2. ATO II – DA GEOGRAFIA DO COMPLEXO DO ALEMÃO À PRODUÇÃO DO ESPAÇO CRIMINALIZADO
2.1 As escadas da favela: três tempos de um lugar
Na primeira vez que fui à Matinha, no Complexo do Alemão, usei três meios de transporte: ônibus regular, mototáxi e a “viação canela”. Meu objetivo era chegar à casa de Glória para fazer uma entrevista sobre o cotidiano dos moradores com a ocupação das Forças de Pacificação para a Agência Desinformemónos65, quatro meses após a ocupação policial- militar do Complexo Alemão. A rotina dos moradores era marcada fortemente pela gestão do território pelo Exército. Em diferentes pontos de vielas e becos, homem vestindo uniforme verde e boina vermelha, segurando fuzis que passavam da altura da cintura, era um das imagens que fazia a composição do cenário. Eram garotos. Na maioria, negros. A imagem não era nova. Confesso que a primeira sensação – e leitura de repórter que fiz – foi de que nada havia mudado. As armas seguiam como um agente do cotidiano dos moradores do Complexo do Alemão, mas agora quem regia as regras e segurava essas armas era o Comando Verde66.
65 O Portal Desinformemónos é um site de notícias da mídia alternativa feito por um grupo de jornalistas no México. Para conhecer acessar <http:\\www.desinformemonos.com>.
66 Publicado em 30/5/2015, pelo jornal O Dia, o coronel Fernando Montenegro, afirmou em entrevista que: o Exército passou a ser chamado de Comando Verde após a ocupação do Complexo do Alemão “em alusão ao
Alguns moradores eram cumprimentados levemente com um balanço de cabeça quando passavam em frente aos soldados. Outros eram parados para serem revistados. Principalmente, quando conduziam veículos e eram negros e pardos como aqueles que seguravam os fuzis.
O transporte mais utilizado pelos moradores do Complexo do Alemão é o serviço de mototáxi67, meio de transporte que consegue entrar em becos e vielas sem maiores problemas, ao contrário de ônibus ou kombis, além de atender à demanda por transporte público dentro das favelas. O ofício de mototaxista se tornou um meio de sobrevivência e geração de renda nas favelas do Rio de Janeiro. É um dos exemplos de uma cultura da sobrevivência (FACINA, 2014), meio criativo dos moradores para conviver com as dificuldades de acesso aos serviços públicos.
Para chegar à casa de Glória era preciso percorrer algumas ruas, vielas da favela e depois subir uma longa escada. Ela me deu as orientações: “Você pega o mototáxi na esquina da Canitar e diz que vem pra cá. Não, não se preocupe. Ele vai saber de qual Glória é a casa para te levar”. A orientação me parecia tão segura quanto à possibilidade de achar uma agulha no palheiro. Afinal, não era possível só existir uma Glória na favela da Matinha, mas anotei as recomendações, chequei duas vezes pelo telefone para ter certeza e fui.
Cheguei ao ponto do mototáxi e dei exatamente as orientações que Glória me passara ao telefone para o mototaxista. Perguntei duas vezes se ele tinha certeza de qual casa e de quem eu estava falando. Respondeu que sim e um “tá tranquilo”. Ainda assim, foram necessárias duas tentativas mesmo de mototáxi para conseguir chegar à favela da Matinha. Não por problemas de informações, mas por conta das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal. A principal ladeira de acesso àquela parte do morro estava interditada naquele sábado, o que obrigou o mototaxista a seguir por outro caminho.
Devido ao desvio do percurso, ele explicou que não tinha como chegar de moto até a parte alta da favela da Matinha, onde ficava a casa de Glória. O que poderia ser feito era ele me levar até o mais próximo possível de uma escada na parte baixa da favela que dava acesso à casa de Glória. De lá, eu subiria os degraus para chegar até a parte alta da Matinha. Comando Vermelho”. Comando Verde também é o título da obra que o coronel pretende lançar sobre o evento divulgado na mesma reportagem. Disponível em <http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2015- 05-30/mare-devia-estar-sob-estado-de-sitio-diz-coronel-que-ajudou-a-ocupar-alemao.html>. Acessado em 30/5/2015.
