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desenvolvimento econômico

ECONÔMICO TEORIA INSTITUCIONAL DAS

2.2.3 As contribuições de Richard Nelson e Sidney Winter

Os argumentos teóricos sobre o processo de inovações para ajudar a entender a mudança econômica se alargaram bastante, no entanto o trabalho seminal de Richard Nelson e Sidney Winter - An Evolutionary Theory of Economic Change (1982) - tem sido um dos mais referenciados nas últimas décadas, dada a sua riqueza e consistência na proposição de um modelo evolucionário de crescimento econômico, que oferece elementos complementares à abordagem da teoria neoclássica.

As proposições servem à análise microeconômica, nas respostas das firmas e dos setores a condições alteradas de mercado, mas servem, principalmente, ao entendimento do crescimento econômico considerando a mudança técnica. Em seu estudo, Nelson e Winter (1982) conceberam um modelo constituído pelos conceitos “rotina, busca e seleção”.

2.2.3.1 Rotinas

Ao se referirem a “rotinas”, Nelson e Winter (2012, p. 33) analisam as características das firmas que vão desde atividades na produção, procedimentos para contratações e demissões, encomendas de estoques, até políticas de investimentos, de pesquisa e desenvolvimento, ou mesmo estratégias empresariais.

Na analogia com a teoria evolucionária biológica, as rotinas se associariam ao aspecto da “hereditariedade”, ou seja, assumiriam o mesmo papel que os genes desempenham, apresentando características semelhantes às do organismo. A hereditariedade se evidenciaria

nas estruturas organizacionais em situações como: as unidades de produção de amanhã (possíveis filiais) herdam características das unidades atuais. Além do caráter hereditário, as rotinas têm características selecionáveis, no sentido de que alguns organismos (unidades de produção) com certas rotinas podem ter melhor desempenho do que outros, aumentando a sua importância relativa na população (no segmento da indústria) ao longo do tempo.

Dessa forma, os autores propõem que as habilidades individuais são análogas às rotinas das organizações, e que o papel que as rotinas representam no funcionamento das organizações é, portanto, obtenível ao se considerar o papel das habilidades no funcionamento dos indivíduos. Compreender as habilidades individuais permite a compreensão do comportamento da organização ou, em termos metafóricos, as rotinas são habilidades de uma organização.

Neste contexto, Nelson e Winter (2012, p. 117) destacam as características das habilidades, independentemente de serem aptidões ou atos de escolha: elas são programáticas, dada à sequência de etapas; configuram conhecimento tácito, inerente ao desempenho habilidoso e de difícil detalhamento; e a sua execução envolve o ato de se fazer escolhas, na maioria das vezes feitas inconsciente e automaticamente.

Os autores ainda propõem que a rotinização das atividades de uma organização constitui a forma mais importante para se estocar conhecimento específico da própria organização, ou seja, recursos intangíveis que podem se configurar em valiosos ativos. Da mesma forma, alertam para o fato de que a operação rotineira é consistente com a ocorrência, também rotineira, de negligências, enganos, quebras de regras, rebeldia e até sabotagem, por parte dos indivíduos, comportamentos que não violam expectativas, nem comprometem resultados esperados, configurando-se uma acomodação estável.

Nelson e Winter (2012, pp. 171-187) ainda propõem a rotina como meta, exercendo o controle das atividades, recorrendo à aplicação e táticas como, seleção de alternativas mais adequadas às rotinas, modificação dos insumos adquiridos, monitoramento do processo de organização e produção, identificando o recurso ineficiente, e adaptação da própria rotina, de modo que fique mais tolerante à heterogeneidade; ademais, o modelo evolucionário defende a realização da “cópia” de rotinas (disponíveis) de estruturas produtivas que já estejam em pleno funcionamento, ou a “imitação” de rotinas (indisponíveis) de estruturas produtivas que venham apresentando sucesso, correndo-se o risco de eventuais “mutações” do original decorrentes da cópia não autorizada.

As rotinas passaram a representar, dessa forma, um conceito de relativa complexidade, merecendo um aprofundamento do seu entendimento, como o observado em outras obras, tal

qual em Nelson e Winter (2002a, p. 30), quando registram que “o conceito de rotinas tem múltiplas virtudes como base para a economia evolucionária, oferecendo um ponto focal para a resposta baseada na aprendizagem para o enigma da competência”. Outros autores também abordam esta questão, como Narduzzo, Rocco & Warglien (2000 apud DOSI; NELSON; WINTER, 2000, p. 27), que associam a definição de rotinas a um conjunto de propriedades de aprendizado (tácito, automático, repetitivo), e enfatizam que esta polissemia é decorrente da própria força do conceito.

Ainda com base em Nelson e Winter (2012, p. 204), o conceito “rotinas” está também associado ao que se pode esperar do comportamento das firmas no futuro com base nas rotinas que empregaram no passado, o que não implica que as firmas tenham um comportamento literal ao longo do tempo. Todavia, as alternativas de atuação da firma em resposta ao ambiente são dependentes do caráter idiossincrático das suas rotinas.

