A definição do LD como uma mercadoria, entendida na perspectiva dos trabalhos de Apple (1995), impõe a necessidade de estabelecer uma discussão sobre o papel que as editoras cumprem enquanto produtoras, distribuidoras e comercializadoras desse produto, nas escolhas que os professores e as escolas fazem.
Esse papel deve ser analisado, de um lado, na relação com as definições dadas pelas políticas públicas e, de outro, do ponto de vista da “economia do livro didático” (APPLE, 1995).
No Brasil, a partir da instituição do PNLD, o sistema serviu de base para o fortalecimento de grupos editoriais, que, organizados, passaram a exercer amplo domínio sobre a produção e venda de LDs para as escolas públicas e assim,
indiretamente, influenciando a cultura da escola, a educação brasileira, de forma ampla.
Tendo o Estado como o maior comprador de LDs, as editoras passam a se organizar para esse programa, que, deixando de adquirir todos os livros apresentados pelas editoras como era inicialmente, realiza a avaliação das obras sob novas normas e define critérios por disciplina para essas novas produções. As editoras, dessa forma, alinham seus produtos às exigências do MEC, mas continuam destacando-se na aprovação de títulos e quantitativo de vendas apenas os grupos maiores, já consolidados, das grandes editoras. Nessa disputa, pequenas editoras tentam se estabelecer, mas são absorvidas pelas dominantes, que, ao invés de tê-las como concorrentes, fazem a aquisição de seus selos e materiais. O que garante o monopólio dessas editoras é realmente o capital injetado nessas produções e nas reformulações exigidas pelo Ministério da Educação.
Buscando garantir espaço de compra cada vez maior pelos órgãos públicos, elas também se coligam entre si, como é o caso da Editora Ática com a Scipione, da Saraiva com a Atual e com a Formato, da FTD com a Quinteto Editorial e da IBEP com a Editora Nacional. Já a Editora Moderna se consolida com capital estrangeiro do poderoso grupo espanhol Santillana e a Editora do Brasil permanece sem coligações. Os seis grupos editoriais mais fortes hoje concentram-se como maiores vendedores de livros para o governo: FTD/Quinteto, Ática/Scipione (leia-se Grupo Abril), Saraiva/Atual/Formato, Moderna, Editora do Brasil e IBEP/Nacional.
Nessa disputa entre as editoras se estabelece uma situação de mercado em que a oferta do MEC é controlada por um pequeno número de vendedores, e em que a competição tem por base não apenas as variações de preços, ditadas pelo Estado, mas a propaganda e a influência dessas instituições. Como afirma Rosa,
a sistemática de aquisição do livro didático pelo fato de movimentar vultuosas somas de recursos financeiros, sempre causou bastante polêmica, ora por não satisfazer a expectativa do professor, que muitas vezes não participou do processo de escolha, ora por não satisfazer aos editores, que não foram contemplados, além do livreiro, que não tem como participar do processo, já que as aquisições são efetuadas com descontos, diretamente das editoras. (2006, p. 76-77).
Constituem, assim, um oligopólio que pode ser verificado nos números do PNLD 2006, em que o MEC adquiriu 102,5 milhões de livros para os alunos de 1.ª a 4.ª séries e fez a reposição dos livros de 5.ª a 8.ª séries.
Editora N.º de Livros
Tabela 1 – Aquisição de livros para o PNLD 2006
Fonte: ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EDITORES DE LIVROS, 2006.
É possível verificar que, além dos seis grandes grupos editoriais citados, neste último PNLD duas outras editoras se destacam: o Positivo, grande grupo paranaense que tem seu nome fortalecido pela produção de apostilas, e a Escala, de propriedade de um dos ex-diretores da Ática. Já as editoras menores têm apenas uma pequena fatia deste tão disputado mercado de LDs. Segundo o FNDE:
O Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE/MEC) vai adquirir 102,5 milhões de livros de alfabetização e das disciplinas de Português, Matemática, Ciências, História e Geografia. Os livros didáticos serão distribuídos aos 28,7 milhões de alunos das redes públicas de Ensino Fundamental até o início do ano letivo de 2007. A distribuição dos livros beneficiará 15,4 milhões de estudantes de 1.ª a 4.ª série e 13,2 milhões de 5.ª a 8.ª séries. O processo de negociação envolveu 15 editoras que detêm os direitos autorais das obras a serem compradas pelo PNLD. O FNDE gastará R$ 456,7 milhões para executar o programa. Além dos R$ 374,6 milhões para a aquisição de 88,9 milhões de livros para 1.ª a 4.ªsérie, serão despendidos R$ 82,1 milhões na compra de 13,6 milhões de obras para reposição e complementação de 5.ª a 8.ª série. Como os livros distribuídos pelo PNLD devem durar três anos, as compras integrais – de livros das cinco disciplinas – para alunos de 2.ª a 4.ª e de 5.ª a 8.ª série ocorrem em exercícios alternados. Assim, o FNDE obtém uniformidade na alocação de recursos ao programa e evita grandes oscilações a cada ano. Nos intervalos das compras integrais são feitas reposições, por extravios ou perdas, e complementações, por acréscimo de matrículas. Já os livros da 1.ª série são adquiridos anualmente. Em 2006, foram adquiridas obras das cinco disciplinas de 1.ª a 4.ª série e de complementação para as turmas de 5.ª a 8.ª série. No ano que vem, serão comprados todos os livros de 5.ª a 8.ª série, mais as obras para reposição e complementação de 2.ª a 4.ª série (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EDITORES DE LIVROS, 2006, p. 1).