67 É comum os mototaxistas sofrerem revistas por autoridades policiais e militares que não reconhecem o ofício como um meio formal de trabalho. As blitzs policiais ainda atuam, principalmente, na verificação de documentos das motos para checagem se o veículo é ou não produto de roubo, além do cumprimento das leis de trânsito como o uso do capacete tanto para o motorista quanto para o passageiro.
Passamos por ruas esburacadas, muitas delas sem asfalto naquela ocasião (maio/2011), com lixo, porcos e bodes andando, ora na pista, ora no meio do lixo. Mas, mesmo com esse imprevisto, cheguei ao ponto de encontro sem problema. O mototaxista me apontou a escada que eu deveria subir e ainda ficou parado por um tempo, olhando para ver se eu seguia o caminho certo. Agora, só faltava vencer os mais de cem degraus de escada. A casa de Glória era uma das últimas. Na realidade, a escada formava um beco de casas cortadas pela escada. Já perto dos últimos degraus, meu celular tocou. Era Glória. Vi uma moça perto de um portão, mas com o corpo para dentro de casa. Supus que fosse ela. Eu, até aquele dia, só tinha falado com Glória pelo telefone. Não a conhecia nem mesmo por foto. Ela me recebeu no portão já com uma jarra de água e um copo na mão. “Ué, mas porque você veio por baixo?”. Expliquei da interdição da rua.
Já dentro de casa, restabelecida do suadouro da escada, começamos a conversar. Glória não é cria do Complexo do Alemão. Chegou à comunidade em 1º de maio de 1994, no mesmo dia em que morreu o piloto brasileiro de Fórmula 1 Ayrton Senna. Foi pela morte do ídolo e as dificuldades de acesso à favela da Matinha que ela começou a contar a história da chegada de sua família ao Complexo do Alemão. “A nossa mudança ficou lá embaixo porque o caminho até aqui era muito ruim e tinha o torneio de futebol no Campo do Sargento. A favela parecia o Maracanã. Estava lotada. Começamos a mudança subindo e descendo peso quando soubemos da morte de Ayrton. Na escada, cruzamos com o Orlando Jogador68. Ele
nos cumprimentou e disse: “Sejam bem-vindos novos moradores ao Complexo do Alemão”.
68 Foi uma das principais lideranças do grupo Comando Vermelho, conhecido por ser um dos braços direitos de Rogério Lemgruber, o fundador do CV. Orlando da Conceição foi jogador do Olaria Atlético Clube, daí veio o apelido de Orlando Jogador. Assumiu o controle do comércio de drogas no Complexo do Alemão em 1990. Inclusive, no Morro do Adeus, com bocas de fumo controladas por Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, ligado ao Terceiro Comando, mas considerado parceiro de Jogador, por vínculo familiar. Estavam em trégua um ano antes do assassinato de Jogador em uma emboscada tramada por Uê, em junho de 1994. Caco Barcellos conta no livro “Abusado” (2003) que um bonde de cinco carros foi à favela da Grota pedir ajudar a Jogador. Uê teria sido seqüestrado por policiais que exigiam um resgate de 60 mil dólares. Jogador então não só arranjou a soma como teria levado o dinheiro pessoalmente acompanhado dos principais seguranças e gerentes. Ao atender o telefone para falar supostamente com Uê, foi fuzilado por tiros de AR 15. Já outras fontes contam que o Bonde do Uê teria ido até a Grota pedir armas emprestadas para tomar uma favela. Toda a cúpula do CV no Complexo do Alemão caiu. Alguns corpos foram deixados no porta-malas de carros dentro do Complexo e outros em diferentes pontos do Rio (Traficantes executam Jogador e mais 12, O Globo, Rio, p.20, 15/6/1994); A morte de Jogador é o maior caso de traição da história do tráfico de drogas no Rio. Deu início a duas décadas de conflitos armados entre CV e TC por vingança e controle das bocas de fumo. Os combates quase diários no Complexo do Alemão contribuíram para a construção social de insegurança e alimentaram os críticos da política de segurança pública do então governador Leonel Brizola, que à época disputava as eleições presidenciais (C.f Borges, 2006). A repercussão da violência no Complexo do Alemão na imprensa contribuiu para justificar uma intervenção federal armada contra as favelas da cidade, a chamada Operação Rio II. O Complexo do Alemão e favelas controladas por Uê foram à prioridade da operação.
