PARTE I: FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA PESQUISA
2. A Teoria da Ação Racional (TAR)
2.1. As perspectivas sobre o conceito das atitudes
Na área da Psicologia Social, diferentes conceitos acerca das atitudes emergiram. Herbert Spencer, em 1862, um dos psicólogos pioneiro a aplicar o termo, se referia à atitude da mente exercida pelo sujeito quando ouvindo ou se posicionando em discussões. Esta concepção passou a ser vista como uma abordagem mentalista. Em seguida, em 1881, Lange criou a assim denominada dimensão motora da atitude. Em seus estudos, ficou comprovado que a realização de uma ação, tal como pressionar uma chave de telégrafo ao receber um sinal, é mais rápido quando há uma disposição para a realização desta ação. Assim, o tempo de reação é menor quando a pessoa está conscientemente preparada para fazer a referida ação. A conclusão daí obtida foi a de que vários conjuntos motores e mentais, atitudes ou estados de preparação influenciam efetivamente as cognições e as ações das pessoas (Ajzen & Fishbein, 1980; Dias, 1995; Triandis, 1974).
O aumento do interesse pelo construto acarretou a necessidade de que técnicas válidas fossem empregadas para efetuar a mensuração da atitude. Um dos precursores foi Thurstone que, em 1931, colaborou para a sua conceituação definindo-a como o afeto pró ou contra um objeto, variável de um pólo positivo a outro negativo, de um pólo favorável a outro desfavorável. Fishbein (1965), por exemplo, ressalta que exatamente este componente afetivo é o único característico das atitudes sociais; muito embora crenças e comportamentos mereçam consideração, não são, para Thurstone, integrantes do conceito.
A escala de Thurstone veio trazer uma enorme implicação para o problema da atitude em relação ao comportamento, já que deixou claro que, muito embora a atitude de alguém em relação a um objeto deva estar ligada ao padrão geral do seu comportamento em relação àquele objeto no sentido de favorabilidade ou desfavorabilidade, não existe uma relação necessária de causalidade entre a atitude e o comportamento específico (Fishbein, 1967).
De certa forma bastante empregada, a concepção da escala de Thurstone consumia uma quantidade de tempo, o que levou outros investigadores a se empenharem na busca de uma escala que envolvesse menos tempo e uma forma mais simplificada. Em 1932 foi idealizada a escala de Likert que, da mesma forma que a escala de Thurstone, resultava num
único escore representando a medida em que uma pessoa era favorável ou desfavorável ao objeto da atitude. Tanto a escala de Thurstone como a escala de Likert adotavam o mesmo conceito de atitude (Ajzen & Fishbem, 1977; Fishbein, 1967; Fishbein & Raven, 1962; Fishbein & Ajzen, 1971; Fishbein & Ajzen, 1974).
Não obstante essas escalas se apresentassem válidas, alguns estudiosos iniciaram a interrogar o uso de escalas unidimensionais para a medida da atitude, como Allport em 1935. A argumentação de Allport era a de que as atitudes não podiam ser consideradas a partir de uma visão unidimensional, mas multidimensional e, ainda, a dimensão afetiva não era suficiente para contemplar a complexidade do conceito, já ressaltada por diversos investigadores da época. Allport (1935) propôs que as atitudes fossem compreendidas como um estado mental e neurológico de prontidão, organizado através da experiência, e capaz de exercer uma influência diretiva ou dinâmica sobre a resposta do indivíduo a todos os objetos e situações a que está relacionada.
Apesar do que foi apresentado por Allport, as primeiras investigações pareceram admitir a validade das escalas unidimensionais de atitude, as quais apontaram que pessoas que se comportam de diferentes maneiras também diferem previsivelmente em suas atitudes.
Para Ajzen e Fishbein (1977, 1980) e Triandis (1974) depois de Thurstone e Likert, vários estudiosos, em sua maioria com a visão unidimensional da atitude, tais como Guttman (1944) e Osgood (1965), filiaram- se ao movimento de criação de escalas de atitude, que proliferou até o final da década de 50, quando um novo conceito de atitude foi aceito pela maioria dos pesquisadores. Este novo conceito foi proposto por Rosenberg e Hovland (1960). Conforme esses autores, agora o conceito da atitude envolvia os seguintes componentes:
Cognitivo, relacionado às respostas perceptivas, afirmações verbais de crenças e opiniões;
Afetivo, alusivo a respostas do sistema nervoso simpático e afirmações verbais indicadoras de afeto, de sentimento;
Comportamental, indicativo às ações manifestas, afirmações verbais relativas a comportamentos.
