A UTI Neonatal na MEJC foi ampliada no ano de 2017, passando a apresentar duas unidades, com capacidade para atender 23 recém-nascidos. Compõe a UTI Neonatal um corredor central com uma sala aberta para os prontuários, uma sala de apoio com equipamentos, uma copa, as salas de descanso e uma sala de acolhimento (também recém-inaugurada).
102 É um local frio, em termos de temperatura, de ausência de cores, da presença de um maquinário sofisticado, da luz constante e contínua que gera uma distância em relação ao que ocorre fora das instalações da UTI. Não existem janelas nas áreas dedicadas ao tratamento dos recém-nascidos e, consequentemente, ao trabalho dos profissionais de saúde. Isto foi relatado por uma das profissionais como uma característica do trabalho na UTI Neonatal:
“Eu acho que a dificuldade é...o confinamento, é você tá num lugar que você não vê se é de dia, se é de noite, se tá chovendo, se tá fazendo sol, entendeu? O ambiente fechado ao longo do tempo ele pesa... É tanto que quando fizeram a reforma daqui eu disse “ai, que coisa boa! Vai ter janela!”, porque acredito até que é uma coisa boa pras crianças tomar banho de sol...” (Girassol)
Sentir-se confinado em um ambiente sem janela, sem saber se é dia ou noite é um fator que pode gerar um incômodo maior para alguns profissionais, como no relato apresentado por Girassol. Fizemos uma analogia a esta flor que busca constantemente o sol para o seu desenvolvimento, com a profissional que se sente inserida em um ambiente que apresenta uma característica de confinamento. Este confinamento faz parte da atuação da maior parte dos profissionais da UTI Neonatal, com exceção para a as áreas da psicologia e serviço social que circulam pelas instalações do hospital, inclusive para dar assistência às mães dos bebês.
Alguns estudos apontam que trabalhar em local confinado é uma dificuldade vivenciada pelos profissionais de saúde. Algo que gera um certo incômodo tanto em relação à falta da luz solar, como também quanto aos cheiros e à temperatura. Na tentativa de humanizar o ambiente algumas estratégias são sugeridas como colocar um pano em cima das incubadoras para “induzir” um ciclo de dia-noite, diminuir o volume dos ruídos sonoros ou substituí-los por alarmes luminosos. Estas práticas tem o intuito de reduzir o impacto das consequências do confinamento para os pacientes. Para os profissionais, entretanto, pode gerar mais demanda de trabalho, mais atividades para executar. (Brasil, 2003; Lamego, Deslandes e Moreira, 2005; Rocha, Souza e Teixeira, 2015).
103 Outra dificuldade apresentada por vários profissionais entrevistados refere-se à sobrecarga de trabalho, em especial para a categoria de técnicos de enfermagem que apresenta um número inferior ao necessário para atendimento dos recém-nascidos:
“... A gente passa muitos períodos difíceis por ter menos técnicos de enfermagem do que deveria ter... Porque a gente sabe que um técnico só pode ficar com tantos números de bebês, quando ele fica com mais bebês pra cuidar do que ele deveria ficar, isso acaba levando a maior risco de erros, de sobrecarga pra aquele profissional. E acontece erros na assistência por conta disso...” (Orquídea).
“...Eles se preocupam em abrir leitos, leitos... Mas não compreendem que têm poucos profissionais pra isso, e que deveriam bloquear... Tem dias que a gente tem que ficar com seis técnicos, cinco técnicos pra vinte um, vinte e dois bebês e isso não é correto, e acaba deixando a gente tenso, porque a gente trabalha sob uma certa pressão. É tanto que vários técnicos que entraram aqui muitos já saíram com atestado psiquiátrico...” (Amarílis).
A sobrecarga leva os profissionais a trabalharem no limite do desgaste físico e psicológico podendo resultar no afastamento do trabalho por motivos de saúde. De acordo com o Relatório de Absenteísmo da Maternidade (referente ao período de 2016.1) 82,73% dos afastamentos são para tratamento de saúde e a categoria que apresenta o maior número de atestados é a de técnicos de enfermagem. O relatório confirma, portanto, os relatos apresentados pelos profissionais.
