5 OS RESULTADOS DO PROCESSO DE CODIFICAÇÃO
5.1 As crenças do deep core
Como mostrado anteriormente no Quadro 6, trabalharam-se os seguintes componentes no deep core: visão sobre a relação homem-natureza (DC1); visão sobre a justiça distributiva (DC2); visão essencial sobre os recursos naturais (DC3); visão sobre o conhecimento como valor (DC4); visão sobre a intervenção do Estado no meio socioeconômico (DC5); visão sobre a relação entre governo e democracia (DC6); e visão sobre o valor das políticas públicas (DC7).
117 Cabe destacar que os trechos codificados nem sempre podem ser avaliados de forma isolada de seu contexto.
Nos arquivos do NVIVO 10, há possibilidade de retorno à base documental também, incluindo as notas taquigráficas das audiências públicas e outras reuniões, e outros documentos analisados nesta pesquisa. Acessar: goo.gl/agz2y.
Como consta na Tabela 1, no componente DC1, relativo à relação homem-natureza, são de visão antropocêntrica moderada, que inclui preocupações relacionadas à responsabilidade do homem perante a natureza, 59,9% dos registros fruto do processo de codificação na agenda marrom; na pesquisa anterior sobre a agenda verde, estavam nessa posição 64,8% dos registros; na complementação da agenda verde, colocam-se 45,2%. Inserem-se nesse conjunto manifestações de praticamente todos os tipos de atores estudados, dispensando-se listagem nesse sentido. Note-se, também, que os registros de visão antropocêntrica moderada abrangem sempre 60% ou mais das fontes, ou seja, dos documentos codificados.
A visão antropocêntrica pura, que coloca o homem como centro do universo e a natureza com valor apenas instrumental, ganhou força nas fases 4 e 5 na agenda verde, alcançando 34,1% das manifestações nesse componente do código de análise documental. Grande parte desses registros é referente a parlamentares. No processo legislativo que gerou a nova lei florestal, a bancada ruralista assumiu discurso unificado e vigoroso na linha de que as normas ambientais inviabilizam a produção agropecuária e prejudicam a população brasileira.
Em contraponto, colocam-se posicionamentos ecocentristas, com ênfase na interação homem-natureza e uma inserção intermediária entre antropocentrismo e biocentrismo (SOUZA, 2004, p. 2). Os registros de ecocentrismo abrangem, nas agendas marrom e verde, MMA, organizações não governamentais ambientalistas, acadêmicos, parlamentares ambientalistas e outros atores. Na codificação da agenda marrom e das fases 4 e 5 na agenda verde, essas manifestações foram bem mais fáceis de verificar do que o biocentrismo, no qual deve estar presente a reverência diante do valor intrínseco da natureza (ENEA, 2004, p. 5). Cabe ponderar que, na agenda marrom, os próprios assuntos em debate impõem algum nível de antropocentrismo. Nas fases 4 e 5 na agenda verde, por seu turno, as propostas em pauta estavam tão tendentes à flexibilização das normas de proteção ambiental, que não havia espaço para posições biocêntricas. Na verdade, parece que o biocentrismo, com 3,3% dos registros nas fases 1 a 3 na agenda verde, mas apenas 0,5% nas fases 4 e 5, e 0,6% na agenda marrom, pode ser na prática desconsiderado, integrando-se as posições DC1.3 e DC1.4 do código de análise documental118.
118 Viana, um dos juízes que analisou o código de análise documental, havia sugerido a integração dos itens
DC1.3 e DC1.4, até mesmo pela dificuldade de se diferenciarem as manifestações a serem inclusas em cada um deles. Essa opção, contudo, não foi aceita pelos demais juízes.
Tabela 1 – Resultados no deep core: visão sobre a relação homem-natureza DC1. Visão sobre a relação
homem-natureza Agenda marrom (fases 1 a 5) Agenda verde** (fases 1 a 3) Agenda verde (fases 4 e 5)
FONTES* REGISTROS FONTES* REGISTROS FONTES* REGISTROS
Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % DC1.1 Visão antropocêntrica pura 97 41,9 219 26,9 30 33,3 78 23,5 34 56,6 142 34,1 DC1.2 Visão antropocêntrica moderada 140 60,6 489 59,9 69 76,6 215 64,8 36 60,0 188 45,2 DC1.3 Ecocentrismo 59 25,5 103 12,6 18 20,0 28 8,4 30 50,0 84 20,2 DC1.4 Biocentrismo 4 1,7 5 0,6 9 10,0 11 3,3 2 3,3 2 0,5 TOTAL119 - - 816 100,0 - - 332 100,0 - - 416 100,0 Fonte: dados da pesquisa.
