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AS EXPERIÊNCIAS: ENTRE ESCOLHAS E CONSTRANGIMENTOS

3 OS CAMINHOS E PRIMEIROS “ACHADOS” DO CAMPO

5 AS EXPERIÊNCIAS: ENTRE ESCOLHAS E CONSTRANGIMENTOS

O presente capítulo se propõe a discutir as experiências das mulheres entrevistadas – soteropolitanas de classes médias – face à condição de chefia dos seus núcleos doméstico- familiares. Entendida a pluralidade de caminhos que levou essas mulheres, na condição de separadas, viúvas, solteiras e mesmo de casada, a assumirem a responsabilidade do exercício da provisão econômica e da autoridade junto às suas famílias, convém refletir, nesse contexto, como esta experiência de chefia vem sendo conformada face à articulação dinâmica de seus pertencimentos de classe, gênero, raça/etnia e idade/geração. Na medida do possível, tentarei romper com qualquer tentação de pensar esses pertencimentos de per si ou de simplesmente somá-los, como se estivesse em jogo apenas uma lógica aditiva de hierarquias sociais.

Essa reflexão acima leva à necessidade de pontuar, mais uma vez, a importância do entendimento das “interconexões entre sistemas de opressão” (HILL COLLINS, 2000) interatuantes no contexto socio-histórico, construindo relações nos níveis macro e micro social. Assim, as múltiplas experiências dos sujeitos desta investigação são percebidas via a adoção de uma lógica interseccional (CRENSHAW, 2002) que permita visibilizar a diversidade de eixos de poder que estruturam as posições relativas dos sujeitos, à medida que se interceptam e redefinem as relações desses indivíduos com o seu entorno e a construção de suas subjetividades. Portanto, falar em “experiência”, consoante com a perspectiva teórica adotada, significa articular as condições objetivas do universo das entrevistadas – inserção profissional, status conjugal, práticas cotidianas etc. – e a dimensão simbólica da vida desses sujeitos – dimensão cultural, visão de mundo, representações, etc.

Uma questão central, explicitada no primeiro capítulo e que permanece em todo o texto e o que agora poderei, finalmente, dar a devida atenção é a respeito da existência de uma

especificidade em torno do objeto “mulher chefe de família de classes médias”. Essa questão central dá margem a um conjunto de outras interrogações, tais como: qual é mesmo o diferencial das mulheres chefes de família de classes médias em relação ao conjunto de mulheres agrupadas sob essa denominação? Há alguma especificidade nesse grupo que justifique o seu estudo, em particular? Por que tenho insistido na “falsa homogeneidade” que se esconde dentro desse grupo, quando não parece ter muita repercussão nessa área de estudos o diferencial de classe entre elas e, inversamente, crescem significativamente os estudos que reforçam a tese de “a mais pobre entre os pobres”? E, mais ainda, por que não tem sido dada muita atenção ao próprio diferencial intra-classe entre essas mulheres, já que há outras hierarquias além de classe atravessando a vida desses sujeitos?

Assim, nesse intuito, o presente capítulo buscará, inicialmente, justificar a relevância hoje de se estudar mulheres chefes de família de classes médias. Mas, não será pela apresentação de argumentos teóricos sobre a centralidade do pertencimento de classe na vida dos sujeitos ou mesmo pela apresentação de números que mostrem o crescimento do fenômeno entre mulheres de diferentes classes sociais na sociedade brasileira nos últimos 30 anos. Acredito que esses pontos, mesmo que de forma não muito aprofundada, já foram teoricamente situados neste trabalho, anteriormente. Na verdade, o propósito desse capítulo é possibilitar o confronto entre os achados obtidos a partir da pesquisa empírica realizada por mim junto a mulheres chefes de família de classes trabalhadoras21 e este estudo envolvendo mulheres chefes de família de classes médias. Pretendo, assim, discutir o que aproxima e o que afasta essas mulheres, mas também me proponho a discutir o que internamente as diferencia do ponto de vista intra-classe.