Vários estudos afirmam que o ambiente da UTI Neonatal pode exercer uma influência negativa sobre a saúde de seus profissionais, devido a tensão e estresse presentes em um local onde sucesso e fracasso oscilam rapidamente, e vida e morte estão presentes de forma intensa. Como são locais que utilizam tecnologia muito avançada, as exigências para a atualização dos profissionais são constantes. De acordo com os autores, a sobrecarga de trabalho caracteriza-se pela falta de profissionais suficientes para a demanda de bebês que somada à falta de preparo
104 da equipe técnica e ao espaço físico inadequado comprometem sobremaneira a qualidade de vida dos trabalhadores. (Fogaça et al., 2008; Rocha, Souza, Teixeira, 2015; Fogaça, 2010).
A partir dos relatos apresentados, gostaria de propor uma reflexão sobre como os profissionais se sentem diante deste contexto de trabalho. Para tanto, buscarei inspiração em Heidegger (2007) em “A questão da técnica”. A inspiração necessária para refletir sobre o contexto de atuação destes profissionais de saúde, mas sem a pretensão de elucidar alguma questão, como bem pontua Heidegger (2007, p. 375): “o questionar constrói num caminho”. Vamos, portanto, trazer elementos que envolvam a questão técnica.
Ao falar sobre técnica podemos assumir os dois sentidos: o domínio do conhecimento técnico propriamente dito, ou seja, o conhecer e saber fazer; e o horizonte histórico no qual estamos imersos, a era da técnica que valoriza o saber, a velocidade das informações, os resultados, o pensamento calculante. (Heidegger, 2007)
Uma atmosfera que nos conduz a agir para dar respostas a um mundo prático, que valoriza a objetividade, a rapidez e o retorno, seja este financeiro, de status, de reconhecimento. Assim, as pessoas vão correndo contra o tempo para atingir objetivos previamente definidos e, às vezes, sem mensurar possíveis consequências das escolhas realizadas. A era da técnica produz um discurso ora explícito, ora posto nas entrelinhas do que é aceitável, valorizado. Como pode ser observado no relato a seguir:
“...E se você cometer algum erro? Quem vai responder é você que tava na assistência. Aí se a gente recusa... alegam logo que a gente tá negando assistência... Muitas das vezes têm alguns profissionais que não sabem abordar e diz que você tem que dobrar... Não sei nem dizer se é isso uma ameaça, mas você se sente coagida...“Ah, você abandonou, é abandono isso...” (Amarílis)
Este é apenas um trecho de um relato bem extenso sobre este conflito vivido pela profissional. Ao falar, ela repetia que não estava abandonando os bebês e que não considerava correto permanecer no trabalho sem as condições físicas e emocionais para isto. Foi um discurso
105 que envolvia sentimentos contraditórios como a culpa e a indignação diante das exigências impostas e das consequências geradas. Como exigir que um profissional permaneça em uma atividade além dos seus limites, ainda mais se esta atividade caracterizar-se pela assistência a pacientes graves, muitas vezes, em consições limítrofes, entre a vida e a morte?
O que fazer diante de um discurso que gera cobrança, ameaça e até culpa? Um discurso que, tantas vezes, está internalizado nos próprios profissionais que precisam decidir entre o que pode ser considerado abandono e a permanência altruísta, que pode resultar em falhas e até na morte dos bebês. O abandono é efetivamente uma escolha, ou ele estaria presente, de uma forma ou de outra em ambas as alternativas? Se analisarmos mais profundamente, também está presente, mesmo que temporariamente, nas outras demandas da vida: família, estudo, descanso. No deixar de lado o que, aparentemente, pode soar como supérfluo, diante da complexidade de pacientes graves. Mas, ao longo do tempo, por repetidas vezes, o que poderia significar este tipo de abandono?
O discurso, cheio de paradoxos, está presente no cotidiano destes profissionais, refletindo uma expectativa social do papel dos profissionais de saúde. A ideia da responsabilidade pela manutenção da vida, da necessidade de zelo e dedicação na assistência ao paciente, ou mesmo da caridade destinada aos doentes. Como pode ser observado na profissão de enfermagem que teve a sua origem nas irmãs de caridade que abdicavam da sua vida para atender aos doentes mais necessitados. A origem dos hospitais também está inicialmente vinculada ao atendimento das pessoas mais carentes e que não tinham os cuidados familiares durante a enfermidade. (Padilha, Mancia, 2005; Ministério da Saúde, 1944)
Estes são exemplos de raízes históricas que podem contribuir para gerar esta obrigatoriedade de “doação” de tempo e esforço, além do limite, como uma obrigação para os profissionais da área de saúde. São mensagens que permenecem tantas vezes na sociedade, interferindo nas expectativas e na percepção sobre o papel dos profissionais de saúde.
