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3.1 - A VIOLÊNCIA E OS DIREITOS HUMANOS

A violência é um fato presente nos vários períodos da história do Brasil, desde os seus primórdios, o massacre indígena, seguido pelo escravismo, são marcas indeléveis de uma sociedade excludente e violenta, Como pudemos ver no relato do presidiário, nos Anais da Semana de estudos, as varadas, as joelhadas eram práticas violentas contra um corpo dominado. Essas práticas feriam os direitos, as recomendações e conceitos explicitados pela ONU – Organização das Nações Unidas, na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 10/12/1948:

"A Assembleia Geral proclama a presente Declaração Universal dos Direitos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universal e efetiva, tanto entre os povos dos próprios estados-membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição".

O Estado brasileiro, republicano, com nuances nacionalistas, responsável pela criação e manutenção de instituições de controle social como os institutos disciplinares, apesar das mudanças constitucionais ao longo do tempo, e das ações visando a garantia de direitos e respeito à natureza humana, não conseguia garantir no interior de seus institutos a preservação dos direitos humanos elementares aos internos, tendo a ordem e o progresso como fatores de controle e a violência como suas bases.

A questão da cidadania e dos direitos fundamentais foram temas do pós-guerra abordados na Declaração Universal dos Direitos Humanos, após as barbáries ocorridas ao longo da II Guerra Mundial com o nazi-fascismo. No Brasil, a apropriação dos direitos encontrou e ainda encontra dificuldades e resistências. A especificidade da formação social brasileira, no transcorrer da primeira metade do século XX, leva a sucessivas interrupções do jogo democrático pela eclosão de golpes militares e conciliação de interesses pelo alto, observando- se a repressão política aos movimentos sociais e a manutenção da desigualdade com modernização.

CRIANÇAS DURANTE A REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932

Fonte: CEPDOC – FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS

A chamada "Era Vargas" começa com a Revolução de 30 e termina com a deposição de Getúlio Vargas, em 1945. E é emblemática com a interrupção do Estado democrático de direito, é uma época marcada pelo aumento gradual da intervenção do Estado na economia e na organização da sociedade, no espaço público e privado, bem como, pelo crescente autoritarismo e centralização do poder.

O governo provisório constituído por grupos oligárquicos foi marcado por conflitos entre esses grupos oligárquicos e os chamados tenentes que apoiaram a Revolução de 1930. Em São Paulo, por exemplo, no dia 25 de janeiro de 1932, aniversário da cidade de São Paulo, houve um imenso comício na Praça da Sé, colorido com bandeiras do município e os partidos políticos que eram rivais estavam unidos, onde os paulistas uniram-se em torno da constitucionalização.

Em fevereiro de 1932, a situação se agravou. O Partido Democrático (PD) rompeu com Vargas e seu governo, ao mesmo tempo em que se aproximou dos antigos adversários do Partido Republicano Paulista (PRP), formando a Frente Única Paulista (FUP), que se tornou a porta-voz das reivindicações de reconstitucionalização e de autonomia administrativa para o estado de São Paulo. Mais do que isso, a FUP passou a articular, junto aos meios militares e a algumas das principais entidades de classe do patronato paulista, a preparação de um movimento armado contra o Governo Provisório.

É nesse cenário de centralização do poder, iniciado pela revolução de 1930, que durante o Estado Novo (1937-1945) acentuou-se a violência e o autoritarismo, em nome do estado nacional. É possível identificar essas práticas repressivas, através dos prontuários, apresentados como produto dessa história, colocando-se um desafio à democracia e aos direitos. Vítimas e agressores imiscuem-se numa trama sócio jurídica, perpassando os momentos históricos e se mantendo até o presente. Podemos observar na obra Capitães da Areia, de Jorge Amado, a forma como a personagem Dora reage ao internamento em um orfanato:

“Um mês de orfanato bastou para matar a alegria e a saúde de Dora, nascera no morro, infância em correrias no morro. Depois a liberdade das ruas da cidade, a vida aventurosa, dos capitães da areia. Não era uma flor de estufa. Amava o sol, a rua, a liberdade” (AMADO, 2009, p. 186).