Notas: *Na agenda marrom, foram codificados 231 documentos (fontes); na agenda verde, fases 1 a 3, noventa;
na agenda verde, fases 4 e 5, sessenta.
** Dados relativos à pesquisa anterior (ARAÚJO, 2007).
No componente DC2, relativo à visão sobre a justiça distributiva, optou-se por dividir o item relativo ao foco exclusivo ou priorização da equidade intrageracional, que abrange preocupações com justiça social na presente geração, em dois subitens, expondo nível intermediário e nível elevado de preocupação. Essa opção decorreu, sobretudo, do fato de haver representantes do setor empresarial que assumem na agenda marrom, por vezes, discurso com tom bastante social, como no exemplo anteriormente citado das falas dos industriais em prol dos catadores de lixo. Entende-se que seria equivocado registrar esse tipo de posicionamento juntamente com o relativo, por exemplo, a associações voltadas à defesa dos direitos dos catadores e de outras camadas carentes da população. Não se pode deixar de considerar, contudo, que está presente preocupação com a equidade intrageracional em determinadas manifestações do setor empresarial. No exemplo dado, a posição dos representantes do movimento dos catadores foi registrada como DC2.2.2 e a posição dos representantes dos setor empresarial como DC2.2.1. Outros exemplos poderiam ser citados no mesmo sentido. Na pesquisa anterior sobre a agenda verde, essa diferenciação não fora considerada necessária.
Constam nos registros da agenda marrom, no item relativo ao nível intermediário de preocupação com as iniquidades sociais, manifestações da secretaria de saneamento do MBES, da Sedu/PR, do Ministério das Cidades, do CNS, da CEF, do Ipea, de entidades do setor empresarial como CNI e Cempre, de organizações da área do saneamento, da FNP, de parlamentares e outros atores. Nas fases 4 e 5 na agenda verde, estão falas do MMA, da
119 Nesta e nas demais tabelas com os resultados da codificação, não se somam as fontes porque uma mesma
fonte, ou seja, um mesmo documento público, pode conter registros dos diferentes itens do componente em tela do código de análise documental.
Embrapa, de acadêmicos e de parlamentares. Revelando nível elevado de preocupação, na agenda marrom, colocam-se manifestações principalmente do Ministério das Cidades, do FNRU e outras entidades inclusas na luta pela moradia popular, do movimento dos catadores, de acadêmicos e parlamentares com atuação ligada a essas entidades; nas fases 4 e 5 na agenda verde, expressam-se nessa linha principalmente parlamentares, mas também há falas do Ministério das Cidades, de representante dos seringueiros e outros atores.
Perceba-se na Tabela 2 que o percentual de registros na posição intermediária é praticamente o mesmo nas duas agendas, pouco mais de 34%, e que a preocupação elevada com a justiça social na presente geração é mais frequente na agenda marrom, reunindo 33,9% dos registros, percentual que deve ser comparado a 16,0% nas fases 4 e 5 na agenda verde, sendo que, em ambos os casos, os registros são oriundos de pouco mais de 30% dos documentos codificados.
As manifestações caracterizadas como baixa preocupação com a equidade, em que o individualismo e o imediatismo ganham força comparativamente à atenção seja com a justiça social na presente geração, seja com as futuras gerações, são mais frequentes na agenda verde do que na agenda marrom. Esse posicionamento representa 13,6% dos registros na agenda marrom, 15,1% nas fases 1 a 3 na agenda verde e 20,9% nas fases 4 e 5. Os registros nesse sentido alcançam, na agenda marrom, TFP, Bacen, algumas entidades do setor empresarial como CBIC e Secovi, GDF, parlamentares e outros atores; na agenda verde, constam falas principalmente de parlamentares, mas também há anotações relativas ao Mapa, à CNA e outros. Perceba-se que, nas fases 4 e 5 na agenda verde, com as discussões sobre a nova lei florestal, os registros de baixa preocupação com os aspectos de equidade estão em 35,0% dos documentos codificados.