Confesso que retomar um trabalho já realizado há algum tempo, versando sobre a mesma temática, me pareceu não só desafiador como também indesejável, parecendo uma repetição de dados e esquemas teórico-metodológicos, onde mudava apenas o cenário. Felizmente, o amadurecimento da reflexão, ajudada pelo avanço de uma relativa “intimidade” com os dados e pelo diálogo com pesquisadoras mais experientes, fez-me ver a riqueza que tal

21 Trata-se da pesquisa “Tecendo os fios e segurando as pontas: mulheres chefes de família em Salvador. Realizada como dissertação de mestrado – também como parte do VIII Concurso de Dotações para Pesquisa sobre Mulheres e Relações de Gênero, Fundação Carlos Chagas/Fundação Ford –, foi defendida em 1999, junto ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia. Essa referida pesquisa usa um esquema teórico-metodológico bastante próximo à presente investigação e buscou discutir, a partir de histórias de vida e entrevistas em profundidade com 26 mulheres chefes de família moradoras em um bairro do Subúrbio Ferroviário de Salvador – em sua maioria mulheres negras e trabalhadoras não qualificadas –, que sob o “rótulo” de chefe de família se esconde uma diversidade de trajetórias e experiências, face à convergências e divergências produzidas por complexos processos de hierarquização social.

cotejamento ensejava. Longe de “requentar” uma discussão, acredito que não apenas ela apresenta possibilidades de ser atualizada e – espero – enriquecida, ao permitir um confronto entre duas realidades que, na verdade, constituem um todo e ainda poderá, desta maneira, contribuir para, de alguma forma, descompartimentalizar as “caixinhas” do real reconstruído pela teoria e, quem sabe, possa mostrar um pouco mais acerca desses sujeitos, paradoxalmente próximos e plurais.

5.1 “QUEM É ESSA MULHER?” – QUAL O DIFERENCIAL DAS MULHERES CHEFES DE FAMÍLIA ?

31 de dezembro de 2007. Ultimo dia do ano, uma importante revista de circulação nacional e periodicidade semanal publica como matéria de capa a seguinte reportagem: “A segunda vida das mulheres: a crise da meia idade chega ao mundo feminino – e traz mudanças muitas vezes para melhor”22. O sugestivo título aponta emblematicamente para uma espécie de “renascença” de mulheres de quem, aparentemente, já não se espera muito, afinal parece ser “natural” que haja uma chamada crise da meia idade entre mulheres que – segundo os argumentos apontados na reportagem – já não possuem mais um conjunto de predicados “a essa altura da vida”, como por exemplo, grande vigor físico e poder de sedução com a chegada da menopausa ou mesmo que começam a ficar desempregadas e com o “ninho” (e a cama) “vazio”(s) – já que estão mais sob ameaça do divórcio que outras faixas de idade –, entre outros fatores apontados na própria reportagem. Mas por que causa tanto espanto que “elas” estejam “mudando para melhor”?

Uma leitura mais atenta do texto e dos sorridentes rostos de vistosas mulheres “adultas plenas” e “maduras”, como prefiro chamá-las, evidencia um certo perfil entre as entrevistadas – uma empresária de 48 anos, uma proprietária de escola de educação infantil de 48 anos, uma microempresária de 43 anos, uma professora de inglês de 46 anos, uma hostess de 46 anos e uma aposentada de idade não revelada que, embora pós-graduada, terminou de se graduar como melhor aluna de um curso na área de saúde em importante instituição de ensino do país e, nas horas vagas, mergulha e pratica escalada e rapel –, todas mulheres moradoras de grandes centros urbanos, pertencentes às classes médias (tendendo para classe média alta),

empregadoras ou empregadas em funções qualificadas e com um bom nível de remuneração, todas na faixa dos 40 anos – apenas uma delas parece estar um pouco acima dessa faixa. Mas há algo mais, que aparentemente, seria apenas uma informação suplementar, mas que parece ser o grande ponto de intersecção entre elas: a meu ver, o que essas mulheres têm realmente em comum é o simples fato de que todas elas são separadas e mães – e, portanto, são chefes de família – e, paradoxalmente, não estão em situação pior de que aquela vivenciada antes, na condição de “mulheres casadas”.

