Do Projeto PTMI à Ação: Impasses e conflitos na implementação do reassentamento
5.4. Repercussão e debates sobre a proposta do PTM
Levando e consideração as condicionantes do projeto de reassentamento, as propostas elaboradas para construção de um conjunto de casas na área localizada entre Romão e Fradinhos, mostrada no item anterior, emergiu no decorrer do processo uma série de mobilizações contrárias a implementação da proposta do PTMI no local predefinido.
O acompanhamento mais de perto do embate possibilita identificar a natureza das forças em tensão em vários níveis, assim como a multiplicidade de argumentos que foram levantados contra o PTMI e a PMV, desde que a proposta foi apresentada aos moradores do bairro vizinho à Poligonal 2. A notícia de que um conjunto de casas populares seria construído ao lado do Bairro Fradinhos, repercutiu na mídia local manifestando a contrariedade dos moradores do bairro em relação ao reassentamento. Como já dissemos, Fradinhos é uma área valorizada da capital e é um reduto natural da cidade onde se encontram várias mansões e casas de pessoas influentes no estado.
Além disso, a proximidade do local com remanescentes de Mata Atlântica em Vitória e o clima quase bucólico que caracteriza o bairro, favoreceu sua ocupação por pessoas de maior poder aquisitivo e conseqüente valorização imobiliária, por causa da construção de imóveis de luxo no local. Em contrapartida, os bairros vizinhos a Fradinhos, especialmente os bairros componentes da Poligonal 02 (Romão, Cruzamento e Forte São João) são marcados pela ocupação desordenada de encostas e morros, em uma época em que o processo de favelização se acentuou por causa dos grandes projetos industriais que atraíram significativo contingente populacional para a capital. Sem condições de habitar em áreas de ocupação regularizadas pelo poder público, esses migrantes instalaram-se em áreas junto à natureza, sob riscos diversos, o que elevou a formação de assentamentos precários nessa região.
156 No caso em questão, enquanto um morro separava as duas realidades (de Fradinhos e do Romão) o convívio entre as partes era tolerado dentro dos níveis de convivência que se estabeleceram historicamente na região. Mas ao que tudo indica os rumores acerca da instalação de uma nova vizinhança em Fradinhos, parece não ter agradado aqueles que moram na região a ser impactada de imediato, tal como vemos na reportagem abaixo, extraída do jornal local “A Tribuna, de 07/01/2008:
O desenrolar da discussão acerca das ações da PMV, através do PTMI, e população de Fradinhos, chegou ao nível jurídico, sendo que o mote da mobilização dos moradores do referido bairro foi a questão ambiental. No entanto, os diferentes argumentos endossados mostram preliminarmente que o conflito criado não passa de uma questão de preconceito social e de reafirmação de uma situação de segregação sócio-espacial no espaço urbano de Vitória.
A questão imobiliária também comparece nas discussões como um fator determinante, tendo em vista, por um lado, a desvalorização das casas de Fradinhos próximas ao reassentamento, e, por outro, a valorização do terreno do conjunto habitacional, haja vista o processo de alteração no zoneamento urbanístico que foi feito durante a elaboração do projeto do reassentamento populacional. Adiante, trataremos melhor de cada uma dessas questões a partir dos dados levantados na pesquisa.
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5.4.1. Fradinhos, PMV e a questão ambiental: a polêmica do zoneamento
Se existe um lugar comum entre os moradores de Fradinhos, para além do espaço em que vivem, podemos dizer que esse lugar é na oposição quanto ao projeto da PMV, a ser implementado através do PTMI. Oposição que, diga-se de passagem, foi amplamente divulgada na mídia local. O trecho abaixo de mais uma reportagem, desta vez veiculada no site da Rede Gazeta, em 18/12/2008, noticiando a repercussão da proposta do PTMI dentro do bairro de Fradinhos, mostra o espaço conquistado na mídia local. Também evidencia o caráter do argumento utilizado pelos opositores contra a prefeitura ao buscar vincular o projeto de reassentamento a uma infração da legislação ambiental, na medida em que o governo municipal estaria pretendendo utilizar uma área que, pelo zoneamento do município, caracteriza-se como Zona de Proteção Ambiental (ZPA), o que inviabilizava qualquer tipo de intervenção urbanística no local pretendido.