A história daquela longa escada que até ali era feita de terra batida, cortando uma parte do morro e que servia de atalho para esse ir e vir dos moradores, se tornou corporificou como personagem na narrativa de Glória, que narrou décadas de sociabilidade, ajuda mútua, formação de mutirões para construção de casas, melhorias das ruas, becos e escadas, formando a trajetória da configuração daquele espaço: a favela da Matinha no Complexo do Alemão. Depois de um ano lá, subindo e descendo por ruas e escadas de terra batida, Glória começou a se incomodar com o estado ruim do acesso:
A gente tinha que melhorar esse caminho porque não tinha condições. Me juntei com a vizinha e ela falou: “vamos catar o dinheiro dos moradores e aí a gente compra material para fazermos uma escada de cimento. Não era a melhor solução dos mundos, mas era o que tinha, o que dava pra ser feito. E carregar material foi minha sina de vida, porque a gente carregava o nosso, para a comunidade e depois ajudava os vizinhos carregando o deles (DIÁRIO DE CAMPO, 20/11/2014).
Depois da escada, foi à vez da rua. A mesma rua que naquele sábado estava interditada por obras do PAC. Muitos anos antes do governo federal trazer o asfalto para a rua do morro como uma intervenção urbana, foram os moradores, os responsáveis por realizar melhorias naquela rua, como conta Glória:
Fizemos uma vaquinha pra consertar a rua porque os carros não conseguiam subir. Só que por conta do peso, todo mundo queria subir de carro e aí o asfalto de cimento estragava muito rápido. E lá íamos eu e a vizinha recolher dinheiro dos moradores e ir lá na loja de construção pedir doação. Afinal, todo mundo da Matinha comprava lá. Então, a loja tinha que doar os materiais para ajudar a gente (idem).
Mas, de muitas ruas, becos, vielas e escadas são feitas uma favela. Thales Vieira (2014), em Nem Junto, Nem Misturado: uma etnografia sobre paz e proximidade na UPP Nova Brasília no Complexo do Alemão69, revelou a história de outra escada na comunidade que guarda a memória dos moradores em cada um de seus degraus. Trata-se da Escada do Capão localizada na parte alta da favela. O Capão é uma sublocalidade dentro da favela Nova Brasília, não reconhecida pela Prefeitura do Rio, mas identificada por esse nome pelos moradores.
Vieira descreve que, certa vez, chegando cansado do campo de pesquisa em Nova Brasília, reclamou com a mãe do tamanho da escada que liga a parte baixa da favela, na Praça do Terço (conhecida também como Praça do Conhecimento), até uma outra localidade, a favela da Alvorada. A escada é formada por degraus desnivelados e não tem nenhuma espécie de descanso. Vieira foi então interpelado pela mãe (que morou na favela Nova Brasília por
69 Agradeço o acesso à etnografia a Patrícia Lânes que, gentilmente, cedeu o único original que dispunha. Patrícia é doutoranda de Antropologia Social da UFF e faz parte do grupo de pesquisa Pesquisadores em Movimento no Complexo do Alemão
muitos anos) em tom resignado, com uma frase que nunca mais saiu cabeça dele: “se você soubesse o esforço que foi para construir aquela escada não reclamaria de ter que subi-la, mas agradeceria por ela existir” (2014, p. 17).