O foco simultâneo na equidade intrageracional e intergeracional teve força nas fases 1 a 3 na agenda verde, totalizando 43,9% dos registros do componente sobre a justiça distributiva. Esse destaque parece ter explicação nos próprios assuntos objeto de debates legislativos no período, como o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc) e a Mata Atlântica. Estão presentes nas anotações, nas agendas marrom e verde, MMA, organizações não governamentais ambientalistas, Ministério Público, acadêmicos, parlamentares e outros atores. Especificamente na agenda marrom, surgem algumas organizações da área do saneamento.
A atenção direcionada especialmente às futuras gerações é posição que praticamente inexiste nas anotações da agenda marrom e apresentou maior relevância nas fases 1 a 3 na
agenda verde, com 11,4% dos registros nesse componente do código de análise documental. Parece não ter havido espaço político nos debates sobre a nova lei florestal, que marcou as fases 4 e 5, para defesas desse tipo. As manifestações com essa classificação são oriundas principalmente de organizações não governamentais e parlamentares ambientalistas, constando registros referentes ao MMA nas fases 1 a 3 na agenda verde.
Tabela 2 – Resultados no deep core: visão sobre a justiça distributiva DC2. Visão sobre a justiça
distributiva Agenda marrom (fases 1 a 5) Agenda verde** (fases 1 a 3) Agenda verde (fases 4 e 5)
FONTES* REGISTROS FONTES* REGISTROS FONTES* REGISTROS
Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº %
DC2.1 Baixa preocupação com os aspectos de equidade
51 22,0 68 13,6 15 16,6 20 15,1 21 35,0 39 20,9 DC2.2 Foco exclusivo ou priorização da equidade intrageracional - - - - 23 25,5 39 29,6 - - - - DC2.2.1 Com nível intermediário de preocupação quanto às iniquidades sociais 80 34,6 172 34,5 - - - - 24 40,0 65 34,8
DC2.2.2 Com nível elevado de preocupação quanto às iniquidades sociais 78 33,7 169 33,9 - - - - 19 31,6 30 16,0 DC2.3 Foco na equidade intrageracional e intergeracional 55 23,8 85 17,0 31 34,4 58 43,9 24 40,0 41 21,9 DC2.4 Foco exclusivo ou priorização da equidade intergeracional 4 1,7 5 1,0 11 12,2 15 11,4 10 16,6 12 6,4 TOTAL - - 499 100,0 - - 132 100,0 - - 187 100,0
Fonte: dados da pesquisa.
Notas: *Na agenda marrom, foram codificados 231 documentos (fontes); na agenda verde, fases 1 a 3, noventa;
na agenda verde, fases 4 e 5, sessenta.
** Dados relativos à pesquisa anterior (ARAÚJO, 2007).
No componente DC3, que abrange a visão essencial sobre os recursos naturais, com posições gerais, aplicáveis às diferentes políticas públicas e não apenas à política ambiental em senso estrito, a maioria dos registros na agenda marrom está no foco exclusivo ou priorização do uso sustentável, como mostra a Tabela 3. Deve ser lembrado que, no pós-1992, o discurso do desenvolvimento sustentável, que tem o uso sustentável dos recursos naturais em seu centro, ganha divulgação, passando a ter alguns de seus elementos adotados por diferentes atores governamentais e não governamentais (DRYZEK, 1997, p. 123-136). Naturalmente, isso não implica que as ações concretas desses atores acompanhem esse discurso. Cabe perceber que a preponderância desse posicionamento é mais significativa na agenda marrom, com 69,8% dos registros, encontrados em 55,8% dos documentos
codificados, refletindo, também, o pouco espaço para a preocupação com a preservação ambiental, que pressupõe recursos naturais sem utilização. Nas duas agendas, há registros nessa linha de variados tipos de atores.
A postura reativa às normas de proteção ambiental nos debates sobre a nova lei florestal, encontrada nos integrantes da bancada ruralista e em outros parlamentares, e na maior parte dos representantes do setor empresarial que se manifestou nesse processo legislativo, tem repercussão direta nos resultados: 42,3% dos registros nas fases 4 e 5 na agenda verde, referentes a 56,6% dos documentos codificados, refletem utilitarismo puro. Note-se que essa posição representa apenas 21,7% dos registros nas fases 1 a 3 na agenda verde e 18,7% na agenda marrom. Na agenda marrom, estão presentes nesse âmbito principalmente entidades do setor empresarial e parlamentares, mas também há manifestações que evidenciem desconsideração da questão ambiental oriundas do Ministério das Cidades, da Petrobrás, do FNRU e de outros atores.