Os autores ainda alertam para a possibilidade de se esperar que as firmas se comportem no futuro de maneira semelhante ao comportamento que teriam se simplesmente seguissem suas rotinas do passado. Nessa assertiva, o termo “semelhante” é associado à investigação dos fatores que mantêm o comportamento na trilha da rotina, em que qualquer mudança que aconteça possivelmente será a aquela que ofereça menor resistência, e a identificação das fontes de menor resistência é que se torna o desafio do tema “genética da organização” – compreender como a continuidade do comportamento rotineiro atua para canalizar a mudança da organização.

2.2.3.2 Busca

O segundo conceito tratado por Nelson e Winter (2012, p. 39) é o de “busca”, que é associado aos investimentos realizados pelas organizações em pesquisa e desenvolvimento (P&D), proporcionando modificações de rotinas e, no âmbito do modelo evolucionário, na analogia com a biologia, corresponderia ao processo de mutação.

Nesta perspectiva, no que se refere aos ramos de atividades, ou segmentos industriais, os autores demonstram que, em seu modelo, não se supõe que os ramos de atividades estejam em equilíbrio no longo prazo, argumentando que a preocupação central da teoria evolucionária está na dinâmica que determina os padrões de comportamento das firmas e os resultados de mercado ao longo do tempo (NELSON; WINTER, 2012, pp. 39-40).

A respeito desse conceito, em Corazza e Fracalanza (2004, p. 132) observa-se que da “busca” depende a inovação e, portanto, a mutação das firmas, indústrias e do próprio sistema como um todo. As rotinas de busca, materializadas nas atividades de pesquisa e desenvolvimento, permeiam-se por um tipo especial de incerteza, a de natureza não probabilística, o que faz com que a inovação passe a ser um processo guiado por uma heurística de busca, com base em experiências prévias, tentativas, sucessos e fracassos, ou seja, não se trata de um cálculo de otimização, mas decorrentes da racionalidade confinada aos limites cognitivos dos agentes envolvidos que lidam com informações imperfeitamente disponíveis.

Arend, Cario e Enderle (2012, p. 119) também fazem referência ao conceito de “busca” da abordagem neo-schumpeteriana ou evolucionária de Nelson e Winter (2012), enfatizando que:

[...] o esforço especificamente inovador caracteriza-se inicialmente pelo processo de busca pelas firmas, centradas sobre o espectro de inovações que o contexto tecnológico presente, ou futuro já manifesto, oferece. Por outro lado, já que não existe uma escolha que seja claramente melhor ex-ante, introduz-se um critério de seleção de empresas pelo mercado que opera ex post: as empresas que encontram as melhores técnicas se expandirão mais.

Ainda de acordo com Nelson e Winter (2012, p. 255), a busca apresenta três características:

a) a irreversibilidade, ou seja, a informação ou conhecimento encontrado não mais se perde, e o seu custo de retenção é bem menor do que o custo de aquisição ou de produção;

b) a incerteza, isto é, o cenário no qual se busca a informação pode apresentar alternativas das quais não se sabe a que se revelará melhor; e,

c) o seu caráter contingente, dado que os processos reais de busca ocorrem em contextos históricos específicos.

A abordagem evolucionária apresenta os conceitos de rotina e busca, sobretudo enfatizando que no âmbito da busca, boa parte da tecnologia de produção é tácita, não explícita, o que faz com que as firmas empreguem um esforço considerável para manter sob sigilo o conhecimento das suas técnicas de produção, e os pressupostos técnicos defendidos pelo modelo ortodoxo não contemplam essas circunstâncias.

2.2.3.3 Ambiente de seleção

Para o conceito de seleção, Nelson e Winter (2012, p. 381) consideram que, para delinear um modelo geral do ambiente de seleção, devem ser especificados os seguintes elementos:

a) a natureza dos benefícios e dos custos na adoção ou não de uma inovação;

b) as preferências do mercado e as regulamentações que possam influenciar o lucro; c) a relação entre o lucro e a expansão ou contração das organizações; e,

d) a natureza dos mecanismos pelos quais se tem conhecimento e se consegue a inovação.

Um ambiente de seleção assim configurado determina como a adoção das inovações se modifica ao longo do tempo. Ademais, os autores apontam o mercado como ambiente de seleção, ressaltando que a inovação bem-sucedida assegura lucros mais altos, e as firmas lucrativas crescem desviando mercados das não inovadoras que, em decorrência, reduzem sua lucratividade e acabam se contraindo. Todavia, alertam para as situações extramercado, em que o agente público deve adotar mecanismos políticos de governança para que uma inovação se torne operacional (NELSON; WINTER, 2012, p. 385-392).

A Figura 3 (2) a seguir ilustra e sintetiza os conceitos desenvolvidos por Nelson e Winter (2012).

Figura 3 (2)- Quadro esquemático dos conceitos propostos por Nelson e Winter (2012)

Fonte: Elaborada pelo autor (2015) BUSCA

Atividades da organização associadas à avaliação das rotinas correntes e que podem levar à sua modificação , a uma mudança mais drástica ou à sua substituição.

AMBIENTE