Assim para que se tenha uma atitude em relação a um objeto é indispensável que se tenha alguma representação cognitiva deste objeto e ao mesmo tempo também é imprescindível que haja uma carga afetiva pró ou contra um objeto social definido, fazendo-se que se tenha alguma representação cognitiva deste mesmo objeto. Sendo assim, as crenças e demais componentes cognitivos (informação, forma de encarar o objeto, etc.) relativos ao objeto de uma atitude constituem o componente cognitivo da atitude. Em relação ao componente afetivo, é considerado como sentimento pró ou contra um determinado objeto social, é o único distintivo das atitudes sociais. As crenças e comportamentos integrados a uma atitude são apenas informações pelos quais se pode mensurar a atitude, não sendo, contudo, parte integrante dela (Fishbein & Raven, 1962; Fishbein, 1965; Fishbein, 1966).
No que diz respeito ao componente comportamental tem-se que do ponto de vista dos psicólogos, de forma geral as atitudes possuem um item ativo, incitador de comportamentos adequados com as cognições e os afetos concernentes aos objetos atitudinais. A relação entre atitude (do ponto de vista puramente afetivo) e comportamento compõe um dos motivos porque as atitudes sempre merecem especial atenção por parte dos psicólogos sociais, chegando mesmo ao ponto de, já em 1918, Thomas e Znaniecki definirem Psicologia Social como ―o estudo científico das atitudes‖.
De acordo com Ajzen e Fishbein (1977, 1980) o efeito, tanto da escassez como da pluralidade de definições, fez com que os estudiosos acabassem seguindo uma seleção arbitrária de procedimentos e de medidas no lugar de contribuírem para uma melhor compreensão do fenômeno. Foram tais fatos que colaboraram para a dificuldade do estudo da relação atitude e comportamento.
A busca para distinguir os diversos momentos porque passou o conceito da atitude e seus construtos correlatos, conforme McGuire (1986), ficou caracterizado pelas seguintes etapas:
a. Época da medida da atitude (1920 - 1930) b. O da dinâmica de grupo (1935 - 1955)
c. Época da mudança da atitude (1950 - 1960) d. O período da cognição social (1965 - 1985) e. Época da estrutura da atitude (1980 -1990)
A época da medida da atitude (1920-1930) foi marcada pela procura do aprimoramento das medidas psicológicas da mesma. O período da dinâmica de grupo (1935-1955) foi caracterizado pela insegurança social ocorrida na Europa e nos EUA, entre as duas Grandes Guerras Mundiais, com o nacionalismo, a crise econômica e o desemprego, acarretando à desconfiança nas normas vigentes, tornando-se imprescindível encontrar formas de controle e manipulação social. A época da mudança da atitude (1950-1960) distinguiu- se pela origem de uma nova ciência, a informação/comunicação, ao mesmo tempo em que o avanço de novas tecnologias (televisão), tornando-se mais fácil influenciar as massas. Os EUA despontaram da guerra com uma superioridade mundial, na forma de produtividade econômica, conquistas militares, contando com apoio dos vencidos e dos aliados.
O período da cognição social (1965-1985) teve com meta importante os aspectos reducionistas versus elaborativas da investigação na cognição social. É nessa época que está presente ainda a dúvida de Wicker (1971) sobre a necessidade do construto da atitude. A época da estrutura da mesma (1980- 1990) distinguiu-se pela apreensão da estrutura das atitudes individuais, através das seguintes etapas: 1) a pessoa examina as características do objeto da atitude, buscando a mais saliente; 2) ela avalia a posição do objeto nesta característica e em outras, até atingir um critério em termos de amplitude e estabilidade; 3) o julgamento das características levará a uma tomada de decisão atitudinal.
Para McGuire (1986) investigações apontaram que os participantes superestimam o número de características que examinam para decidir e subestimam o peso atribuído à característica mais saliente, recomendando que essa abordagem esteja próxima à realidade.