II. O cinema australiano, a realizadora Jane Campion
2. The Portrait of a Lady
2.6. A (in)convencionalidade do toque
Tal como em The Piano, também o toque parece ser importante em The Portrait of a Lady, como já referi o toque de alguns dos pretendentes de Isabel, nomeadamente, Lord Warburton, Osmond e Goodwood. No entanto, o toque de Ralph, não é aquele que desencadeia paixões ou desejos tórridos, como o de Goodwood, mas é o toque seguro de Isabel, o toque do amor. Por exemplo, nos momentos finais do filme, Isabel volta para os braços de Ralph e deita-se ao lado dele, o que revela, para Murphy, que Isabel não se mantém passiva a nível sexual, mesmo após o seu casamento com Osmond. Nesta cena, em que Isabel beija o rosto do primo avidamente, Ralph diz- lhe que “I’ll be nearer than I’ve never been.” Curiosamente, na cena em que Isabel bate com a sua cabeça contra a parede, uma atitude que grita desespero em relação ao seu casamento, Osmond diz “You are nearer to me and I am nearer to you than ever.”
A verdade é que é muito difícil para a mulher escapar das regras convencionais da sociedade, e, mais difícil ainda, a mulher ser capaz de expressar a sua sexualidade no mundo vitoriano, mundo esse a que Isabel pertence, argumenta Bessière. As provas disto são as duas cenas com um teor mais sexual no filme, e que segundo Bessière foram bastante polémicas e criticadas na altura, sendo que estas cenas são mais exploradas no filme do que no romance. A primeira é a cena
73 da fantasia sexual da protagonista. Murphy faz uma interpretação muito própria desta cena e da recusa de Isabel da confissão de Goodwood. Na opinião de Murphy, quando Isabel diz “you don’t fit in”, a protagonista não tem só a preocupação do estatuto social, mas demonstra uma preocupação com a dor e o prazer da penetração. Murphy argumenta que quase todas as vezes que Goodwood quer tocar Isabel, ela recua, e nem é capaz de o olhar nos olhos, permitindo dar liberdade ao toque apenas quando está sozinha, momento em que ela está em controlo. E esta fantasia só é quebrada pelo sobressalto da protagonista com a presença do seu primo Ralph no meio dos seus dois admiradores. A segunda é quando Isabel embarca numa viagem com Madame Merle e ela parece atrair os olhares masculinos, incluindo o de Osmond (viagem psíquica; a preto e branco). De acordo com Bessière, estas cenas de cariz sexual revelam o caráter psicológico de Isabel, e aproxima-a e à sua história do espectador contemporâneo, através do uso da imagem e não das palavras. Num artigo online, em “Film Comment”, Kathleen Murphy argumenta a complexidade do romance e do filme, pelo que é exigido ao espectador uma maior concentração e esforço para compreender a história de Isabel.
Tal como The Piano, The Portrait of a Lady também usa o toque como forma de sedução. E é este conhecimento sobre o toque, que faz com que Osmond seja bem-sucedido na sua sedução de Isabel. Numas das primeiras cenas do casal, Osmond chama a sua filha para o seu colo, e coloca as suas mãos na barriga da filha. Esta demonstração de carinho entre filha e pai, desperta em Isabel o desejo de ser ela no lugar de Pansy. As mãos na barriga da filha também despertarão o desejo de Isabel, uma vez que esta será uma das imagens hipnóticas que a farão desejar o toque de Osmond, a mão dele na cintura dela. McHugh argumenta que este desejo de Isabel é perverso, porque ela quer substituir tanto o papel de Merle, como o papel da filha para Osmond. Tendo em conta os escritos de Freud, Isabel estaria neste momento numa fase de Édipo, pois ela deseja Osmond tendo em conta que ele vive sozinho com a sua filha, algo que ela se relaciona, uma vez que ela viveu durante anos sozinha com o seu pai, mais a sua irmã. Desta forma, Isabel revela o seu desejo mais patriarcal de sempre, ela deseja um homem que é pai, e que se preocupa com a educação da sua filha e a ama. Isabel procura um alargamento da fase de Édipo em Osmond, ao escolhê-lo devido às suas parecenças, de acordo com o romance, com o pai da protagonista.
