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As diferentes arenas de embate e o confronto dos discursos

Os discursos dos moradores de Fradinhos e da Poligonal 2 e as arenas de embate

6.4. As diferentes arenas de embate e o confronto dos discursos

A análise dos discursos das lideranças que representam os três bairros da P2 do PTMI mostrou a forma como foi interpretada a questão da preferência de interesses do MPES pró Fradinhos e a forma como o preconceito social de Fradinhos em

198 relação a P2 foi colocado como impedimento para o reassentamento das famílias beneficiárias. No capítulo 5, detalhamos o teor do debate jurídico, mas ainda é preciso complementar algumas informações visando demonstrar o caráter desses argumentos Sobretudo, é preciso verificar melhor o argumento da cooptação dos moradores da P2, pela PMV, a fim de colocá-los contra o MPES, questionando sua idoneidade, e causando um conflito entre bairros vizinhos, como Fradinhos, Romão e Cruzamento.

Com base no argumento mencionado, o 12º procurador de justiça cível de Vitória, Dr. Gustavo Senna Miranda, refuta com vigor essa postura e condena a atitude da prefeitura dentro da discussão do reassentamento, a qual estaria fomentando tal conflito entre bairros. Para ele, representante do MPES, a PMV se valeu de subterfúgios para fazer com que o projeto fosse aprovado e implementado na área em litígio, considerada como topo de morro e, portanto, APP, conforme foi tratado no capítulo anterior. Sugere que uma das formas de mobilizar, utilizada pela PMV, foi fazer com que a população visse o MPES como o vilão da situação, que ele estaria favorecendo os moradores ricos de Fradinhos em detrimento do interesse social. Em manifestação53 enviada ao Juiz d

e Direito da Vara da Fazenda Pública Municipal

de Vitória

, pelo referido procurador, em 16 de agosto de 2010, ele se expressa nos

seguintes termos:

Sugere a procuradoria do Município que os moradores – “tão poderosos” – pressionaram esse “pobre” representante do Ministério Público, que não resistiu às pressões desses “inescrupulosos” moradores de Fradinhos, que visam apenas a “segregação sócio-espacial e especulação imobiliária” (fl. 1389). Risível, para não dizer ridículo e triste esse tipo de linha argumentativa. (MPES, Manifestação Promotoria, 16/08/2010)

Além disso, o procurador classifica a forma como a PMV vem conduzindo a política de reassentamento de inflexível em relação a denuncia feita pelos moradores de Fradinhos, como uma forma de forçar uma situação, qual seja a implementação de uma política pública de forma populista e unilateral. Mais do que isso, a PMV estaria fomentando o embate entre a população de bairros distintos com o argumento de preconceito, discriminação, e segregação sócio-espacial. Neste sentido, o discurso do representante do MPES, enfatiza que:

53

Disponível em <http://fontegrande.blogspot.com.br/2010/08/carta-aos-moradores-de-fradinhos-e- aos.html> Acesso em 29/11/2011.

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[...] ao que parece, pressão quem sofre é a procuradoria, que tem que fazer, mesmo contra a sua consciência, uma defesa absurda para atender a possíveis interesses populistas do chefe do executivo municipal; que tenta encobrir um discurso demagógico, com argumentos de políticas sociais, visando fazer desse processo uma disputa de classes inexistente, mas que a PMV insiste em promover, para assim, quem sabe, desviar do problema central que envolve toda a questão: as inúmeras ilegalidades envolvendo o projeto de assentamento (MPES, Manifestação Promotoria, 16/08/2010)

A tentativa de reverter a situação do embargo pela PMV, e realizar a adequação do projeto às demandas ambientais levantadas foram interpretadas, pelo referido procurador como forma de ganhar tempo a fim de mobilizar ferramentas que pudessem viabilizar a construção das casas no local pretendido. O trecho abaixo mostra o teor do argumento:

Inclusive, há fortes indícios de que a iniciativa da PMV de se buscar com o Ministério Público uma solução consensual não passou de uma estratégia para se ganhar tempo, com o objetivo de tentar corrigir ilegalidades manifestas envolvendo o projeto de assentamento de casas populares no bairro Fradinhos, já que nada de novo foi apresentado em termos de proposta de acordo, ao contrário (MPES, Manifestação Promotoria, 16/08/2010)

Por outro lado, nesse ínterim, a repercussão da postura do MPES a favor do “interesse ambiental” vista pela população beneficiária da P2, é tida como injusta, ambígua e antidemocrática como vimos na sessão anterior. Isto é, os moradores de Fradinhos ora militam pelo meio ambiente, ora ocupam áreas de matas e riachos (APP), e o MPES que, por sua vez, acolheu a demanda de Fradinhos e não deu atenção à população beneficiária, é tão injusto e antidemocrático quanto os moradores de Fradinhos.

