2.5 AS OPERAÇÕES DE FUSÕES E AQUISIÇÕES (F&A)
2.5.2 As F&A como oportunidade de crescimento estratégico
A análise de fusões e aquisições como uma estratégia alternativa ao crescimento
empresarial interno vem, desde a década de 1980, sendo do interesse de teóricos importantes
da área de estratégia empresarial e de finança, em especial no que diz respeito aos resultados
para os acionistas das empresas envolvidas.
Dyer e Singh (1998) tratam a respeito das estratégias de cooperação entre firmas como
possíveis fontes de vantagem competitiva, traçando um amplo elenco de fontes de rendas
decorrentes de interações inter-organizacionais, categorizadas em quatro fontes potenciais de
vantagem competitiva: (1) investimentos em ativos relacionais; (2) existência de um nível
mínimo de trocas de informações, através do compartilhamento de rotinas; (3) recursos e
capacidades complementares e (4) governança eficaz.
Esclarecendo o conceito financeiro de relação estratégica sinérgica como aquela na qual
o valor presente das empresas tomadas em conjunto é maior do que a soma de seus valores
presentes quando separadas, e com base nos preceitos da RBV do valor da raridade,
mobilidade e imitabilidade imperfeitas dos recursos, Barney (1988, p.73-74) argumenta que
para haver possibilidade de criação de valor econômico para os acionistas, em decorrência de
uma estratégia de F&A, é necessário que existam sinergias entre as empresas envolvidas.
Ele afirma que deve ocorrer pelo menos uma das seguintes situações: geração de fluxos
de caixa sinérgicos, valiosos, únicos (exclusivos) e privados (que não possam ser antecipados
por outras empresas); sinergias inimitáveis e únicas, geradoras de fluxos de caixa valiosos; e /
ou fluxos de caixa sinérgicos e inesperados.
A geração de fluxos de caixa sinérgicos, primeira das situações previstas por Barney
(1988), é relacionada à não-divulgação das sinergias visualizadas pela empresa ofertante,
resultantes da combinação de seus recursos com os da empresa-alvo, são relacionadas à
possibilidade de antecipação de seu valor pelo mercado, sob a forma de elevação do preço a
ser pago na transação, o que poderá transferir eventuais ganhos acima da média para os
acionistas da empresa comprada e não da adquirente.
A exclusividade na geração de fluxos de caixa sinérgicos é uma condição para que não
ocorra competição entre eventuais empresas adquirentes pela aquisição da empresa-alvo, de
modo a ampliar seu poder de barganha do preço; a inimitabilidade, por sua vez, seria uma
exigência para que os retornos acima da média possam ocorrer, já que havendo imitação, os
ganhos serão diluídos e reduzidos.
A última das possibilidades citadas por Barney (1988) se relaciona à sorte, quando
mesmo havendo analisado os prováveis ganhos da empresa adquirente, advindos de sinergias
com a firma-alvo sobrevêm mais sinergias inesperadas e duradouras, de modo a serem
gerados retornos acima da média.
O autor conclui, afirmando que a firma que pretende adquirir ou fundir-se com outra,
deve, sob pena de auferir retornos abaixo da média e até mesmo perdas financeiras,
desenvolver duas capacidades em especial: a de avaliar seus ganhos sinérgicos com a
firma-alvo e a de avaliar as potenciais sinergias de seus concorrentes e outras firmas-firma-alvo.
Para Cohen (2000), uma fusão é sempre uma operação que visa ao crescimento
empresarial. Bancel e Duval-Hamel (2008, p. 39) concordam com o autor e afirmam que o
estudo sobre a gestão de uma operação de F&A deve começar pela compreensão de suas
motivações e objetivos, que podem estar claramente ―anunciados, latentes ou mesmo
escondidos‖. Eles apontam duas razões básicas para uma empresa dar início a uma operação
de F&A, a saber: a motivação econômica da busca de um melhor desempenho, que possui
duas vertentes: os ganhos de sinergia e o aumento da escala operacional; e as motivações
pessoais dos dirigentes.
Os ganhos de sinergia são citados como a principal razão em 78% das operações de
F&A, estudadas por Bancel e Duval-Hamel (2008, p. 40) e se originam tanto de economias de
funcionamento como de ganhos de complementaridade. As sinergias ocorrem, sobretudo, em
quatro domínios: ―a supressão de duplicidades (encargos de holding, de pessoal etc.); as
economias vindas do agrupamento (sobre as compras, racionalização de infra-estrutura etc.); o
encerramento de atividades não-estratégicas após a F&A; e economias ‗cosméticas‘ sobre os
encargos de funcionamento, não necessariamente geradas pela F&A‖ (BANCEL;
DUVAL-HAMEL, 2008, p. 43).
Os autores, assim, acabam por contradizer Husson (1987, apud Bancel; Duval-Hamel,
2008, p. 41), para quem os ganhos sinérgicos correspondem a toda criação de valor
suplementar obtida pelo agrupamento de duas ou mais empresas, o qual não teria possível se
não fosse o citado agrupamento.
Em relação ao aumento da escala operacional, segundo ainda Bancel e Duval-Hamel
(2008, p.45), o intuito primordial é de atingir rapidamente um porte considerado crítico, a
pujança operacional desejada; a seguir, as empresas procuram também a aquisição de
―elementos de sobrevivência, porque as vias de crescimento interno estão esgotadas (ou
necessitam de muito tempo para emergir)‖.
Entre as motivações pessoais para as operações de F&A, Bancel e Duval-Hamel (2008)
apontam quatro principais: a percepção de que a realização de tais negócios faz parte natural
da missão dos dirigentes dinâmicos; a valorização das ações da empresa na bolsa de valores e
a valorização pessoal como dirigente; os objetivos narcisistas: a vontade de deixar sua marca
pessoal na organização e vontade de ser a figura mítica do fundador (da nova empresa pó
F&A); e o desejo de ampliar o seu ‗império‘, na busca de status.
O estudo efetuado por Capron e Pistre (2002) tem como ponto de partida as idéias de
Barney (1988), anteriormente explanadas e, examinando 101 transações de F&A por meio da
técnica de estudo de evento aliada a uma survey pós-aquisição sobre o uso de recursos das
firmas envolvidas, os autores esclarecem que os ganhos acima da média raramente se
concretizam para as empresas adquirentes, quando estas pretendem obter sinergias pelo uso de
recursos valiosos das firmas compradas. Contudo, segundo os resultados do estudo, há
geração de valor econômico na medida em que as empresas ofertantes lançam mão de seus
próprios recursos valiosos para alavancar as operações e resultados na empresa-alvo. Assim,
concluem os autores que a localização dos recursos mais valiosos é vital à concretização dos
bons resultados das F&A.
Uhlenbruck, Hitt e Semadeni (2006) examinam 798 operações de fusões & aquisições
ocorridas entre 1995 e 200, abrangendo organizações virtuais e de comércio on-line entre si e
destas com empresas ―off-line‖, ou seja, tradicionais e que não utilizam a internet
comercialmente, também por meio da técnica de estudo de evento. Os resultados informam
haver fortes vantagens em termos de criação de valor, tanto nas transações entre empresas que
já se utilizam da Internet, como para empresas ―off-line‖ que venham a adquirir outras
detentoras de expertise na Internet.
nesta linha, especialmente em relação a como os recursos obtidos são usados para criar valor
econômico para as partes envolvidas.
No documento
A EXISTÊNCIA E A DIVULGAÇÃO DE ATIVOS INTANGÍVEIS EM PROCESSOS DE FUSÕES & AQUISIÇÕES NA FRANÇA E O
(páginas 73-76)