Tais como a violência acima identificada, os castigos relatados nos anais das semanas de estudos: as varadas, ajoelhamento no assoalho do dormitório por exemplo. Confirmam como as crianças e adolescentes infratores, órfãos e abandonados, recolhidos e internados nas instituições encarregadas da reinserção social dos mesmos,são submetidos a práticas cotidianas cristalizadas que levam à sua exclusão social, reforçando seus dramas e problemas sociais, devido ao tratamento institucional desumano dispensado: geralmente práticas repressivas, agressivas, punitivas e violentas, geram conflitos, submetendo-as às normas pelo assistencialismo e por discursos supostamente científicos, conforme mostra a bibliografia e fontes selecionadas para esta pesquisa.

Essas práticas repressivas, que tinham na violência física e na disciplina e controle do corpo um dos seus pilares eram reproduzidas também em outros grupos sociais que não se submetiam ao controle social pelo Estado. No final do século XIX e início do XX, as teorias explicativas, higiênicas e eugênicas tendem a se associarem, visando construir explicações simplificadas para as questões complexas. Em nome de uma inferioridade, dos pobres e miseráveis, vistos como “classes perigosas42”. Estas teorias se estendem também ao conjunto

da população pobre das cidades e periferias urbanas de onde, supostamente, se projetam as crianças e adolescentes “infratores” e “viciosos”. Constata-se a criminalização da pobreza. Em relação às “classes perigosas”, GUIMARÃES (1992) apresenta uma análise irretocável, da qual permito-me uma longa citação:

42 O conceito de “classes perigosas”, difundido no Brasil pelo intelectual alagoano Alberto Passos Guimarães,

autor de elaboradas reflexões sobre a violência do Estado, tem como referência o autor francês Louis Chevalier, que retrata a preocupação das elites dominantes com a multidão de gente nas cidades, sem vínculos diretos com os ideais das elites, e que levavam ao desenvolvimento da repressão pelas forças policiais.

“É óbvia (...) a impossibilidade de eliminar-se a pobreza dentro das sociedades marcadas pelas fortes desigualdades, entre extremos de riqueza e extremos de pobreza; e, consequentemente, é de toda a evidência a impossibilidade de eliminar-se certo nível relativamente mais elevado de criminalidade dentro de tais sociedades. Mas a situação atual nas áreas metropolitanas – e já nas áreas urbanas menores – de nosso País está sendo estigmatizada por acontecimentos de tal frequência que excedem os limites comuns a todas as capitais dos países capitalistas, desenvolvidos ou não desenvolvidos, e cujo surpreendente e crescente grau de violência envolve uma cada vez mais numerosa parcela da população, vítima das mais diversas formas de atentados aos seus bens e à sua vida. Pouco a pouco, a violência das classes criminosas se estende ao conjunto da população; parte desta procura reagir, também por meio da violência, aos atentados de que é vítima, tentando fazer justiça, por suas próprias mãos, recorrendo a práticas igualmente condenáveis e igualmente criminosas, como a dos linchamentos. À violência dos criminosos se junta a violência das próprias vítimas e, a essas duas, uma terceira se vem juntar: a violência dos órgãos policiais, que pouco fazendo para prevenir o crime, querem compensar sua ineficácia tentando inútil e injustificadamente eliminar o crime aumentando o grau de ferocidade da repressão”(GUIMARÃES, 1992, p. 248-249).

Para GUIMARÃES (op. cit.) não pairam questionamentos em relação ao quadro acima retratado, em que os fatores econômicos estão na raiz das duras condições sociais e econômicas em que vive a população pobre. A exclusão das chamadas “classes perigosas”, resultado de uma concentração de renda e de bens nas mãos de uma minoria, levando ao seu pauperismo. O autor recorre a uma análise histórica da formação político-econômico-social brasileira para demonstrar esse entrecruzamento que envolve, naturalmente, a concentração de poder político e de decisão nas mãos de uma elite. MARTINS (1995) se refere à questão dos linchamentos, afirma que os linchamentos não são um fenômeno recente em nosso país e há registros documentais de formas de justiçamento desse tipo no país já na primeira metade do século XVIII, antes mesmo que aparecesse a palavra que o designa.

