ECOSSISTEMAS DE EMPREENDEDORISMO NAS UNIVERSIDADES CONTEXTOS E APRENDIZADO
2.6 Cambridge, UK: as soft companies do ecossistema
A experiência de Cambridge foi selecionada para a análise da tese para explicar um modelo diferenciado de desenvolvimento de startups, em geral relacionadas às universidades. Enquanto Cambridge é reconhecido como um ecossistema evoluído, em função do histórico da criação e desenvolvimento de empresas e da força e excelência da universidade, há estudos que apontam as possibilidades de desenvolvimento de um modelo de criação e desenvolvimento de startups diferenciado em relação ao padrão predominante de investigação de startups genéricas e startups acadêmicas.24
Trata-se do estudo de Connell e Probert (2010), que pesquisou os processos de criação e desenvolvimento das chamadas “soft companies” e os processos de diferenciação que esse tipo de empresa representa e os seus possíveis vínculos com políticas públicas de difusão da P&D. Mais especificamente, em termos de políticas públicas, utilizando os contratos de P&D oriundos do setor público como forma de incentivar o desenvolvimento de soft companies.
Mas o que são os modelos de negócios das empresas soft companies (ou „empresas flexíveis‟), de acordo com Connell e Probert (2010)?
Em primeiro lugar, o conceito de soft company serve para relacionar a ideia de soft com flexibilidade. Soft companies são startups que têm flexibilidade de ajustar suas ofertas, suas proposições de valor, de forma adequada e adaptativa a um conjunto amplo de necessidades de clientes nos mais variados segmentos econômicos, de acordo com as expertises da empresa. A flexibilidade da oferta para esse tipo de empresa é portanto, um diferencial em relação a empresas com uma oferta muito rígida e com um espectro muito restrito de produtos padronizados (hard companies). Em termos mais específicos,
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uma soft company é uma startup baseada em C&T cujo modelo de negócios é focado na oferta de serviços contratados de P&D, principalmente através de consultorias especializadas, e na competência tecnológica da empresa, o que gera um potencial de aplicações customizadas para uma ampla gama de clientes.
Esse tipo de empresa é fundamental para a estruturação e o desenvolvimento da aglomeração de empresas em torno de Cambridge, seja de maneira direta ou através de spin-outs das próprias soft companies, o que cria um impacto no desenvolvimento econômico regional.
Há um potencial de que as soft companies sejam o eixo de políticas públicas de incentivo à difusão da P&D em startups e pequenas empresas, através da contratação de pesquisas por parte do governo. As soft companies seriam contratadas para oferecer inovações baseadas em P&D ao governo, que, ao mesmo tempo, incentiva a P&D através da concessão de grants provenientes de iniciativas do tipo SBIR, SBRI, PIPE- FAPESP. Seria uma forma concreta de aumentar a P&D como fonte de inovação para as startups e pequenas empresas.25
A tipologia de soft companies apresenta sete segmentos de empresas: consultorias especializadas no desenvolvimento de tecnologias genéricas, consultorias especializadas em tecnologia e inovação, descoberta de medicamentos, engenharia automotiva, instrumentação e ferramentas de pesquisa, software e tecnologias de informação, e institutos de pesquisa.
A caracterização do modelo de negócios das soft companies é marcada por baixo volume de investimento em capital fixo, facilidades na gestão inicial, potencial de atingir um conjunto diversificado de clientes, baixas restrições na estratégia de produtos dadas as possibilidades de experimentação de novas técnicas e soluções quase isentas de risco. Em termos de estratégias de crescimento, pode ocorrer uma construção gradual de capacitações e escalabilidade para projetos à medida que os recursos crescem, haja maior espaço para o crescimento auto-financiado, sejam criadas reservas para
25 O Programa PIPE-Fapesp (Pesquisa Inovativa na Pequena Empresa) é destinado à concessão de recursos não-reembolsáveis a pequenas empresas (até 100 empregados) para o desenvolvimento de P&D.
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investimento em propriedade intelectual e permitida a formação de competências de gestores tecnologicamente orientados que se qualificam on the job.
Para a evolução do desenvolvimento de uma plataforma de produto, há uma gradual coleta inteligente de informações sobre as necessidades dos clientes nos processos de prestação de serviços de consultoria, podem ser alavancados pequenos investimentos em propriedade intelectual em direção a geração de fluxos de receita futuros, por exemplo via licenciamento e viabilizar a geração de produtos padronizados resultantes de processos consorciados de desenvolvimento ou da evolução de projetos descontinuados. Ainda em termos de plataforma de tecnologias, há o potencial de exploração de inovações de ruptura com vários clientes, e há possibilidades de minimizar os efeitos de longos períodos de desenvolvimento e de processos de manufatura. Em suma, o modelo de negócios de uma soft company tem o potencial de proporcionar uma pesquisa de mercado real, testar e refinar a proposta de valor das tecnologias, construir credibilidade junto aos clientes e proporcionar a estruturação de uma equipe de gestão e desenvolvimento, elementos fundamentais de estruturação e consolidação das empresas nascentes.
O impacto econômico gerado pelas soft companies é garantido diretamente pelas empresas ou pelas spin-offs que se transformam em empresas de produtos. Cerca de 3.500 empregos diretos são gerados pelas empresas entrevistadas, as quais faturaram em torno de £435 milhões em 2009 (Connell e Probert, 2010).26
Há um “efeito ecossistema” positivo, que se verifica adicionalmente em Cambridge, bastante influenciado pelas soft companies. O efeito ecossistema é uma espécie de resultante e reforçador das sinergias entre as várias partes do ecossistema, como os investidores anjo, os “empreendedores seriais”, as stock options como fator de remuneração e incentivo ao desempenho, o alumni empreendedor que funda spin-offs, entre outros elementos.
26 Foram entrevistadas cerca de 50 empresas. Porém, o impacto ao longo do tempo das soft companies é considerado bem mais amplo, já que desde pelo menos a decada de 60 do século XX esse tipo de empresa tem sido criada na região de Cambridge. O “caminho natural” para muitas soft companies é a evolução de empresas especializadas em serviços de P&D para se transformarem em empresas de produtos.
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As soft companies podem ser consideradas, nesse contexto, uma das principais fontes de ideias para novos negócios, mais importantes que as próprias universidades, de acordo com Connell e Probert (2010). Mas as universidades poderiam estimular a criação de soft companies como forma de aumentar seu potencial de transferência de tecnologia e de conhecimento e, consequentemente, seu impacto social e econômico. As empresas de consultoria em P&D e tecnologias poderiam atuar como mecanismos de apoio ao relacionamento universidade-empresa, principalmente onde tecnologias baseadas em plataformas com potencial para aplicação em várias indústrias estão presentes (Connell e Probert, 2010: 103).
Em termos de proposição de políticas, deve-se fomentar a política de compras governamentais, como uma política de incentivo ao desenvolvimento tecnológico, principalmente via startups (Connell e Probert, 2010: 103). A política de compras governamentais direcionada ao financiamento da P&D das startups deve ser baseada no papel de comprador líder de produtos baseados em novas tecnologias, seja através da contratação da P&D das soft companies ou da compra efetiva de protótipos.27