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MULHERES CHEFES DE FAMÍLIA DE CLASSES MÉDIAS: UM OBJETO LEGÍTIMO?

Importantes pesquisas sobre a ampliação das famílias chefiadas por mulheres na América Latina e Caribe (SAFA, 1998; GONZÁLEZ DE LA ROCHA, 1999; DIAZ, 2001; OLIVEIRA e GARCíA, 2004), vêm mostrando a necessidade de se compreender, para além dos grandes estudos quantitativos, a heterogeneidade que se agrupa sob a denominação “mulheres chefes de família”. Essas autoras vão retomar reflexões, já apontadas, sobre o processo de estigmatização e estereotipia sociais em torno desse arranjo familiar, sempre confrontado com o modelo idealizado dominante da família conjugal nuclear, o que termina por simultaneamente gerar uma visão negativa, como um fenômeno patológico e gerador de pobreza. Safa vai dizer, a esse respeito, que “as unidades chefiadas por mulheres têm crescido em todos os setores sociais, o que mostra que nos achamos ante um fenômeno que não se relaciona unicamente com a pobreza e a economia” (SAFA,1999, p. 10, minha tradução). Portanto, é fundamental o esforço de pensar a pluralidade de circunstâncias que vai configurar esse fenômeno, envolvendo assim, uma complexa articulação de processos, inclusive a ampliação, pelas mulheres, da possibilidade de vida independente (OLIVEIRA, 1992).

Com relação ao Brasil, Scott (2002b, p.1) confirma a ampliação do fenômeno, nessa mesma direção sinalizada pelos autores supra citados, quando afirma que, no Brasil, a “maior parte de mulheres chefes de família são pobres”; por outro lado, ressalta, em tempo, que é igualmente importante não esquecer que “algumas mulheres chefes não o são”. Essa última afirmação do autor servirá como “mote” para a reflexão a ser desenvolvida nesse momento: se a maioria das mulheres chefes de família é pobre, até que ponto faz sentido estudar mulheres de classes médias nessa condição? Uma outra questão também parece pedir reflexão, nesse contexto: por que classes médias e não camadas médias, como o fazem diversos estudos que tratam esse segmento populacional?

Propositadamente, gostaria de começar essa reflexão pelo fim, isto é, pela discussão em torno das dificuldades e dilemas em optar pelo uso do termo “classes médias” ao invés de “camadas médias”. Revisitando a bibliografia sobre essa questão, logicamente que me deparei com a vasta e profícua produção dos pesquisadores do Museu Nacional do Rio de Janeiro, entre eles destacam-se os trabalhos de Salem (1978), Velho (1981; 1985; 1986), Dauster (1987), Figueira (1987; 1988), Heilborn (2004) e Vaitsman (1994), apenas para citar alguns autores e determinadas produções mais voltadas à abordagem das classes médias urbanas. Esses estudos, versando sobre as mais variadas temáticas – como o contexto da família moderna e relações entre seus membros, transformações nas famílias e no casamento e a relação com a construção das identidades, novas e velhas conjugalidades, relações amorosas e sexualidade, constituição de universos culturais no contexto urbano, entre outros temas –, têm em comum mais do que a filiação institucional de seus autores, pois tomam como locus privilegiado de estudo a realidade de populações urbanas num contexto metropolitano – a cidade do Rio de Janeiro –, pertencentes a estratos situados nos setores médios da sociedade brasileira, com acesso a um elevado nível de escolarização e, portanto, mais intelectualizados e permeáveis a um discurso psicanalizado do real. Gonçalves (2007) comenta que as abordagens utilizadas nesses estudos, em sua grande maioria,

[...] apóiam grande parte de suas análises na teoria de Louis Dumont (1985; 1993), que opera com a oposição holismo (hirarquia) e individualismo (igualitarismo), atribuindo às sociedades modernas uma característica mais igualitária e, portanto, individualista. [Assim,] (...) as camadas médias urbanas reuniriam certas condições que, permeadas por valores individualistas, favoreceriam o florescimento de arranjos familiares alternativos ou “novas famílias” que teriam, nessas camadas, maiores chances de se afirmarem enquanto uma tendência (GONÇALVES, 2007, p. 13).

Foge aos objetivos desse trabalho, no presente momento, a realização de uma reflexão em torno dos limites e possibilidades oferecidos por esses estudos para a compreensão desse universo “flexível e plural” dos estratos médios brasileiros e de suas formas de organização familiar. O que, de fato, interessa é refletir os limites e possibilidades do uso das noções de camadas médias e classes médias para os objetivos desta investigação. Considero, nesse contexto, que os usos de classes médias e camadas médias não são absolutamente intercambiáveis, pois enquanto o primeiro termo remete obrigatoriamente à necessária vinculação entre dimensões objetivas e subjetivas do universo dos sujeitos sociais, portanto tomando as relações de produção e o contexto da coletividade como importante vetor para o entendimento do individual, o segundo permite uma leitura da realidade mais voltada para a interpretação de fenômenos culturais, isto é, leva à análise da formação de um modo de pensar e de uma visão de mundo típico de um grupo que, agora, corre o risco de ser visto desenraizado do chão das relações objetivas, dependendo de formulações abstratas como, por exemplo, a de “estratos médios”. Assim, nessa segunda abordagem, sem a necessária vigilância quanto à articulação entre ação e estrutura, pode-se facilmente resvalar para a minimização da força dos conflitos e das determinações sociais, o que pode levar a um olhar que torna o mundo das relações sociais, numa certa maneira, refém de uma lógica de construção de sentido articulada meramente pela dimensão da subjetividade.