Estamos diante de um estado que exclui os mais pobres, negando assim, os direitos fundamentais a todos os seres humanos, sem distinção de sexo, nacionalidade, etnia, cor da pele, faixa etária, classe social, profissão, condição de saúde física e mental, opinião política, religião, nível de instrução e julgamento moral. BOBBIO (2004) assim se expressa:

“A liberdade religiosa é um efeito das guerras de religião; as liberdades civis, da luta dos parlamentos contra os soberanos absolutos; a liberdade política e as liberdades sociais, do nascimento, crescimento e amadurecimento do movimento dos trabalhadores assalariados, dos camponeses com pouca ou nenhuma terra, dos pobres que exigem dos poderes públicos não só o reconhecimento da liberdade pessoal e das liberdades negativas, mas a proteção do trabalho contra o desemprego, os primeiros rudimentos contra o analfabetismo” (BOBBIO, 2004, p. 9).

Portanto para BOBBIO (2004), os direitos humanos são concebidos de forma a incluir reivindicações morais e políticas que, no consenso contemporâneo, toda pessoa tem ou deve ter perante uma sociedade, sem distinção alguma de etnia, nacionalidade, sexo, classe social,

instrução, raça, de religião, ou qualquer tipo de julgamento moral, que a sociedade política tem o dever de consagrar e garantir.

Esse estado capitalista moderno hierarquiza procedimentos e comportamentos, criando instituições e práticas sociais que contribuem para reforçar os preconceitos em relação aos pobres, despossuídos e trabalhadores urbanos sem qualificação, rapidamente transformados em indivíduos perigosos ou em “classes perigosas” (FOUCAULT, 1993) assim se posiciona em relação a essa hierarquização social:

“Os aparelhos disciplinares hierarquizam, numa relação mútua, os “bons” e os “maus” indivíduos. Através dessa microeconomia de uma penalidade perpétua, opera-se uma diferenciação que não é a dos atos, mas dos próprios indivíduos, de sua natureza, de suas virtualidades, de seu nível ou valor” (FOUCAULT, 1993, p. 151).

Observamos que a sociedade capitalista, marcada por uma relação entre as classes sociais “de cima” e as “de baixo”, constitui-se a partir de inúmeros espaços disciplinares, sendo que cada um deles é alvo de apropriações e práticas disciplinadoras, que reforçam as virtudes das classes sociais “de cima” e discriminam, rotulam e estigmatizam as classes populares, denominadas “classes perigosas”, as de baixo. A esse respeito, THOMPSON (2005) diz:

“O povo estava sujeito a pressões para reformar sua cultura segundo normas vindas de cima, a alfabetização suplantava a transmissão oral, e o esclarecimento escorria dos estratos superiores aos inferiores – pelo menos era o que se supunha” (THOMPSON, 2005, p.13).

Uma das questões colocadas por THOMPSON (2005) se referia à luta de classes e à valorização da cultura dos trabalhadores, vista como uma forma de resistência à forma de dominação de uma herança cultural relacionada à classe dominante, dentre outras formas.

A negação de direitos e a repressão são práticas recorrentes no Instituto Feminino de menores, as meninas reagem a essa situação com uma forma de resistência ao aparato repressivo: fugindo da instituição, as fugas são assim, uma forma de resistência, de transgressão possível no interior da instituição disciplinar, uma das características da forma de resistência contra a opressão decorrente das práticas repressivas arraigadas nos abrigos. O que pode ser visto através do movimento de entrada e saída nos institutos.

O exemplo a seguir consta da ficha de movimento do Serviço Social dos Menores, constante do prontuário nº 16.438. A adolescente J.V. percorre várias instituições, o que, a nosso ver, dificulta a adaptação de menores, culminando com fugas, grafadas no prontuário como “evadiu-se”:

Iniciamos o capítulo em tela, versando sobre as práticas violentas relatadas pelo sentenciado preso na penitenciária, quando este recordava o seu período de internamento no Instituto Disciplinar de Mogi Mirim e as violências ali praticadas, resgatamos o desenvolvimento da construção de um conjunto de orientações no sentido de garantir a valorização da vida e dos direitos humanos, e concluímos essa primeira parte do capítulo, novamente nos referindo a práticas violentas no interior da instituição e de como as meninas reagiam, como resistiam, e ás violências impetradas, as meninas fugiam, essa eram as possibilidades de sobreviver a um sistema coercitivo, violento e desrespeitoso, como o vivido no interior da instituição.

