Prédio onde funcionou o Instituto Disciplinar de Mogi Mirim, foto de2014
2.1 - O INSTITUTO DISCIPLINAR DE MOGI MIRIM
No contexto da criação de políticas públicas via institucionalização da criança e do adolescente no Estado de São Paulo, é que focamos nosso olhar para o Instituto Disciplinar de Mogi Mirim, criado pela lei nº 1.169, de 27 de setembro de 1909, e inaugurada em 15 de abril de 1924. Na imprensa local, estampa-se a seguinte matéria sobre a inauguração:
“Decorreram brilhantes as festas aqui relatadas em homenagem ao Sr.Dr. Washington Luís, D. Presidente do Estado e aos Srs. Secretários de Governo e comitiva, por ocasião das inaugurações da estrada de rodagem, fórum e Instituto Disciplinar em 15 do corrente.” (A COMARCA, 1924, p. 3).
A pesquisa que estamos desenvolvendo permite apreender, à luz da história sócio- cultural,como se deu a construção dos institutos disciplinares. Tendo esta referência, é possível
identificar na documentação do Instituto Disciplinar de Mogi Mirim as práticas, via trabalho nas dependências da instituição, nas oficinas ali existentes, ou na cultura agrícola, na imensa área agrícola, o seu saber fazer, que marcaram o funcionamento da instituição, bem como sua organização.
A Instituição atendeu crianças e adolescentes do sexo masculino e feminino ao longo de sua existência. Tendo sido inaugurada em 1924, foi reorganizada com alteração de nome inúmeras vezes, sendo que as mudanças estão relacionadas ao seu papel na estrutura do Estado e à sociedade. Desde sua inauguração até 1976, a instituição teve as seguintes denominações:
Instituto Disciplinar, Escola de Reforma, Instituto Feminino de Menores, Instituto Masculino de Menores e FEBEM–Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor,
instituída pelo Decreto nº 985 de 26/04/1976.
Observamos, à época, uma preocupação crescente da imprensa em relação à criança e adolescente desocupado, que passa a ocupar espaço significativo nos periódicos. Há, assim, várias matérias publicadas na imprensa escrita, denunciando o crescente aumento de crianças e adolescentes infratores e abandonados que esmolavam pelas ruas, vagando pela cidade, como um grupo de “três meninas sujas e descalças” que passavam os dias na Avenida Paulista “a pedinchar pelos palacetes sendo muitas e importunar os transeuntes até altas horas da noite; ou de um menino de uns 12 anos que mendigava pelas ruas, dentre muitas outras crianças e adolescentes, tratados pela imprensa como “menores vagabundos”22
.
Diante desse cenário de miserabilidade e com a intenção de evitar e controlar a criminalidade sem colocar em risco o bom funcionamento da sociedade burguesa, e buscando agir de forma preventiva, foi fundado pelo poder público o primeiro Instituto Disciplinar da Capital do Estado de São Paulo (I.D.C.), criado pela Lei nº 844 de 10/10/1902. As ordens religiosas23 e grupos beneméritos já vinham criando, desde o período colonial, instituições para o atendimento dessas crianças e adolescentes, como veremos ainda neste texto. Com relação à criação do Instituto Disciplinar da Capital de São Paulo (I.D.C.), a Revista do Arquivo Municipal assim se manifesta:
“Embora com falhas, estava o Estado de São Paulo com um estabelecimento onde podia recolher menores, dando guarida aos abandonados para que não vivessem sem teto e protegendo-os contra as insídias da miséria, abrigando os pequenos criminosos para que não chafurdassem mais em vícios em contato nas cadeias com adultos delinquentes. No vetusto casarão entrava em vinte e três de fevereiro o primeiro menor, um pretinho,
22O Estado de São Paulo, 02/02/1921, p. 5.
23 Entre 1890 e 1930 foram criadas ou chegaram ao Brasil mais de uma centena de congregações e ordens
condenado por crime, de acordo com o artigo 294 do Código Penal.” (Revista do Arquivo
Municipal de São Paulo. XCVIII)
Note-se que o texto acima se refere ao início das atividades do Instituto Disciplinar da Capital24 (I.D.C.), o que ocorreu em 1903. Nesta época, não existia uma legislação específica para enquadrar as crianças e adolescentes. O código de menores, só veio à luz em 1927, utilizando-se até então o Código Penal de 1890. Outro aspecto observado é a crítica constante que se faz às autoridades públicas em relação a uma prática muito comum no período, a presença de crianças e adolescentes nas cadeias junto com adultos, cuja convivência era vista como promíscua, o que implica na ausência de proteção à criança e à infância.