Para os gestores de políticas do livro no governo, essa disputa é interessante, pois quanto maior o quantitativo da editora, menor o preço do livro. Para as editoras, apesar de o valor do livro ser pequeno, também é interessante pela quantidade vendida, incomparável com os números de venda realizados com o mercado das
escolas particulares. Esse duplo interesse é marcado por fortes tensões nas avaliações e nas negociações, como destacam Batista e Val:
A instituição da avaliação gerou fortes conflitos – na esfera jornalística e na esfera jurídica – entre editores e autores, de um lado, e o MEC, de outro. Os dados referentes à exclusão e à não-recomendação de títulos, bem como a forte dependência do setor editorial quanto às compras públicas, evidenciam o contexto desses conflitos. Em primeiro lugar, os dados de exclusão e não-recomendação: com a instituição da avaliação, editar livros tornou-se uma atividade arriscada, já que a avaliação tornou-se um forte filtro entre os produtores do livro e seu mercado. Os editores passaram a encontrar, portanto, na avaliação, uma forte barreira para a venda de seus livros para o governo federal. Essa barreira, em segundo lugar, se dá num quadro de forte dependência dos editores em relação às compras públicas.
Os dados sobre o setor editorial brasileiro mostram que ele está voltado, majoritariamente, ao longo da década de 1990, para a produção de livros destinados ao mercado escolar (2004, p. 13-14).
É possível verificar que, com o PNLD, as editoras foram obrigadas, mesmo a contragosto, a realizar alterações que resultaram na melhora crescente da qualidade gráfica dos livros, atendendo às especificações técnicas estipuladas nos editais.
Como afirma Souza:
Como resultado da política de controle do MEC e devido a essas mudanças nas diretrizes pedagógicas do ensino fundamental, cria-se um clima de efervescência no mercado de livros didáticos e entre professores. Editores que tiveram seus livros inseridos na categoria de excluídos buscam dar uma nova “roupagem” aos livros, a fim de readaptá-los às novas exigências dos Catálogos do MEC (1999, p. 63).
Nesta perspectiva, o estabelecimento de critérios de análise pelo MEC e as novas regras dos editais voltadas para os PCN, fizeram com que as editoras, mesmo que inicialmente alterassem superficialmente os livros, nas avaliações seguintes apresentassem mudanças significativas, objetivando a manutenção desse mercado.
Se, por um lado, realmente alguns livros apresentassem problemas conceituais, erros graves, ideologias e preconceitos, por outro lado, alguns livros já eram produzidos com qualidade e aceitos pelos professores nas escolas do país.
Outra questão, que merece destaque nesta dissertação, é a relação de dependência que se estabelece entre governo e editoras, respectivamente responsáveis pela compra e produção dos LDs. Este aspecto foi comprovado no relatório que monitora a produção editorial no Brasil, como afirmam Batista e Val:
É por essa razão que o relatório anual que monitora a produção editorial brasileira conclui que, em 1998, apesar de o subsetor ter assistido a um crescimento de 55% em relação ao ano anterior, “o livro didático parece depender cada vez mais das compras do governo” (FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 1999, p. 5), pois a recessão por que passa a indústria editorial
teria afetado a venda de livros didáticos nos canais tradicionais, em decorrência da migração de alunos das escolas privadas para as públicas e do crescimento de venda de apostilas e projetos pedagógicos de grandes grupos educacionais (2004, p. 14-15).
Nessa direção, as editoras almejando a aprovação de suas obras, em certa medida, por terem essa dependência da compra do governo, passaram a produzir projetos gráficos de mais qualidade, com correção conceitual, com maior quantidade de ilustrações, fotos e mapas, além de textos de autores consagrados da literatura brasileira.
No entanto, atualmente, esse retrato se configura com uma nova disputa, a vinda das editoras estrangeiras para conquistar não só as vendas do PNLD, como também as vendas de LDs no mercado particular. Um exemplo fortíssimo dessa influência é destacado em jornal de circulação nacional sobre o grupo espanhol Santillana, que teria fincado
[...] sua bandeira no Brasil em 2001, ao comprar uma das maiores editoras de livros didáticos do país, a paulista Moderna. Desde então, ampliou sua atuação através da criação ou aquisição de outras companhias. Hoje, o grupo soma seis empresas em território nacional e um investimento acumulado da ordem de US$ 130 milhões no mercado editorial brasileiro. A investida não foi em vão. Em quase seis anos de negócio, o Brasil já responde por 15% da receita do Santillana e está no terceiro lugar no ranking de representatividade no faturamento do grupo — presente em 22 países. Mas já encosta na vice-liderança, ocupada atualmente pelo México (BISPO, 2006, p. 1).
