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5. Significados e concepções para avaliação no ensino de Geografia

5.3. Direcionamentos para se pensar o ensino e a aprendizagem da Geografia

5.3.1. As dificuldades e facilidades relatadas pelos professores

No tocante ao primeiro ponto de análise, perguntamos aos professores participantes da pesquisa quais as principais dificuldades (pontos negativos) e facilidades (pontos positivos), encontradas na avaliação da aprendizagem com turmas concluintes do Ensino Médio e eles relataram:

“A dificuldade que eu acho é que a maioria dos alunos tem muitas dificuldades de leitura. O ponto positivo é que raramente eles deixam questões em branco, mesmo que a questão não seja totalmente completa, eles se esforçam para que a resposta seja dada, mesmo que errem. Eu sempre falo para eles: pare para raciocinar, você deixar a questão em branco está desistindo de você mesmo. Apesar do desinteresse eu tenho a impressão que eles gostam de serem avaliados com provas, tem aluno inclusive que passa o

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bimestre inteiro sem vir a escola, só vem no dia da prova, é como se o poder da avaliação estivesse na prova.” (Cecília, professora de Geografia - pesquisa exploratória, 2016).

“Até para se situar no espaço os alunos apresentam dificuldades, quanto mais para fazer uma interpretação de um gráfico, de um texto, para fazer uma relação, uma comparação, uma explicação, tudo isso é mais complexo, eles têm dificuldade até para se localizar/descrever que é o mais simples da geografia, no 3º ano do ensino médio!” (Miguel, professor de Geografia - pesquisa exploratória, 2016).

“Uma dificuldade é a pouca leitura, eles (os alunos) não conhecem um rol satisfatório de termos/palavras, mesmo palavras simples para eles são desconhecidas. Então no caso da avaliação eu busco intencionalmente questões que tenham palavras novas, para que eles possam se apoderar desses novos termos, não é? Mesmo que durante a prova eu tenha que explicar o significado da palavra/termo, isso também acontece no 3º ano. Você tem que colocar os termos para eles conhecerem e tem que fazer a explicação e o significado daquele termo, pois eles não conhecem. Quando estou elaborando as provas penso nessas situações, acredito que quanto mais você possuir um vocabulário mais denso, você vai ter raciocínio mais efetivo, possibilidade de análises mais profundas por ser conhecedor de um maior número de termos.” (Gabriel, professor de Geografia - pesquisa exploratória, 2016).

“As dificuldades é que o aluno do Ensino Médio não chega com uma base boa para compreender textos, para escrever, e não chega com uma base boa de conhecimentos básicos, como é o caso de aritmética. Na 1ª série do Ensino Médio eu preciso trabalhar cartografia, que é uma retomada, esses conhecimentos são básicos para esses estudos, o aluno tem uma dificuldade imensa para se trabalhar o que eu chamo de “geomatemática”, como, por exemplo, os conteúdos de cálculo de fusos horários, escalas, determinar a distância entre os lugares etc. E aí, tudo isso esbarra em operações simples de matemática pelo fato do aluno não compreender determinados conceitos e operações simples. Aí precisamos criar estratégias e estudar isso de outra forma. É também uma questão de leitura, claro, que não se limita à disciplina de Língua Portuguesa. Alguns alunos também apresentam dificuldades de interpretação, sendo otimista, acredito que apenas 10% dos alunos de fato conseguem compreender e interpretar os conteúdos. O ponto positivo é que a avaliação se torna proveitosa no sentido em que o aluno demonstra que aprendeu um conteúdo, quando a turma toda não se dá bem, eu posso refletir o que pode ter acontecido de errado, e assim seguimos para dar continuidade ao trabalho.” (Rafael, professor de Geografia - pesquisa exploratória, 2016).

“Aqui nós somos um tanto quanto privilegiados, pois os estudantes vêm estudar aqui através de concurso, ou seja, há uma espécie de seleção. Mas mesmo assim há alunos que possuem dificuldades de estabelecer relações, comparações, principalmente no 1º ano. A maior dificuldade é a quantidade de alunos por turma, pois, isso dificulta o acompanhamento, só dá para notar quando eles (os alunos) estão com notas horríveis, principalmente no 1º ano, onde as turmas são gigantescas. Essa é uma dificuldade que nós temos. Outra dificuldade é a questão da base, muitos alunos são oriundos de escolas particulares, a gente não trabalha da forma dessas escolas, esses alunos são mais ou menos a metade, eles chegam aqui com muitos vícios, como por exemplo, que os pais querem ditar as regras... então, assim, aqui a gente não permite esse tipo de coisa pois dificulta bastante. Uma coisa que facilita é a

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própria instrumentação que nós temos aqui, os equipamentos, a estrutura da instituição: Datashow, biblioteca equipada com livros de qualidade e equipamentos, laboratórios, tudo isso ajuda na hora de uma pesquisa, por exemplo.” (Lívia, professora de Geografia - pesquisa exploratória, 2016).