Na verdade, levando em consideração esse último ponto, penso que o texto poderia ter um outro título, sem nenhum prejuízo ao conteúdo e objetivo da matéria: “Incrível: existe vida após o casamento para as mulheres e ela parece ser muito melhor que a anterior”. Convém analisar o que está por trás de reportagens como essa que, de um lado, demonstram de forma bastante evidente a persistência e força do modelo normalizador da família conjugal nuclear e, de outro, a nada sutil recorrência dos preconceitos em relação às “fases da vida”, tendendo a se fixar na juventude, estandardizada como o momento ideal e de maior realização do sujeito.

A esse respeito, Gonçalves (2007), como já apontado em outro momento, vai defender a idéia de que para se estudar certos temas é preciso que se entenda a complexidade de fatores que envolvem as explicações dominantes em cada área. No caso do seu estudo sobre “mulheres solteiras/independentes/que vivem sozinhas” – e acredito que também no caso das mulheres chefes de família –, ela vai defender que é preciso que se atente, especificamente, para a interação de fatores na formação dessa visão dominante como a demografia, a mídia e as representações da população alvo. Nessa perspectiva, a autora vai fazer uma crítica contundente ao primeiro termo da equação, a demografia, considerando que esta ainda se encontra prisioneira de um modelo idealizado de conjugalidade e heterossexualidade. Vejamos o que ela diz a esse respeito:

Ao generalizar conclusões a partir de estudos de base populacional, a Demografia contribui para a naturalização de seus pressupostos e estes estimulam a regulação social, como ocorre nas estratégias de “intervenção” nos assuntos do casamento e da família, mostrando, uma vez mais, a validade da afirmação das feministas da segunda onda de que o “privado” é “político” (GONÇALVES, 2007, p.38-39). Ainda que veja sentido na crítica dessa autora e perceba um claro enviesamento nessa direção por ela apontada em vários trabalhos no campo da demografia – e também da sociologia, antropologia, psicologia e outros –, tenho que discordar de que esse seja um direcionamento uniforme nessa área de estudos ou mesmo uma tendência dominante. Na verdade, o que ocorre é que “a mídia valoriza os dados produzidos e disseminados pelas

pesquisas demográficas, conferindo-lhes estatuto de verdade e dando-lhes uma dimensão mais dramática, às vezes, de cunho sensacionalista” (GONÇALVES, 2007, p. 4). Assim, parece ser mais problemático o tipo de enviesamento produzido pela difusão de certas discussões na área da demografia, principalmente a partir de sua apropriação pelos diferentes meios de comunicação social – notadamente a TV, jornais e revistas de grande circulação, em matérias, produzidas por pessoas que não são especialistas na área ou por uma releitura da opinião desses profissionais. A própria Associação Brasileira de Estudos Populacionais – ABEP tem se mostrado preocupada, em anos recentes, acerca da recorrente difusão de opiniões equivocadas e/ou informações incorretas sobre a dinâmica populacional divulgada constantemente e com estardalhaço pela mídia23, mas tem se mantido numa postura de crítica respeitosa à liberdade de expressão, pois não é possível um patrulhamento de informações apenas porque potencialmente apresentam um largo espectro de interpretações.

Pois bem, aonde pretendo chegar com essa discussão? Que o tema mulheres chefes de família, nas suas mais variadas leituras, é um dos exemplos desse enviesamento por parte da mídia e que esse é um dos fatores que tem contribuído fortemente para a construção de representações sociais negativas a respeito do fenômeno. Dois exemplos são bastante ilustrativos desse “efeito rebote” da divulgação de certas informações produzidas por amplas pesquisas: o primeiro, se refere ao mal-estar produzido pela mídia dos países desenvolvidos que mantêm políticas sociais para as chamadas single mothers, convertendo-as em indivíduos acomodados e dependentes do sistema de proteção social de seus países (SAFA, 1999); o segundo, pode ser bem exemplificado pelo “pânico” em torno das mulheres como “produtoras da miséria”, incentivado pela difusão, nos países do sul, de uma idéia que associa o crescimento dos domicílios com chefia feminina à multiplicação do número de pobres entre as mulheres (BUVINIC, LYCETTE e McGREEVEY, 1983) ou ainda pelo aumento da gravidez indesejada entre mulheres jovens nas classes mais pauperizadas da população, produzindo o chamado processo de feminização da pobreza.

