2. O “TERCEIRO SETOR” E A SOCIEDADE CIVIL
2.2. O "TERCEIRO SETOR"
2.2.5. Os atores componentes do "terceiro setor"
2.2.5.3. As cooperativas
Outra dúvida freqüente é se as cooperativas são sem fins lucrativos e se
elas fazem parte do "terceiro setor". A Lei nº 5.764/71, que dispõe sobre a Política
Nacional do Cooperativismo e institui o regime jurídico das sociedades cooperativas,
determina em seu art. 3º que "Celebram contrato de sociedade cooperativa as
pessoas que reciprocamente se obrigam a contribuir com bens ou serviços para o
338
PAES, José Eduardo Sabo. Obra citada, p. 100-101.
339
MÂNICA, Fernando Borges. Obra citada, p. 62, 63. Joaquim FALCÃO elabora
classificação semelhante ao diferenciar as entidades do “terceiro setor” como as assistencialistas de
um lado e as político-mobilizadoras de outro.FALCÃO, Joaquim. Obra citada, p. 167-170.
340
SZAZI, Eduardo. Obra citada, 2001, p. 28.
341
FRANCO, Augusto de, apud COELHO, Simone de Castro Tavares. Obra citada, p. 59.
342
PAES, José Eduardo Sabo. Obra citada, p. 100, 101.
exercício de uma atividade econômica, de proveito comum, sem objetivo de
lucro".
344(Grifo nosso.)
Renato Lopes BECHO entende que há “proibição de as cooperativas serem
sociedades lucrativas”, e que elas “são entidades sem fins lucrativos, por expressa
determinação legal”. Para o autor, o que alguém poderia entender como lucro das
cooperativas, na verdade são as sobras, ou, nos termos do novo Código Civil, os
resultados (os resultados negativos seriam os prejuízos), conforme o art. 1094, inc.
VII, que define quais são as características da sociedade cooperativa: "distribuição
dos resultados, proporcionalmente ao valor das operações efetuadas pelo sócio com
a sociedade, podendo ser atribuído juro fixo ao capital realizado". Segundo o autor
“os resultados nas cooperativas são produtos distintos dos obtidos nas sociedades
lucrativas”. O autor cita ainda Ana Maria Ferraz AUGUSTO, que diz que “lucro é a
remuneração do empresário pelos resultados positivos de sua atividade econômica”,
ou seja, o lucro é resultado da atividade empresarial. Conforme BECHO, “as
cooperativas podem ser empresas, mas sem finalidade lucrativa”, finalizando:
O importante a ser observado é a filosofia por trás da distribuição dos resultados: os
associados têm direito de receber de volta os resultados obtidos pela cooperativa sobre
suas movimentações (sobre o trabalho, sobre seus produtos, sobre seu consumo etc.). Se
ele não receber essa devolução, os resultados devem ficar para as cooperativas e nunca ser
dividido. O que é vetado pelo sistema é que outras pessoas, outros associados, se
beneficiem do resultado do esforço alheio, o que é contra toda a filosofia da
cooperação.
345Sobre o tema, PONTES DE MIRANDA também se manifesta no sentido de
que "o fim econômico, nas sociedades cooperativas, é atingido diretamente pelos
sócios, em seus contatos com a sociedade. O fim econômico, nas sociedades
lucrativas, é obtido com a repartição do que a sociedade percebeu de lucro. A
diferença é sutil, porém sempre da máxima relevância".
346Helder Gonçalves LIMA ainda diz que “a cooperativa tem um fim
inarredavelmente econômico, porém, sem finalidade lucrativa”, e que as sobras não
equivalem a lucro, pois nas cooperativas existe o elemento econômico sem a
344Lembre-se que no Brasil as cooperativas deixaram de sofrer intervencionismo estatal com
a Constituição de 1988, art. 5º, inc. XVIII, que estabeleceu que a criação de cooperativas independe
de autorização.
345
BECHO, Renato Lopes. Elementos de direitos cooperativo. São Paulo: Dialética, 2002, p.
92 a 102.
346
Apud LIMA, Helder Gonçalves. Atos cooperativos e sua tributação pelo ISS à luz da
Teoria Geral do Direito. In: BECHO, Renato Lopes (Coordenador). Problemas atuais do direito
cooperativo. São Paulo: Dialética, 2002, p. 125-128.
finalidade capitalística.
347Gustavo ZILOCCHI ainda trás mais um argumento, quando entende que as
cooperativas são sem fins lucrativos quando não obtêm mais-valia.
348Alfredo de Assis GONÇALVES NETO diferencia as cooperativas das demais
sociedades quando informa que nestas o sócio investe para buscar resultados
lucrativos proporcional aos riscos, e na cooperativa o objetivo que atrai a filiação do
cooperado não é a obtenção de lucro, mas a possibilidade de utilizar-se dos
serviços da sociedade para melhorar a sua situação econômica. O autor aduz que a
cooperativa é uma sociedade, uma vez que não é inerente às associações exercer
atividade econômica com distribuição de resultados aos seus membros, mas que
muito se discute se elas seriam realmente uma sociedade ou uma associação.
Finaliza ao dispor que nas cooperativas o trabalho prepondera sobre o capital.
349Note-se que a Lei nº 9.867/99 criou as cooperativas sociais e, segundo José
dos Santos CARVALHO FILHO "ao Estado cabe associar-se a essas entidades,
reforçando o regime de parceria através de incentivos e subvenções e
aperfeiçoando os sistemas de controle do uso de eventuais recursos públicos".
350José Eduardo Sabo PAES defende que estas cooperativas sociais devam ser
regidas pelo Código Civil, art. 45 e seguintes, pois não se adequam às normas da
Lei nº 5.764/71.
351Leandro Marins de SOUZA defende que as cooperativas sociais
são uma nova figura jurídica, uma nova forma associativa, e por sua configuração
são do "terceiro setor".
352Fernando Borges MÂNICA dispõe que apenas as
cooperativas sociais fazem parte do "terceiro setor", pois não têm finalidade
econômica, ao contrário das demais cooperativas, que para ele têm fins
econômicos.
353Como já informado, Boaventura de Souza SANTOS defende que as
cooperativas em geral fazem parte do "terceiro setor".
Ante o exposto, opinamos no sentido de que as cooperativas podem ser
347Id.
348
Apud ZUGNO, Renato. Espaços públicos compartilhados entre a Administração Pública e
a sociedade. Rio de Janeiro: Renovar, 2003, p. 85
349
GONÇALVES NETO, Alfredo de Assis. Lições de direito societário. São Paulo: Juarez de
Oliveira, 2002, p. 125, 126, 128. Sobre possibilidade ou não de cooperativas participarem de
licitações, ver GASPARINI, Diogenes. Direito Administrativo, 9ª ed. São Paulo: Saraiva, 2004, p. 534.
Com relação às cooperativas prestadoras de serviços públicos, ver DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella.
Obra citada, 2002, p. 233.
350
CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de Direito Administrativo, 9ª ed. Rio de
Janeiro: Lumen Juris, 2002, p. 285.
351
PAES, José Eduardo Sabo. Obra citada, p. 61-61.
352
SOUZA, Leandro Marins de. Obra citada, p. 107, 118, 119.
consideradas como instituições sem fins lucrativos e, portanto, compõem o rol de
entidades do "terceiro setor".
354
No documento
UMA ANÁLISE CRÍTICA DO IDEÁRIO DO "TERCEIRO SETOR" NO CONTEXTO NEOLIBERAL E AS PARCERIAS ENTRE A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E
(páginas 105-108)