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2. As decisiones no contexto europeu

2.6 Portugal

2.6.1 As decisiones portuguesas

No capítulo anterior, apresentou-se um panorama geral da produção jurídica portuguesa no Antigo Regime, quando se encontravam como gêneros os tratados, os comentários, a praxe e o chamado casuísmo, ao qual esta tese se refere como literatura de

decisiones. Sobre os três primeiros já se falou, restando agora o momento de se traçar um

panorama sobre a produção lusitana de decisiones no período compreendido entre os séculos XVI e XVIII, a qual desempenhou papel relevante dentro do contexto europeu.

Antes de qualquer coisa, é preciso afirmar que este gênero se desenvolveu relativamente tarde em Portugal. A primeira obra portuguesa a seguir este padrão foram as

Decisiones Supremi Senatus Lusitaniae, publicadas por António da Gama em 1578, data

posterior às principais obras que saíram em várias áreas da Itália, no Sacro Império e, principalmente, na França, de onde vêm as decisiones mais antigas, entre os séculos XIV e XVI, mas posterior à produção relevante nas Províncias Unidas. De toda forma, seu aparecimento foi tardio, o que acabou por fazer com que a influência dos mais diversos autores fosse sentida, como se comprovará a seguir. Como nas outras partes da Europa, em Portugal a produção de novos livros de decisiones durou até meados do século XVIII, mas, em termos de quantidade de títulos, desde a centúria anterior os lançamentos deixaram de ser frequentes. Já no que diz respeito ao processo editorial, os capítulos da segunda parte desta tese trarão informações que atestam uma reprodução dessas obras até a primeira metade do século XVIII, simbolizando, portanto, um interesse nesses títulos, o qual, a bem da verdade, foi mais intenso no século XVII.

A delimitação do que seria a literatura de decisiones entre literatura secundária geralmente se revela problemática. Há nomes lembrados de forma praticamente unânime por quem faz qualquer referência ao gênero, tais como Gama, Valasco, Cabedo e Febo, mas existe um elenco de autores que por vezes aparecem como sendo decisionistas sem que suas obras pudessem ser, de fato, enquadradas entre as decisiones. A confusão com os praxistas é corriqueira, e, para evitá-la, não se pode perder de vista que o esse gênero era marcado pelo retrato das causas mais usuais discutidas no foro. A semelhança é evidente, mas as distinções também são claras: a praxe retratava causas comuns no foro e não se restringia a um determinado tribunal, coletando e mencionando julgados de quaisquer

110 juízos, inclusive de primeira instância; as decisiones, ao contrário, não estavam vinculadas a precedentes, já que o seu texto, que lidava com problemas concretos, nem sempre trazia referências a eles; na praxe, os precedentes eram verdadeiros protagonistas, ao passo que nas decisiones eles eram elementos e instrumentos para a discussão de casos concretos; o objetivo da praxe era basicamente servir aos portugueses que trabalhassem com o direito, razão pela qual o uso do vernáculo já acontecia desde meados do século XVII; as

decisiones, por sua vez, também tinham preocupações práticas, mas o uso do latim, que

ainda era a língua franca da ciência, facilitou a difusão dessas obras pelo continente, a ponto de serem utilizadas em várias partes da Europa, o que não ocorreu com a praxe.

As diferenças apresentadas facilitam a exclusão de algumas obras do grupo das

decisiones. A Practica lusitana, de Manuel Mendes de Castro e publicada em 1619, foi a

mais conhecida das obras de praxe, mas várias outras podem ser mencionadas e enquadradas nesse gênero: Quaestiones forenses, de António da Silva e Sousa (1601);

Arrestos ou decisiones dos senados deste Reyno de Portugal, de Feliciano da Cunha

França (1751); Notas de uso pratico e criticas, de Manuel de Almeida e Sousa de Lobão;

Epilogo Juridico de varios casos civeis, e crimes concernentes ao especulativo, & practico

(1719) e Pratica judicial, muyto útil, e necessária para os que principiaõ os officios de

julgar, e advogar e para todos os que solicitaõ causa nos Auditorios de hum, e outro foro

(1730), ambos de autoria de António Vanguerve Cabral. De certa forma, o Liber

utilissimus iudicibus et advocatis, de António Cardoso do Amaral, também pode ser

enquadrado entre as obras de praxe.

Para outras obras, o enquadramento foi mais difícil. Um dos livros mais importantes sobre a Casa da Suplicação, o Domus Suplicationis Curiae Lusitaniae

Ulisiponensis, publicado por João Martins da Costa em 1608, é um exemplo; o fato de

mencionar arrestos do tribunal pode fazer um leitor desavisado tentar enquadrá-lo entre os praxistas ou até mesmo entre os autores de literatura de decisiones, o que é bem rapidamente afastado logo com a primeira leitura do livro. Em verdade, a obra se situa entre o comentário e o tratado, uma vez que se escolheu um tema específico para se cuidar – o funcionamento da Casa da Suplicação – e se apresentou a discussão seguindo o que dispunham as Ordenações sobre o tema. Os precedentes tiveram papel meramente acessório, compondo a argumentação, mas o livro não foi elaborado a partir de casos práticos, tornando impossível classificá-lo entre as obras de decisiones.

