TÓPICO 1 — ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: EVOLUCIONISMO, DIFUSIONISMO,
4.3 DIFUSIONISMO NORTE-AMERICANO: FRANZ BOAS E O HISTORICISMO OU
4.3.1 As duas principais comunidades estudadas por Franz Boas
a) SOCIEDADE INUÍTE
Os inuítes, também chamados pelos visitantes de esquimós, são povos
que habitam a Ilha Baffin, localizada em território canadense, no Ártico. A
origem deste grupo data de 4.000 anos. As relações que desenvolveram com o
ambiente inóspito resultaram em uma cultura enraizada, que os fez desenvolver
conhecimentos, habilidades e tecnologias próprias, adaptadas ao ambiente
em que vivem. No período em que foram pesquisados por Boas, ainda viviam
exclusivamente da caça, da pesca e do comércio de peles com alguns europeus.
Até 1940 ainda tinham pouco contato com o restante do Canadá, mas atualmente
recebem apoio em todas as esferas institucionais, como escolas, saúde e governo.
Sua atividade econômica está mais variada, trabalham em vários setores, incluindo
o setor de construção, as mineradoras, as empresas de extração de petróleo e
gás. Além disso, possuem atividades administrativas e no governo. No entanto,
muitos inuítes continuam a realizar a caça e pesca como incremento na renda.
FIGURA 5 - SOCIEDADE INUÍTE
FONTE: <http://www.nunatsiaqonline.ca/pub/photos/Qaernermiut_Inuit_on_Era_570.jpg>.
Acesso em: 20 jul. 2015.
b) SOCIEDADE KWAKIUTL OU KWAKWAKA'WAKW
Os kwakiutl são índios norte-americanos, que vivem no Canadá, ao
longo das margens dos cursos de água entre a Ilha de Vancouver e o continente.
O nome kwakiutl foi difundido por Franz Boas, e é normalmente utilizado
por pessoas de fora da sociedade. As 15 tribos que a compõem se denominam
Kwakwaka'wakw (aqueles que falam a língua Kwak’wala) - Tradicionalmente
os Kwakiutls subsistiram principalmente pela pesca, caça e coleta. Além disso,
eles possuem uma tecnologia baseada em madeira, como o entalhe de canoas,
de totens e das fachadas das casas, ornadas com elementos de sua cultura. Sua
sociedade foi estratificada por categoria, que foi determinada, principalmente,
pela herança de nomes e privilégios. Os indivíduos hierarquicamente superiores
possuem o direito de cantar certas canções, usar determinadas cristas e máscaras
cerimoniais. Em 2014, as 15 nações e faixas que compõem o Kwakwaka'wakw
contavam com cerca de 7.700 pessoas.
FIGURA 6 - TRIBO KWAKIUTLS
Franz Boas via valor intrínseco na pluralidade das práticas culturais no
mundo e era profundamente cético com relação a qualquer tentativa política ou
acadêmica de interferir nessa diversidade. Ao escrever sobre a dança kwakiutl,
por exemplo, ele diz que:
A dança é um exemplo da relação da cultura com o ritmo, e por isso
ela não deve ser reduzida a uma mera “função” da sociedade (como
pareciam preferir os antropólogos sociais ingleses). Em vez disso,
é preciso perguntar o que esse ritmo é para a pessoa que dança, e a
resposta só pode ser encontrada examinando os estados emocionais
que geram a são gerados pelo ritmo. (ERIKSEN, 2012, p. 54).
Por compreender as culturas como fenômenos autônomos, Franz Boas
abandonou as perspectivas deterministas sobre as influências biológicas na
composição da cultura. Nesse sentido, o autor contribuiu de forma significativa
à causa multiculturalista, uma vez que escreveu artigos sobre a questão do
negro nos EUA. Além disso, em suas pesquisas influenciou estudiosos de boa
parte do mundo a desenvolverem trabalhos com a perspectiva relativista, na
perspectiva de que o que diferencia os grupos humanos são os determinantes
culturais e não biológicos.
Para aprofundamento desta
temática, sugerimos o documentário
“Estranhos no Exterior: as correntes
da tradição”, que trata sobre a vida
e o trabalho de Franz Boas com
a sociedade inuíte. Disponível em:
< h t t p s : / / w w w . y o u t u b e . c o m /
watch?v=zK5lYPeAbDM>. Acesso
em: 20 jun. 2015.
