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Capítulo V: Contos tradicionais portugueses

V. 2. As Duas Comadres

Atentemos agora ao filme As Duas Comadres, realizado por Artur Correia em parceria com Ricardo Neto, com referência à região do Minho. A inspiração para estes 6’45 de desenho animado, revela Artur Correia, foi mais precisamente a zona de Melgaço.

Ao contrário de O Caldo de Pedra, os créditos iniciais já não explicam se foi feito algum trabalho de documentação etnográfica, mas o filme começa com uma música tocada a gaita de foles. A acompanhar estes créditos, onde no filme analisado

anteriormente estava a caldeira em que o frade viria a cozinhar o seu caldo de pedra, aparece agora o desenho de um espigueiro de pedra.

A animação começa novamente com uma panorâmica que localiza a ação. Desta vez o cenário é montanhoso, há muita vegetação e campos cultivados junto a uma povoação que se avista ao longe. Em vez de brancas, agora as casas são cinzentas e a sua disposição é mais irregular que no primeiro filme. Quando os realizadores mostram mais detalhadamente a aldeia, percebe-se que a cor cinzenta se deve à pedra de que são feitas as suas paredes. Os telhados não são cobertos com telha, como nas casas anteriores, mas sim com troncos, dispostos de maneira irregular.

A sonoplastia faz do vento uma constante, para reforçar o frio que ali se faz sentir, enquanto dois meninos pequenos estão sentados junto a uma pequena fogueira dentro de uma dessas casas com paredes de pedra. O interior da casa revela-se bastante pobre, com apenas alguns bancos de madeira, uma bacia junto à porta e as paredes não têm outro revestimento interior que proteja melhor do frio. Para reforçar ainda melhor o desconforto das crianças, estão ataviadas com cachecóis e, ainda assim, quando a sua mãe – uma pequena senhora vestida de preto – entra em casa, agasalha-os mais.

Todas as semanas, a pobre mulher faz o percurso a pé até à casa de uma comadre mais rica, que lhe oferece dois pães, e regressa para partilhá-los com os filhos. Neste percurso, os realizadores fizeram questão de fazer a mulher passar, dia e noite, por um cruzeiro, um espigueiro, pequenas casas de paredes de pedra dispersas e um riacho que atravessa pondo os pés em cima de um caminho de pedras que não estão submersas, compondo assim aquilo que consideravam adequar-se melhor à paisagem da aldeia minhota.

A determinada altura, é revelada uma vista aérea da povoação, que mostra que esta é composta por apenas nove casas e uma igreja, que Artur Correia afirma ter sido inspirada na igreja de Castro Laboreiro.

A casa da comadre mais abastada é também mais acolhedora que a outra. Em vez de cinzento, o seu interior é laranja, cor do lume que emana de uma fogueira em abundância. Além dos bancos onde se senta perto da fogueira, a casa está bastante mais apetrechada: junto às paredes há barris, sacos, enchidos e alguns instrumentos de cozinha pendurados na parede. A sonoplastia inclui, quando a comadre pobre se

aproxima desta casa, o cacarejar de galinhas e o balido de ovelhas, que explica que a comadre rica terá criação de gado.

A representação da pobreza e a riqueza de ambas não é só conseguida através das diferenças entre as suas casas. Há um momento em que, enquanto a comadre rica come à dentada um bocado de carne, que tira de um tabuleiro de barro que tem ao colo e segura com as mãos para levar à boca, a comadre pobre partilha o pão com os dois filhos. Além disso, as roupas da comadre mais abastada são um pouco mais coloridas: um lenço castanho protege-lhe a cabeça e tem vestida uma camisola verde e uma saia cinzenta, coberta por um avental negro. Já a mais pobre usa sempre uma capa preta pela cabeça e, por baixo, uma camisola castanha, uma saia branca e umas meias de riscas pretas e brancas.

A comadre pobre e a comadre rica serão as personagens principais desta história. Todos os dias a comadre rica pergunta à mais pobre “Comadre, como está?”, ao que a outra lhe responde “Eu bem a graça de Deus, comadre!”. Esta resposta deixa sempre a comadre mais rica indignada, já que não acredita que alguém passe bem com apenas dois pães e sem qualquer outra fonte de sustento. Então, um dia, decide não lhe dar mais pães para ver qual seria a sua resposta.

Mais uma vez, as personagens são caracterizadas também através de marcas orais do discurso, que encontram exemplo em frases como a acima descrita, numa caricatura do sotaque minhoto que só fica completa com a substituição dos “s” pelos “x”.

Na semana em que a comadre pobre se vê sem ajuda, desabafa com os filhos junto à fogueira: “Ora valha-me Deus, que hei-de eu comer mais os meus filhos esta semana, se eu não tenho nada... olhem, filhos, a gente tem ali uma galinha e eu vou matá-la e temos ali um pataco. Compro um pãozinho e dez reis de arroz e vou à igreja convidar Nosso Senhor para vir cear com a gente, que é uma ceia boazinha”.

E assim fez: preparou a refeição e dirigiu-se à igreja para rezar. Para aumentar o clima de adversidade desta situação, os realizadores fizeram a mulher realizar o percurso até à igreja enquanto nevava e as casas iam ficando cobertas de branco.

À noite, enquanto ceava com os filhos, em vez do “divino pai”, aparecem à porta da mulher três mendigos. Apesar de pobre, esta recebe-os amavelmente e partilha com eles a refeição. Mas como o seu convidado principal não chegava, ela volta à igreja para

prestar satisfações e uma voz vinda do céu explica-lhe que já lá fora “deus padre, deus filho e deus espírito santo” e que ela deveria regressar a casa porque iria ter tudo em abundância.

Assim que ficou a saber desta história, a comadre rica vai à igreja convidar também o seu “rico Nosso Senhor” e promete-lhe uma refeição melhor que a da sua comadre. Mas quando aparece à porta um mendigo, ela recusa-lhe comida, e não tem depois direito a nenhuma das regalias que Deus dera à mulher pobre.

Antes da análise do próximo conto, importa referir que, em comparação com o primeiro, este é já mais pobre em referências. Não se insistiu mais na reprodução de obras de artistas locais ou na referenciação a pesquisa etnográfica.