A história da Escada do Capão revela como as dificuldades de acesso geram uma sociabilidade na população local promotora de estratégias de sobrevivência, para a solução de um problema que afeta a todos. Conforme documenta Vieira (2014), o sentimento de solidariedade gerado pela ausência de serviços públicos tornou-se uma contrapartida de certa forma organizada pelos moradores que visam, por exemplo, promover melhorias urbanas no espaço favelado para facilitar o dia a dia. Através de mutirões, eles passaram a promover intervenções no espaço que vão desde a construção de uma escada ao asfaltamento de ruas, realizando o encanamento de água e esgoto ou puxando gambiarras para levar iluminação às partes altas do morro.
O autor salienta a experiência do mutirão. Conta que quem pensa no trabalho de um mutirão só como árduo, engana-se. Vieira destaca o fato de o mutirão passar por rituais festivos e até de operação logística que povoam as lembranças dos moradores, trazendo um sentimento de pertencimento ao lugar que, na prática, é construído por eles sob diferentes aspectos. Isso porque uma escada na favela se transforma em um espaço de sociabilidade. Cria-se um beco. A juventude hoje no Complexo do Alemão usa muito essa expressão “Nóis é beco”70. Afinal, se as esquinas e praças das cidades funcionam como ponto de encontro da população, na favela, onde não há muitas ruas, esquinas e praças, são os becos, formado por vielas e escadas sem esquina, que acabam servindo de ponto de encontro.
Principalmente nas décadas de 60 e 70, época em que os pais do antropólogo se conheceram e casaram em Nova Brasília. “A escada que os separava era na verdade a escada que os unia: era onde paqueravam, encontravam-se e foi onde tudo começou” (VIEIRA, 2014, p. 17).
A subida da Nova Brasília até a parte alta da Alvorada é bem íngreme. Desse modo, foi necessária uma verdadeira mobilização para construir a Escada do Capão no espaço que antes era de terra batida e mato. Os papéis, de acordo com a etnografia de Vieira (2014), eram bem definidos. Na estratégia de construção da escada, os homens eram os responsáveis pela parte física, ou seja, botar a mão na massa. As mulheres tinham a responsabilidade de organizar a alimentação e recolher o dinheiro para comprar os ingredientes e preparar as refeições, além de fazer a contabilidade do dinheiro, separando uma parte para a compra dos
materiais de construção, outra para as compras no mercado, e ainda, as mulheres tinham a função de mobilizar outras pessoas para o trabalho do mutirão. Para o antropólogo:
A solidariedade dos moradores empenhados em melhorar a própria vida e a de todos ali escondia e ao mesmo tempo e denunciava um pouco da relação entre Estado e favela, essa que possui ao longo da história diferentes facetas, mas é sempre marcada por tensão, opressão e descaso (VIEIRA, 2014, p. 18).
Essa relação é um ponto importante para refletirmos sobre a geografia do Complexo do Alemão, o sentido da produção desse espaço por seus moradores e o uso realizado do território. Espaço construído por eles como o local e a expressão de afeto, de sociabilidade, pertencimento e identidade, mas posto socialmente como o lugar de ausência de políticas públicas e produtor de violência na narrativa de governos, por parte de estudiosos e, por fim, pela imprensa. Mais recentemente, visto pelos jornais e o Estado como um “território inimigo”, um espaço definido como o “coração do mal” do Rio de Janeiro. Uma representação social criminalizadora do espaço e de seus sujeitos.
Mas antes de abordamos essa criminalização do espaço, é preciso jogar luz sobre a história de outra escada do Complexo do Alemão. Uma escada que sobreviveu até pouco tempo à demolição de casas retiradas para as obras de construção do Teleférico executadas pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Uma escada que se antes não podia ser vista, pois seu uso era privado dos moradores da casa da qual fazia parte, mas até pouco tempo poderia ser vista na rua, em parte intacta, rodeada de entulhos, na principal rua do Morro do Alemão. Trata-se da escada chamada de “Escada da Memória” pela antropóloga Adriana Facina (2014), situada na Avenida Central. Um dos lugares no Morro do Alemão mais afetado pelas intervenções urbanísticas do PAC iniciadas no ano de 2008. Diversas casas, na localidade, foram removidas não só porque estavam no traçado do plano de obras do teleférico, mas para que a Avenida Central pudesse ser alargada para passagem de tratores, caminhões e todo o maquinário que foi utilizado na obra.