111 Outra obra interessante, porém difícil de classificar, foi De iure lusitano, de Matheus Homem Leitão. O autor a dividiu o primeiro tomo em três tratatos e dedicou cada um deles a um tema processual específico (agravos, cartas de seguro e devassas), expondo o texto na forma de quaestiones, as quais, diferentemente das obras de decisiones, eram sempre genéricas, possibilitando ao autor discorrer sobre o instituto e os seus detalhes401. Porém, Leitão transcreveu trechos de peças processuais para auxiliar aos seus leitores402, até porque a sua intenção foi claramente elaborar obra que servisse a quem fosse lidar com o direito na prática. Não se pode perder de vista que os estudantes de Direito de Portugal – e, de um modo geral, de praticamente todas as partes da Europa do ius commune – tinham uma formação em Direito totalmente ligada ao direito comum, o qual, não custa lembrar, era fonte subsidiária do direito e não poderia ser aplicado se não houvesse lacuna nas fontes principais; no entanto, como não houve estudos formais em direito pátrio em Portugal até a reforma dos Estatutos da Universidade de Coimbra, em 1772, a única forma de se aprenderem as leis nacionais era na prática, razão pela qual todas as obras que servissem a esse fundamento eram úteis, especialmente se tivesse um cunho didático, como o tratado de Leitão403.

Superadas as diferenças entre esses dois gêneros tão próximos, as decisiones e a praxe, é hora de voltar à produção do gênero de que se ocupa esta tese. As obras encontradas em Portugal que seguiram essa forma foram as seguintes: Decisiones Supremi

Senatus Lusitaniae (1578), de António da Gama; Decisionum, consultationum ac rerum judicatarum in Regno Lusitaniae (1588-1601), de Álvaro Valasco; Practicarum observationum sive decisionum Supremi Senatus Regni Lusitaniae (1602-1604), de Jorge

de Cabedo; Decisiones Senatus Regni Lusitaniae (1619-1623), de Belchior Febo;

Decisiones Supremi Senatus Portugaliae (1621), de Gabriel Pereira de Castro; Decisiones

401 Para o Livro I, o qual versou sobre os agravos, as quaestiones foram as seguintes: “Quaest. 1 Quaenam

sententia interlocutoria dicatur? Quaest. 2 An, & quando ab interlocutoria appellare liceat? Quaest. 3 Quaenam interlocutoria gravamen irreparabile, quaenam vero reparabile producere dicatur? Quaest. 4 Quaenam interlocutoria vim definitivae habere dicatur? Quaest. 5 In quibus casibus, de Jure Regio, sit gravamen in processu, non aliter interponendum, & quando, qualiter, & per quem debeat tale gravamen emendari, & repari? Quaest. 6 Quando, & qualiter, de Jure nostro gravamen extra processum per pertitionem scilicet, vel instrumentum sit interponendum?”. LEITÃO, Matheus Alves. De iure lusitano. Tomos primus. Coimbra: Francisco de Oliveira, 1736 (index).

402 Entre muitos casos em que isso aconteceu, pode ser mencionada a transcrição de instrumento de agravo

retirado de caso oriundo da Comarca de Guimarães; Leitão, contudo, não indicou nome das partes, data ou outro detalhe, afora a localidade (freguesia de São Tomé de Esturãos), o que fulmina qualquer dúvida sobre a sua intenção ao utilizar o trecho da petição: toma-la como modelo, e não relatar um precedente. LEITÃO, Matheus Alves, op. Cit., p. 108.

403 Sobre a formação dos juristas portugueses antes da Reforma de 1772 e especificamente sobre ela, cf.,

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et quaestiones Senatus Archiepiscopalis Metropol. Ulyssiponensis Regni Portugalliae

(1643) de Manuel Themudo da Fonseca; Decisiones Supremi Senatus Justitiae Lusitaniae

et Supremi Consilii Fisci (1660), de António de Sousa de Macedo; e Decisiones seu questiones forenses ad amplissimo integerrimoque Portuensi Senatu decisae (1738), de

Diogo Guerreiro Camacho de Aboim. O acesso a essa lista se deu tanto através da consulta à lista elaborada por Johannes-Michael Scholz404 e à literatura do século XVIII sobre o tema, bem como através da pesquisa no catálogo eletrônico da Biblioteca Nacional de Portugal.

Das oito obras encontradas, seis foram escolhidas para serem estudadas com profundidade na segunda parte da tese, a fim de que seja possível compreender, de fato, o que foi o fenômeno das decisiones em Portugal. Não se tratou de escolha aleatória. A exclusão da obra de Fonseca se deu em virtude de ela ter sido inspirada em casos julgados pelo tribunal episcopal lisboeta, o que fugiria do objeto deste trabalho. A obra de Aboim, por sua vez, representou uma manifestação tardia do gênero, tendo sido, inclusive, a única a ser originalmente publicada no século XVIII dentre as encontradas; entretanto, uma vez retirados da Relação do Porto os casos problemáticos que serviram de ponto de partida para a discussão, analisar esta obra significaria quebrar a lógica que se tentou impor de estudar livros relacionados à suprema jurisdição, representada em última instância ordinária, em Portugal, pela Casa da Suplicação.

Um último caso deve ser mencionado, o da obra Observationes practicae in

quibus multa, quae per controversiam in forensibus judicijs adducuntur (1625), de Miguel

de Reinoso (1563-1623), que tem algumas características mais próximas à literatura de

decisiones, mas, não obstante, deixa de aparecer em algumas listas importantes como

sendo parte desse gênero; Hespanha, por exemplo, inclui este livro como parte da literatura de praxe e não como decisiones405.

404

SCHOLZ, Johannes-Michael. Portugal. In: COING, Helmut. Handbuch der Quellen und Literatur der

neueren europäischen Privatrechtsgeschichte. Zweiter Band: Neuere Zeit (1500-1800), das Zeitalter des

Gemeinen Rechts. Zweiter Teilband: Gesetzgebung und Rechtsprechung. München: C. H. Beck, 1977, p. 1335-1338.

405 Nesse sentido, cf. HESPANHA, António Manuel. História das Instituições: épocas medieval e moderna.

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