Visando dar continuidade a essa reflexão e reafirmando minha posição contrária a qualquer tentativa de abandono teórico da utilização do conceito de classe e a sua substituição pelas noções de “estratos” ou “camadas”, convém retomar a própria trajetória desse conceito, situando sua filiação ao pensamento marxista e a teorizações dele decorrentes. Scalon (1998) comenta a esse respeito que o grande desafio dos “herdeiros” do pensamento marxista de classes é exatamente dar conta da “complexidade da estrutura de classes das sociedades atuais, mantendo a base de sua teoria, que é a perspectiva do conflito e do antagonismo de interesses intrínsecos às relações de classe no modelo capitalista” (SCALON, 1998, p. 2). Isso se deve, principalmente, por vivermos em um contexto no qual já não se pode mais pensar em uma estrutura dual – apenas em torno das classes burguesa e proletária –, com a ampliação de grupos que possuem uma “posição de classe não polarizada”, como é o caso das classes médias.

Posto esse desafio, fica então a questão de como situar teoricamente essas “classes não polarizadas”, isto é, como pensar as classes médias1, diante da expansão dos chamados white-

collar? Vários autores vão buscar alternativas teóricas para enfrentar essa discussão

(POULANTZAS, 1978; WRIGHT, 1979; GOULDNER, 1979), pois à medida que o capitalismo avança e se moderniza parece crescer em sua complexidade, como aponta Benyon:

O dilema histórico tem sido o de identificar uma classe cujo nome não indica um papel ou uma atividade, mas “um espaço, um entremeio [...] um grupo que não consegue ou que se recusa a se enquadrar na divisão principal entre ricos e pobres” (BENYON, 1996, p. 258, citando SEED).

Assim é que essa aparente “rebeldia” das classes médias em se deixar clarificar, vai produzir um intenso debate entre estudiosos das mais variadas filiações teóricas. A despeito da importância teórica dessa discussão, não realizarei uma vasta reflexão em torno dessa questão – visto que tal análise seria estranha aos objetivos desta investigação –, importando, portanto, apenas situar a contribuição de Poulantzas (1978), devido à sua filiação ao pensamento marxista – e sua fidelidade a essa perspectiva – e ao esforço exitoso que realiza para ampliar a discussão de classes, iluminando aspectos relevantes à compreensão do que vem a ser chamado de “classes médias”.

Poulantzas (1978, p.13) vai dizer que as classes podem ser definidas como “um conjunto de agentes sociais determinados principalmente, mas não exclusivamente por seu lugar no processo de produção, isto é, na esfera econômica”. Essa definição de classe será fundamental para pensar a respeito das classes médias, por trazer de volta a relevância, tão cara ao pensamento marxista, “do posicionamento dos agentes no conjunto das práticas sociais, pelo seu lugar na divisão social do trabalho” (ZAMBELLI, 2006, p.1). Essa análise, no entanto, não prescinde de pensar as relações entre a organização material do trabalho no capitalismo e as relações de dominação e subordinação políticas, pois como lembra Zambelli

Através dessa complexa teia de interações [...], temos que, da determinação estrutural das classes – [...] de acordo com a propriedade dos meios de produção e a divisão social do trabalho – origina-se sua luta – prática nas esferas políticas, ideológicas e econômicas – que definirá a conjuntura, a posição das classes que vão se constituindo em forças sociais (ZAMBELLI, 2006, p.2-3).

1 Eder (2001, p.17) vai dizer que faz sentido falar em classes médias ao invés de classe média porque “o uso do

Essa contribuição de Poulantzas, apontada pela autora, é fundamental para que se possa entender que na sociedade capitalista a determinação estrutural da classe é simultaneamente constituída pelo econômico e pelo político-ideológico. Daí que qualquer esforço para pensar em um processo de estratificação de diferentes classes sociais deve levar em consideração essa dupla dimensão – indo além da esfera meramente econômica. Essa análise se torna extremamente útil para a reflexão em torno das classes médias, visto que, a depender de determinadas conjunturas e em sociedades específicas, essas frações das classes podem “assumir um papel de forças sociais relativamente autônomas” (POULANTZAS, 1978, p.25).

Esse autor vai ainda afirmar que “uma formação social comporta mais de duas classes [...] que só existem na luta das classes, em dimensão histórica e dinâmica (op.cit., p. 26-27). Assim, nessa perspectiva, é que se pode afirmar que falar em classes médias não implica em pensar em camadas ou conjunto

ao lado, à margem ou acima, em suma exteriores às classes. As frações são frações de

classe: a burguesia industrial é uma fração da burguesia; as camadas são camadas de classe: a aristocracia operária é uma camada da classe operária. As próprias categorias sociais [...] têm um pertencimento de classe (POULANTZAS, 1978, p.215, grifos do autor).

