5 OS RESULTADOS DO PROCESSO DE CODIFICAÇÃO
5.4 Os aspectos instrumentais
O código de análise documental incluiu oito componentes no nível dos aspectos instrumentais: locus preferível para decisão governamental em nível nacional sobre política ambiental (CI1); áreas de preservação permanente em perímetros urbanos (CI2); incineração de resíduos sólidos (CI3); importação de resíduos sólidos (CI4); condomínios urbanísticos e loteamentos fechados (CI5); regularização ambiental em áreas rurais (CI6); reserva legal dos
145 Conforme referido anteriormente, a mobilidade urbana tem sido tema trabalhado pelo Congresso Nacional.
Como fruto desse esforço, tem-se a Lei nº 12.587/2012 (Lei da Mobilidade Urbana). O assunto praticamente inexiste, contudo, nos documentos submetidos à codificação.
imóveis rurais (CI7); e pagamento por serviços ambientais (CI8). Excluiu-se o componente relativo ao posicionamento quanto à Lei de Gestão de Florestas Públicas, aplicado na pesquisa anterior, que não se justifica fora das fases 1 a 3 na agenda verde.
No Apêndice 2, consta tabela unificada com os resultados da codificação quanto aos componentes considerados aspectos instrumentais. Segue uma síntese dos principais achados, em cada componente estudado.
No componente CI1, relativo ao locus preferível para decisão governamental em nível nacional sobre política ambiental, tem-se na agenda marrom uma distribuição relativamente equilibrada entre as opções Congresso Nacional, Conama e visão integradora que explicita a distribuição de tarefas nesse âmbito. Na agenda verde, a escolha majoritária é o Congresso Nacional, sendo que, nas fases 4 e 5, esse posicionamento atinge 78,2% dos registros, oriundos de 38,3% dos documentos codificados. Entende-se que esses resultados são esperados, uma vez que a origem dos dados está em reuniões públicas no Legislativo e que, com frequência considerável, resoluções do Conama são alvo de crítica dos parlamentares, notadamente na agenda verde. Na agenda marrom, a oposição a esse órgão colegiado não está tão presente, com resultados que parecem refletir, também, o maior envolvimento do empresariado com os processos decisórios do Conama nessa agenda do que na verde. Nos registros referentes à agenda marrom, há inclusive casos de representantes do setor empresarial priorizando decisões do Conama, comparativamente ao Congresso Nacional.
No componente CI2, estão as posições dos atores sobre as áreas de preservação permanente (APPs) nos perímetros urbanos. As APPs, disciplinadas pela lei florestal146, protegem especialmente margens de cursos d´água e encostas, aplicando-se às áreas rurais e também às cidades. Muitas vezes elas são ocupadas ilegalmente, por assentamentos irregulares da população de baixa renda e outros usos urbanos. Há diversos tipos de conflito na gestão de nossas cidades relacionados às APPs. No policy core, o tema está incluso, em recortes mais abrangentes, nos componentes PC16 e PC17.
Na agenda marrom, o posicionamento mais rígido, de que as municipalidades podem estabelecer apenas regras ambientalmente mais protetivas para as APPs urbanas, é minoritário nos documentos referentes à agenda marrom, com 11,3% dos registros. No restante, há uma distribuição relativamente equilibrada entre as diferentes posições voltadas a flexibilizar as
146 A Lei nº 4.771/1965 estendia a aplicação das regras protetivas das APPs às cidades mediante dispositivo com
redação ambígua (ARAÚJO, 2002). As leituras discrepantes geradas por essas normas parecem ter contribuído para acirrar conflitos entre integrantes dos subsistemas das agendas marrom e verde. A Lei nº 12.651/2012 (nova lei florestal) explicita de forma clara a aplicação das regras também às cidades (ver o art. 4º, caput).
regras aplicadas nas cidades. A delegação plena dessas regras aos governos locais é demanda de 21,1% dos registros, em manifestações de atores diferenciados como Ministério das Cidades, FNRU, representantes do setor empresarial, acadêmicos e outros. Nas poucas anotações complementares referentes às fases 4 e 5 na agenda verde, oriundas dos debates sobre a nova lei florestal, também há falas em posições diversas, ganhando destaque o fato de não haver registros no sentido de que a flexibilização deve ocorrer apenas nos casos de interesse social.
O componente CI3, referente apenas à agenda marrom, traz as manifestações sobre a incineração dos resíduos sólidos. Como a incineração de resíduos sem os cuidados técnicos necessários gera a emissão de dioxinas e furanos147, compostos altamente tóxicos, e outros poluentes (ASSUNÇÃO; PESQUERO, 1999), organizações não governamentais ambientalistas e outros atores apresentam forte objeção aos incineradores. Nas reuniões públicas codificadas, as duas posições mais restritivas ao uso desses equipamentos, demandando sua proibição ou sua admissão apenas em casos excepcionais, com rígido controle da emissão de poluentes, somam 39,1% das anotações. As defesas dos incineradores como solução recomendada para a destinação final de determinados tipos de resíduos ou como a destinação mais recomendada de forma geral, por sua vez, reúnem juntas 60,9% dos registros.
O componente CI4 abrange os posicionamentos quanto à importação de resíduos sólidos. Tem-se aqui outro tópico em relação ao qual ambientalistas têm posição bastante restritiva. A postura mais reativa, no sentido da vedação completa da importação de resíduos, teve destaque e reuniu 46,7% dos registros. A contraposição, com 35,5% das anotações, veio com as manifestações na linha de que a importação pode ser admitida para reutilização ou reciclagem, ou seja, desde que a finalidade não seja apenas a disposição final no país. Nessa linha mais flexível, há falas de entidades que representam interesses dos importadores de pneus usados e de parlamentares148.
147 As dioxinas e os furanos são formados pelo próprio processo de combustão dos resíduos, quando se trabalha
com temperaturas abaixo do recomendado ou sem outros tipos de cuidados técnicos. Além dessas substâncias, a incineração pode responder por outros tipos de emissões tóxicas. A Convenção de Estocolmo sobre os Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs), assinada em 2001, aponta os incineradores como uma das principais causas de emissão de dioxinas e furanos. O texto dessa convenção foi aprovado o país mediante o Decreto Legislativo nº 204/2004 e promulgado pelo Decreto nº 5.472/2005.
148 Os conflitos nesse sentido serão analisados na seção 7.2, relativa ao processo da Lei nº 12.305/2010. É
interessante dizer que eles envolveram também o Judiciário. A vedação da importação de pneus usados no Brasil veio em jun. 2009, com decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) na Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 101-DF, relatada pela ministra Carmem Lúcia.