A conciliação entre preservação e uso sustentável teve maior relevância nos achados da pesquisa anterior. Ela representa 35,3% dos registros nas fases 1 a 3 na agenda verde, relativos a 62,2% dos documentos codificados. Nas fases 4 e 5, o percentual cai para 12,5%. Mais uma vez, mostra-se diferença nos debates legislativos realizados na agenda verde após 2008, com posicionamentos em geral menos rigorosos do ponto de vista da proteção ambiental. Na agenda marrom, tem-se 11,1%. A postura conciliadora nesse sentido surge, nas duas agendas, no MMA, em órgãos ambientais estaduais, no Ministério Público, em organizações não governamentais e parlamentares ambientalistas, e em outros atores.
Além disso, a não prioridade para a preservação ambiental na agenda marrom120 está bem caracterizada, com o percentual de 0,4% no item DC3.4, que parece ser decorrência direta dos assuntos dessa agenda. Esse item do código de análise documental sequer se justificaria, se o foco da pesquisa fosse somente a agenda marrom. Nas fases 4 e 5 na agenda verde, essa posição também não mostrou relevância.
120 Entenda-se preservação ambiental, no código de análise documental, como implicando proteção integral, ou
Tabela 3 – Resultados no deep core: visão essencial sobre os recursos naturais DC3. Visão essencial sobre
os recursos naturais Agenda marrom (fases 1 a 5) Agenda verde** (fases 1 a 3) Agenda verde (fases 4 e 5)
FONTES* REGISTROS FONTES* REGISTROS FONTES* REGISTROS
Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % DC3.1 Utilitarismo puro 63 27,2 94 18,7 29 32,2 73 21,7 34 56,6 135 42,3 DC3.2 Foco exclusivo ou priorização do uso sustentável 129 55,8 352 69,8 47 52,2 118 35,0 36 60,0 140 43,9 DC3.3 Conciliação entre preservação e uso sustentável 38 16,4 56 11,1 56 62,2 119 35,3 19 31,6 40 12,5 DC3.4 Foco exclusivo ou priorização da preservação 2 0,8 2 0,4 15 16,6 27 8,0 3 5,0 4 1,3 TOTAL - - 504 100,0 - - 337 100,0 - - 319 100,0
Fonte: dados da pesquisa.
Notas: *Na agenda marrom, foram codificados 231 documentos (fontes); na agenda verde, fases 1 a 3, noventa;
na agenda verde, fases 4 e 5, sessenta.
** Dados relativos à pesquisa anterior (ARAÚJO, 2007).
No componente DC4, que se refere à visão sobre o conhecimento como valor, como se pode verificar na Tabela 4, obtiveram-se registros com distribuição bem mais concentrada do que na pesquisa anterior, que abrange as fases 1 a 3 na agenda verde.
Esse fato provavelmente decorre de o processo legislativo relativo à construção da Lei do Snuc, que ocorreu entre 1992 e 2000, bem como as discussões sobre as normas de acesso aos recursos genéticos e ao conhecimento tradicional associado, que iniciaram em 1992 e ainda não foram efetivamente retomadas após 2008, terem colocado em destaque os direitos dos indígenas e outras populações tradicionais. Os temas desses processos parecem explicar os percentuais significativos, nas fases 1 a 3 na agenda verde, de registros referentes ao foco no saber das comunidades e nos aspectos culturais, e à consideração tanto do conhecimento técnico-científico quanto do saber das comunidades, 29,1% e 28,2%, respectivamente.
Em todas as fases da agenda marrom e nas fases 4 e 5 na agenda verde, ganham força posicionamentos que procuram destacar o papel do conhecimento técnico-científico. As manifestações nessa linha alcançam 69,7% dos registros na agenda marrom e 61,1% nas fases 4 e 5 na agenda verde, encontrados respectivamente em 37,6% e 61,6% dos documentos codificados.
