1. ATO I: ONDE ESTÃO OS MORTOS? VIDA NUA E PACIFICAÇÃO
1.3 Da metáfora de guerra à vida nua da metáfora de paz
A política de segurança pública no Rio de Janeiro tem sido utilizada pelo governo como um álibi para a aprovação de medidas que substituem o controle democrático por um controle do Estado há mais de 30 anos. Essa é a posição da antropóloga Jaqueline Muniz sobre a atual linha de segurança pública no Rio de Janeiro defendida em artigo “Despolitização da Segurança Pública e seus Riscos” (2012). Segundo ela, qualquer “ação de segurança pública implica, em alguma medida, na restrição de liberdades individuais e coletivas, o que se revela uma armadilha perigosa para a fabricação de um amplo debate sobre os caminhos da segurança pública” (p.3). E essa realidade ocasiona uma intencionada despolitização do tema.
É dessa forma que “se operacionaliza a aprovação popular de ações que são um preocupante avanço de uma retórica e clamor por Lei e Ordem, alimentando o aumento do poder coercitivo do Estado como efeito desse cenário social e político” (Santos, apud MUNIZ, 2012, p. 3). Neste jogo discursivo social, a antropóloga destaca que existe a “promoção de uma cidadania tutelada em conformidade com uma cultura do controle que tem projetado uma cidadania regulada” (idem).
Na visão de Muniz, a proposta da deslegitimação do debate da segurança pública se torna uma chave de leitura imprescindível para se analisar de forma mais atenta a pacificação de favelas e a implantação das UPPs. Afinal, o programa de segurança pública tão aludido
pela mídia chega a representar ou não a ruptura do paradigma da política de guerra contra as drogas, impetrada pelo Estado há décadas nos espaços favelados?
Ou, na realidade, as UPPs seriam apenas uma nova forma de estética policial-militar de controle social da ordem elaborada por uma metáfora de paz? Dessa forma, mantendo o status quo do enfrentamento à violência por meio de um hibridismo de uma polícia de guerra como linha principal da política de segurança pública e uma vigilância permanente do espaço favelado. Sendo assim, as UPPs alteram a metáfora de guerra (LEITE, 2012) da segurança pública de décadas do Rio de Janeiro?
Em nossa análise, utilizaremos o conceito de metáfora em Pêcheux citado por Eni Orlandi (2009), que nos fornece uma teorização sobre o surgimento das metáforas em todo processo de produção de sentidos, contrastando-o com o funcionamento das figuras, como metáforas locais, no discurso sob análise. A autora explica que diferentemente do conceito linguístico de metáfora, que opõe o sentido literal (primeiro e natural) ao sentido metafórico interpretado como um desvio do sentido literal, Pêcheux postula um conceito de metáfora como o cerne da produção de sentidos. Dessa forma, cria-se o efeito metafórico como fenômeno semântico produzido por uma substituição contextual que provoca um deslizamento de sentido entre dois ou mais termos. Sendo assim, todo processo de produção de discursos se dá pelo constante deslizamento de sentidos, através do qual de um termo ou expressão se passa a outros, que os substituem.
É por essa razão que as metáforas devem ser entendidas não como desvios, mas deslizes ou transferências, visto que a metáfora está para a análise do discurso filiada a Pêcheux (ORLANDI, 2009), na base do movimento dos sentidos. Para haver discurso é preciso que se passe constantemente de um sentido a outro. Em suma, todo novo processo de produção de um discurso vai sempre produzir deslocamentos ou deslizes, no sentido de passagem de um termo a outro, que são os efeitos metafóricos.
Coimbra (2001) assinala que a história das cidades é feita da dicotomia produzida pelo capitalismo, na qual se constata que certos territórios precisam ser esvaziados por um segmento da população, à medida que são valorizados economicamente, para ocupar outras regiões menos importantes – as chamadas periferias – onde as populações pobres podem sobreviver, segundo a gestão do Estado, sem grandes investimentos ou condições de saneamento básico, moradias, transportes etc.