Logicamente que não devo me alongar nessa discussão, já delineada no primeiro capítulo deste trabalho, mas considero sua reflexão didaticamente importante para explicar o tom de evidente surpresa adotado pela matéria da revista supra citada, diante da inesperada “mudança para melhor” ocorrida na vida das mulheres entrevistadas em sua reportagem. Mas, antes disso, não posso deixar de me furtar a um breve comentário a respeito desse alarde

23 Ver a esse respeito o posicionamento da diretoria da ABEP no site www.abep.org.br ou em grupos de discussão de membros dessa mesma associação como, por exemplo, o Grupo de População e Pobreza ABEP.

produzido pelo estabelecimento dessa relação – espúria, insisto – de causalidade entre mulheres e o fenômeno da pobreza. Em primeiro lugar, as mulheres não são as responsáveis pelo crescimento da pobreza no mundo, mas elas são, de fato, a maioria entre os pobres do mundo porque, em primeiro lugar, há mais pessoas pobres no mundo que pessoas ricas; em segundo lugar, porque é impossível negar que as hierarquias de gênero, historicamente, vêm fazendo com que as mulheres tenham menos acesso à propriedade e a renda e, portanto, tenham menos chances que os homens de vencer essa lógica desigual de acesso à riqueza socialmente produzida, convertendo-se, portanto, em “a maioria da maioria pobre” e, em terceiro lugar e não menos importante, não é possível esquecer que no caso das chefes de família, somam-se dois outros fatores: antes de serem chefes de seus domicílios, essas mulheres foram mães e, na maioria das vezes esposas, e isso reduz enormemente as suas chances de êxito em um mercado competitivo e fortemente marcado pelo gênero (CASTRO, 2001).

Retomando a conexão com o foco principal dessa reflexão, fica mais claro agora entender porque é tão surpreendente encontrar mulheres de meia idade, separadas e chefes de família que melhoraram de vida, conforme aponta a referida revista. A discussão que a reportagem não faz é que, embora a ênfase da explicação para o grande diferencial dessas mulheres esteja assentada na questão geracional – já que se refere a mulheres na meia idade, acima dos 40, anos e que, do alto de sua experiência de vida, conseguiram aprender a “transformar crise em oportunidade” –, a chave para essa “guinada” em suas vidas se encontra no diferencial de classe: não é à toa que todas são mulheres de classes médias, portanto, detentoras de alguns recursos, o que envolve diretamente, em todos os casos, a posse de algum capital, seja ele econômico ou cultural.

É sobre a reflexão em torno desse “diferencial” da mulher chefe de família de classes médias que gostaria de avançar nessa discussão. Qual o significado de ser de classes médias na vida das mulheres apresentadas na revista e para as mulheres por mim entrevistadas? Sem dúvida que é a existência de uma margem de possibilidades de escolha muito mais larga que a possuída pelas mulheres de classes populares24. Identifico, entre outros fatores, a existência de

24 A opção por falar em classes populares ao invés de classes trabalhadoras se deve a dois fatores: em primeiro lugar, por gerar uma certa dissonância em relação ao uso de classe média, também composta em sua grande parte por trabalhadores, ainda que diferencialmente dotados de capitais econômico e cultural, bem como em termos de visão de mundo; em segundo lugar, ainda que o uso de classes populares possa se fixar mais no “popular” do que na “classe”, não entra em choque com uma perspectiva mais histórico-estrutural que enxerga a força dos

um considerável nível de protagonismo social desses sujeitos25, o fator preponderante para explicar esse diferencial entre mulheres de classes médias e aquelas pertencentes às classes populares. Quando comparadas, as mulheres chefes de família pertencentes a diferentes classes sociais, em ambas as pesquisas, vivenciam um curso de vida extremamente diferenciado antes mesmo de assumirem a responsabilidade pelo exercício da provisão e autoridade sobre suas famílias constituídas. As trajetórias das mulheres de classes médias, conforme vimos anteriormente, marcadas e conformadas por uma pluralidade de fatores para além da classe – pelas interseccionalidades de gênero, raça/etnia e idade/geração, mas sempre entrelaçada à dimensão de classe – vai fazer com que o “ponto de chegada” desses percursos seja vivido de uma forma diferenciada, pois, a própria combinação dessas hierarquias, vai lhes ser muito mais favorável, quando comparadas à das mulheres de classes populares. Vejamos a seguir, como a experiência de tornar-se chefe de família vai ser vivenciada por essas mulheres.