Há registros no item DC4.4 referentes a quase todos os tipos de atores estudados. O interessante é que, não raramente, o conhecimento técnico-científico surge justificando leituras bem diversas sobre o mesmo ponto de discussão nos processos legislativos. Esse tipo de achado tem respaldo no ACF, que vê os especialistas e representantes da academia também
como integrantes das coalizões com ideias em disputa (SABATIER; JENKINS-SMITH, 1999, p. 128). Esse aspecto será objeto de análise na subseção 6.2.8.
A desconsideração da relevância do conhecimento acumulado foi computada em 4,4% dos registros nesse componente do código de análise documental na agenda marrom, 7,7% dos registros nas fases 1 a 3 na agenda verde e 12,2% nas fases 4 e 5. São poucas manifestações, na maioria vinda de parlamentares. Como exemplos, há falas no sentido de que de que a SBPC é movida por dogmas e interesses internacionais, de que seriam sem fundamento estudos considerando que as queimadas na Amazônica geram efeitos ambientais negativos, de que jamais foi provado que o lixo domiciliar e o lixo hospitalar causam doenças, e outras.
Tabela 4 – Resultados no deep core: visão sobre o conhecimento como valor DC4. Visão sobre o
conhecimento como valor
Agenda marrom (fases 1 a 5) Agenda verde** (fases 1 a 3) Agenda verde (fases 4 e 5)
FONTES* REGISTROS FONTES* REGISTROS FONTES* REGISTROS
Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % DC4.1 Desconsideração da relevância do conhecimento acumulado 8 3,4 11 4,4 6 6,6 9 7,7 14 23,3 22 12,2 DC4.2 Foco exclusivo ou priorização do saber das comunidades e dos aspectos culturais
10 4,3 11 4,4 20 22,2 34 29,1 13 21,6 21 11,7
DC4.3 Valorização tanto do conhecimento técnico- científico quanto do saber das comunidades 42 18,1 54 21,5 23 25,5 33 28,2 22 36,6 27 15,0 DC4.4 Foco exclusivo ou priorização do conhecimento técnico-científico 87 37,6 175 69,7 27 30,0 41 35,0 37 61,6 110 61,1 TOTAL - - 251 100,0 - - 117 100,0 - - 180 100,0
Fonte: dados da pesquisa.
Notas: *Na agenda marrom, foram codificados 231 documentos (fontes); na agenda verde, fases 1 a 3, noventa;
na agenda verde, fases 4 e 5, sessenta.
** Dados relativos à pesquisa anterior (ARAÚJO, 2007).
Os componentes DC5 e DC6, relativos respectivamente à visão sobre a intervenção do Estado no meio socioeconômico à visão sobre a relação entre governo e democracia, vêm de uma subdivisão do elemento “visão essencial sobre o Estado” adotado na pesquisa anterior, que abrangia os seguintes posicionamentos possíveis: “deve ter presença marcante”; “deve ser
mínimo”; e “deve ser democrático e participativo” 121. Considerou-se que essa tripartição não cumpria o requisito de os itens que integram cada elemento do código de análise documental serem, ao máximo possível, mutuamente excludentes e, em seu conjunto, exaustivos, como se impõe em esforços classificatórios (SARTORI, 1970, p. 1038). Na pesquisa anterior, a codificação nesse ponto teve de se voltar para a ênfase de cada ator analisado. Em razão dessa subdivisão, há lacunas nas Tabelas 5 e 6 quanto à fases 1 a 3 na agenda verde. Seria inviável retomar toda a leitura dos documentos da pesquisa anterior apenas para realizar complementações nesse sentido.
Tanto na agenda marrom quanto nas fases 4 e 5 na agenda verde, as posições mais extremas, de que os mecanismos de mercado devem ser sempre priorizados ou de que a intervenção do Estado deve ser priorizada ao máximo possível, têm percentuais baixos de registros, como se pode perceber na Tabela 5. Consta um número um pouco mais elevado apenas nos 16,1% de manifestações computadas na agenda marrom em defesa da intervenção estatal ampla, que parece decorrer da polarização do debate sobre a privatização dos serviços de saneamento, verificada especialmente nas fases 1 e 2 da pesquisa. Tanto é assim que os registros nessa linha vêm, sobretudo, de organizações da área do saneamento e parlamentares com atuação ligada a essas entidades, que se posicionavam contrários à privatização, sendo 74 dos 103 apontamentos referentes a falas anteriores a 2003.
