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4 OS CAMINHOS TRILHADOS NO PERCURSO DA PESQUISA: A

4.1 O caso em estudo

4.1.2 O processo de geração dos dados

4.1.2.2 As entrevistas semiestruturadas

As entrevistas semiestruturadas aplicadas aos diversos sujeitos atores, nos processos de investigação, se constituíram em uma rica fonte de recolha de dados nesta pesquisa. Como nos esclarece Flick (2009), essa técnica se traduz em solicitar ao entrevistado que ofereça as informações necessárias, dados recolhidos por meio de narrativas de situações que envolviam a temática da pesquisa, considerando a experiência do entrevistado como elemento relevante à informação, contribuindo com a construção do cenário, com a compreensão das percepções, com o detalhamento de situações ricas que foram consideradas quando da análise dos dados.

Ao organizarmos as entrevistas da pesquisa, levamos em consideração as indicações de Flick (2009) sobre o roteiro para a realização da mesma: a) Convite; b) organização para a entrevista (horário, tempo previsto, espaço, gravação); c) organização das perguntas abertas que permitam respostas amplas; d) mencionar situações concretas pressupondo que o entrevistado possa narrar suas experiências; e) permitir que o entrevistado selecione os episódios mais relevantes de sua história para narrar; f) o ponto de referência deve ser a relevância subjetiva da situação para o entrevistado; g) explicação pelo entrevistador sobre o princípio dessa forma de entrevista ao participante.

Para a realização das entrevistas semiestruturadas com os docentes, deixamos livre aos participantes a escolha do local e horário para a realização dos encontros, para não atrapalhar o trabalho com as crianças e para assegurar a privacidade dos mesmos. Como já mencionamos anteriormente, as entrevistas com as professoras ocorreram em momentos distintos, dado às distintas etapas de realização da pesquisa. Com P1, professora do 5 ano, a entrevista gravada em áudio, foi realizada em outubro de 2016, no laboratório de informática da própria instituição, durante o horário reservado para planejamento pedagógico. A entrevista com P2, professora que assumiu a turma 06, na disciplina de Língua Portuguesa, foi gravada em junho de 2017, período no qual os alunos participantes da pesquisa estavam no sexto ano. Esta entrevista também foi gravada em áudio, porém, a pedido da professora, foi realizada em seu segundo local de trabalho. Também foram colhidas entrevistas com a equipe gestora (diretora e coordenadora pedagógica); todas foram transcritas pela própria pesquisadora.

As perguntas da entrevista estiveram em torno das relações professor aluno e suas práticas, com a oportunidade de os participantes falarem de si e de seu fazer. Conforme Yin (2005), a entrevista semiestruturada traz a possibilidade de o entrevistado pressupor suas “próprias interpretações mediante os acontecimentos” trazendo ao processo de pesquisa elementos enriquecedores e de abertura na qual a abordagem qualitativa requisita.

Para garantir uma maior empatia com as entrevistadas, optamos por deixar transcorrer quase um semestre de observação de sala de aula e conversas informais, para somente aí, proceder as entrevistas. Nessas ocasiões deixávamos claro sobre não se sentirem constrangidas e obrigadas a participarem, assegurando-lhes com respaldo na ética da pesquisa sobre a liberdade de participação, de encerramento de participação e prestando-lhes todos os esclarecimentos inicialmente, para que se decidissem se participariam ou não da entrevista.

As entrevistas com os alunos também ocorreram nesses dois momentos: em 2016 quando estavam no quinto ano e, em 2017, já tendo cursado o primeiro semestre do sexto ano. As escolhas desses momentos para a entrevista foram pensando num período de tempo já transcorrido com a pesquisadora em sala de aula, contado com uma familiaridade. Apesar desse cuidado, temos que considerar que basta a presença do observador para interferir no ambiente/comportamento observado. Afetamos e somos afetados nessa relação; e nem poderia ser diferente, posto que ancoramos nossa pesquisa num paradigma emergente.

A primeira entrevista realizada com os alunos no quinto ano, ocorreu em outubro de 2016. Embora todos os pais tenham autorizado a participação de seus filhos, depois de serem devidamente informados e esclarecidos sobre todos os passos da pesquisa, no dia marcado faltaram quatro dos 29 alunos da turma. Inicialmente, tínhamos optado por fazer as entrevistas individualmente, porém no transcorrer dos preparativos, sentindo o nível de ansiedade e nervosismo de alguns alunos e considerando a pouca idade das crianças, decidimos por fazê-la de forma coletiva, já que, mesmos ansiosos, todos manifestaram o interesse em participar. Procedemos à entrevista como uma conversa descontraída, objetivando quebrar o clima de nervosismo e timidez detectado enquanto se fazia o procedimento de explicação.

Com a ajuda da coordenadora, levamos a turma para a sala de informática onde os dispusemos em círculo. Primeiramente, foi proposto a eles uma dinâmica para descontrair, para relaxar. Em seguida, procedemos aos esclarecimentos dos passos e dos objetivos da nossa conversa, eles puderam fazer perguntas e assim tiraram todas as dúvidas. Logo após assinarem o termo de consentimento e terem todas as dúvidas esclarecidas, foi explicado que seria tudo gravado para ficar arquivado. Eles também preencheram uma ficha com dados pessoais e escreveram, em espaço próprio, codinomes, os quais, inicialmente, passamos a utilizar na pesquisa para garantir seu anonimato, sendo mais tarde dado a preferência por identificá-los pelas letras iniciais do nome. Um dos princípios éticos é a proteção das identidades dos participantes (BOGDAN; BIKLEN, 1999), e a todos os participantes foi sublinhado o fato de os seus contributos ficarem em anonimato.

Até a escrita dos codinomes tudo fluía num clima de seriedade e apreensão por parte das crianças, porém, desse ponto em diante, o entusiasmo se elevou e a algazarra se instalou. Tanto que foi difícil conter a euforia, pois cada um queria que eu apreciasse seu “apelido”, foi bem trabalhoso acalmá-los45.

Iniciamos com perguntas gerais sobre a escola, as disciplinas que mais/ menos gostavam, depois, conforme foram se sentindo à vontade, passou-se aos demais temas como o perfil da professora, sobre o dia a dia da sala de aula, sobre leitura e escrita e projetos interessantes que participaram. A entrevista transcorreu com uma dinâmica que se assemelhou a um grupo focal.

Esse procedimento, na verdade, não estava planejado, mas acabou sendo a saída que encontramos para evitar maiores constrangimentos aos alunos participantes, artifício que deu certo, tendo em vista que até a aluna A.M., uma das mais tímidas e temerosas em participar, se sentiu à vontade e respondeu às perguntas, tanto as coletivas quanto as individuais.

Na segunda etapa, optamos por fazer a entrevista no final do semestre, junho de 2017, momento em que, além de tratarmos das mesmas questões abordadas no ano anterior, foram acrescentadas outras, referindo-se às percepções sobre as mudanças no sexto ano. Para selecionar os participantes dessa entrevista, foram utilizados os seguintes critérios: a) ser aluno da turma 06 desde 2016; b) ter participado da primeira entrevista. Como na primeira etapa, também procedemos a entrevista em grupo, desta vez, um grupo menor, 9 alunos.

Para o registro de todas as entrevistas, utilizamos a gravação em áudio. A transcrição de todos os dados foi feita pela própria pesquisadora.