Posteriormente, esses espaços são enquadrados discursivamente pelo poder hegemônico como os germinadores de violência, do banditismo, da criminalidade. É nesse
discurso categorizante e de gestão administrativa do Estado que se promove a metáfora da “cidade partida” trazida pelo enunciado do jornalista Zuenir Ventura (1994), que divide a cidade em duas faces: as “zonas nobres” e os “territórios da pobreza”. Esconde, por meio dessa caracterização, a real cidade como: um conjunto articulado de espaços em que um não existe sem o outro, pois um assegura a existência e a reprodução do outro.
Márcia Leite aponta que, em geral, a reação a novos cenários de violência, insegurança e medo, frequentemente, ocasiona na opinião pública a sensação de uma metáfora da guerra “de todos contra todos” (2012, p. 379) que estaria em curso na cidade, pondo em risco, cotidianamente, “o mais fundamental dos direitos dos indivíduos: o direito à vida” (idem). Leite ressalta que essa sensação se torna uma representação do Rio de Janeiro, ou seja, a cidade é vista como um arquétipo de guerra, a partir da construção de um discurso que se alimenta e retroalimenta da ocorrência desses eventos socialmente para criar uma dualidade na cidade:
(…) a partir de uma série de episódios violentos (arrastões, assaltos, sequestros, tiroteios, “balas perdidas”, chacinas, rebeliões em presídios e instituições de jovens infratores, paralisações do comércio, escolas e serviços públicos por ordens de bandidos, muitas vezes emitidas do interior de prisões de “alta segurança”), que produziram um forte sentimento de insegurança diante das crescentes ameaças à integridade física e patrimonial de seus habitantes. Formulada no interior de um discurso que chamava a população a escolher um dos lados de uma cidade pensada como irremediavelmente “partida” (VENTURA, 1994), a metáfora da guerra foi retomada, ao longo das décadas seguintes, toda vez que se ampliou a percepção de agravamento (LEITE, 2012: 379).
Ou seja, o cenário de emergência, posto a partir do surgimento de episódios violentos na cidade espraiados discursivamente por autoridades públicas e a mídia, desdobra-se socialmente em uma forte sensação de medo que demanda por uma maior vigilância do Estado para a garantia do direito à vida e a segurança das classes médias e altas, acarretando uma forte pressão por ordem pública a qualquer custo. Inclusive, ao custo de vidas que não são vistas como essenciais ou valorizadas por parte desses setores da população, mas como um perigo social iminente, como sujeitos vistos como uma classe perigosa:
(…) no seio desta sociedade tão civilizada existem ‘verdadeiras variantes’ (…) que não possuem nem a inteligência do dever, nem o sentimento da moralidade dos atos, e cujo espírito não é suscetível de ser esclarecido ou mesmo consolado por qualquer ideia de ordem religiosa. Qualquer uma destas variedades foram designadas sob o justo título de classes perigosas (…) constituindo para a sociedade um estado de perigo permanente (COIMBRA, 2001, p.88, grifo original).
Para Guimarães, a expressão traz à tona a espinha de uma disposição de um “lugar” reservado no status quo da sociedade para certos indivíduo formados no sentido de um conjunto social à margem da sociedade civil, uma comparação surgida na primeira metade do
século XIX, num período em que a superpopulação relativa ou o exército industrial de reserva, segundo a acepção de Marx, atingia proporções extremas na Inglaterra, quando esse país vivia a fase “juvenil” da Revolução Industrial (2008, p. 21).
A expressão classes perigosas é usada desde 1859 por Mary Carpenter (apud GUIMARÃES, 2008, p. 21), que se vale dela para designar o grupo de pessoas com passagem pela prisão ou aquelas, ainda que não tenham sido presas, caracterizam-se por viver fora do mercado de trabalho proposto pelo capital, sendo assim, poderiam para sustentar a si e a família, praticar crime ao invés de trabalhar, caracterizando um perigo social (idem).
Nessa lógica, a favela é o lugar da representação do conflito social no Rio de Janeiro, acionando simbolicamente para as favelas o sentido de “território da pobreza”, um espaço classificado como o abrigo de uma classe perigosa. Visto como o lugar para alguns setores de classe média e alta da população, em que a cidadania plena de direitos não deve ser permitida aos moradores desse espaço pelo Estado, mas sim deve ser tutelada e controlada socialmente pelo Estado por representar simbolicamente o lugar de onde brota a violência.