Há uma inversão nas posições intermediárias quando se comparam as duas agendas. Na agenda marrom, o item DC5.2 surge com 35,9% dos registros e o item DC5.3 com 40,2%; nas fases 4 e 5 na agenda verde, tem-se 54,5% no DC5.2 e 29,8% no DC5.3. Esses números podem ter sido influenciados, na agenda marrom, pela polarização do debate sobre a privatização, mas também parecem refletir demandas de uma atuação governamental mais vigorosa em habitação e saneamento, políticas públicas com repercussão social evidente. Nas fases 4 e 5 na agenda verde, pelo contrário, o tom prevalente foi de limitação do controle estatal, com foco na produção agropecuária.
Os registros na posição DC5.2 são referentes a variados tipos de atores: na agenda marrom, Sedu/PR, CEF, entidades do setor empresarial como CNI, Fiesp e Cempre, Ipea, parlamentares e outros atores; nas fases 4 e 5 na agenda verde, MMA, Embrapa, acadêmicos, parlamentares e outros. Há inclusive manifestações nesse sentido de algumas organizações não governamentais ambientalistas, na defesa dos instrumentos de política ambiental que
121 Foram 146 registros nesse componente do código de análise documental na pesquisa anterior: 26,0% na
posição “deve ter presença marcante”; 15,8% na “deve ser mínimo”; e 58,2% na “deve ser democrático e participativo”.
operem mais com a lógica do mercado. Na posição DC5.3, na agenda marrom, constam Ministério das Cidades, MMA, FNRU, organizações da área do saneamento, acadêmicos, parlamentares e outros atores; nas fases 4 e 5 na agenda verde, principalmente organizações não governamentais ambientalistas e parlamentares.
Tabela 5 – Resultados no deep core: visão sobre a intervenção do Estado no meio socioeconômico DC5. Visão sobre a intervenção do estado no meio socioeconômico Agenda marrom
(fases 1 a 5) (fases 1 a 3)** Agenda verde Agenda verde (fases 4 e 5)
FONTES* REGISTROS FONTES* REGISTROS FONTES* REGISTROS
Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº %
DC5.1 Os
mecanismos de mercado devem ser sempre priorizados em relação à intervenção do Estado 36 15,5 50 7,8 - - - - 7 11,6 9 6,7 DC5.2 Os mecanismos de mercado devem ser priorizados,
assegurando-se a intervenção do Estado nas suas falhas
111 48,0 230 35,9 - - - - 31 51,6 73 54,5
DC5.3 A intervenção do Estado deve ser priorizada em relação aos mecanismos de mercado, porque as falhas do mercado são graves 112 48,4 257 40,2 - - - - 24 40,0 40 29,8 DC5.4 A intervenção do Estado deve ser ampla, eliminando-se ao máximo possível os mecanismos de mercado 49 21,2 103 16,1 - - - - 11 18,3 12 9,0 TOTAL - - 640 100,0 - - - 134 100,0
Fonte: dados da pesquisa.
Notas: *Na agenda marrom, foram codificados 231 documentos (fontes); na agenda verde, fases 1 a 3, noventa;
na agenda verde, fases 4 e 5, sessenta.
** Dados relativos à pesquisa anterior (ARAÚJO, 2007).
Na Tabela 6, mostra-se resultado próximo nas duas agendas, com pouco mais de 50% dos registros no componente DC6 apontando a defesa de decisões construídas com ampla participação da sociedade. Na agenda marrom, esse número alcança 41,9% dos documentos codificados, uma representatividade elevada. Considera-se que esse tipo de posicionamento é
esperado em manifestações ocorridas em reuniões públicas no Congresso Nacional. Têm falas nessa linha, na agenda marrom, FNRU e outras entidades inclusas na luta pela moradia popular, FNSA e outras organizações da área do saneamento, parlamentares e outros atores; na agenda verde, especialmente organizações não governamentais ambientalistas e parlamentares.
Perceba-se que esse componente, em seu conjunto, teve poucos registros nas fases 4 e 5 na agenda verde. Esse quadro é distinto da pesquisa anterior relativa às fases 1 a 3. Os debates entre tecnocratas esclarecidos e socioambientalistas, que marcaram o processo de elaboração da Lei do Snuc entre 1992 e 2006, tiveram como ponto forte de divergência o grau de democratização dos processos decisórios de criação de Unidades de Conservação (UCs).