O que se percebe é que mesmo com as constantes críticas feitas pela indústria editorial brasileira, seja ela pública ou privada, alegando que os setores vivem períodos de recessão e que se encontram aquém das expectativas econômicas do setor, esse mercado está em constante expansão e de certa forma consolidando, com força cada vez maior, os grandes grupos editoriais.
A globalização e a internalização do capital estrangeiro se refletem na área editorial, como destaca Rosa:
No Brasil, a globalização se refletiu na área editorial com a vinda desses grandes grupos estrangeiros que aqui se instalam, seja a partir da aquisição de editoras brasileiras, como foi o caso das editoras espanholas Planeta e Santillana, seja com a reabertura de escritórios de representação local, como ocorreu com as editoras Oxford, Cambridge e Longman; bem como pela fusão de algumas editoras locais, formando fortes grupos editoriais, como foi o caso da Editora Record. (2006, p. 32).
Outro ponto que demonstra centralizações distintas existentes no meio editorial é a grande concentração de editoras nas regiões sudeste e sul e também a
enorme quantidade de títulos de divulgação produzidos anualmente que, segundo Rosa (2006), tem a cifra de mais de 20 milhões de exemplares doados, o que representa 5% dos livros editados no país.
Tais elementos aqui apresentados são essenciais para que se possa compreender o contexto e as determinações que constituem o espaço de ocorrência da escolha do livro didático na escola pública e, de acordo com os objetivos propostos nesta investigação, explicitar as relações que os professores estabelecem com essas condições nos processos de seleção do LD no interior das escolas.
Portanto, com intenção de síntese, do ponto de vista dos dois elementos apresentados no segundo capítulo - as políticas do livro no Brasil e a produção e comercialização dos LDs pelas editoras - esta pesquisa pressupõe:
a) a presença de livros nas escolas, para a escolha dos professores, com orientações definidas pelo PNLD e trabalhadas pela organização interna de cada escola;
b) a presença maciça de livros das editoras com maior força comercial que disputam um grande e significativo mercado;
c) a definição centralizada de modelos considerados mais adequados à parte editorial, gráfica ou pedagógica;
d) a presença de modelos pedagógicos que definem conteúdos e métodos diversos, e que correspondem ou não aos modelos que a escola estrutura e organiza;
e) os processos de seleção descentralizados em um sistema com vários níveis – estadual, municipal e da escola, com graus diferenciados de autonomia para proceder à escolha dos livros;
f) a relação dos professores com o LD, historicamente construída, entendendo que essa relação ora é supervalorizada (pelo MEC, pela academia etc.) ora é desvalorizada, criando diferentes significados na cultura escolar e na cultura da escola.
Entende-se, aqui, que é preciso compreender esses elementos como constituidores, em parte, das formas pelas quais os professores vêm, ao longo dos anos, construindo formas de olhar, avaliar e selecionar os livros que irão usar após o processo de escolha que realizam no programa do livro.
Dessa forma, quando se intenta conhecer o processo de escolha do LD, tem-se o professor como sujeito principal, responsável pelas escolhas e pela
reelaboração das práticas e saberes. Nesta perspectiva, é preciso valorizar o papel do professor e, assim, compreender melhor as formas pelas quais esses sujeitos articulam e realizam as escolhas no PNLD, formas essas que se manifestam em seu trabalho docente. E tal compreensão, segundo se espera ter apontado, se dará a partir do relato do trabalho de campo e da análise do material empírico produzido nesta investigação, o que será feito a partir do próximo capítulo.
3 O LIVRO DIDÁTICO E O PROFESSOR: PRIMEIRAS APROXIMAÇÕES
Ao se defender a existência de uma escola comprometida com a tarefa de promover as experiências necessárias para que o aluno, ao longo da escolaridade, se desenvolva e tenha autonomia crescente, imagina-se uma escola que trate de maneira significativa os conhecimentos acumulados e a construção de novos conhecimentos. No cumprimento dessa função, os livros escolares têm desempenhado, ao longo do tempo, um papel de mediação que vêm contribuindo, de diferentes formas, para a definição dos conhecimentos relevantes a serem transmitidos às novas gerações, bem como têm indicado formas de ensinar tais conhecimentos.
No entanto, como já enfatizado, ao lado da presença deste “texto visível” que, entre outros, constitui o código de cada disciplina escolar, as práticas escolares entendidas como “texto invisível” são produzidas por outras mediações, entre as quais a ação dos professores. É na direção de compreender as relações entre o livro didático e os professores que se orientou a presente investigação, cujo trabalho empírico busca esclarecer aspectos relacionados aos processos de escolha que fazem os professores dentro do PNLD, ação que resulta, em alguma medida, na definição de quais conhecimentos serão ensinados, e como isso será feito.
Neste capítulo, portanto, serão apresentados dois pontos importantes nesta pesquisa. O primeiro diz respeito às formas pelas quais se definiu e estruturou o trabalho de campo; o segundo ponto apresenta resultados da análise realizada sobre parte do material empírico, identificando os sujeitos que participaram da investigação e discutindo o significado do livro didático para esses sujeitos. As demais análises serão exploradas no quarto capítulo.