2. FAMÍLIA E PARENTALIDADE
2.6. As dimensões da parentalidade
autores focam as suas investigações nas habilidades e competências dos cuidadores no
exercício da função parental. Cruz e Pinho (2006) definem a parentalidade como “um
conjunto de capacidades globais dos pais para educar as crianças, construído ao longo da vida,
a partir das experiências com os próprios pais e das esperanças criadas pelo nascimento dos
filhos” (p.11). Esta perspectiva traz a ênfase para o papel do(a) cuidador(a) e na pessoa que
realiza esta atividade.
Outra perspectiva para o estudo é a compreensão sobre os processos de parentalidade,
que podem ser definidos como atividades que são especificamente destinados a promover o
bem-estar da criança. De acordo com Hoghughi (2004), as atividades principais para uma
parentalidade positiva, promotora de desenvolvimento humano podem ser divididas em:
cuidado, controle e desenvolvimento. Cada uma destas atividades apresenta como finalidades:
“(1) a prevenção da adversidade e qualquer coisa que possa prejudicar a criança, e (2) a
promoção do positivo e qualquer coisa que possa ajudar a criança” (p.).
Na literatura sobre o exercício da parentalidade aparecem duas dimensões que
caracterizam as interações entre pais/ adultos e filhos/ crianças: as práticas educativas
parentais (centrado no processo) e os estilos parentais (centrado na pessoa). As práticas
educativas referem-se às estratégias contínuas e habituais utilizadas pelos pais e/ ou
responsáveis para atingir determinados objetivos em relação à disciplina e formação do(a)
filho(a) de acordo com o contexto e circunstâncias. O uso de explicações ou de punições são
exemplos de práticas educativas parentais (REPPOLD, PACHECO, BARDAGI & HUTZ,
2002; CECCONELLO, DE ANTONI E KOLLER, 2003; SZYMANSKI, 2004). Já os estilos
parentais se referem às características e expressões dos comportamentos dos pais nas relações
com os filhos, que contribui para a constituição de um clima emocional (REPPOLD,
PACHECO, BARDAGI & HUTZ, 2002; CECCONELLO, DE ANTONI E KOLLER, 2003;
WEBER, PRADO, VIEZZER, & BRANDENBURG, 2004). A afetividade e a autoridade são
exemplos de expressões de estilos parentais.
As práticas educativas parentais podem ser classificadas em: indutivas e coercitivas,
segundo os estudos realizados por Hoffman (1960; 1975). Neste estudo as práticas educativas
familiares têm como principal objetivo a disciplina e a mudança do comportamento infantil.
As práticas indutivas utilizam de recursos, como conversas, explicações, ordenamentos, que
visam comunicar os desejos dos pais e a mudança de comportamento voluntária por parte da
criança sem nenhum tipo de coerção. Já as práticas coercitivas utilizam de técnicas de
aplicação de força, como punições físicas, ameaças, que reforçam e reafirmam o poder
parental compelindo a criança a adequar o seu comportamento.
Por muito tempo na história da educação no ambiente familiar, a função educativa da
família esteve associada diretamente à punição e a correção de comportamentos. Apesar de
vários estudos apontarem os prejuízos destas práticas ao desenvolvimento infantil, no
cotidiano das famílias pouco se considerava acerca da conseqüência psicológica e emocional
destes atos em crianças e adolescentes. Ainda hoje, muitos pais exercem um forte poder
coercitivo sobre o comportamento dos filhos, justificando as agressões como práticas
disciplinares punitivas transmitidas ao longo das gerações familiares (CECCONELLO, DE
ANTONI & KOLLER, 2003). No entanto, já aparecem algumas tentativas de mudança ou
oposição ao modelo educacional familiar baseado na punição física e psicológica (GARCIA,
2007). A possibilidade de diálogo entre diferentes gerações familiares é um importante
indicativo destas alterações na educação familiar. Estas alterações estão diretamente
relacionadas ao exercício do poder de pais sobre a ação de crianças e adolescentes no
ambiente familiar.
O modelo teórico de Baumrind (1966) foi um marco nos estudos sobre controle
familiar e serviram de base para as pesquisas sobre os estilos parentais. Esta autora propôs
uma classificação dos modelos parentais em: autoritário (exerce muito controle sobre o
comportamento infantil), permissivo (exerce pouco controle sobre o comportamento infantil)
e autoritativo (equilíbrio entre autoridade e liberdade no controle do comportamento infantil).