Na passagem do século XIX para o XX, em poucos anos a capital paulista consolidou- se como centro capitalista, cultural e integrador regional. O crescimento da população gerou uma verdadeira metamorfose na cidade, associada à presença acentuada de imigrantes; o bairro do Tatuapé surgiu ainda no século XVI, cercado pela cultura do vinho, e inicialmente foi procurado por famílias de alto poder aquisitivo, com um solo rico em argila. Já no início do século XX, atrai fabricantes de tijolos e telhas, e com isso chegam novos moradores, trabalhadores e imigrantes, principalmente italianos. É nesse contexto que está instalado, desde 1902, o Instituto Disciplinar e todo o seu complexo, funcionando ali vários prédios do Serviço Social de Menores.
24 O que se mostrará insuficiente para o atendimento de crianças e adolescentes, requerendo-se a criação de outras
Cadeia de Mogi Mirim – inaugurada em 15/04/1924
Através do controle social é que comportamentos indesejáveis são reprimidos, controlados; esse controle social age de maneira a produzir comportamentos, ações e atos aceitáveis pelo capitalismo urbano industrial. As instituições criadas para enquadrar os que fogem aos padrões de normalidade exercem o controle social, tendo entre suas funções e instrumentos a contenção, do que são rotuladas como desvios e práticas consideradas criminosas pelo sistema legal do país.
O controle social é assim realizado por um conjunto de instituições, estratégias e ações, sendo agentes do controle social a polícia, a justiça e o sistema penitenciário25, formado pelas
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Em São Paulo, o trabalho de construção da Casa de Correção teve início em 1838, no campo fronteiriço ao Convento de Nossa Senhora da Luz, distante do centro, numa área pouco habitada, na atual Avenida Tiradentes, em frente ao quartel da Polícia Militar Tobias de Aguiar (ROTA). A inauguração ocorreu em 6de maio de 1852 e transformou-se em Casa de Detenção de São Paulo no ano de 1939, e permaneceu funcionando até seu novo endereço, no bairro do Carandiru. Em 1920, iniciou-se o funcionamento da Penitenciária do Estado, na tentativa de articulação das unidades prisionais, mas com o crescimento de estabelecimentos penais no estado, o Departamento dos Presídios transforma-se em Departamento dos Institutos Penais do Estado (DIPE) em 1959, e na Coordenadoria dos estabelecimentos Penitenciários do Estado, (COESPE) no ano de 1979. A Casa de Detenção “Prof. Fávero” teve sua inauguração em 11de setembro de 1956, na Avenida Cruzeiro do Sul, somente com o pavilhão dois e, posteriormente foram construídos os demais pavilhões: oito, nove, cinco, seis, quatro e sete; sendo
prisões, para os criminosos maiores de 18 anos, e institutos disciplinares, asilos, instituições de caridade e orfanatos para as crianças e adolescentes.
SANTARGÂNGELO (1966)26 em seus estudos, ao se referir ao Instituto Disciplinar de Mogi Mirim, nos informa que este Instituto era visto como uma instituição rígida, tendo como foco uma disciplina militar e para onde eram encaminhados as crianças e adolescentes infratores mais perigosos: “São sempre apreendidas armas improvisadas por eles mesmos. Adotam a tatuagem. Têm índole perversa, são desajustados profissionalmente e geralmente desprovidos de todo e qualquer sentimento moral ou religioso, simulam conflitos, depredam, agridem funcionários, tudo com o intuito da fuga” (p.166).
Essa é a imagem do Instituto Disciplinar construída pela autora acima citada, no início da década de 1950. Imagem que é necessário ser problematizada, confrontada, pois não é possível estabelecermos generalizações; é possível, a partir de hipótese que estabeleço: que a partir da década de 1950, a periculosidade dos internos fosse maior do que no período feminino. Concordamos que a complexidade do público atendido era imenso e heterogêneo, o que nos permite depreender as dificuldades para a manutenção do controle e da ordem próprios de instituições correcionais. Salientamos que a lógica utilizada no período masculino, e mantida no período feminino, foi um fator adicional aos conflitos e dificuldades inerentes a tais instituições correcionais.
