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As Dimensões da Convergência e as Políticas de Comunicação

Capítulo I – O Fenômeno da Convergência

1.2 As Dimensões da Convergência e as Políticas de Comunicação

Considerando a observação crucial de Suzy Santos, sobre a característica estrutural da indústria cultural, esse trabalho visualiza um ponto de interseção entre fatores tecnológicos, midiáticos, sociais e econômicos. Trabalha-se aqui com a premissa de que a

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A discussão entre “pessimistas e otimistas” se refere aos que não acreditam na possibilidade da tecnologia de mudar a estrutura do capitalismo, portanto sua natureza repressiva e desigual, e os que vêm a tecnologia como possibilidade de transformações profundas, democráticas. A visão positiva sobre a tecnologia pode incluir desde Brecht, com seu otimismo com a invenção do rádio (ORTIZ, 1986), passando por Lazarfeld até Pierre Levy, Fukuyama (SANTOS, 2004) e Negroponte, (LACERDA, 2004). A negativista, inclui Adorno, e outros que seriam melhor enquadrados como céticos, entre eles Sérgio Capparelli, Mosco (SANTOS,2004), Dominique Wolton (MONTARDO, 2002).

política seria esse ponto de interseção onde todas as variáveis determinantes entrariam em conflito, posteriormente atingindo-se o consenso. Entendendo que nem a estrutura da indústria cultural, nem a tecnologia, nem a apropriação social, nem a econômia são determinantes por si só, pois elas podem ser consideradas elementos de grande influência no processo político. Esse processo político caminharia para o consenso, para o fim de uma disputa que terminaria no Estado. O produto final desse consenso estaria expresso em criações normativas e institucionais. A intervenção estatal, apesar de sozinha também não ser determinante, seria crucial para o desenvolvimento tecnológico e social. Na verdade, as interações entre tecnologia, sociedade, economia e Estado formariam um jogo complexo cujo resultado configuraria os meios de comunicação - considerando evidentemente a questão da característica cíclica da estrutura da indústria cultural, observado em seu processo constante de equilíbrio-desequilíbrio. Sobre isso, Castells (2004: 44) afirma:

“Embora não determine a tecnologia, a sociedade pode sufocar seu desenvolvimento principalmente por intermédio do Estado. Ou então, também principalmente pela intervenção estatal, a sociedade pode entrar num processo acelerado de modernização tecnológica capaz de mudar o destino das economias, do poder militar e do bem-estar social em poucos anos. Sem dúvida, a habilidade ou inabilidade de as sociedades dominarem a tecnologia e, em especial, aquelas tecnologias que são estrategicamente decisivas em cada período histórico, traça seu destino a ponto de podermos dizer que, embora não determine a evolução histórica e a transformação social, a tecnologia (ou sua falta) incorpora a capacidade de transformação das sociedades, bem como os usos que as sociedades, sempre em um processo conflituoso, decidem dar ao seu potencial tecnológico.”

A questão da adoção pelo Estado de certo tipo de modelo regulatório11 setorial seria uma escolha política, fruto de interações complexas entre sociedade (incluindo atores econômicos) e tecnologia, cujos fatores determinantes não estariam presentes apenas na própria estrutura do sistema capitalista, mas também na influência do desenvolvimento tecnológico e sua interações com a sociedade, características inerentes ao fenômeno da convergência.

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Entende-se “modelo regulatório” composto pelos marcos normativos e as autoridades reguladoras estabelecidas por eles.

A busca estratégica de novos modos de regulação da organização social se dá no campo da política e da administração, onde são desenvolvidos projetos e obras que possibilitam a constituição das redes de comunicação. A disputa política em torno da regulação das comunicações considerará o desenvolvimento tecnológico, além de envolver uma gama complexa de atores e interesses.

De acordo com Ferguson (1998), a política de comunicação se refere à luta do poder sobre os meios de comunicação, sobre o curso de seu desenvolvimento e de suas definições normativas. Ele diz que a política normativa dos meios de comunicação se refere a qualquer tipo de controle social, intervenção ou supervisão para sustentar benefícios dirigidos a uma parte da sociedade ou ao “interesse público geral”. As políticas normativas se aplicam tanto à estrutura legal e econômica dos meios de comunicação, quanto à natureza do conteúdo que eles produzem e distribuem. Ferguson argumenta que as políticas normativas tendem a responder às mudanças tecnológicas, às circunstâncias políticas e econômicas.

A escolha de um modelo regulatório setorial surge do embate político travado nessas esferas. Ferguson (1998: 101) levanta uma questão que merece reflexão, ele afirma que:

“... os meios de comunicação se tornaram uma atividade econômica muito mais importante – muito mais próxima dos negócios do que da cultura – baseadas em tecnologias cada vez mais complexas e organizadas em escala global.”12.

