O rebaixamento do valor dos elementos do capital constante atenua a lei da queda tendencial da taxa de lucro quando o aumento da composição técnica do capital é maior do que o rebaixamento do valor dos elementos do capital constante. Neste caso, a taxa de lucro cai, mas cai menos do que se não tivesse havido um rebaixamento do valor dos elementos do capital constante.
Mas o rebaixamento do valor dos elementos do capital constante pode impedir a realização de lei da queda tendencial da taxa de lucro no longo prazo? Somente se o rebaixamento do valor dos elementos do capital constante impedir o crescimento gradual no longo prazo do aumento da composição orgânica dos diversos capitais da sociedade. Se no longo prazo, a composição técnica dos diversos capitais da sociedade crescer numa proporção
maior do que a diminuição do valor dos elementos do capital constante, então a composição orgânica do capital cresce no longo prazo; se o rebaixamento do valor dos elementos do capital constante, no longo prazo, se der na mesma proporção ou for maior do que o aumento da composição técnica dos diversos capitais da sociedade, então a composição orgânica dos diversos capitais não cresce no longo prazo. Mas já vimos em 3.4.9 que para Marx, a composição técnica dos diversos capitais da sociedade, no longo prazo, cresce a uma proporção maior do que o rebaixamento do valor dos elementos do capital constante e, consequentemente, há um movimento contínuo de aumento da composição orgânica destes capitais. E com este aumento gradual da composição orgânica dos capitais, há uma queda da taxa de lucro paulatina e generalizada no longo prazo.
Com isto, concluímos que o rebaixamento do valor dos elementos do capital constante não pode impedir a realização no longo prazo da lei da queda tendencial da taxa de lucro. Apenas pode atenuar sua realização fazendo com que a taxa de lucro caia menos do que cairia se não houvesse esse rebaixamento do valor dos elementos do capital constante.