Em 1940, o atendimento à criança e ao adolescente é ampliado com a construção de dezesseis casas dentro da chácara do Tatuapé, onde funcionava o Instituto Disciplinar da capital, passando a se chamar Instituto Modelo ou Reformatório Modelo, onde funcionava o Recolhimento Provisório de Menores (RPM). A esta alteração, soma-se a instauração do Serviço de Abrigo e Triagem (SAT), o Serviço de Colocação Familiar e o Serviço Social da Vara de Menores, que surgiram do desmembramento do Serviço Social de Menores, em 1947.MENDES (2009) relata o cotidiano no complexo do Tatuapé:
“Foi de manhã cedinho que cheguei ao plantão do Recolhimento Provisório de Menores. Fui conduzido ao prédio administrativo daquele estabelecimento correcional. Colocaram-me dentro de uma espécie de engradado, denominado Chiqueirinho. Passei o dia lá (...). O local era assustador. Os PMs, sentados em cadeiras no palco onde estava a TV, o alojamento era um salão enorme com camas-beliches em linha, encostadas na parede. Ninguém ainda conversava comigo. Todos foram para seus devidos beliches, após os garotos tomarem seu pseudobanho, entrou no alojamento um PM enorme. Vinha falando alto,
entregue em seu formato final no ano de 1974, permanecendo com a mesma estrutura, até a sua desativação no ano de 2002. (COROCINE, Sidnei, 2003, p. 26).
26A autora apresenta fatos e dados de várias Instituições públicas que atendiam crianças e adolescentes, sendo
possível registrar alguns aspectos do funcionamento do Instituto Disciplinar na década de 1960, período posterior ao delimitado por nós.
escandaloso: “Vamos lá, putada, tá na hora de dormir. Quem der um pio vai conversar comigo aqui! E hoje estou disposto”, (MENDES, 2009, p. 93,94).
Observamos, em relação ao relato acima, escrito por Luiz Alberto Mendes, ou simplesmente Luizinho, que o autor esteve internado, entre as décadas de 1950 e 1960, em várias instituições correcionais do Estado, inclusive em Mogi Mirim, e apresenta em suas Memórias de um sobrevivente, publicadas em 2009, relatos de seu cotidiano, em que é possível perceber que as condições de tratamento a que estavam sujeitas as crianças e adolescentes eram marcadas pela violência, conflitos, pela intimidação, pela lei do medo, por integrantes da Polícia Militar27.
Mesmo em uma sociedade marcada pelas normas, que se convencionou denominar de direito, não se descarta, em hipótese alguma, conflitos e diferenças. É a maneira como tais conflitos e diferenças são tratados que caracterizará os atos que fogem aos “padrões estabelecidos” à norma.
O anormal, o marginal, o vicioso, é entendido como tudo aquilo que não está de acordo com o que é determinado pelo direito civil, sendo crime o ato que infringe uma norma legal, ou seja, é considerado crime todo comportamento que destoa, ofende, desrespeita um preceito legal. A esse respeito GIACOIA JUNIOR (2008) assim se refere ao pensamento de Foucault:
“Não quero dizer que a lei se apague, ou que as instituições de justiça tendem a desaparecer, mas que, doravante, a lei funciona sempre como norma e que a instituição judiciária se integra cada vez mais a um continuum de aparelhos (médicos, administrativos, etc.) cujas funções são, sobretudo, reguladoras. Uma sociedade normalizadora é o efeito histórico de uma tecnologia do poder centrado sobre a vida”,(GIACOIA JUNIOR, 2008 In Rago e Veiga Neto, p. 189).
Essa vida, levantada no excerto acima, que está sujeita à normalização e punição que acompanha os sujeitos que apresentam comportamentos que não atendem às normas estabelecidas, reguladas, praticadas e referendadas institucionalmente.
Para Foucault (1993), instituições não são espaços exclusivos de exercícios do poder, mas sim espaços atravessados por tecnologias de poder, cuja aplicação não está restrita aos muros institucionais nem às práticas de confinamento. Não se trata de fazer, em nossa pesquisa, uma história do Instituto Disciplinar, mas sim, das práticas realizadas em seu interior; a esse respeito, a esse respeito, FOUCAULT (1993) assim se manifesta:
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Durante mais de 40 anos (1926 a 1968) tivemos duas polícias preventivas no Estado de São Paulo: a Força Pública e a Guarda Civil Estadual. E o sistema funcionava com cada polícia atuando numa área distinta e competindo entre si para mostrar serviço. Em 1969, o regime militar, para controlar as polícias e facilitar a repressão política, juntou as duas instituições, criando a Polícia Militar, ficando muito tempo sob o comando de oficiais do exército.