Nesse contexto descrito por Ferguson a convergência entra como fator importante de influência no debate de políticas de comunicação. Vários autores relatam sobre a necessidade de adaptação da regulação provocada pelo fenômeno da conver gência, entre eles: Wild (2008), Simpson (2005), Geradin (2005), Garcia-Murillo (2005), Shin (2006). A opinião deles pode até ser considerada como meramente discursiva, apesar de cada um apresentar argumentos científicos bastante convincentes. No entanto, só o fato deles dizerem que a convergência, ou seja, a tecnologia influencia na necessidade de adaptar a regulação, já sinaliza que o debate político da escolha de um modelo regulatório está permeado pela discussão tecnológica.

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Garcia-Murillo defende uma tese, baseada no Institucionalismo Econômico, sobre como um modelo regulatório pode mudar por causa do fenômeno da convergência. De acordo com a tese, o desenvolvimento tecnológico implica aumento dos custos de transação do setor de comunicações tornando suas normas e instituições obsoletas. 13 A análise feita pela autora diz que os formuladores de políticas públicas acreditam que uma nova regulação, adaptada ao fenômeno da convergência, diminuiria os custos de transação. Segundo ela, quando as normas e as instituições reguladoras causam esse tipo de pressão, as empresas do setor de comunicação se engajam em convencer os formuladores de políticas a mudar as regras. Portanto, a tecnologia seria o catalisador que iniciaria o processo de discussão político de escolha de um novo modelo regulatório.

A tese apresentada por Garcia-Murillo vai ao encontro dos pressupostos estruturais da indústria cultural. Isso porque todo setor do sistema capitalista busca o lucro, e tende a recorrer ao Estado para que isso seja garantido. 14 Desta forma é possível avaliar que o determinismo como parte de um ideário técnico, muito próximo às ciências econômicas atuais, precisa ser rechaçado. Isso desde que a importância do fator tecnologia nas questões econômicas, políticas e normativas da indústria cultural seja levada em consideração.

Toda essa discussão apresentada até aqui sobre as dimensões do fenômeno da convergência visa compreender a formulação e a implementação de políticas públicas para as comunicações nos tempos atuais. Entender como a influência do desenvolvimento tecnológico na escolha de um modelo de regulação para as comunicações eletrônicas se relaciona ou se confronta com a lógica dos interesses comerciais e com a lógica dos valores

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Custos de Transação - quando as leis e a regulação criam tensões, os custos de transação se elevam. Eles sobem porque as empresas mostram-se incapazes de se engajar em certas atividades; assim, de maneira paliativa, tentam fazer com que seus novos serviços se encaixem nas antigas regras existentes. As empresas podem ser levadas a atuar de forma economicamente ineficiente ao tentar cumprir as regras anacrônicas e inadequadas para o provimento de novos serviços – o que aumenta os seus custos de transação. (GARCÍA- MURILLO, 2005).

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Bolaño fala sobre dois conjuntos de funções do Estado, relacionando os dois aspectos de sua ação, o de política econômica e o de política social. “O primeiro caso, trata-se da ação do Estado sobre a atividade dos

capitais individuais e, no segundo, sobre as relações entre a classe dos capitalistas e a classe dos trabalhadores assalariados (mediante políticas macrossociais de regulação) e a própria relação capital/trabalho no interior do processo produtivo (mediante uma série de regulamentações sobre a jornada de trabalho, condições de salubridade, etc). Em todos os casos, há evidentemente uma intervenção do Estado que altera as condições objetivas do processo de acumulação de capital.” (BOLAÑO, 2000: 76). “A Indústria Cultural, forma específica da produção cultural sob o capitalismo monopolista, é cada vez mais o elemento que articula grande capital, Estado e massas.” (BOLAÑO, 2000: 270).

dos interesses democráticos, é fundamental nesse processo de investigação. Torna-se, então, necessário saber até que ponto a influência da tecnologia está presente nos interesses microeconômicos das empresas e no ideário democrático de parte da sociedade no momento que esses se chocam para produzir um consenso em torno de normas e instituições novas, cujo resultado seria um modelo regulatório convergente. Como esses atores se organizam e como eles produzem modelos regulatórios ideais para os meios de comunicação ainda continua sem resposta. Adotar um posicionamento crítico sobre a força que a tecnologia irrompe sobre as políticas de comunicações é basilar. Contudo, mais importante ainda seria formar um elo consistente entre a teoria da comunicação e a pesquisa sobre políticas públicas no sentido de construir um modelo analítico capaz de abordar a influência da convergência nas escolhas de políticas de comunicação.

Capítulo II – Modelos Regulatórios na era da Convergência