106 Além destas questões, o horizonte histórico da nossa época influencia sobremaneira nos comportamentos, dita os costumes, orienta a respeito do que é considerado certo e errado, reprovável ou louvável. A era da técnica pode ser compreendida, portanto, como o nosso horizonte histórico, que influencia as nossas atitudes diante dos desafios cotidianos. De acordo com Heidegger (2007, p. 380):
O desafio que está presente no discurso trazido pelas mídias de comunicação em massa, ressaltando a capacidade do homem de vencer obstáculos, de propor cura para novas doenças, de buscar mecanismos de prorrogar a juventude ou de procrastinar o envelhecimento. Os homens que são movidos a desafios...como “lutar com um dragão todos os dias” (Amarílis).
Fazendo uma analogia com os filmes e quadrinhos, vivemos em um mundo que valoriza o super-herói, aquele que resolve todos os problemas, que encontra soluções, enfrenta dificuldades e assume as consequências. O super-herói que é responsável pela condução da sua vida, carreira, escolhas... É aquele que precisa encontrar superpoderes para enfrentar os obstáculos. É o sujeito idealizado, forte e capaz de alcançar os resultados almejados. Será que realmente conseguimos lidar continuamente com a sobrecarga?
“O que cansa realmente na UTI Neonatal é a sobrecarga. É, a gente tem um trabalho de alta complexidade e a gente não tem tanta maleabilidade de horário, de trocas... Em “A técnica não é, portanto, meramente um meio. É um modo de desabrigar. Se atentarmos para isso, abrir-se-á para nós um âmbito totalmente diferente para a essência da técnica. Trata-se do âmbito do desabrigamento, isto é, da verdade... O desabrigar imperante na técnica moderna é um desafiar que estabelece, para a natureza, a exigência de fornecer energia suscetível de ser extraída e armazenada enquanto tal... É um extrair na medida em que explora e destaca. Este extrair, contudo, permanece previamente disposto a exigir outra coisa, isto é, impelir adiante para o máximo de proveito, a partir do mínimo de despesas. O desabrigar que domina a técnica moderna tem o caráter do pôr no sentido do desafio.”
107 relação a insalubridade, a gente recebe a mesma coisa, setor fechado, lidar com morte assim....” (Violeta).
“Eu já vi relatos de técnica de enfermagem chorando muito por ter tido uma situação que, por erro dela um bebê, por exemplo, poderia ter pedido a perna... Se doeu tanto pra ela aquele erro, é porque ela se identifica com o trabalho, não é uma falta de identificação, mas a sobrecarga que aumenta a chance de erro, que já é decorrente da falta de pessoal...” (Rosa)
Um ciclo vicioso se configura: a falta de profissionais leva à sobrecarga, que, por um lado, pode promover o adoecimento e gerar mais ausências e aumentar a sobrecarga para os que ficam; e, por outro lado, amplia o desgaste físico e psicológico resultando em possíveis falhas e até na morte de pacientes.
Além das questões referentes ao ambiente de trabalho, relatos também trazem uma reflexão sobre as pressões inerentes à atividade, ao trabalho e as consequências do mesmo. Retratam o profissional de saúde buscando a cura, tentando evitar o erro, as falhas, pelas consequências que podem gerar:
“...É uma pressão de que tem que dar certo, porque por trás de uma criança tem uma família... Eu sinto que eu tenho que fazer o meu máximo, o meu melhor... Quase o impossível pra que tudo dê certo, pra que isso não cause sofrimento pras pessoas...” (Tulipa).
Novamente se coloca em ênfase o domínio da técnica, dos instrumentos, do conhecimento que promova um retorno positivo para os pacientes. Heidegger nos faz refletir sobre esse aspecto ao afirmar que: “A técnica moderna é um meio para fins. Por isso, todo esforço para conduzir o homem a uma correta relação com a técnica é determinado pela concepção instrumental da técnica. Tudo se reduz ao lidar de modo adequado com a técnica enquanto meio... Pretende-se dominá-la.” (Heidegger, 2007, p. 376).