Por isso, tolera-se a supressão estatal de condição de prerrogativas fundamentais de cidadania e segurança nos espaços vistos como o lócus desse perigo e, consequentemente, para os moradores que vivem nessas localidades. Temos assim, a construção social do espaço das favelas como lugares da violência e do crime, segregando socialmente não só sujeitos, mas também produzindo um uso seletivo das políticas públicas. Incluindo-se a política de segurança pública a ser adotada no combate à violência nessas áreas para a promoção da ordem pública em toda a cidade.
A promoção da caracterização da favela, por parte do Estado, como o lócus da “guerra” contra o crime no Rio de Janeiro, na qual o inimigo acionado simbolicamente é o “traficante de drogas” ali instalado, produz uma prática de “guerra” pelo Estado nas favelas. Principalmente, porque as favelas são somente toleradas socialmente pelas classes médias e altas da população. Porém, esse acionamento de “guerra” é praticado não apenas contra o varejista de drogas ilegais, mas também contra os moradores, conforme explica Márcia Leite (2012, p.375). Porque os residentes de favelas são vistos, em geral, como “quase bandido e, assim, inimigos a combater, demarcando o limite das políticas públicas nessas localidades” (idem).
Temos uma visão de que a cidadania dos sujeitos favelados empregada pelos próprios dispositivos do Estado na lógica da pacificação ocorre de forma “regulada”, conforme já ressaltada por Jaqueline Muniz (2012). Tendo na prática sua materialização na solução
violenta para o problema da violência no campo das políticas de segurança pública (LEITE, 2012, p. 380). Possível, justamente, pela evocação do estado de emergência no âmbito púbico que por consequência deslegitimar o debate da construção de uma real política de segurança pública.
Representar o conflito social nas grandes cidades como uma guerra implica acionar um repertório simbólico em que lados/grupos em confronto são inimigos e o extermínio, no limite, é uma das estratégias para a vitória, pois com facilidade é admitido que situações excepcionais – de guerra – exigem medidas também excepcionais e estranhas à normalidade institucional e democrática. Nestes termos, o dispositivo discursivo que constituiu o principal operador da demanda por ordem pública foi a construção de duas imagens polares a partir da metáfora da guerra: de um lado, os cidadãos – identificados como trabalhadores, eleitores e contribuintes e, nesta qualidade, pessoas de bem, honradas, para quem a segurança é condição primordial para viver, produzir, consumir; e de outro, os inimigos representados na pela favela – categoria que não distingue moradores e criminosos. De fato, o uso da metonímia corresponde a uma aproximação dos dois segmentos, atribuindo aos primeiros ora a condição de reféns, ora a de cúmplices dos segundos, cujo “lado” teriam escolhido ao optarem pelo campo da ilegalidade (LEITE, 2012, p. 379). A partir de 2008, o projeto estadual de pacificação de favelas, por meio da instalação das UPPs, promete interromper essa dinâmica de “guerra” no Rio de Janeiro. A principal característica do programa de segurança pública é a retomada do controle desses espaços como condição basilar para integração dessas localidades à cidade. O repertório discursivo acionado é a propagação do fim da “cidade partida” (VENTURA, 1994), da possibilidade do pleno exercício da cidadania para moradores de favela, agora “civilizados”, que estão destituídos da sua condição de perigo social para cidadãos de bem, cidadãos de paz que moram em favelas.
Todavia, para a metáfora de paz poder ser implantada, o Estado precisa primeiro exterminar aqueles que assumem a condição de “soldados da guerra”, os destituídos de valor político e econômico para o Estado e para a população, aqueles enxergados e classificados como “inimigos”, ou seja, os perigosos.
À sombra do Estado e da Lei a partir do dispositivo jurídico e executivo com o aparato policial estatal, forma-se uma vida nua: a “vida indigna de ser vivida” (AGAMBEN, 2004, p. 134). Isto é, uma vida que perde sua humanidade e que pode, impunemente, ser exterminada, visto que sua morte não implica em crime porque “a vida cessa de ter valor jurídico e pode, portanto, ser morta sem que se cometa homicídio” (Ibidem, p. 135).
