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ECOSSISTEMAS DE EMPREENDEDORISMO NAS UNIVERSIDADES CONTEXTOS E APRENDIZADO

2.2 As experiências internacionais de ecossistemas

2.2.1 Critérios de escolha das experiências

Quais os elementos que definem a seleção das universidades destacadas pelo Capítulo 2? Por que escolher MIT, Stanford e Utah, nos EUA? Por que Cambridge foi escolhido como um ecossistema interessante para os propósitos da tese?

Para responder a essas questões, o principal critério adotado pela tese indica que as experiências internacionais selecionadas pela tese estão focadas nos aspectos estratégicos e nos modelos de criação de startups, o que é fundamental para o aprendizado com vistas ao planejamento e a gestão do empreendedorismo nas universidades de pesquisa no Brasil. Questões excessivamente descritivas em relação às experiências escolhidas não fazem parte do escopo do presente estudo, frente ao foco sobre a gestão e o planejamento estratégico.18

A escolha das experiências do sistema dos EUA de empreendedorismo e inovação obedeceu ao critério de capacidade de geração de startups. A Tabela 2.1 apresenta uma série de cinco anos sobre o desempenho empreendedor das universidades através da criação de startups acadêmicas. Na Tabela 2.1, aparecem com destaque as três experiências de universidades americanas escolhidas. Juntamente com a performance verificada na tabela, é necessário notar que a experiência de Utah, em 2009, ultrapassou o MIT como a principal geradora de startups. Os dados que serviram de base para a Tabela 2.1 mostram que a evolução da performance empreendedora de Utah não foi um fenômeno pontual, mas um processo resultante de uma evolução contínua ao longo dos anos, dado que a universidade apresentou números em crescimento ao longo dos cinco anos cobertos pelos dados. A escolha do MIT e Stanford deve-se ao reconhecido desempenho dessas universidades em gerarem startups

18 A escolha da experiência de Cambridge está direcionada a destacar um tipo de empresa, as chamadas soft companies, como um trilha que pode ser interessante para diversificar as tendências de criação de startups a partir das universidades no Brasil (Connell e Probert , 2010).

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e apresentarem ecossistemas de empreendedorismo em permanente processo de emulação por outras experiências americanas ou internacionais.

Tabela 2.1: Criação de startups acadêmicas - 20 maiores universidades e instituições dos EUA - Média anual (2004-2008).

Instituição Média anual

University of California System* 31

Massachusetts Instittute of Technology (MIT) 21

California Institute of Technology 13

University of Utah 13

Columbia University 11

University of Florida 11

University of Illinois, Chicago, Urbana 10

University of Colorado 10

Research Foundation of SUNY 9

Louisiana State University System 9

Georgia Institute of Technology 9

Purdue Research Foudation 8

University of Michigan 8

University of Washington Research Foundation 8

Carnegie Mellon University 8

Stanford University 8

Harvard University 6

Johns Hopkins University 6

University of Kentucky Research Foundation 6

University of Texas, Austin 6

University of Southern California 6

Duke University 6

Fonte: AUTM, elaboração do autor.

(*) Engloba os 10 campi das várias universidades que compõem o sistema.

Para a análise das experiências escolhidas, foi utilizada a literatura específica produzida para avaliar essas experiências combinada com um material empírico adequado para os propósitos da tese. Trata-se do rico material empírico que as universidades americanas têm disponibilizado em termos de suas políticas e práticas gestoras do empreendedorismo e inovação, particularmente em função de um certo tipo de “pressão” que a atual administração federal daquele país vem imprimindo às

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universidades e institutos de pesquisa no sentido de torná-los mais efetivos em termos de comercialização de tecnologias.19

Nesse contexto, foi utilizado o conjunto de respostas que as universidades americanas enviaram ao governo federal em atendimento a uma consulta pública realizada entre março e maio de 2010 sobre como melhorar os processos de comercialização de tecnologias. O expediente para a consulta pública foi uma Chamada por Informação (RFI, Request for Information) sobre Comercialização, instrumento bastante utilizado pela política americana e que apresenta uma ênfase específica e explícita em questões relacionadas aos ecossistemas de inovação e empreendedorismo em universidades. A RFI teve um processo preparatório em fevereiro daquele ano, quando várias instituições e organizações foram chamadas pelo governo americano para o fórum “Catalyzing University Research for a Stronger Economy”.20

Desde setembro de 2009, o governo americano planeja e executa uma estratégia nacional de inovação e empreendedorismo voltada ao crescimento econômico e à criação de empregos de qualidade. Como elementos fundamentais dessa estratégia estão o financiamento à pesquisa básica ao mesmo tempo em que devem ser aumentados os resultados de comercialização das tecnologias produzidas pelas universidades e institutos de pesquisa.

