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1. O ESTADO E A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA

1.2. DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA PATRIMONIALISTA À

1.2.3. Administração Pública gerencial

1.2.3.2. O Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado

No Brasil, o ideário do "terceiro setor" como substituto do Estado na

execução dos serviços sociais surgiu principalmente com o “Plano Diretor da

Reforma do Aparelho do Estado”

203

, elaborado pelo MARE, que a época era

comandado pelo já bastante citado Luiz Carlos BRESSER PEREIRA; e com a

posterior reforma administrativa implementada pela Emenda Constitucional nº 19/98

e por normas infraconstitucionais.

204

Para Sílvio Luís Ferreira da ROCHA, "os argumentos que justificam essa

redefinição das atividades do Estado são financeiros, jurídicos e políticos e partem

da premissa - não comprovada por qualquer experiência histórica recente - de que

haverá, ao final do processo, uma melhoria da capacidade do Estado de atender às

202

Ibid., p. 41, 42.

203

Documento elaborado pelo MARE, quando o Ministro era Luiz Carlos BRESSER

PEREIRA, aprovado pela Câmara da Reforma do Estado em 21.09.95 e aprovado e publicado pela

Presidência da República em novembro/1995.

204

Maria Paula Dallari BUCCI informa que a necessidade de reformas administrativas

levaram tanto setor de centro a gerar o Plano Diretor quanto setores de esquerda a experimentar o

orçamento participativo, inicialmente na Prefeitura de Porto Alegre, a partir de 1989, pelo governo do

Partido dos Trabalhadores. BUCCI, Maria Paula Dallari. Obra citada, p. 32.

demandas sociais".

205

(Grifo nosso.) Diogo de Figueiredo MOREIRA NETO é

totalmente favorável às reformas implementadas, por causa da "ingovernabilidade,

conseqüência dessa defasagem do aparelho estatal superado, do Estado do

Bem-Estar Social, instituído pela Constituição de 1988, em seu texto original".

206

Conforme DI PIETRO, tradicionalmente fala-se em três tipos de atividades

administrativas a cargo do Estado: (a) serviços administrativos (atividades-meio); (b)

serviços comerciais e industriais (serviços públicos e atividades econômicas); e (c)

serviços sociais do Estado (convivem com a iniciativa privada).

207

Para BRESSER

PEREIRA

208

e segundo o "Plano Diretor", os Estados modernos contam com quatro

setores (atividades):

a) Núcleo Estratégico: que é o centro definidor das leis e das políticas e,

em última instância, as faz cumprir. Formado pelo Poder Legislativo, Judiciário,

Ministério Público, pelo Chefe do Executivo, Ministros, Secretários e cúpula dos

servidores civis. Para BRESSER PEREIRA, mesmo com a Reforma Gerencial,

neste setor “ainda há lugar para algumas características burocráticas devidamente

atualizadas” (estabilidade dos servidores, por exemplo), pois para o "Plano Diretor"

“a eficiência é menos importante do que a efetividade”, devendo neste setor existir

um misto de administração pública burocrática e gerencial.

209

Poderá firmar

contratos de gestão com agências executivas e organizações sociais.

(b) Atividades Exclusivas: que envolvem o Poder do Estado, e garantem

diretamente que as leis e as políticas públicas sejam cumpridas e financiadas, com

funções de regulamentação, fiscalização e fomento. Integram o setor as forças

armadas, a polícia, entes arrecadadores de impostos e responsáveis pela

seguridade social básica, emissão de passaportes, agências reguladoras e

executivas. Aqui, segundo BRESSER PEREIRA, deve haver descentralização. O

modelo seria o de agências independentes. A Administração Pública seria gerencial,

com o controle dos resultados e com o discurso de maior participação popular.

Todas as autarquias e fundações autárquicas seriam transformadas em agências.

c) Serviços Não-Exclusivos ou Competitivos (serviços sociais): são os

que o Estado provê, mas que também podem ser oferecidos pelo setor privado e

205

ROCHA, Sílvio Luís Ferreira da. Obra citada, p. 32-33.

206

MOREIRA NETO, Diogo de Figueiredo. Obra citada, p. 548.

207

DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Obra citada, 2002, p. 43.

208

BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos. Gestão..., p. 33-34.

pelo setor público não-estatal. São os serviços de educação, de saúde, culturais e

de pesquisa científica. Aqui a Administração deve ser mais que descentralizada,

deve ser autônoma, segundo BRESSER PEREIRA. A Administração Pública, neste

setor, também seria gerencial. Todas as autarquias e fundações autárquicas seriam

extintas e suas atividades seriam realizadas por entidades públicas não estatais.

d) Produção de bens e serviços para o mercado: atividades econômicas

de empresas voltadas para o lucro, formado pelas empresas estatais.