3.2 - A EDUCAÇÃO RELIGIOSA NO INSTITUTO

Ao analisar as práticas que incidiram sobre a criança e o adolescente pobre em nosso país durante a era Vargas, vemos ainda a predominância de instituições religiosas (confessionais) e privadas (filantrópicas), no projeto de regeneração social, situação que perdurava desde o império. Como Getúlio Vargas necessitava do apoio dos católicos e com a instituição do regime autoritário de 1937, o grupo da Igreja deteve maior expressão política, enquanto educadores como Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo e Almeida Júnior ficaram afastados, por discordarem do autoritarismo e da centralização do poder, retornando às atividades político-educacionais após a queda do Estado Novo.

Os preceitos higienistas43 e científicos associados ao regime republicano corroboraram para o ingresso do poder público na área do assistencialismo44. O Estado republicano amplia sua atuação, principalmente a partir da década de 1920, com a criação de instituições públicas de assistência, de onde se depreende que estas deveriam ser laicas. A orientação da política republicana era no sentido de não permitir práticas religiosas no interior das instituições educacionais públicas, equalizando as crenças de liberdade religiosa, mas na realidade mantidas até os dias atuais45.

Afrânio Peixoto, cujos trabalhos inicialmente estavam ligados aos estudos de psiquiatria e de medicina legal em prestigiadas instituições da cidade do Rio de Janeiro, já vinha manifestando em seus discursos interesse nos estudos sobre educação eugênica e higiênica, tornando-se também importante personalidade ao tornar-se membro da sociedade eugênica de São Paulo. O autor em questão tinha grande interesse em criar uma interface entre a antropologia física, a medicina legal, a biometria e os temas eugênicos, reproduzindo-os inclusive em seus trabalhos científicos e nos métodos de identificação criminal. Foi membro de uma Comissão Especial responsável pela renovação dos métodos de identificação criminal, nomeada por Getúlio Vargas.

Renato Kehl foi o defensor da tese de melhoramento racial através de uma intervenção da eugenia. Ele queria a aprovação em várias entidades e congressos de movimentos pela

43A partir de propostas identificadas pelo olhar da ciência positiva, pelo evolucionismo da ordem e do progresso de

Herbert Spencer(1820-1903) e pelo Darwinismo Social de Francis Galton, com a disseminação da ideologia do Higienismo e do Eugenismo.

44A Santa Casa de Misericórdia de São Paulo é a mais antiga Instituição Assistencial e Hospitalar em

funcionamento na cidade de São Paulo. No Brasil, a primeira Santa Casa foi fundada em 1543, na Capitania de São Vicente. É possível que a criação da Confraria da Misericórdia de São Paulo dos Campos de Piratininga tenha ocorrido no ano de 1560. Esteve alojada no Pátio do Colégio, nos Largos da Glória e da Misericórdia, até ser inaugurado, no bairro de Santa Cecília, em 1884, o Hospital Central, sua sede até os dias de hoje

45 A legislação educacional nº 9.394 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) trata da questão do Ensino

regulação dos casamentos. Por exemplo, na Sociedade Eugênica de São Paulo, sua proposta foi derrotada, o que resulta em seu desligamento da mesma. Foi autor de cartilhas como a fotografada a seguir, A Fada Hygia, de 1925, na cartilha citada, apresentava práticas higiênicas que as pessoas deveriam adotar. Entre os vários conselhos destinados às mães e professores, Dr. Kehl dedica, na 1º parte, os conselhos inestimáveis à educação higiênica; na 2ª parte, ressalta que a higiene é a mais importante disciplina escolar para a idade infantil, pois possibilita a chegada à idade adulta com saúde física, intelectual e moral.