O cenário construído que justifica essas arbitrariedades é o da “guerra”, que pressupõe um controle de um território enxergado à margem do Estado, posto em contexto de exceção (AGAMBEM, 2004). Veena Das e Deborah Poole (2008) se diferenciam da visão de Agamben quanto ao sentido compreendido de estado de exceção. As antropólogas usam o
contexto de exceção não tanto no sentido de sítio ou como algo fora do Estado, proposta original da concepção de Agamben que pensa a exceção a partir de um campo de concentração, mas como uma exceção espraiada como uma modalidade em que a vida nua compreendida como “ameaça em suspense que pode cair sobre qualquer um, (...) como rios que fluem para e através do corpo” (2008, p.29) do Estado.
Para Das e Poole, a vida nua e a exceção não devem ser vistas como um “estado fantasmagórico do passado” (idem), mas como um procedimento que ocorre no presente na figura da política ou do poder local e dentro e fora do Estado, a partir do emprego da violência e de autoridades extrajudiciais. Sendo assim, “o sentido de margem e de exceção recai sobre as práticas que podem aparecer em uma contínua redefinição da lei através de formas de violência e autoridades construídas” (idem). Seja pela conformidade da necessidade da manutenção ou para constituição de um status quo. Dessa forma, a exceção espraiada no corpo jurídico do Estado, caracteriza-se como um retrocesso em termos democráticos das liberdades e direitos civis, por substituir a negociação democrática dos conflitos de interesses pelo uso arbitrário da força, a legitimidade da violência pelo Estado, com respaldo de dispositivos jurídicos.
Em mundo extremamente midiatizado como estamos, o papel da mídia, no exercício desse sentido de legitimação de exceção, torna-se mais um elemento a ser considerado na constituição da vida nua (AGABEM, 2004) perante o Estado e a própria opinião pública. Seja pela produção de discursos que influenciam comportamentos ou os que constituem concretamente em um repertório simbólico na construção e implantação de políticas públicas, na medida em que agendam o debate.
Patrícia Bandeira Melo (2008) enfatiza que na perspectiva da Sociologia Cultural, a realidade é um texto narrado por carrier-groups que conduzem o discurso da pauta pública, constituído de grupos de pressão que assumem o papel de perpetuar a memória coletiva de um segmento social ou sobre fatos relacionados a ele. Principalmente, segundo a autora, a partir de eventos considerados traumáticos ou relevantes para um determinado grupo social. Os carrier-groups têm hegemonia política e funcionam como instituições sociais legitimadoras na estrutura social por serem espaço de visibilidade discursiva de múltiplos indivíduos. São responsáveis pelas construções discursivas acerca de eventos relevantes. Dentre as instituições que operam como carrier-groups temos a mídia.
A concepção de carrier-group proposta por Melo (2008), está vinculado ao pensamento de Jeffrey Alexander (2002, apud MELO, 2008, p.3). O autor propõe o discurso
midiático como um recurso para investigação das representações de processos culturais traumáticos de uma sociedade, compreendendo um texto narrado pelo carrier-group como um conteúdo capacitativo de persuasão como uma rede interligada de significados (idem).
Portanto, o discurso como texto é o espaço no qual são vivenciados os fatos sociais. Nesta abordagem, as instituições jornalísticas como o Grupo Globo e suas mídias se constituem como grupos condutores de um discurso, de uma cultura social, que tenta construir um pensamento dominante acerca de determinados fatos como porta-vozes de uma hegemonia política. Essa condução pode ser de uma liderança ou uma fonte de informação que enquadra uma audiência acerca de uma situação histórica a partir dos recursos simbólicos disponíveis. Portanto, cabe à imprensa justamente ter esse papel: diluir, direcionar, oferecerem sentidos e criar conceitos acerca de determinados temas que coloca em sua pauta (Alexander, 2002, apud MELO, 2008, p.3) como um representante do carrier-group.