A maioria dos docentes destacou um tipo de dificuldade geral (e dois “subtipos” de dificuldades) que se associa às suas avaliações: as limitações da formação básica em nível de Ensino Fundamental, que posteriormente se revelam no Ensino Médio, através da dificuldade de leitura e escrita. No caso do ensino de Geografia, os docentes revelaram dificuldades para compreensão dos conteúdos de cartografia, principalmente por remeterem a objetos do conhecimento matemáticos e geométricos.

Quanto à fala dos professores, chamou a atenção a compatibilidade de informações quando a referência é a dificuldade de leitura e escrita, mesmo a pergunta sendo aberta e feita de modo geral. Com relação a dificuldades em conteúdos de Geografia, como pôde ser observado, o único conteúdo/tema destacado pelos docentes foi “cartografia”, curiosamente, os estudantes participantes da pesquisa ratificaram essa constatação ao afirmar ter dificuldades com objetos do conhecimento associados à cartografia, conforme será visto ainda nesse capítulo.

Essas informações, em nossa ótica, revelam indícios da necessidade de se buscar mais minuciosamente entender os elementos que influenciam nessas possíveis dificuldades. Dessa forma, numa perspectiva construtivista, destacamos alguns aspectos que podem ajudar na análise: o primeiro diz respeito à necessidade de se trabalhar mais intrinsicamente a Geografia em parceria com as disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, tanto no Ensino Fundamental quanto no Ensino Médio; o outro aspecto se refere ao tratamento dos conhecimentos advindos da Cartografia para o ensino de Geografia no contexto da formação de professores. Esse último aspecto é importante pelo fato do conhecimento cartográfico ser fundamental para a compreensão e a representação dos fenômenos espaciais.

Para além disso, não podemos deixar de analisar criticamente o contexto em que os estudantes das escolas públicas estão situados ao ingressar no Ensino Médio. Muitos desses jovens estudantes já ingressam desmotivados nessa faixa de escolaridade, seja pela realidade social em que estão inseridos, seja pelo próprio ambiente da escola pública não conseguir ofertar uma condição formativa mais afetiva e acolhedora. Essa constatação pode ser verificada nos dados apresentados no terceiro capítulo, referentes ao perfil socioeconômico dos estudantes.

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Nesse sentido, ao ingressarem no Ensino Médio os estudantes se defrontam com uma realidade socioeducativa não muito diferente da fase anterior e, em decorrência da formação frágil, grande parcela deles não encontram um “suporte”, um direcionamento instrutivo. Essas inferências se tornam necessárias, pois uma constatação que fazemos neste capítulo é a de que a Geografia ensinada, não em todas as escolas, mas em parcela das instituições públicas acompanhadas na pesquisa exploratória, não se aproxima do cotidiano desses jovens estudantes e de suas respectivas realidades, por mais que o discurso dos professores aponte no sentido contrário. A dificuldade não é apenas de leitura e escrita da Língua Portuguesa e/ou de Matemática, mas é também de leitura de mundo e dos fenômenos espaciais/geográficos, e aqui todos nós devemos ter nossa parcela de responsabilidade, não somente os contextos formativos anteriores ao Ensino Médio. Pensando nisso, Cavalcanti (1998) destaca alguns pontos importantes para a presente reflexão a partir de pesquisa realizada com estudantes e professores de Geografia sobre a construção de conceitos no ensino:

A escola tem a função de “trazer” o cotidiano para seu interior com o intuito de fazer uma reflexão sobre ele a partir de uma confrontação com o conhecimento científico. A prática cotidiana, principalmente de crianças e adolescentes de classes sociais mais baixas, geralmente com pouca experiência e pouco conhecimento de lugares diferentes até mesmo dentro de sua cidade, o que lhes dá um restrito horizonte geográfico, é composta de uma espacialidade imediata muito restrita e de uma requisição baixa de reflexão (o meio não é muito estimulador). O mundo fora da prática imediata é geralmente mostrado apenas pela televisão, e nela os lugares do mundo são espetáculos “à parte”, vistos como fora de suas vidas. Sendo assim, os conteúdos de Geografia trabalhados na sala de aula ficam muito distantes do campo de visão e de preocupação dos alunos. Nesse sentido, é compreensível o depoimento de um dos alunos sobre por que considera difícil estudar Geografia: “Porque a gente nunca viu, uai! Por isso é que é difícil”. (CAVALCANTI, 1998, p. 129, 131 e 132).

Em relação aos pontos positivos constatados a partir da concepção dos professores sobre a avaliação da aprendizagem em Geografia, os docentes não destacaram muitos aspectos, apenas a professora Cecília enfatizou: “raramente eles (os alunos) deixam questões em branco, mesmo que a questão não seja totalmente completa, eles se esforçam para que a resposta seja dada, mesmo que errem”, o que não indica muitos elementos no contexto da análise. Já a professora Lívia disse: “um ponto positivo da avaliação são os recursos didáticos disponíveis na instituição”; isso se revela como um ponto positivo para a diversificação dos instrumentos e estratégias de avaliação, revelando, assim, o fato das condições infraestruturais e de trabalho ser um aspecto importante para o ensino de qualidade.

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