Para um melhor entendimento do problema, é necessário identificarmos a classificação da área escolhida dentro do zoneamento urbanístico municipal. Como dissemos no capítulo 04, projetos de urbanização de favela e construção de habitação de interesse social geralmente se enquadram em regiões da cidade delimitadas como Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS). É o caso das Poligonais do PMTI, por exemplo. De acordo com o Plano Diretor Urbano de Vitória,
158 em sua última revisão em 2006, existem 03 tipos diferentes de ZEIS, conforme descrito abaixo:
Art. 94. As Zonas Especiais de Interesse Social classificam-se em três
categorias: I - ZEIS 1 – áreas públicas ou particulares com assentamentos irregulares e/ou clandestinos ocupados pela população de baixa renda, significativamente precários do ponto de vista urbanístico e habitacional, predominantemente localizados em encostas com altas declividades e topos de morros, com acessibilidade inadequada, riscos e demandas por serviços urbanos e equipamentos comunitários; II - ZEIS 2 – áreas públicas ou particulares com assentamentos irregulares ou clandestinos ocupados por população de baixa renda, com atendimento parcial das demandas por infra- estrutura, serviços urbanos e equipamentos comunitários; III - ZEIS 3 – imóveis públicos ou particulares edificados ou não, não utilizados, dotados parcialmente de infra-estrutura e serviços urbanos, necessários à implantação de EHIS, com respectivos equipamentos comunitários e urbanização complementar adequados, que serão objeto de parcelamento, edificação ou utilização compulsórios. (PMV, PDU, 2006, fl. 47)
No caso da Poligonal 2, no zoneamento ela se enquadra na ZEIS 1, cuja descrição elaborada pela empresa que realizou os estudos preliminares confere com o definido no PDU, ou seja, trata-se de região com:
[...] assentamentos irregulares ou clandestinos ocupados por população de baixa renda significativamente precários e localizados em áreas de encostas com grande declividade e em topos de morro, com acessibilidade inadequada, com áreas de risco e demandas por serviços urbanos e comunitários. (LATTIN CONSULT/ITS, 2006, p. 17)
Essa ZEIS, portanto, é alvo de políticas públicas urbanas incluindo mecanismos de regularização fundiária e urbanística, além do desenvolvimento de projetos de habitação de interesse social para sanar o problema das habitações situadas em locais impróprios. (LATTIN CONSULT/ITS, 2006). A ZEIS onde está situada a Poligonal 2 , no entanto, está ladeada por Zonas de Proteção ambiental (ZPA’s) que de acordo com artigo 74 do PDU de Vitória, constituem-se áreas de preservação integral, composta por ecossistemas que devem ser preservados, conservados e desenvolvidos mediante atividades sustentáveis sob diferentes níveis de permissão (PMV, PDU, 2006). As ZPA’s, por sua vez, são divididas em três categorias, conforme consta no artigo 76 do PDU:
Art. 76. As Zonas de Proteção Ambiental classificam-se em três categorias: I - ZPA 1 - áreas destinadas à proteção integral dos ecossistemas e dos recursos naturais, garantindo a reserva genética da fauna e flora e seus habitats, podendo ser utilizadas para fins de pesquisa científica, monitoramento, educação ambiental e o uso indireto dos recursos naturais, não envolvendo o consumo, coleta, dano ou destruição dos mesmos; II - ZPA 2 - áreas destinadas à conservação dos ecossistemas naturais e dos
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ambientes criados, com uso sustentável dos recursos naturais, podendo ser utilizadas para fins de pesquisa científica, monitoramento e educação ambiental, turismo, recreação e esportes, desde que estas atividades não causem danos aos ambientes naturais ou em recuperação; III - ZPA 3 - áreas com atributos ambientais relevantes, destinadas à recuperação e conservação dos recursos naturais e paisagísticos, cujo uso e ocupação do solo devem ser controlados de forma a assegurar a qualidade ambiental, podendo ser utilizadas para fins de pesquisa científica, monitoramento e educação ambiental, recreação, realização de eventos culturais e esportivos e atividades de apoio ao turismo. (PMV, PDU, 2006, Fls. 40-41)
Mapa 08 - Zoneamento econômico Ecológico da região da P2, Fradinhos e entorno, de acordo com o PDU de Vitória (2006).
Há que se destacar que praticamente toda a região do Maciço Central de Vitória, onde se encontram os bairros da Poligonal 2, é composta por vegetação remanescente da Mata Atlântica, sendo que muitas dessas áreas são delimitadas como áreas de interesse ambiental (AIA’s) e enquadradas como ZPA’s no zoneamento urbanístico municipal. De acordo com o Relatório do Consórcio Hydros/Tecnosolo, que fez os primeiros diagnósticos na Poligonal 2, são identificadas diferentes tipo de AIA’s, como é possível ver a seguir:
160 Quadro 03 – Áreas de Interesse Ambiental da Poligonal 2 do PTMI
AIA 1 A partir das cotas de 30 - 40 metros, em parte do Morro do Romão, a