PARTE I: FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA PESQUISA
2. A Teoria da Ação Racional (TAR)
2.10. As extensões e as variáveis externas a TAR
As variáveis externas representam um quarto nível de explicação, isto é, explicam porque as pessoas têm determinadas crenças comportamentais e normativas e apresentam diferenças nestas crenças, ligadas às suas características pessoais, elas explicam também as diferenças no nível de aceitação das pressões sociais (D’Amorim 1996).
Em trabalhos de revisão da TAR como o realizado por Olson e Zanna (1993), afirmaram que a TAR continuar a ser um marco teórico na literatura no que se refere à questão atitude-comportamento, não sendo empregada apenas para predizer o comportamento em muitos contextos, tem sido utilizado também como modelo em relação ao quais novas idéias e teorias são confrontadas.
No entanto alguns autores (Burnkrant & Page Júnior, 1988; Eiser, Morgan, Gammage & Gray, 1989) têm feito críticas ao modelo da TAR no sentido de que, mesmo possuindo conceitos operacionalmente definidos e demonstrando validade empírica na explicação dos comportamentos em geral das pessoas, a teoria detém um reduzido conjunto de conceitos inter- relacionados, não priorizando os efeitos de variáveis externas em sua estruturação básica, a exemplo de variáveis sociodemográficas ou de personalidade.
Assim no que diz respeito à crítica, Fishbein (1993, mencionado em Cunha, 2004) rebateu explanando que, para a TAR, essas variáveis externas tais como traços de comportamento, atitudes relacionadas a pessoas, instituições (atitudes gerais) e variáveis demográficas estão relacionadas ao comportamento, mas sua determinação se faz de forma indireta sobre o comportamento, ou seja, contem apenas um ―efeito indireto‖ sobre a Intenção Comportamental, mediadas pelos demais componentes do modelo: as Crenças (comportamentais e normativas), a Atitude e a Norma Subjetiva. Alguns dos argumentos destacados por Ajzen e Fishbeln (1980) defendendo este posicionamento são: (a) Uma variável externa pode estar relacionada a um comportamento num dado tempo e em outro tempo não. Por volta de 1970, o uso de contraceptivos estava relacionado a grupos religiosos, sendo os católicos menos favoráveis que protestantes e judeus. Na década de 80, estas diferenças não mais eram encontradas; (b) Uma variável pode estar
relacionada a um comportamento, mas não a outro, mesmo que estes comportamentos pareçam similares.
E ainda para D’Amorim (1996) o modelo teórico da TAR assume não ser prioritário o fato de as pessoas se comportarem em função dos seus traços de personalidade (como por exemplo, se a pessoa é altruísta ou egoísta) ou de sua categorização sociodemográfica (se é homem ou mulher, se jovem ou velho, se branco ou negro). Seus teóricos argumentam que, ao realizar um comportamento, a pessoa convence-se de obter conseqüências positivas (e, em contra partida, de não obter conseqüências negativas) e a aprovação dos referentes (que podem ser pais, amigos, cônjuge, família ou quaisquer outros grupos eleitos pelo sujeito) ou que ele considere importante (Fishbein, 1980). Considerando-se todas as variáveis previstas como determinantes do comportamento e as variáveis externas, a TAR pode ser representada tal como a Figura 2 a seguir: C omportamento C renç as c omportamentais X
A valiaç ões das c ons equênc ias
C renç as Normativas
X
Motivaç ões para C onc ordar P es os empíric os da A t e da NS A titude Intenç ão Norma S ubjetiva Vari
Variááveisveis
Externas Externas ______________ ______________ Demográficas Sexo; Idade; Ocupação; Religião; Nível sócio- econômico; Educação. Atitudes Gerais Em relação às pessoas; Em relação às instituições; Em relação a demais objetos. Traços de Personalidade Dominação; Autoritarismo; Introversão vs extroversão.
Relações internas ao modelo Relações externas ao modelo
Figura 5 – Teoria da Ação Racional com as variáveis externas adaptada de Ajzen & Fishbein (1980, p. 8).