Para BRESSER PEREIRA praticamente todas as empresas estatais

deveriam ser privatizadas: “Pressupõe-se que as empresas serão mais eficientes se

controladas pelo mercado e administradas privadamente”, citando ainda o princípio

da subsidiariedade (só deve ser estatal a atividade que não puder ser controlada

pelo mercado). O Estado, neste modelo, deve ser apenas regulador, e não

executor.

210

Quando estas atividades fossem executadas pelo Estado a

Administração Pública seria gerencial, com contratos de gestão firmados com o

Núcleo Estratégico. Consoante o autor o princípio da subsidiariedade não é claro no

caso de monopólios e discutível em setores estratégicos, como o de petróleo.

211

BRESSER PEREIRA entende que, para as atividades do Núcleo Estratégico

e das Atividades Exclusivas a propriedade será estatal. Para a produção de bens e

serviços para o mercado, aduz que deve ser cada vez mais exercido por entes

privados. Entretanto, para os Serviços Não-Exclusivos, o autor defende que nesse

âmbito a propriedade seja “pública não-estatal”, ou “pública não-governamental”

212

.

Segundo ele "pública" no sentido de que se deve dedicar ao interesse público, de

210

Destacamos que o Estado regulador não é, necessariamente, neoliberal. José dos Santos

CARVALHO FILHO esclarece que o Estado atua de duas formas na ordem econômica, como Estado

Regulador (através de regime interventivo, se incumbe de estabelecer as regras disciplinadoras da

ordem econômica com o objetivo de ajustá-la aos ditames da justiça social - art. 174 da Constituição)

e como Estado Executor (art. 173 da Constituição). CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de

Direito Administrativo, 9ª ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2002, p. 718-719. Emerson GABARDO

defende que cabe a destruição de um mito disseminado na cultura política atual, a afirmação de uma

ligação necessária entre o neoliberalismo e o Estado Regulador, uma vez que na verdade a regulação

estatal não advém dessa nova ideologia, mas sim é característica do Estado Interventor, que sempre

controlou a atividade econômica, incluindo o serviços públicos. GABARDO, Emerson. Obra citada,

2003, p. 195-196. Em sentido contrário, Carlos Ari SUNDFELD diz que está vencida a era do

Estado-empresário e iniciada a do Estado-regulador. SUNDFELD, Carlos Ari. A Administração Pública na era

do Direito Global. In: SUNDFELD, Carlos Ari e VIEIRA, Oscar Vilhena (coord.) Direito Global. São

Paulo: Max Limonad, 1999, p. 161.

211

BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos. Da administração..., p. 259-261.

212

BRESSER PEREIRA aduz que as organizações públicas não-estatais “são

impropriamente chamadas de ‘organizações não-governamentais’ na medida em que os cientistas

políticos nos Estados Unidos geralmente confundem governo com Estado. É mais correto falar em

organizações não-estatais, ou, mais explicitamente, públicas não-estatais. BRESSER PEREIRA, Luiz

Carlos. Da administração..., p. 262).

que não visa o lucro, e "não-estatal" porque não faz parte do aparelho do Estado.

213

Marçal JUSTEN FILHO entende que é um equívoco confundir interesse

público e interesse estatal, e exemplifica ao dizer que há interesses públicos não

estatais, como o que envolve o "terceiro setor".

214

Ao classificar a execução da

administração dos interesses públicos, Diogo de Figueiredo MOREIRA NETO aduz

que a Administração Pública de interesses públicos os executa de forma direta ou

indireta, e a administração privada de interesses públicos realiza a execução

associada por meio de pessoas extraestatais privadas, através de parcerias e

colaboração.

215

Em sentido contrário, Sérgio de Andréa FERREIRA defende que

público significa estatal, pois, citando Francesco FERRARA, pessoas públicas são

aquelas que detêm uma parcela de ius imperii, tendo os caracteres e prerrogativas

exclusivos e essenciais do Estado.

216

A reforma empreendida na última década, segundo Marco Aurélio

NOGUEIRA, provocou uma espécie de perda do Estado como referência e recurso,

orientada pela lógica mercantil, e esta ausência de Estado reforçou dois tipos de

desajustes: fez com que os atores políticos ficassem com dificuldades ainda maiores

para alcançar uma idéia revigorada de pacto político ou projeto nacional; e fez com

que os movimentos sociais se soltassem ainda mais do político e procurassem forjar

uma legalidade e uma institucionalidade próprias, desinteressando-se da formulação

de projetos de hegemonia; criando-se muitas zonas de contestação e de atrito com

os governos, mas não campos de força hegemônicos.

217

1.2.3.3. Os serviços sociais ou não exclusivos no gerencialismo e a