Cartilha de Higiene, 1936 – O Autor Renato Kehl, foi destaque do higienismo46

A crítica a esses discursos pode ser encontrada em Maria Lacerda de Moura47, cujos discursos são de negação à autoridade, incisivos no combate às formas de disciplinarização e controle do indivíduo, dizia Lacerda, numa tentativa de alertar os leitores para negar tudo

46

Em relação ao médico Renato Kehl, este foi escolhido em 1921, quando foi fundada a Chimica Industrial Bayer, como gerente médico da empresa. Indivíduo influente no movimento eugenista das décadas de 1920 e 1930, foi fundador da primeira Sociedade Brasileira de Eugenia, sediada em São Paulo. Em relação à influência alemã podemos citar o fato da revista médica de Hamburgo passar a circular, a partir de 1920, também em espanhol e português, como o objetivo de divulgar pesquisas alemãs e avanços na indústria farmacêutica e nas técnicas terapêuticas (MARINHO, 2003).

47 Autora que apresenta, na década de 1930, posicionamentos críticos em relação a instituições coercitivas como a

religião e o Estado Feminista e ativista da defesa das questões de gênero, produziu inúmeros livros e artigos em jornais combativos da década, como O Combate. Vide a Dissertação de Jussara Valéria de Miranda, “Recuso-

aquilo que os oprime e os mantém em um estado de anestesia política. Maria Lacerda de Moura assim se coloca:

“Todos nós, aliás somos capturados no primeiro vagido. A educação, desde o baptismo e o jardim de infância até a universidade, as academias scientíficas ou literárias, a nação, a pátria, a sociedade, em summa, com todas as suas indispensáveis ramificações- religião, família, Estado, apoderam-se da criatura humana, capturam-na no berço e levam-na ao túmulo – domesticando-a, civilizando-a” (MOURA, 1928, p.2).

Concordamos com as análises de Maria Lacerda de Moura sobre a captura do indivíduo pelas instituições desde a pequena infância e a necessidade de rebelar-se, rompendo com o controle social exercido pelas instituições, na medida em que concebe como mecanismos de controle social o Estado e a igreja. Instituições sociais que propagam os ideais de controle, submissão e domesticação. As situações relatadas são vivenciadas no Instituto Feminino de Mogi Mirim, com práticas religiosas de cooptação e assimilação por parte da instituição, como veremos nos episódios de batismo das internas.

A igreja esteve presente em vários momentos do instituto, inclusive na fase em que atendeu aos meninos, quanto no período em que atendeu as meninas. A permanência das práticas religiosas católicas e da igreja dentro da instituição era uma constante, em momentos de negociação de conflitos e tensões, proveniente das reivindicações.

No Instituto Feminino de Mogi Mirim, a liberdade de credo religioso, apesar de presente em regulamento, não ocorria na prática cotidiana:“Artigo 23: - Facultar-se-ão sempre aos menores

as práticas da religião que professarem”. Ao contrário do que propunha o regulamento, o caráter ecumênico não era respeitado no Instituto Feminino de Mogi Mirim, ocorrendo práticas, atividades e crenças de uma determinada religião: o catolicismo. A notícia publicada na imprensa local, em uma coluna denominada: “Notas religiosas” confirma a ausência de liberdade de credo:

“Cabe aqui, Sr. Governador, assinalar a excelente colaboração emprestada à vida religiosa desta casa pelo vigário desta paróquia e as irmãs de Jesus Crucificado, consagrando as meninas inteiramente a Nossa Senhora do Sagrado Coração” (A COMARCA, 1948g, p. 3).

Dentre os discursos proferidos na inauguração do Instituto Feminino de Menores, entre as falas de várias personalidades políticas, locais e regionais, constata-se que o representante da igreja católica se fazia presente, na figura do cônego José Nadem, vigário da paróquia, que,após

o almoço proferiu algumas palavras (A COMARCA, 11/04/1948, p. 1). O governador, Dr. Ademar de Barros, em seu pronunciamento, assim se expressa sobre o assunto:

“O Instituto Feminino em sua organização e finalidade, estabeleceu como função precípua a reintegração na sociedade de meninas que aqui ingressam, um programa educacional sob a égide da doutrina social cristã compreendendo, além da parte instrutiva: curso primário, educação doméstica, arte culinária, agricultura, música, jogos, cinema, rádio, esportes e outras práticas de fundo educativo, seguindo-se

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