Como se podem ver as variáveis externas exerce influência sobre as crenças comportamentais e suas avaliações sobre as crenças normativas e a motivação para acatar as opiniões alheias. A TAR permite identificar o lócus onde se exerce esta influência e explicar porque uma determinada variável
externa está relacionada com o comportamento estudado, o que ajuda a esclarecer algumas das inconsistências da literatura atitude-comportamento. Ainda no que diz respeito às críticas e o fato de existir várias investigações tentando adicionar variáveis externas a TAR, sugerindo alterações e extensões a sua estrutura original Fishbein (1993, mencionado em Cunha, 2004) sustenta uma idéia firme em relação a essa problemática: ―duvido muito que minha teoria tivesse sobrevivido até os dias atuais, caso tivesse incluído essas variáveis externas em sua estrutura causal básica, uma vez que, teoria que incluem tudo como pia de cozinha, não têm um passado muito longo‖ (p. 21).
Leonelli (1999, p. 19) em relação a isso coloca que ―o modelo de Fishbein e Ajzen (...) ainda não foi superado por nenhum outro na pretensão de dizer como as pessoas fazem suas escolhas‖. Nessa perspectiva, Norman e Smith (1995), afirmam que a TAR continua a dominar a pesquisa em atitude- comportamento. E ainda, para alguns autores (Beck & Ajzen, 1991; Conner & Abraham, 2001; Montano, Kasprzyk, & Taplin, 1997) a TAR se insere em um referencial epistemológico desenvolvido pela psicologia e diante de seus pressupostos tem se apresentado como uma ferramenta útil para pesquisa. Para Olson e Zanna (1993) uma reformulação e ampliação procedida ao modelo da TAR e que tem sido aceita pela maioria dos investigadores sociais foi proposto por Ajzen (1991), inicialmente, um dos criadores da TAR. Na Teoria do Comportamento Planejado ou Teoria da Ação Planejada (TAP), Ajzen (1985, 1988, 1991, 2005), por seu turno, afirma que as intenções apresentam três determinantes básicos. Os dois primeiros são os mesmos da teoria original a TAR (atitudes e normas subjetivas), referindo-se o terceiro a percepção de controle comportamental e, que se aproxima muito ao construto de auto-eficácia de Bandura (1977, 1982, 1986, 1989a, 1989b) que concebe o julgamento das pessoas acerca das próprias capacidades de enfrentar as solicitações advindas do ambiente social.
A intenção como visto anteriormente encontra-se influenciada pelas atitudes e normas subjetivas, por último, influenciada pela variável percepção de controle comportamental. Este se refere à facilidade ou dificuldade percebida pela pessoa em desempenhar o comportamento em questão. A percepção de controle encontra-se determinada pelo controle das crenças, isto
é, a probabilidade subjetiva mantida pela pessoa de possuir os recursos e oportunidades necessárias para desempenhar o comportamento. Quanto mais recursos e oportunidades os indivíduos pensarem que possuem e quanto menos dificuldades ou obstáculos anteciparem à realização do comportamento, maior será a sua percepção de controle. Contudo, a percepção de controle apenas constituirá um bom preditor do comportamento (representado na Figura 6) quando for realístico, isto é, quando a pessoa possuir informações suficiente acerca do comportamento e recursos pessoais necessários ao seu desempenho (controle atual).
Levando-se em conta todas as variáveis previstas como determinantes do comportamento, a Teoria da Ação Planejada (TAP) pode ser concebida tal como a Figura 6 a seguir:
Figura 6 – Teoria da Ação Planejada (TAP). Adaptada de Ajzen (1985).
De acordo com Ajzen (1991) o acréscimo da variável percepção de controle comportamental foi delineado, com o propósito de congregar comportamentos que não estão totalmente sob o controle motivacional das pessoas, neste sentido a TAP é considerada uma ampliação da TAR (Olson & Zanna, 1993). Esta variável corresponde, portanto, às limitações objetivas de oportunidades e recursos, limitações estas, provocadas pelo tempo; dinheiro; habilidades e cooperação de outras pessoas, por exemplo. A percepção de controle é também considerada uma variável de natureza externa, podendo ter um efeito direto sobre o
Atitude em relação ao comportamento Normas subjetivas Percepção de controle comportamental Intenção comportamental Comportamento
comportamento ou um efeito indireto sobre o mesmo sendo, neste caso, mediada pela intenção comportamental.
Vários estudos têm demonstrado uma excelente aplicabilidade do novo modelo (D’Amorim, 1993; D’Amorim, Freitas & Sá, 1992; Maden, Ellen & Ajzen, 1992; Marcoux & Shope, 1997; Moyano Díaz, 1997; Norman & Smith, 1995; Parker, Manstead, Stradling & Reason, 1992a; Povey, Conner, Sparks, James & Shepherd, 2000; Rocha, 2008; Rocha, Albuquerque, Dias, Coelho & Marcelino, 2008; Romano & Netland, 2008; Schifter & Ajzen, 1985; Vinagre, 1995; Vinagre & Lima, 1998).
