III. O cinema de Marleen Gorris
1. Antonia’s Line
2.1. As escolhas de Clarissa Dalloway
O filme começa com o passeio de Clarissa até à florista, pois, no mesmo dia, ela dará uma festa em sua casa, para pessoas que são da alta sociedade, uma vez que o Primeiro-ministro é um dos convidados. Contudo, o filme será assombrado pelo seu passado, e pelo seu grande amor, Peter Walsh. Clarissa, quando era ainda jovem, quase que se casou com Peter, mas numa reviravolta dos
90 acontecimentos, decide casar-se com Richard Dalloway, com quem anos mais tarde, vai ter uma filha, Elizabeth, que no início está associada a um fanatismo religioso impulsionado pela personagem de Miss Kilman, personagem que critica Clarissa e o seu modo de viver.
Assim como Ebert também Beraldinelli defendem (cf. Ebert, 1998; Berardinelli, 1998), Mrs. Dalloway é um filme que nos mostra as várias faces de Clarissa, como por exemplo, aquilo que ela foi, o que poderia ter sido, e o que é. Curiosamente, e como Clarissa reflete no filme, são poucas as pessoas que a tratam pelo seu primeiro nome, de resto, toda as outras pessoas que a cumprimentam ao longo do filme, e, em particular, na primeira parte da festa, nos cumprimentos entre as pessoas, toda a gente a trata por Mrs. Dalloway, à exceção de Peter, Richard e Sally. Para além de não ter nome próprio (para os outros), Clarissa é analisada pelos outros personagens, tendo em conta a sua aparência e estatuto. Para a maior parte das personagens, o que inclui Peter e Sally, Clarissa é um mulher de sessenta anos, que é respeitada pela sociedade londrina, à exceção de Peter, que no segundo encontro, a critica por se ter acomodado às regras da sociedade.
Quando Clarissa era ainda uma adolescente, ela é forçada a fazer uma escolha que a vai influenciar por toda a sua vida. Poderíamos afirmar que a Clarissa tinha três pretendentes na sua vida, Peter, Sally e Richard, membro do Parlamento. Peter, nas cenas em que ela relembra o passado, assume uma importância enorme, pois ele parece manter e ter esperanças de que Clarissa ficará com ele. Podemos considerar Sally a segunda pretendente de Clarissa, porque elas, ainda que de forma subtil, e pouco explorada no filme, desenvolvem uma relação de proximidade, em que Sally, por exemplo, sente-se confortável ao colocar-se nua, em frente a Clarissa e a correr pela casa do mesmo modo, como um desafio. Há também uma outra cena, em que elas se beijam na boca, a meio de um baile, e no meio da natureza. Assim, estas três personagens, na sua juventude, formam um trio um pouco estranho, pois eles parecem consentir as relações que são estabelecidas entre eles. No entanto, enquanto Clarissa parece dar esperanças a Peter, o mesmo não acontece com Sally, pois, como Ebert argumenta, Clarissa não atribuiu um nome a esta relação, para que esta não se torne tão real. Por outro lado, Peter representa uma aventura e perigo, que Clarissa parece não estar preparada para viver, tal como ela lhe confessa na noite em que Peter descobre o relacionamento dela com Richard. No final, Clarissa escolhe Richard Dalloway, que tem sido caracterizado como a escolha segura da protagonista, e que Peter acusa de ser “(…) a fool, an unimaginative, dull fool” (cf. Ebert, 1998).