O modelo autoritativo, considerado o ideal pela autora, seria definido como aquele em que os
pais conduzem as atividades das crianças de maneira racional e orientada, incentivam o
diálogo, exercem firme controle nos conflitos e divergências. No decorrer dos anos, surgiram
outras pesquisas que reformularam este modelo teórico e classificaram os estilos parentais em
quatro dimensões: autoritativo, autoritário, indulgente e negligente (MACCOBY & MARTIN,
1983). Neste novo modelo o termo permissivo se divide em indulgente e negligente.
Indulgente se refere ao comportamento de pais com baixo controle e dificuldades na
delimitação de regras, mas com alta responsividade
4, pois se preocupam com o bem-estar e
com as demandas das crianças. Já o estilo negligente resulta de baixos níveis de controle e
responsividade, em que os pais não apresentam expressões de afetividade e exigência sobre o
comportamento infantil.
Os estilos parentais autoritário, indulgente e negligente se contrapõem aos
pressupostos presentes na Teoria Ecológica de Urie Bronfenbrenner (1979/ 1996), que
4
O termo responsividade é definido na literatura como relacionado a comportamentos parentais de apoio e
consenso, que favorecem a individualidade e a autonomia dos filhos (CECCONELLO, DE ANTONI &
KOLLER, 2003).
apresenta como proposta três dimensões nas relações entre pais e filhos: a reciprocidade, o
equilíbrio de poder e a afetividade. Tais dimensões contribuem para o desenvolvimento dos
membros do grupo familiar. O aumento da colaboração das crianças e adolescentes na
negociação de decisões nos grupos familiares, bem como as relações afetivas, de
reciprocidade e cooperação entre os membros familiares são fatores que demonstram uma
busca do coletivo familiar pela autonomia e participação de todos (o que inclui as crianças e
os adolescentes) no convívio em família.
Na minha dissertação de mestrado “Educação nas famílias de pescadores artesanais:
transmissão geracional e processos de resiliência” (GARCIA, 2007) foi possível identificar
mudanças nos padrões de comunicaçãoentre pais e filhos ao longo das gerações das famílias
de pescadores artesanais entrevistadas. Tais relatos apontam para uma ruptura do silêncio, da
hierarquia das decisões, a abertura para o diálogo e dar voz às crianças. Isso demonstra que os
membros das famílias estudadas aprenderam a ouvir uns aos outros e a compartilhar
informações de diferentes assuntos. Na opinião dos membros da segunda geração, estas
mudanças contribuem para o aumento nos comportamentos e atitudes de colaboração das
crianças e adolescentes na solução de problemas. Ao falarem sobre o que pensam e sentem
diante das adversidades vivenciadas, as gerações mais jovens sentem-se mais à vontade para
fazer reflexões com seus pais sobre temas atuais que ameaçam muitos jovens, como gravidez
na adolescência e uso de drogas. Tais mudanças nos processos de comunicação entre pais e
filhos são apontados por Neyrand (2005) como um dos sintomas da pós-modernidade, em que
a subjetividade infantil está condicionada por um ideal democrático nas relações privadas (em
torno das noções de liberdade individual, de autodeterminação e de igualdade entre as
pessoas).
Singly (2007) também enfatiza mudanças nos modelos de educação familiar
contemporâneos. Este autor faz referência à “individualização da criança” e a
“democratização das relações educativas”, ou seja, a criança está mais autônoma e
participativa não só na família, mas também em outros espaços em que circula e com outros
interlocutores que mantém contato. Sendo assim, o autor afirma que as crianças na atualidade
têm uma educação mais socializada que as gerações precedentes e uma aprendizagem
horizontalizada, que não tem mais a função de modelar o comportamento infantil e sim de
desenvolver seus próprios recursos e singularidades.
Diante disso, a literatura atual sobre o conceito de parentalidade tem em comum o
reconhecimento sobre a diversidade de práticas parentais, o seu conteúdo complexo e em
mudança. Dependendo da qualidade das relações familiares, a parentalidade pode ser uma
atividade ao longo da vida.
No documento
EDUCAÇÃO PARENTAL: ESTRATÉGIAS DE INTERVENÇÃO PROTETIVA E AS INTERFACES COM A EDUCAÇÃO AMBIENTAL
(páginas 30-34)