E o que seria esse escapar do domínio dos homens? A morte poderia ser essa possibilidade inerente à vida, e que foge ao controle dos homens. Por isso, assusta,
108 desestabiliza, gera frustração e desconforto para os que ficam. Sobre este tópico que envolve os sentimentos diante da morte dos recém-nascidos iremos abordar a seguir.
3-Os sentimentos diante da morte de recém-nascidos
Este tópico é dedicado aos sentimentos relatados pelos profissionais diante da morte de recém-nascidos. Alguns relatos revelam sentimentos de impotência e frustração. Também é contemplada a aparente contradição de se pensar em morte na maternidade, local associado à ideia de vida. Como se a morte tivesse um lugar para chegar e fosse inaceitável em outros contextos. Assim se configura o pensamento dicotômico, refletido em paradoxos: vida e morte, certo e errado, verdade e não-verdade. Não existe lugar certo para morte, assim como não há verdade absoluta, nem uma única explicação para os fatos. A morte é algo inerente a vida. Somos desde o nascimento um ser-para-a-morte. Por assim dizer, não existe hora nem lugar adequado para morrer. (Heidegger, 1927, 2015)
“...É porque assim, quando a gente pensa em maternidade, a gente pensa na vida, quando a gente pensa em UTI, a gente pensa em salvar vidas. E a gente salva? Salva. Mas quando eu falo em impotência... O sentimento que a gente tem, de forma geral, é que chega um momento que a gente não tem o que fazer... Aí, a gente precisa lidar com essa morte...Isso dá uma sensação de impotência muito grande...” (Íris)
A sensação de ver o sofrimento e não poder fazer nada para evitar aquilo, gera sofrimento nos próprios profissionais. Principalmente, quando se colocam no lugar do outro, da mãe que sofre ao perder um filho tão amado e desejado. Estes sentimentos de impotência e tristeza também aparecem em outros estudo dedicados à experiência dos profissionais de saúde em relação à morte de pacientes. (Costa, Lima, 2005; Bernieri, Hirdes, 2007; Poles, Bolso, 2006; Shimizu, 2007; Sadala, Silva, 2009; Souza e Ferreira, 2008)
109 Outro aspecto também relevante está na intensidade dos vínculos estabelecidos. Como se apresenta no relato de Violeta, quanto maior for o vínculo do profissional com o paciente e seus familiares, maior é o sofrimento do profissional diante da morte do recém-nascido:
“... Tem alguns bebês, eu não sei explicar porque, a morte é mais dolorosa... Eu oro
pelos pais, pela família, sinto pelo bebê também... Aqui eu já tive dois que me marcaram muito também pelo contato com a mãe, contato com o bebezinho, era uma mãe que tinha um vínculo muito bom com a equipe... (Violeta).
Talvez por isso, alguns profissionais desenvolvam o que autores (Gerow, Conejo, Alonzo, et al, 2009) denominaram de “cortina de proteção” estabelecendo um certo distanciamento dos pacientes considerados mais graves, tentando se proteger do sofrimento, conforme pode ser constatado nos relatos a seguir:
“A gente cria mecanismos de defesa... Porque quem cria um vínculo afetivo perde a capacidade de cuidar. Então você não vai cortar, você não vai furar, você não vai fazer uma coisa que doa numa pessoa que você goste... Alguém precisa fazer essa parte...A gente não fica insensível, mas cria formas de se proteger...” (Girassol)
“Quem cria um vínculo afetivo perda a capacidade de cuidar”. Este trecho da fala diz muita coisa. E cabe algumas ressalvas. A referência da profissional à capacidade de cuidar remete à ideia de uma dificuldade para realizar os procedimentos em virtude de um abalo emocional diante do sofrimento do outro. A compreensão do cuidado pela ontologia Heideggeriana, entretanto, concebe esta atuação profissional como uma forma de cuidado. Uma vez que somos cuidado, até a indiferença se configura como cuidado. (Heidegger, 1927, 2015) A profissional apresenta a necessidade de criar maneiras de se proteger do sofrimento para que possa realizar os procedimentos necessários, como também para que ela consiga suportar o trabalho na UTI Neonatal. O relato a seguir demonstra mais explicitamente esta necessidade de criar mecanismos de proteção para continuar trabalhando:
110 “...Acho que não era nem um mês que eu tava aqui, entraram na parada, médico, enfermeiro, fisio... E eu fiquei olhando de fora e assim a pressão caiu, eu fiquei sudorenta na hora e o bebê morreu. Quando a mãe chegou ai eles botam no colo o bebê, morto no colo... Você não tem noção de como eu passei mal... Eu desci, fiquei na calçada, chorando... Ai depois até a médica, a chefe da UTI disse: “Af Maria, você era pra tá num shopping vendendo roupa, não era pra tá aqui não” eu disse “me respeite”... Depois eu cheguei em casa mal, chorei, abracei muito minha filha... Foi bem difícil...E ai as coisas foram acontecendo, eu fui entrando mais no clima... Daquela parte emocional, você tenta dar um freio, colocar um limite entre você mesma e aquilo que tá acontecendo, pra que você não sofra tanto...” (Tulipa)
O próprio contexto exige do profissional a postura considerada adequada. Até os colegas de trabalho podem ser severos diante da expressão dos sentimentos dos demais. Valoriza-se o controle emocional, a assertividade na resolução das situações, a utilização da técnica. Assim, este limite ou freio, apresentado no trecho acima, passa a ser uma exigência do próprio profissional, como algo inerente ao trabalho, como uma condição para sobreviver naquele ambiente. É preciso “entrar no clima”. O clima falado reflete à atmosfera do ambiente, ao como as coisas funcionam, aos comportamento considerados adequados, ao ambiente mais frio e racional.
De fato, podemos pensar que ninguém aguentaria passar mal, da forma que foi apresentada, todas as vezes que morresse um bebê. Mas, por outro lado, refletimos sobre o quanto esta profissional se sentiu sozinha para lidar com estas emoções tão humanas, tão passíveis de serem expostas.
Os relatos demonstram, portanto, a necessidade de ocorrer um afastamento dos profissionais diante da possibilidade de morte iminente, uma certa preparação para o que pode ocorrer, como uma forma de proteção, de minimizar o sofrimento. Entretanto, quando a morte é anunciada por sinais e sintomas, alguns comportamentos para lidar com isto vão surgindo, seja de afastamento, de conformismo, de aceitação. Quando a morte ocorre diante de um bom
111 prognóstico, surpreende, aparece como um evento assustador, podendo gerar maior sofrimento nos profissionais:
“... Quando você começa a perceber que aquele bebê tá piorando, piorando, você começa a se afastar, você atende outro, você não fica mais com ele... As pessoas se organizam quando a gente percebe que alguém tá com um vínculo muito forte com o bebê, aí já começa a tirar de perto, já começa a botar com outro, entendeu? Todo mundo vai meio que se cuidando porque sabe que a perda vai existir, e se a gente sofrer por todas as perdas como uma pessoa da família, a gente vai junto, entendeu?” (Girassol)
Surgem, portanto, as estratégias de preservação diante do sofrimento. No relato acima, pode-se verificar um apoio aos colegas no sentido de tentar evitar um maior vinculo com os pacientes que apresenta um prognostico ruim. O distanciamento aparece como possibilidade. Uma forma de diminuir o sofrimento do profissional.
Diante do exposto, poderíamos nos questionar: De onde vêm os sentimentos de impotência e frustração diante da morte? Por que os profissionais de saúde se sentem frustrados e impotentes? É interessante, a partir desses questionamentos, refletirmos sobre o nosso horizonte histórico. Novamente, as ideias de Heidegger (1927, 2015) nos inspiram para abordar a questão da era da técnica, do quanto é difícil não ter o controle sobre as coisas, sobre os acontecimentos do mundo.
De acordo com Heidegger (2007, p. 376): “O querer-dominar se torna tão mais iminente quanto mais a técnica ameaça escapar do domínio dos homens”. Quanto mais difícil for o desafio e maior a probabilidade de perder o controle, o homem tende a buscar novas soluções e alternativas, como se lutasse contra algo que incomoda pelo simples fato de resistir ao aparente controle. Este querer-dominar pode estar presente na difícil decisão da hora de tentar