Apesar de pertencer a um texto fílmico diferente, mas estando ambas a serem analisadas neste trabalho, não há como escapar a uma comparação entre a Isabel Archer de Jane Campion e a Clarissa de Gorris, porque à medida que fui analisando este filme, havia sempre sombras da história
91 de Isabel de que me ia lembrando e associando com a história de Clarissa. Clarissa faz a escolha que Isabel recusa veementemente, a escolha pela segurança, em detrimento da aventura e da paixão exacerbada. Como mais à frente irei abordar, Isabel escolhe Osmond, o que seria o equivalente a Peter, mas numa versão mais masoquista e violenta. Na sua história, Isabel está preparada para a aventura, e deseja-a mais do que tudo, por isso ela vai recusar Goodwood e Warburton, pois para ela eles representavam o lado convencional da mulher e o tipo de mulher que ela não queria ser, uma mulher que viveria das aparências e serviria de dama de companhia. Clarissa, pelo contrário, decide que não está preparada para a aventura e a paixão que Peter representava, pelo que acabou por escolher Richard, porque ele lhe dava a segurança financeira e o estatuto social a que ela, de alguma forma, almejava. Por exemplo, há uma cena, em que ela, ainda jovem, diz recusar-se falar outra vez com uma jovem rapariga que engravidou fora do casamento. São estes momentos que, pessoalmente, me fazem duvidar mais de Clarissa do que de Isabel Archer. Mas esta analogia entre estas duas obras, deve-se ao facto de eu achar que Isabel poderia ter sido uma Clarissa, se ela, por exemplo, tivesse escolhido Warburton para seu marido, e Clarissa poderia ter sido uma Isabel caso tivesse escolhido casar-se com Peter. Elas, de certa forma, representam o caminho não tomado de cada uma, uma vez que esta obra, Mrs. Dalloway, é precisamente uma reflexão da heroína sobre o que seria de si caso se tivesse casado com Peter. Numa comparação, que teria de ultrapassar séculos e anos de diferença, Isabel Archer e Clarissa Dalloway seriam o espelho uma da outra e dos caminhos deixados a meio.
Desta forma, ao casar-se com Richard, um membro do parlamento bastante rico, Clarissa escolhe a vida doméstica, isolada e aborrecida (Berardinelli, 1998). Tal como Rubert Graves explica numa entrevista a Nicole Burdette (1997), “Yeah. She took the easy route and married Dalloway. And the day in which the story takes place is her looking back, and thinking, “Am I where I had hoped to be when I was seventeen? Was I brave, or did I do the easy thing?” Ainda que o filme seja a representação da vida de Clarissa, a organização da sua festa, e das suas reflexões do passado, o seu dia fica marcado pela visita do seu passado, Peter Walsh, que, de acordo com Berardinelli, a leva a pensar sobre as suas escolhas no passado e que marcaram o seu presente. Clarissa não tem uma vida infeliz, como aconteceu com Isabel Archer, mas ela sente que desistiu do amor e da paixão. No entanto, tal como Berardinelli relembra, o filme não é um debate sobre a escolha da protagonista, mas um lembrete de que há caminhos que nós não seguimos, e que por isso ficarão sempre incompletos. Assim, Clarissa parece ter-se confinado a uma existência mais convencional, que é flagrante na cena em que Richard compra flores para a sua esposa e esta diz “Happiness is this!” (Brower, 1971:57) E também nas cenas em que Peter, mais maduro, está de saída, tal como
92 Elizabeth, a filha de Clarissa, ela diz-lhes “Remember my party!”, o que Brower entende como uma espécie de desafio da personagem principal a Peter e Elizabeth (Brower, 1971:59).
Clarissa, tal como Ada McGrath, faz uso da vozoff para comunicar os seus pensamentos, no entanto, este uso de ambas as personagens é concretizado de formas diferentes. Enquanto, Ada usa a voz da sua mente para comunicar diretamente com o espectador, Clarissa não tem as mesmas intenções, uma vez que a voz da personagem é a forma que ela encontra para fazer uma última reflexão sobre a sua vida. No início do baile, Clarissa vai cumprimentando os convidados, de forma elegante e simpática, enquanto a sua voz da mente fala sobre as personagens, como elas vêm vestidas, quem elas são e os seus nervos. Segundo Ebert, esta é a verdadeira Clarissa, caracterizando-a como um animal treinado, mas não controlado. Apesar de Clarissa fazer, neste seu discurso, uma crítica subtil da sociedade, ela mostra, na minha opinião, o seu lado mais superficial, uma vez que a sua voz interior não está propriamente a criticar a sociedade onde está inserida, uma vez que o objetivo da personagem é criar uma festa inesquecível para as pessoas que foram convidadas.