Retomando a discussão mais geral sobre classe, considero que a complexificação dessa discussão parece ter atingido seu ápice no questionamento mais amplo do próprio sentido de se falar em classes sociais como um elemento explicativo da dinâmica das sociedades industriais da atualidade; daí a pergunta: seria correto afirmar que “as questões de ordem econômicas ou redistributivas perderam significado na sociedade brasileira e que teriam sido substituídas por valores e conflitos pós-materialistas de ordem político-cultural?” (LARANGEIRA, 1993, p. 89). Responder afirmativamente a essa questão, seria, no mínimo, abstrair um pequeno detalhe: o avanço do capitalismo industrial monopolista, em sua modalidade flexível e globalizada, reforça cada vez mais o princípio básico que o alimenta, que é exatamente a lógica da acumulação. Assim, Larangeira vai responder a essa questão, apontando a necessidade de se atentar para o poder do capital de “produzir efeitos sociais determinantes” sobre os diferentes grupos sociais:

Nesse sentido, caberia retomar o argumento de Wright (1989) para quem a estrutura de classes é ainda o mecanismo básico pelo qual os recursos sociais são apropriados e distribuídos, o que determinaria a capacidade de ser dos diferentes atores sociais. [...] A estrutura de classes, ao condicionar a capacidade dos agentes de atuar socialmente, é também o determinante central na constituição do poder social. A estrutura de classes

estabeleceria, pois, os limites a partir dos quais operariam os mecanismos não-classistas (LARANGEIRA, 1993. p. 90, grifo da autora).

Não custa observar que, numa sociedade capitalista como a nossa, movida pelo lucro processado na esfera econômica, torna-se imprescindível entender como “a posição dos indivíduos no mundo do trabalho” termina por definir o seu acesso a recursos sociais, “condicionando o nível de suas possibilidades culturais e políticas, ou seja, o horizonte em que se definiria a estrutura de suas escolhas e estratégias, limitando-as ou ampliando-as” (LARANGEIRA, 1993, p. 90). Daí se poder concluir, sem nenhum exagero, ressaltando a impossibilidade de qualquer análise que prescinda do entendimento das relações de classe para explicar a sociedade do presente e seus diferentes grupos sociais, não apenas no que se refere às suas permanências como também de seus múltiplos processos de mudança social.

Por fim e retornando às perguntas iniciais que estimularam essa discussão, gostaria de retomar o debate sobre as mulheres chefes de família de classe média e a pertinência de uma investigação sócio-antropológica junto a esse grupo social. Conforme apontado no início deste capítulo, acredito que a grande novidade das famílias chefiadas por mulheres nos estratos sociais pertencentes às classes médias não encontra explicação em um diferencial significativo em termos econômicos em relação aos grupos domésticos conjugais nucleares – o que faria com que esses sujeitos se constituíssem em um grupo significativamente mais pobre e que, portanto, não conseguiria reproduzir a sua condição de classe e transmiti-la ao seu grupo doméstico. Mas, o que me parece é que as raízes explicativas dessa situação, que causa ainda algum tipo de “choque” na coletividade – muitas vezes reproduzido acriticamente em uma série de estudos “bem intencionados” que se colocam “em defesa da família” –, possivelmente, estariam assentadas na questão ideológica e, daí, se tornar problemática a sua ampliação em setores cujo referencial dominante ainda é o da família nuclear conjugal, composta por uma parelha heterossexual e sua prole. Gonçalves (2007, citando Fonseca) faz esse mesmo tipo de análise em relação à excepcionalidade da mulher solteira diante do imaginário social e diz que “se as ‘solteiras’ se tornam objeto de estudo não é porque o casamento seja o ‘destino natural da mulher’, mas por não se ‘conformar ao ideal dominante, exige uma explicação’.“ (GONÇALVES, 2007, p. 12).

É dentro desse mesmo raciocínio que considero não apenas legítimo, mas sumamente necessário, conhecer mais de perto esse universo ainda pouco explorado. Principalmente, porque

permitirá que se compreenda a perspectiva dos próprios sujeitos envolvidos na situação ainda “nebulosa” das mulheres chefes de família de classes médias e que se possa, simultaneamente, romper com qualquer idéia de homogeneidade da realidade vivida pelos sujeitos, perseguindo, assim, o entendimento de possíveis convergências nas suas trajetórias e experiências – e, também, a ocorrência de diversidade. A perspectiva proposta, portanto, buscará pensar seu pertencimento às classes médias para além do entendimento de uma “visão particular” que reforce exclusivamente o nível discursivo da experiência dos sujeitos, enquanto uma visão de mundo peculiar ou um “ethos específico de mulher chefe de família de classe média”. Isso porque o entendimento da vinculação dos sujeitos a uma classe social, conforme apontado anteriormente, buscará o encontro entre as dimensões objetivas e subjetivas da realidade desses sujeitos, perseguindo sempre uma articulação ao seu contexto societário mais amplo.