“Trata-se de qualquer maneira de fazer da prisão um local de constituição de um saber que deve servir de princípio regulador para o exercício da prática penitenciária. A prisão não tem só que conhecer a decisão dos juízes e aplicá-la em função dos regulamentos estabelecidos: ela tem que coletar permanentemente do detento um saber que permitirá transformar a medida penal em uma operação penitenciária” (FOUCAULT, 1993, p. 223- grifos nossos).
Portanto, a Instituição Disciplinar é definida e aqui compreendida como um conjunto de práticas sociais e que é no movimento de repetição e legitimação de suas práticas que se traçam os contornos de uma instituição.
GOFFMAN (1961) corrobora com a definição de “instituição totalitária como sendo um local onde os internos levam juntos uma vida reclusa cujas modalidades são regulamentadas de forma explícita e minuciosa, um lugar de residência e trabalho, no qual um grande grupo de indivíduos são colocados na mesma situação, separados do mundo exterior por um período relativamente longo” (GOFFMAN, E. apud MERLLIÉ, et al, 1996, p. 16).
O Instituto Disciplinar de Mogi Mirim, que passou, em 1947, a ser denominado Instituto Feminino de Menores28, tinha como finalidade abrigar 120 internas e oferecer para elas o ensino primário, profissional, agrícola29 e doméstico, comporta não só dimensões técnicas decorrentes da necessidade de administrar a instituição o mais economicamente possível, mas também implementar práticas de controle e de submissão.
28Instituído pelo Decreto nº 17.394, de 07/07/1947.
29Essa questão será posteriormente analisada quando forem apresentadas as justificativas para a modificação do
público a ser atendido; o retorno dos meninos era justificado pela maior aptidão destes às tarefas agrícolas, ao contrário das meninas.
Um dos pavilhões do Instituto Disciplinar – Espaço que funcionaram dormitórios das crianças e adolescentes - Foto de 201430.
A complexidade que as práticas educativas colocam às meninas internadas, cujas orientações dos prontuários diziam que as mesmas deviam ter “instrução profissional doméstica”, destinando-as a ocupar, assim, postos subalternos na sociedade. Com efeito, esclarece ROLNIK (1994), a distinção entre trabalhadores pobres e marginais não existia do ponto de vista econômico, mas apresentava uma importante função do ponto de vista simbólico ou ideológico, em que a “fronteira é o limiar de clandestinidade: um lado é a miséria permitida, útil, explorada, o outro, a miséria ilegal, perigosa”31.
As dificuldades se acentuam quando se refere à imagem da mulher, pobre e excluída. CARVALHO (1990) desenvolverá o tema da aceitação popular da alegoria da República na figura da mulher na França, e de sua rejeição no Brasil, onde são explícitas as dificuldades em
30A esse respeito, em matéria publicada na imprensa em 1952, os dormitórios são referidos como sendo amplos e
confortáveis (A COMARCA, 12/08/1952, p. 3).
31Raquel Rolnik, “São Paulo, início da industrialização: o espaço e a política”, in: Lúcio Kowarik (org.) Passado e presente: as lutas sociais e a cidade de São Paulo, São Paulo. Paz e Terra, 1994, p. 100.
construir uma figura feminina relacionada ao símbolo da vitória, da liberdade, símbolos esses utilizados na Revolução Francesa de 178932.
Os republicanos brasileiros tentaram recriar imagens e representações semelhantes do lugar da mulher, após três séculos de escravidão, mas encontraram dificuldades, devido às diferenças de nossa formação cultural. De fato, a nossa república acabou sendo facilmente associada à imagem da mulher vadia, corrompida, prostituída, objeto sexual ou quase sempre relacionada a algo depreciativo, RAGO (1991) reitera esta imagem:
“Essas representações construídas pelo imaginário social eram incorporadas pela própria produção científica relativa ao tema, que reproduzia a polarização das imagens associadas à prostituta, de um lado, como vítima, com uma explicação essencialmente econômica da comercialização sexual do corpo feminino e, de outro, como mulher rebelde, a partir de uma leitura psicologizante que interpreta a prostituição como um caso patológico de sexualidade desviante. Em ambas as representações, a imagem romantizada da meretriz é construída a partir de uma perspectiva normativa.” (RAGO, 1991, p.163)
É no contexto dos anos iniciais da República (1889), e que perdurou até meados do século XX, que mulheres e suas crianças, são comumente associadas às más condutas, mendigas, viciosas e das “classes perigosas”, como bem aponta RAGO (1991). A autora discute que sobre elas pesavam acusações de que fossem “mães desnaturadas ou mulheres viciosas”, por exporem crianças ao público. As chamadas classes perigosas serão abordadas e problematizadas ainda em nosso texto.