Ademais, na carta de manifestação do procurador fica explícito que a PMV, é tratada como indutora do conflito, que desconsidera o valor da iniciativa de Fradinhos e quer a todo custo implementar uma obra em local inapropriado e já embargado pela justiça. Segundo ele, a PMV:

Olvida que os moradores de Fradinhos estão exercendo uma coisa que parece ter sido esquecida pela procuradoria: o exercício da cidadania; olvida que os moradores de Fradinhos estão exercendo uma defesa que parece ter sido esquecida pelos representantes do município: DE AMOR À CIDADE DE VITÓRIA E AO MEIO AMBIENTE, fatores que refletem diretamente na qualidade de vida da pessoa humana.

Assim, a PMV, lamentavelmente não apresenta nenhuma alternativa menos lesiva ao meio ambiente, que sofrerá sim danos irreversíveis, por mais que seus representantes tentem negar, assumindo uma postura de donos absolutos

200

da verdade, incompatível para quem busca realmente uma solução consensual (MPES, Manifestação Promotoria, 16/08/2010).

A tentativa de formar junto à opinião pública uma visão de que é a PMV que estaria fomentando a idéia de conflito e de inimizade entre os bairros para, de forma populista e inflexível, conseguir realizar a política de reassentamento, comparece de forma semelhante no discurso dos moradores de Fradinhos. Desse modo, o argumento de que já existem muitos anos de convívio com a população dos morros que circundam Fradinhos, sem que houvesse nenhum problema entre as populações, revela a sintonia entre os discursos, bem como a falácia da fala no sentido fazer crer que há harmonia e não conflitos e ameaças da perspectiva dos moradores de Fradinhos. Os depoimentos, a seguir, evidenciam este aspecto, bem como as contradições que a eles subjazem.

Nós nunca tivemos problema nenhum com morador do nosso entorno e nem moradores de outros bairros tiveram problemas com Fradinhos, nunca, nunca aconteceu. Imagina o seguinte, se Fradinhos tivesse problemas com os moradores de morro? Se Fradinhos tivesse problemas com os moradores do morro, isso aqui seria um inferno, concorda? [...] Se você pega os jornais você vai ver...tem assalto em Fradinhos? tem roubo? Não. Quando tem, a mídia faz um escândalo, parece que tem vinte por dia. É um por ano, um por ano. As pessoas quando andam por aqui, andam tranquilas, não tem problema. A maioria dos moradores aqui tem décadas que estão aqui. Então, não existe problema com a imensa maioria dos moradores de Fradinhos e a imensa maioria dos moradores dos outros bairros. Existe uma relação de amizade. Jogar bola junto, tomar birita no supermercado Zanete, no Clube Anchieta onde mistura todo mundo. (Entrevista 2, morador de Fradinhos, foi membro da Comissão de Moradores de Fradinhos, à autora, em Novembro/2011).

O morador faz referência ao bom convívio das pessoas que freqüentam o bairro, inclusive aquelas dos bairros vizinhos, além de ressaltar que Fradinhos não é um bairro exclusivamente rico, pelo contrário, começou com casas populares e por isso conserva ainda muito da simplicidade de anos atrás. Evidentemente, a presença de mansões e casas de alto padrão no bairro demonstra também a valorização imobiliária que o bairro sofreu ao longo dos anos, o quem faz com que o bairro apresente uma heterogeneidade de classes sociais e padrões constitutivos, mas que não representa, na prática, que tal característica interfere nas relações de vizinhança com os bairros vizinhos. Como afirmou o entrevistado, apontando da sua casa em direção ao outro lado da rua:

Atrás daquela casa amarela tem uma casa de madeira dos descendentes dos servos da fazenda que tinha aqui 50 anos atrás, meus colegas de infância. Se você subir aqui, você vai ver palácios e casas da antiga COHAB, construídas