desenvolvimento econômico
INOVAÇÕES MUDANÇA ECONÔMICA
2.2.3.5 Políticas públicas e ações governamentais
A respeito da ação pública e da participação do Estado na dinâmica de inovações, a literatura evolucionista neo-schumpeteriana também ofereceu elementos para a discussão tal qual a abordagem da mudança institucional.
Ainda de acordo com Nelson e Winter (2012, p. 548), constata-se a preocupação com o envolvimento governamental no âmbito das ações de pesquisa e desenvolvimento (P&D),
quando questionam os pontos positivos e negativos de se deixar as atividades de P&D totalmente sob o domínio privado, e sobre quais são as oportunidades e limites para o Estado. Os autores argumentam que tanto as lacunas deixadas pelo mercado, quanto as oportunidades e as restrições à ação governamental dependem do caráter da estrutura de mercado e da concorrência no setor, bem como de variáveis institucionais, tais como a força e o escopo das patentes e a extensão do segredo industrial.
Nesta perspectiva, as proposições evolucionistas retomam a discussão sobre a importância do Estado enquanto instituição nas relações do sistema econômico, notadamente como elemento central na hierarquia dos sistemas nacionais de inovação e não somente como agente para resolução das lacunas deixadas pelo mercado, tal qual preconizado pelos ortodoxos (GADELHA, 2002, p. 92).
O desenvolvimento da concepção de um sistema de inovação6, seja nacional, regional ou setorial, é essencialmente fruto da teoria evolucionária de crescimento econômico e, segundo Nelson e Nelson (2002, p. 265), a ideia do sistema de inovação é uma concepção institucional, por excelência.
No trabalho de Gadelha (2002, p. 111) verifica-se a importância do Estado quando o classifica enquanto instância de arbitragem e poder, e que constitui uma instituição decisiva que possui capacidade de interferir nas relações de interdependência entre as empresas e os mercados, e destes com as demais organizações, permitindo a formulação de estratégias convergentes pelos atores envolvidos na mudança estrutural, além de exercer um papel sistêmico no âmbito da política de inovação.
Por sua vez, para Guimarães (2000, pp. 127-128), a implantação de um sistema nacional de inovação não pode ser deixada ao sabor do mercado, dada a natureza peculiar dos fluxos tecnológicos, cabendo ao Estado desempenhar várias funções na aplicação de uma política de ciência e tecnologia, tais como planejamento, fomento e controle. O autor sugere que duas características deveriam pautar a ação do Estado no âmbito da política de inovação: a seletividade, definindo setores e concentrando esforços, ao invés de ações generalizadas, e prioridade à empresa como o principal agente de inovação.
Cassiolato e Lastres (2000, pp. 245-247) também discorrem sobre a importância das políticas públicas e as ações governamentais no sentido do desenvolvimento científico e
6 O conceito de Sistema de Inovação-SI data das últimas décadas do século XX. Edquist (2001) o define como
todos os importantes fatores de ordem econômica, social, política e organizacional que influenciam o desenvolvimento, a difusão e o uso de inovações (EDQUIST, 2001, p. 2). Diniz (2001) relaciona inovação com instituições e discute a complexidade da definição e a taxonomia dos sistemas de inovação (SSNI, SNI, SRI, e SSI) (DINIZ, 2001, p. 11).
tecnológico, notadamente no que concerne ao apoio da internacionalização das atividades de empresas.
Os autores alertam para os eventuais equívocos de políticas governamentais pautadas apenas em incentivos, como isenções fiscais ou outros de conotação financeira, sem a contrapartida de alcance de metas, que podem prejudicar o encadeamento da economia local. Para os autores, o Estado deve estar mais bem preparado para compreender as importantes mudanças do mundo contemporâneo, ampliando a sua capacidade de ação, outrora limitada apenas a incentivos do ponto de vista financeiro.
Uma interface maior entre o Estado e a sociedade na definição de políticas públicas também tem sido demandada, sob a perspectiva da incorporação de novos atores que contestam excessivos movimentos burocráticos e de concentração das ações de planejamento, dado que as políticas públicas se realizam na prática mediante as ações dos atores que lhes dão forma por meio de um jogo cotidiano de mediação de interesses para construir um projeto coletivo de bem comum (ANDRADE, 2006).
Ainda sobre sistemas de inovação e demais questões tecnológicas associadas ao processo de desenvolvimento econômico, Dosi, Freeman e Fabiani (1994, p. 30), ao analisarem o caso de nações em processo de industrialização, destacam as influências de elementos como as instituições, a dependência da trajetória histórica e da mudança técnica e discutem sobre a concentração das atividades de pesquisa e desenvolvimento dentro de instituições governamentais, alertando a necessidade das empresas desenvolverem atividades para se tonarem indústrias competitivas no mercado mundial. Bathelt (2003) também faz referências aos aspectos dos sistemas nacionais e regionais de inovação associados com o papel das instituições, ressaltando que os sistemas regionais de inovação dependem de arranjos institucionais nacionais para que possam se estabelecer.
No âmbito das preocupações com a sustentabilidade, Barbieri et al. (2010) fazem observações a respeito das relações entre as inovações e a temática do desenvolvimento sustentável, afirmando que o modelo de organização inovadora sustentável corresponde a uma resposta às pressões institucionais por uma organização que seja capaz de inovar com eficiência em termos econômicos, mas com responsabilidade social e ambiental.
Essas circunstâncias conformam um novo ambiente para a concepção de políticas públicas. Estudos mais contemporâneos apontam a capacidade política como de fundamental importância para a definição de estratégias e eficiente alocação de recursos visando o crescimento e o desenvolvimento econômico. De acordo com Karo e Kattel (2014, p. 81), em se reconhecendo que a capacidade política é vista como elemento-chave, então a mudança
tecnológica e a inovação são amplamente reconhecidas como a porta a ser aberta para o crescimento e o desenvolvimento econômico.
Os autores ressaltam também que, dadas às especificidades da política de desenvolvimento, as bases institucionais da capacidade política derivam de escolhas políticas fundamentais na compreensão da natureza e das fontes de mudança tecnológica, sobre o financiamento da mudança tecnológica, e sobre as formas de gestão pública (KARO; KATTEL, 2014, p. 98).
Neste sentido, este arcabouço teórico, que aponta a convergência das abordagens que estudam as instituições e as inovações, e que fornecem elementos, conceitos e proposições que servem à explicação de fenômenos de dinamismo econômico, contribui decisivamente para o alcance dos objetivos desta tese. Tanto as instituições quanto as inovações são, comprovadamente, objeto de estudo com vistas à possível concepção e prescrição de modelos para a superação da estagnação e catalisação de dinamismo.
Nesse contexto da importância das inovações e das instituições, destaca-se mais uma vez o trabalho de North (1990, p. 129-130) que, na análise histórica da evolução econômica, assinala que as inovações auxiliaram na redução dos custos de transação, mediante a transformação das organizações e adoção de instrumentos e técnicas específicas, consecutando em maior mobilidade do capital, reduzindo os custos de informação e transformando incerteza em risco.