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2. Contista da vida urbana

2.1. As figuras da cidade

A presença de um número crescente de pessoas migrando do interior para as capitais tornou-se um fenômeno de interesse para alguns escritores durante a década de 1930 no Brasil. Antes de Joel Silveira escrever seu primeiro livro de contos Onda Raivosa166, outro escritor pôs em pauta a presença dos sertanejos migrados das secas e da decadência da produção açucareira nas usinas na cidade. Os Corumbas167, obra publicada em 1933 por Amando Fontes, abaliza o interesse por figurar a vida na urbe. O foco nos homens em seu desafio de viver na cidade fabril mudou a temática voltada para o papel das secas, para a vida urbana e suas tramas.

Historicamente168, a Europa no século XIX vivenciou o afluxo de pessoas migrando para as cidades. Vários observadores sociais e literatos tomaram esta temática, a das multidões como centro de suas figurações. A presença da multidão nas cidades europeias durante o oitocentos tornou-se um “acontecimento inquietante”. Segundo Stella Bresciani, os literatos e observadores sociais, viram Londres e Paris, com um misto de “fascínio” e “terror”. O afluxo de “milhares de pessoas deslocando-se para o desempenho do ato cotidiano da vida nas grandes cidades compõem um espetáculo” que confere à “paisagem urbana uma imagem frequentemente associada às ideias de caos, de turbilhão, de ondas metáforas inspiradoras nas forças incontroláveis da natureza”169. A multidão é, então, vislumbrada na condição de “figuras fugidias, indecifráveis para além de sua forma exterior, só se deixam surpreender por um momento no cruzar de olhares que dificilmente voltarão a se encontrar”170. Em seus textos, vários observadores sociais do século XIX explicitam que a “atividade do olhar se

166SILVEIRA, Joel. Onda Raivosa. Contos. São Paulo, Curitiba: Editora Rumo Limitada, 1939. 167 FONTES, Amando. Os Corumbas. Rio de Janeiro: Schmidt, 1933.

168 A experiência das multidões em cena nos tempos modernos foi tratada por Stella Bresciani enquanto fenômeno em diversos registros. No final do século XVIII, as multidões se tornam uma presença nas cidades, ocupam o espaço das fábricas e o espaço público. Dois grupos são fontes de inquietação: os operários e o povo. Para este debate ver: BRESCIANI, Maria Stella. A Cidade das Multidões, a cidade aterrorizada. In: PECHMAN, Robert Moses (org.). Olhares sobre a cidade. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1994, p. 7- 42.

169 BRESCIANI, M. Stella Martins. Londres e Paris no século XIX: o espetáculo da pobreza. São Paulo: Editora Brasiliense, 2004, p. 10.

torna mais difícil quando ao cair da noite a multidão se adensa tornando-se insondável. Quanto mais numerosos os homens, mais profunda se torna a sombra” 171·.

A temática das multidões parece-me central na obra Joel Silveira, não só pelo título Onda raivosa, mas, sobretudo, por seu interesse em recorrer a metáforas para desenhar o homem na cidade. Exemplo notável desta ideia apresenta-se no conto no qual um morador de rua procura um local de repouso. A cidade apresenta-se como espaço do ruído que desloca o homem, e o faz peregrinar a procura de um local menos barulhento. Nesta narrativa, o autor aproxima o leitor das transformações ocorridas no país quando a população migra para as cidades. A multidão de migrantes deixa o espaço do campo - onde viviam de atividades agrárias - para viver numa nova ordem regida por relações eminentemente capitalistas. Daí a importância do olhar treinado do escritor para transformar em narrativa as novidades que mudaram o perfil das cidades brasileiras. O uso de imagens que possam transmitir sentimentos e paixões é central na obra de Joel Silveira.

As metáforas utilizadas pelos literatos do século XIX, como Victor Hugo, expõem serem recursos do pensar e representar os moradores das cidades. Em linguagem metafórica, o ruído das cidades “lembra o irritante, incontrolável e ininterrupto zunir de uma colmeia de abelhas”, assim como, as “imagens como as do oceano, de floresta, de formigueiro, do inferno, de doença, foram recursos necessários à literatura, para dar conta de um tema novo”172.

Mas, contrária à ideia de pensar a multidão como espectro, a proposta estética de Joel Silveira confere uma identidade ao homem que vive na cidade. É uma identidade cindida pelas experiências dolorosas, são figuras vislumbradas a partir de peculiaridades de nítido viés romântico. Há, portanto, um papel fundamental atribuído à condição de indivíduo enquanto ator central na trama. Além disso, o sonho onírico o direciona para uma reflexão complexa, onde os sentimentos de desenraizamento são centrais. Configuram algumas das nuances dos personagens do escritor que mudou seu enfoque dos dilemas do homem no campo, para as novas sensibilidades da cidade.

Após dois anos de sua chegada ao Rio de Janeiro, Joel Silveira publicou Onda raivosa. Em 1939, na atmosfera sombria da grande guerra, e dos percalços do Estado Novo, discorre com força romântica sobre a condição humana das figuras frágeis. Entretanto, essa

171 BRESCIANI, Op. Cit. 2004, p. 14. 172 BRESCIANI, Op. Cit. 2004, p.14-15.

fragilidade não pode ser confundida com pouca disposição para lutar; é, sobretudo, figuração de lutas incansáveis cujo intuito visava mudar o quadro sombrio.

A estética romântica está indicada no título, mas vai além, pois o autor conduz seus personagens a relacionarem seus dilemas estritamente vinculados à natureza. Onda raivosa sugere a situação de caos das forças da natureza que colocam o homem na condição de luta, ao acaso. Na realidade, a crítica à modernidade proposta por Joel Silveira indica a percepção do homem numa situação de derrota. Seu exame adota uma perspectiva vinculada às mudanças do capital, tal como sugerido por Löwy e Sayre: “A oposição romântica à modernidade capitalista-industrial nem sempre contesta o sistema em seu conjunto: como já observamos, ela reage a certo número de características dessa modernidade que lhe parece insuportável”173. Daí é possível apontar para o que, na escrita de Joel Silveira sugere um lamento das condições de pessoas arrancadas à sua antiga rotina de vida. Da suposta derrota, o autor encara saídas inusitadas para seus personagens.

É bom lembrar antes de prosseguir na análise do conto de Joel Silveira o papel deste gênero literário ilustrado por Júlio Cortázar:

(...) um conto, em última análise, se move nesse plano do homem onde a vida e a expressão escrita dessa vida travam uma batalha fraternal, se me for permitido o termo; o resultado dessa batalha é o próprio conto, uma síntese viva ao mesmo tempo que uma vida sintetizada, algo assim como um tremor de água dentro de um cristal, uma fugacidade, numa permanência174.

Cortázar refere-se ao potencial do conto por meio da metáfora da água num recipiente de cristal, para assim, reafirmar a exigência de sofisticação requerida ao escritor, no exercício deste gênero. Daí ele diz que “só com imagens se pode transmitir essa alquimia secreta que explica a profunda ressonância que um grande conto tem em nós”175. Imagens essas, que Joel

173 LÖWY, M. e SAYRE, R., Revolta e melancolia. O romantismo na contramão da modernidade, Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira, Petrópolis: Vozes, 1995, p. 51.

174 CORTÁZAR, Julio. Valise de Cronopío. 2ª. ed. Tradução de Davi Arrigucci Jr. e João Alexandre Barbosa, São Paulo: Editora Perspectiva, 1993, p. 150-151.

Silveira utiliza em seus contos, e que talvez seja interessante retomá-las quando olhamos para a experiência da água retida no copo de cristal da Onda Raivosa.

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