Os investigadores Maden, Ellen e Ajzen (1992) realizaram uma pesquisa com o propósito de confrontar a TAP e a TAR para a predição da intenção comportamental e o comportamento alvo de 10 atividades, consideradas pelos participantes como sendo comportamentos de alto e de baixo nível de controle.
Duas hipóteses foram examinadas, a primeira afirmava que a TAP iria prever mais a intenção comportamental e o comportamento alvo do que a TAR. A hipótese segunda assegurava que a ligação direta entre a percepção de controle em relação ao comportamento se daria quando o comportamento em questão não estivesse sob o comando do participante. Especificamente, a hipótese predizia que quando o respondente possuísse um controle completo sobre o comportamento, as intenções comportamentais por se só seriam suficientes para predizerem o comportamento, com a percepção de controle não contribuindo de forma significativa na predição do comportamento alvo. Porém, nos casos em que o comportamento investigado não estivesse sob o controle volitivo do participante, a percepção de controle iria, certamente, contribuir de forma efetiva para a predição do comportamento em tela.
Dois pré-testes foram efetuados com o propósito de evocar os comportamentos de alto e baixo nível de controle e de classificar o grau de percepção de controle dos comportamentos eliciados. No pré -teste realizado por primeiro, solicitou-se a um grupo de 27 respondentes para que enumerassem, pelo menos, 10 atividades que ele s exerceriam diária ou regularmente, durante um período subseqüente de duas semanas.
Essas atividades incluíam tanto comportamentos de baixo quanto de alto nível de controle. De conformidade a uma análise de freqüência de respostas foram eleitos 23 comportamentos. No pré-teste feito por segundo, os 23 comportamentos foram categorizados como atividades de baixo e alto nível de controle por um grupo de 57 pessoas obtendo- se, no final, um total de 10 comportamentos.
Agora se tomou um novo grupo com 94 participantes que responderam aos questionários em duas etapas. Na primeira, os investigados responderam questões sobre atitude, norma subjetiva, percepção de controle e intenção comportamental para desempenhar cada um dos 10 comportamentos. Após duas semanas, na segunda etapa, os mesmos investigados referiram o número de vezes que haviam exercido cada um dos 10 comportamentos ao longo de duas semanas.
A Teoria da Ação Planejada (TAP) aumentou, significativamente, a explicação da variância da intenção comportamen tal, quando comparada com a TAR (R2 = 0.48 para R2 = 0.59). No que diz respeito à predição do comportamento alvo, a TAP também explicou mais variância do que a TAR (R2 = 0.28 para R2 = 0.38). Dessa forma os resultados comprovaram as hipóteses propostas.
Também foi comprovado que, quando o comportamento sob investigação é controlado pelo aspecto volitivo, a TAR é perfeitamente aplicável em toda a sua plenitude. Porém, nos casos em que o comportamento não está sob o controle do investigado, a TAP mostra -se superior à TAR.
No entanto, diversos estudiosos (Fishbein & Stasson, 1990; Hinsz & Nelson, 1990), checando o seu poder de predição entre as teorias da ação racional e da ação planejada, têm concluído que ambas as teorias comprovam um desempenho idêntico quanto ao seu poder de predição. A discussão prossegue, pois outras confrontações feitas entre os dois modelos (Beck & Ajzen, 1991; Brubaker & Fowler, 1990; Maden, Ellen & Ajzen, 1992; Schlegel, D’Avernas, Zanna, DeCourville & Manske, 1992), descobriram que as evidências dão apoio ao modelo revisado. Tem-se comprovado também que a acréscimo de outras variáveis ao modelo tais como a obrigação moral (Cunha, 2004, Cunha & Dias, 2008; Mello, 2000; Schwartz & Howard, 1981) ou o
comportamento passado (Ajzen, 2002), pode acrescer mais um pouco o seu poder preditivo. A seguir será explicitada cada uma das cinco etapas importantes para aplicação da TAR, nas investigações no campo da saúde, educação, entre outros. Nesse momento é importante apresentar os diversos estudos empíricos tendo a TAR como pressuposto teórico.