E, por fim, numa das cenas mais emblemáticas do filme, já no seu final, após a morte de Ralph. Goodwood segue Isabel até debaixo de uma árvore e tenta segurar a face dela, enquanto a heroína respira pesadamente e olha para todos os lados freneticamente. Murphy compara-a a um animal selvagem prestes a ser apanhado. E tal como Murphy defendeu no seu texto, Goodwood parece ser demasiado grande e vivo para Isabel. Mas assim que ele lhe toca, o toque que possivelmente ela mais deseja, Isabel beija-o apaixonadamente. Nesta cena, Isabel confessa que se
74 casou com Osmond para fugir de Goodwood, o que me leva a acreditar que Isabel tinha dois amores, sendo que Ralph é o lado intelectual que ela tanto ansiava, e Goodwod a paixão ardente, o amor verdadeiro.
2.7. A viagem
A primeira viagem de Isabel começa quando ela deixa a América e vai para a Europa, a terra prometida, como Bessière lhe chama ou incógnita como Murphy denomina. Murphy comenta que James tem por hábito enviar as suas heroínas em viagens fatais á Europa. Em contrapartida, Murphy comenta que as heroínas de Campion têm a capacidade de se autodestruírem, uma vez que Isabel casa-se com Osmond por sua decisão. Bessière argumenta que, com esta viagem Isabel quer desenvolver a sua alma e espírito, através da procura incessante do significado da vida, sendo que para ela, o significado da vida fica circunscrito, no filme, às suas relações com os seus admiradores, Lorde Warburton, Casper Goodwood, Gilbert Osmond e Ralph Touchett (ainda que ele nunca tenha declarado o seu amor a Isabel, exceto no leito de morte, o que faz dele, na minha opinião, um pretendente silencioso). Bessière aponta como uma chave importante na história, tanto no filme como no romance, a imagem que Isabel tem de si mesma, a sua filosofia e a conceção da vida (Bessière, 2009:126/7). Isabel é uma mulher otimista, orgulhosa, inteligente, independente, um pouco arrogante, um pouco ingénua e com muitas expectativas tanto em relação a si mesma como à sua vida. Mas julgo que Isabel é acima de tudo uma idealista, o que a torna ingénua e ignorante daquilo que se passa à sua volta e das pessoas que conhece. Bessière afirma que o ideal da felicidade e de uma vida bem-sucedida para Isabel é a possibilidade de ser totalmente livre, o que Bessière questiona, interpretando este ideal como a completa falta de restrições, e o que, uma vez mais, prova que o idealismo da personagem mostram ser a sua ruína.
A viagem é um tema importante ao longo do filme, não só para a história como para a personagem de Isabel. A viagem para a Europa, a terra prometida e do conhecimento, como Bessière afirma. Esta viagem tem a característica importante que é a sua duplicidade. Na opinião de Bessière, esta é uma viagem física, geográfica que Isabel começa na tentativa de descobrir o mundo, o significado da vida e das relações entre pessoas, em que ela quer conhecer o mito europeu, iniciar- se nele, conhecer pessoas importantes e viver e experienciar o que lhe é possível. Por outro lado, a viagem de Isabel também tem um caráter interno, em que, na minha opinião, não pode ser uma viagem consciente, visto que Isabel parece ter uma imagem determinada de si mesma, mas que, segundo Bessière, é uma viagem pela procura do eu, isto é, uma viagem em que ela procura conhecer-se, uma vez que ela não sabe quem é, devido à ausência de uma certa consciência e
75 ingenuidade que são associadas ao seu caráter. E se esta viagem, por si só, já não tinha um bom augúrio na história de vida de Isabel, devido à representação do continente Europeu, como o continente mau, ela também vai resultar numa série de confrontos, sendo que o primeiro é um choque cultural entre a América do Norte e a Europa. Por exemplo, quando Isabel decide viajar, após a morte do seu tio, ela não compreende porque não pode ir sozinha ou só com a sua amiga Henrietta e tem de ser acompanhada pelo seu primo, Ralph, como seu “chaperone” (acompanhante) (Bessière, 2009:127). Daí Bessiére comentar que Campion elimina as primeiras cem páginas do romance, em que nos é dado uma espécie de um resumo sobre a vida de Isabel nos EUA, ainda que a sua identidade seja visivelmente marcada pelas características do seu país. Os confrontos não acontecem apenas com o continente europeu, Isabel terá outros confrontos que a vão mudar e vão influenciar a sua história, como por exemplo, os confrontos com as outras personagens, sendo que Ralph Touchett, Madame Merle e Gilbert Osmond estão no centro destes, uma vez que estas três personagens são aquelas que impulsionam, de certa forma, Isabel a agir e alteram o rumo da sua história (Bessière, 2009:127).