DICAS
Franz Boas deixou um legado muito importante para os acadêmicos
que trabalharam com ele. Muitos continuaram seus estudos e outros fundaram
novas escolas de pensamentos. Ruth Benedict, por exemplo, foi sua sucessora
na Universidade de Colúmbia e organizadora da “Escola da Cultura e
Personalidade”. Além dela, uma importante antropóloga, conhecida como
Margaret Mead, continuou a obra de Benedict e se tornou a figura pública mais
influente da história da antropologia americana. Vejamos a seguir um pouco mais
5 A ESCOLA DA CULTURA E PERSONALIDADE OU
CONFIGURACIONISMO CULTURAL
A Escola da Cultura e Personalidade, ou Configuracionismo Cultural, é
a quarta escola de orientação antropológica em sequência histórica. Ela recebe
forte influência do Particularismo Histórico de Franz Boas, sendo considerada
um prolongamento do difusionismo norte-americano, porque também
representa uma abordagem de culturas particulares, conforme Boas defendia
(uma unidade singular e individual de estudos). Seus principais representantes
foram alunos de Franz Boas. São eles Edward Sapir, Ruth Benedict e Margareth
Mead. Além da influência de Boas, essa corrente antropológica também sofreu
influências de Sigmund Freud (considerado o pai da psicanálise) e do filósofo
Friedrich Nietzsche.
A corrente historicista, sobre a qual foi fundada a Escola da Cultura e
Sociedade, se diferencia das escolas funcionalista e estruturalista, como poderemos
verificar ao longo deste tópico, porque ela julga importante reconstruir a história
das culturas, para poder analisá-la e compreendê-la, o que não ocorre nas escolas
citadas, que acreditam que observando o presente em uma sociedade é possível
compreendê-la. Já a Escola da Cultura e Personalidade procurou explicações para
a individualidade das culturas particulares. Chamou a atenção para os autores
desta corrente antropológica o fato de que, mesmo que duas culturas diferentes
tomem de empréstimo um padrão cultural, em cada uma delas ele sofrerá
transformações, ou seja, o padrão cultural adquirirá traços específicos de cada
cultura, o que pode ser compreendido como um processo de personalização do
padrão cultural. Vejamos o que diz Mello (2013, p. 237):
De certo modo, os configuracionistas não desprezam a cultura. Apenas
reconhecem os indivíduos como sujeitos e objetos da cultura. Dessa
forma, as características dos indivíduos deveriam ser idênticas às
características da cultura a que pertencem. Assim como, no indivíduo,
não existem separadamente princípios religiosos, econômicos,
políticos, jurídicos, etc., mas uma resultante, uma configuração, um
“gênio”, um estilo de ser que dirige e conforma o comportamento de
todos os membros desta cultura.
A Escola da Cultura e Personalidade busca a integração e a singularidade
do todo, tendo como tema básico a INTEGRAÇÃO DA CULTURA.
Para a Escola da Cultura e Personalidade, a CULTURA seria um
conjunto integrado de elementos culturais encontrados em determinado tempo
e espaço, cujas partes devem estar de tal modo entrelaçadas que formem um
todo coeso e uniforme, pois se uma das partes for afetada, automaticamente
afetará as demais.
Seus principais representantes desta escola tentaram interpretar as
culturas em termos psicológicos de personalidade básica. O seu paradigma
central é que uma personalidade básica é partilhada por todos os membros
de uma cultura. Os autores estabelecem uma tipologia cultural, na qual
haveria culturas com padrões diferenciados. Ruth Benedict compreende que
haveria dois padrões típicos de culturas: dionisíacas (centradas no êxtase) e
apolíneas (estruturadas no desejo de moderação). Já a antropóloga Margaret
Mead identifica três tipos de cultura. São elas: pré-figurativas, pós-figurativas
e cofigurativas. Sobre essas diferentes noções de cultura, veremos a seguir.
5.1 PRINCIPAIS REPRESENTANTES DA ESCOLA DE
No documento
Prof. Kelvin Custódio Maciel Prof. a Luciane da Luz Prof. Pedro Fernandes Leite da Luz
(páginas 90-94)