Na medida em que compartilhamos da visão de Jeffrey Alexander (2002) citado por Melo (2008) de que o discurso pode ser o determinante de uma realidade, é possível afirmar que o jornalismo pode ajudar a construir narrativa acerca de fatos sociais constituindo a percepção do leitor/telespectador/ouvinte, por exemplo, de que vivemos em uma sociedade sob o jugo da “fala de crime” conforme proposto por Caldeira (2000): “a fala do crime alimenta um círculo em que o medo é trabalhado e reproduzido, e no qual violência é a um só tempo combatida e ampliada” (p. 27). Isso porque o discurso funciona como lógica do social e é essa centralidade da cultura que dá a ela uma autonomia analítica, na qual podemos observar as estruturas narrativas nas quais bucamos códigos simbólicos.
Nesta abordagem, a perspectiva do carrier-groups pode servir para discutir o tema sobre a ocorrência de uma representação da violência e da notícia de crime, que banaliza a vida de certos grupos sociais, influenciando a opinião pública a considerar a existência de seres sociais matáveis. Caracterizados pela mídia e o Poder Público como pessoas que não possuem valores jurídicos e sociais, todos são incluídos nessa representação social e estão desconstituídos de direitos políticos, tornando-se “vidas nuas” (AGAMBEM, 2004) no sentido de estarem à margem do Estado dentro do contexto de exceção compreendido por Veena Das e Deborah Poole (2008).
Enquadrados discursivamente na mídia a partir de uma subjetividade inserida nos códigos simbólicos da violência, pano de fundo da sensação de insegurança e do medo social, do cenário de agravamento da violência que deslegitima o debate da segurança pública (MUNIZ, 2012), tanto os sujeitos vistos como vida nua quanto os dispositivos jurídicos que
criam populações à margem e exceção do Estado, podem ser projetados discursivamente perante a opinião pública apenas como “efeitos colaterais”. Suas mortes se configuram como necessárias dentro desse quadro para a restituição da paz e segurança pública na cidade. Ou seja, os “danos colaterais” são informados, mas sob o enunciado que vende a opinião pública a aceitação de exceções jurídicas para aqueles indivíduos a margem do Estado, visto que a implantação de uma cenário de paz para todos depende da imprescindível presença da “guerra” e dessa violência estatal.
Sendo assim, seja pelo enquadramento da memória, por meio das imagens publicadas e do uso delas como discurso, pelas formações discursivas, silenciamentos e produção de sentido veiculado no noticiário da violência cotidiana e de crimes, a mídia – no caso estudado, o jornal O Globo – pode ter legitimado e mediado, como um carrier-group, práticas no interior do corpo do Estado que asseguram ações coercitivas, punitivas e de controle social para uma parcela da população destituída de direitos políticos: ainda que seja o próprio direito à vida.
O processo de pacificação e a gestão policial da vida nesses territórios pelas UPPs, podem ao invés de interromper a execução da metáfora de guerra, na realidade, escamotear essa linha de atuação da política de segurança pública de Estado no Rio de Janeiro, mas agora, por uma metáfora de paz construída pelo Estado por ações e discursos mediatizados e legitimados. Tendo sido a mídia estudada (O Globo) a condutora de enunciados e, portanto: instrumento de hegemonia sobre as UPPs e a pacificação de favelas.
Em suma, a hipótese sociológica trabalha com a ideia de que o programa das UPPs não rompe a política de “guerra” contra o comércio varejista de drogas nas favelas ou o tratamento dado à população. Os moradores de favelas pacificadas permanecem sendo tratados como cidadãos à “margem do Estado” (DAS; POOLE, 2008, p.24), por prerrogativas jurídicas dentro de um contexto de exceção. Por isso, a necessidade do controle e de vigilância permanente por tecnologias policiais militarizadas que produzem um esplendor as ações no caso do Rio de Janeiro.
Segundo Malaguti (2012), o “esplendor do estado de polícia” está a serviço dos governos para a garantia da representação hegemônica do Rio de Janeiro como uma cidade segura. Condição sine qua non para a produção de um espaço socio-econômico voltado a