Adriana Facina, no artigo intitulado “A ‘escada da memória’: arte e conflito no Complexo do Alemão” aborda o impacto dramático da remoção de casas na favela, enfatizando o quanto uma remoção é o desenraizamento não só do lugar, mas de toda uma rede de laços, afetos e solidariedade que permeia a morada na favela, produzindo no cotidiano um sofrimento “vivido no silêncio do coração e da memória, poucas vezes, divididos” (2014, p. 2).
Recordo-me que, certa vez, estava na sede do Instituto Raízes em Movimento quando uma pessoa entrou procurando Alan Brum, secretário executivo da entidade e morador do
Complexo do Alemão há mais de 40 anos. Era uma jovem estudante de pedagogia que viera acompanhada com a mãe – que vamos chamar de Maria – para pedir um estágio na entidade. Ambas, mãe e filha eram ex-moradoras do Morro do Alemão. A família tinha deixado o local há mais de dez anos, mas quando Maria se deparou com um espaço vazio da área onde se situava a antiga casa dela ali Avenida Central, no Morro do Alemão, emocionou-se. A casa foi uma das moradias demolidas pelo PAC71.
Enquanto, Alan Brum, coordenador da entidade, conversava com a jovem e acertava o estágio dela em Pedagogia no Instituto Raízes em Movimento, Maria foi até os escombros e pegou um pedaço do que foi um dia sua casa para levar com ela. “A estratégia de moradia na favela não é uma estratégia pura e simplesmente de habitação, mas sim uma estratégia muito mais ampla de sobrevivência, da qual a moradia é apenas um de seus aspectos” (Valla, 1986 apud FACINA, 2014, p. 3). Essa ação remeteu-me a Marta72, uma das moradoras removidas do Morro dos Mineiros, situado em outra parte do Complexo do Alemão, também pelas obras do PAC. Quando participou do seminário de Produção do Conhecimento Vamos Desenrolar, em 19 de outubro de 2013, ela contou que levou um pedaço da casa com ela quando foi obrigada a sair.
Marta narrou à forma violenta que foi removida de sua casa, a peregrinação que passou até ser reassentada pelo PAC, a desestruturação de laços afetivos e do convívio com a própria família e os problemas causados pela intervenção urbanística no dia a dia dos moradores da região. “As obras trouxeram os problemas que prometeu solucionar: do nada, apareceu no meu quarto um esgoto. O sonho (da casa própria), aos poucos, ia esvaindo-se sob o aviso da casa tremendo por conta dos tratores, rachaduras nas paredes” (Caderno Devolutiva Vamos Desenrolar, 2013, p.47).
Certa noite, Marta acordou com a casa toda tremendo porque um dos tratores usados na obra do teleférico estava agarrado a uma das paredes da casa. No dia seguinte, pela manhã, ela foi obrigada a sair às pressas de casa com um ultimato da própria associação de moradores. “Conta que viveu uma espécie de expulsão pelo terror. Aliás, da sua casa, ela guardou como recordação um pedaço da parede, o que sobrou...do sonho da casa comprada e ornada com sacrifício” (idem).
71 Um dos marcos do PAC no Morro do Alemão também foi a destruição dos muros grafitados que formavam uma galeria a céu aberto, com obras tanto de artistas do Alemão como do mundo inteiro.
72 O nome Marta não é um pseudônimo, pois consta em artigo no Caderno de Devolutivas Vamos Desenrolar 2013. Portanto, mantivemos aqui o nome verdadeiro da interlocutora.
Maria e Marta, de certa forma, ressignificaram os fragmentos de suas extintas casas, cercaram-nos de simbolismo que, para qualquer outra pessoa exterior a essa história da construção de moradia e da própria favela, pode não ter qualquer representatividade ou sentido, mas que para os moradores de favelas estão conectadas e formam atos constitutivos e