A RFI foi realizada com o intuito de captar diagnósticos e sugestões de ações que possam aumentar o impacto econômico do investimento federal em P&D e aumentar o impacto de centros públicos e privados de prova de conceito como organizações voltadas para a comercialização de tecnologias early-stage.

É importante notar que a RFI também fala explicitamente em ecossistemas como uma abordagem para inovação e empreendedorismo, ao tratar as formas de incentivar a

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Como uma espécie de resposta às pressões que vem recebendo, em 2011, o conjunto de associações de universidades dos EUA enviou uma carta pública ao governo federal reivindicando um tratamento diferenciado para um conjunto de universidades que se intitulava como “geradoras de significativo impacto econômico em comercialização de tecnologias e empreendedorismo”, dentre elas MIT, Stanford e Utah, escolhidos como casos relevantes pela tese (Association of American Universities, AAU, Association of Public and Land-Grant Universities, APLU, 2011).

20 A RFI notificou os participantes que o resultado da chamada deverá ser utilizado para fins de planejamento de programas governamentais, sem discriminar as contribuições. Todo o processo da chamada e as respostas individuais por organizações foram publicadas no web site do Departamento de Comércio dos EUA, www.eda.gov.

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comercialização de tecnologias produzidas pelas universidades („“innovation ecosystem”‟ around universities). A RFI mostrou particular interesse em como fomentar o desenvolvimento de ecossistemas de inovação em universidades que não apresentam as características favoráveis de ecossistemas como densa concentração de venture capital, investidores anjo, empreendedores e gestores experientes, a convivência entre startups e empresas estabelecidas e a presença de pesquisadores com experiência em comercialização.

A chamada foi dividida em duas partes, (i) Pesquisa universitária, práticas promissoras e modelos de sucesso e (ii) Centros públicos e privados de provas de conceito. Os resultados que interessam diretamente à presente pesquisa referem-se à abordagem de ecossistemas em torno das universidades adotada pela chamada e que se concentra na parte (i).

As universidades foram convidadas a responder sobre o questionamento em relação às práticas adotadas para a comercialização de tecnologias, com uma preocupação explícita em discutir e promover as possibilidades de replicação de várias delas (“How could these promising practices be more widely adopted?”, RFI, 2010). As principais práticas mencionadas pelo governo americano foram competições de planos de negócios, educação em empreendedorismo, programas multidisciplinares entre ciência, engenharia, gestão e negócios, modelos de open innovation, participação das universidades na economia regional e políticas das universidades para facilitar a participação de professores e pesquisadores nos resultados da comercialização. Outros dois pontos destacados pela chamada foram o interesse em desenvolver métricas e como as mudanças nas políticas públicas e nos mecanismos de financiamento da pesquisa e da comercialização podem afetar positivamente os resultados de transferência e comercialização de tecnologias. A Tabela 2.2 mostra a distribuição de instituições que responderam, com o predomínio das universidades.

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Tabela 2.2: Distribuição de organizações e instituições - RFI sobre comercialização de tecnologias

Organizações Número de respostas

Universidades 98

Empresas privadas 30

Indivíduos 21

Organizações sem fins lucrativos 20

Centros de Prova de Conceito 10

Organizações governamentais 6

Centros de Pesquisa em Engenharia - NSF 5 Consórcios, fundações, alianças e outras organizações e iniciativas 15

Total 205

Fonte: Elaboração do autor a partir de RFI (2010).

A opção de escolha da RFI como fonte de informações para a análise das experiências internacionais deve ser considerada portanto, como um importante critério do método da pesquisa da tese. Isso porque foi possível perceber que as universidades de pesquisa que responderam à solicitação do governo o fizeram com riqueza de detalhes e, mais importante, explicitando quais são os seus posicionamentos em termos de gestão estratégica das suas atividades de empreendedorismo e inovação, de uma maneira sistematizada, o que resultou em respostas que mostraram unificação de informações que ficariam dispersas não fossem a RFI, dificultando trabalhos de pesquisa como a desenvolvida pela tese. Nesse sentido, o material empírico publicado pela RFI representa um conteúdo bastante apropriado e sistematizado para os propósitos da tese.