“Abre as asas sobre mim, oh senhora liberdade”

Os estudos sobre chefia feminina vão apontar a necessidade de se atentar para uma pluralidade de fatores que se interconectam para explicar a ocorrência e ampliação dos domicílios que passam a ter uma mulher como a pessoa de referência, pois, como lembra Berquó (2002), o aumento desse tipo de arranjo pode envolver mudanças em termos de nupcialidade, fecundidade, migração e mortalidade, num contexto de profundas transformações econômicas, sociais, culturais e comportamentais. No caso das mulheres chefes de família de classes médias entrevistadas, pude constatar a variedade de situações que envolvia a experiência de chefia – separação, gravidez “independente”, viuvez, casamento, desemprego masculino, desigualdades de gênero, práticas de adoção – o que pode significar que não é tão simples, para muitas mulheres, identificar o “marco zero” da experiência de chefia de seu núcleo doméstico-familiar.

antagonismos entre as classes. Assim, considero classes populares aqui como as frações mais expropriadas da classe trabalhadora – envolve não só a ausência de capitais, mas também uma visão de mundo correspondente. 25 Não há nenhuma tentativa de uso da desgastada noção de protagonismo utilizada amiúde em relação a questões como “protagonismo cidadão” ou “protagonismo juvenil” que supõe, muitas vezes, uma atuação do sujeito dentro de um determinado “script” socialmente imposto. Falo de protagonismo no sentido mais laxo do termo, associado à idéia de uma possibilidade de fazer escolhas, logicamente não aleatórias, mas resultantes do encontro entre a volição e a oportunidade.

Assim, quando perguntadas acerca do momento em que se iniciou a experiência de chefia, muitas mulheres não souberam dizer ao certo, porque, se deram conta, apenas para exemplificar, de que muito antes da separação já vivenciavam essa experiência ainda que sem muita consciência e reflexão em torno dessa questão:

Mantive uma relação, depois de sete anos de casados, de “carregar tudo”, com ele sem trabalhar, fazendo bico, e eu segurei a onda por muito tempo. A minha família toda dizia “não tem sentido, você paga aluguel, compra casa, vende casa, vive com essa insegurança toda com um homem ao seu lado só pra dizer que é teu marido” e eu nas minhas ilusões de amor, que achava que aquilo tudo era amor, mas era um pouco de hábito, quer dizer acho, não, hoje eu sei [...] (Leci, preta, 50 anos, gerente telemarketing).

Na verdade, eu ganhava mais que ele. [...] Ele estava guardando [dinheiro] para fazer as coisas dele. Todo o meu dinheiro era para dentro de casa, eu pagava tudo. [...] Eu me sentia explorada, porque apesar de ser um papel importante na família, organizar as finanças. No meu caso, o que pesou mais, foi a falta de reconhecimento (Marisa, preta, 42 anos, advogada).

Sem dúvida que, o fato dessas mulheres trabalhadoras qualificadas terem “o seu dinheiro”, vai ser um grande diferencial em relação às mulheres de classes populares – elas não foram obrigadas a ir assumindo sob qualquer circunstância a chefia da casa, mas o fizeram principalmente porque detinham os meios para tal. Nessa direção, Marri e Wajnman (2006) vão dizer que os casos de esposas provedoras podem ser provisórios ou permanentes, mas que, muitas vezes, podem significar um momento que antecede ao da ruptura conjugal, já que nem sempre representam um aumento do poder de barganha dessas mulheres, que além da provisão da família ainda precisam administrar questões objetivas como a necessidade de “dar conta” da carreira e simultaneamente lidar com todos os desdobramentos que envolvem a esfera dos cuidados com os filhos e a administração doméstica da casa.

No caso das mulheres entrevistadas de classes médias, o principal fator deflagrador da