Os registros policiais, publicados pela imprensa, ao relatarem as prisões dessas mulheres, referem-se sempre à prisão simultânea de grupos de “mendigas”, o que juntamente com a denúncia de que carregavam crianças consigo para pedir, portanto, não costumavam praticar mendicância sozinhas, estando geralmente acompanhadas de crianças ou de outras mulheres33, aproveitando-se do apelo sentimental que as crianças provocam. Estas informações revelam a existência de uma rede de apoio mútuo, diante da repressão e da miserabilidade crescente.
Em relação aos antecedentes do Código de Menores de 1927, foi possível identificar a Lei Federal nº 4.242, de 05 de janeiro de 1921, que em seu artigo 3º autorizava o governo a organizar o “Serviço de Assistência e Proteção à Infância Abandonada e Delinquente”.
Cronologicamente foram criadas legislações atinentes à organização de um conjunto de instrumentos legais visando à proteção da infância. O Decreto Federal nº 16.272 de 20 de
32Um dos quadros mais famosos quando se discute a Revolução Francesa é o de Eugène Delacroix: “A liberdade
guiando o povo”, que mostra a representação feminina da liberdade, guiando os revolucionários. Na França, a associação dessa figura feminina da liberdade relacionada à república era comum.
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dezembro de 1923, normativa especialmente dirigida à infância e adolescência, apresenta em seu conteúdo o Regulamento de Assistência e Proteção aos Menores Abandonados, órfãos e Delinquentes. Instituiu o Juizado Privativo de Menores, que começa a funcionar no Rio de Janeiro, no ano de 1924.
Foi criado no Estado de São Paulo o cargo de juiz privativo de menores, bem como previa a criação de um Abrigo Provisório de Menores, onde seria feita a triagem das crianças e adolescentes (abandonados, órfãos ou delinquentes) para posterior encaminhamento a outros estabelecimentos, públicos ou filantrópicos. Conforme os trechos selecionados abaixo confirmam:
LEI N. 2.059, DE 31 DE DEZEMBRO DE 1924
Dispõe sobre o processo de menores delinquentes
O Doutor Carlos de Campos, Presidente do Estado de São Paulo, Faço saber que o Congresso Legislativo decretou e eu promulgo a lei seguinte:
Artigo 1.º - Fica criado na comarca da Capital, para amparo e protecção processo e
julgamento dos menores abandonados o delinquentes, o cargo de juiz privativo de menores.
Artigo 17.º - O juízo de menores, na comarca da capital, funcionará em edifício que o
governo designará. No mesmo edifício poderá ser instalado um abrigo provisório, destinado ao recolhimento e guarda dos menores durante o processo do abandono ou criminal, devendo ser distribuídos em turmas, conforme o motivo do recolhimento, idade e perversão.
Artigo 18. - No regulamento que expedir para a execução da presente lei, estabelecerá o
governo a organização interna das escolas de preservação e reforma, assegurando, de modo mais perfeito a aplicação dos métodos adequados a cada classe de menores.
É importante destacar que o Decreto Federal 16.272 - Regulamento de Assistência e Proteção aos Menores Abandonados, Órfãos e Delinquentes preconiza a ação preventiva do Estado no controle das ações sociais, através da criação do Conselho de Assistência e Proteção aos Menores.
No estado de São Paulo, a Lei 2.059 de 1924 dá início a um processo que marca um novo papel estatal. O Estado passa a controlar a institucionalização da infância e adolescência pobre. Nota-se que são agrupadas crianças abandonadas, órfãs e delinquentes. Entendemos que não se trata de um mesmo grupo, cada grupo possui uma identidade própria, com características específicas, necessitando de práticas e encaminhamentos distintos, que invariavelmente foram ignorados e negligenciados pelo poder público, tema que será por nós problematizado ao analisarmos a movimentação das internas nas diversas instituições do Serviço Social de Menores do estado de São Paulo.
É, portanto, sistematizando as propostas, os debates, os projetos e as leis sobre a menoridade, que surge o primeiro Código de Menores do Brasil e da América Latina, que ficou conhecido como o Código de Menores de 1927 –Decreto nº 17.943-A, de 12/10/1927 – ou