2. Contista da vida urbana
2.2. O rugido da Onda Raivosa
Se existe um momento crítico176 no primeiro livro de contos de Joel Silveira, posso indicar primeiramente serem as figurações das experiências de conflitos diante dos desafios que seus personagens vivenciam. Há, neste sentido, uma exploração das sensações de dor, sofrimento, caos, desilusão, que por fim, se resolve no plano onírico, no sonho. O conto, por exemplo, que dá título à obra, resgata a experiência de um pai desempregado ao lidar com a dor de uma filha febril. A atmosfera sufocante da cidade e as tonalidades da noite em Aracaju são retratadas como extensão dos percalços do pai peregrino. Ou talvez, pese a sombra horripilante da desonra sentida na pele de Margarida, umas das personagens mais importantes da trajetória literária de Silveira.
Os quatorzes contos do livro Onda Raivosa aproximam-se de uma escrita pautada por uma estética mais urbana, na qual sobressaem as questões da vida na urbe e seus respectivos desafios. Duas temáticas centrais são trabalhadas. Na primeira, Joel Silveira realçou as experiências de desolamento, angústia, dor e morte. São os sentimentos de figuras renegadas, como por exemplo, a do desempregado e do indigente, que tomam o centro da trama de parte dos contos. Na segunda temática, a tópica amorosa realça o lado sensual dos personagens, sem deixar, entretanto, de delinear momentos de fragilidades de suas experiências.
Deste modo, um aspecto que une as temáticas destes contos é a referência romântica da relação entre o homem e a natureza. Não por acaso, o título do livro remete a
176 Existe uma aproximação de ideias de Joel Silveira com a obra de autores (em especial russos) do século XIX, a exemplo, de Tolstoi. Como indicado por Isaih Berlin, autores como Tolstoi, “preocupavam-se de maneira mais profunda com tudo aquilo que causava injustiça, opressão e falsidade nas relações humanas, com o aprisionamento seja por muros de pedra seja pelo conformismo- a submissão aquiescente aos jogos criados pelo homem - com a cegueira moral, o egoísmo, a crueldade, o desespero, por parte de tantos homens” (BERLIN, 1991, p.14-15). Berlin argumenta que havia uma preocupação desses autores sobre a condição da Rússia, mas, sobretudo, sobre a condição humana. O mesmo interesse é possível identificar na obra ficcional de Joel Silveira. Ele aborda o problema da condição humana, mas há um enfoque claro em pensar a condição dos homens simples, ou seja, a situação do país naquele momento diante das convulsões políticas. Conferir: BERLIN, Isaih. Limites da Utopia. Capítulos da história das ideias. Tradução de Valter Lellis Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
força sublime177 da onda que tange os aventureiros a situações de desordem interna e remete à opção do autor por uma tópica romântica178 enquanto inscrição estética e política. O homem se encontra em relação umbilical com a natureza. Unidos por essa tópica, os personagens sentem os revezes de suas experiências como ressonância das ondas, dos ventos, das noites escuras. Talvez por isso, o título do livro remeta para o conto onde essa estética fica mais evidente, ou seja, a onda raivosa que impele suas figuras a experiências indeléveis.
Por fim, é possível afirmar que suas figurações sugerem ao leitor a riqueza dos sentimentos e a sensação de personagens em situação limite. Há, certamente, uma opção favorável por dramas que envolvem personagens de pouco interesse aparente, mas que, ao mesmo tempo, são ricas interiormente. Daí minha opção por fazer uma leitura dessas narrativas com intuito de analisar suas nuances, com interesse de perceber inscrições políticas nas opções estéticas utilizadas pelo escritor.
A propósito, a leitura vigente da obra de Joel Silveira limita-se a uma percepção redutora de sua atuação. De forma assertiva, lembro que ele foi lido como um autor circunscrito ao campo jornalístico e, assim, nomeado nestes estudos179 como praticante do denominado “jornalismo carioca” do final da década de 1930. Decorre desta, uma segunda percepção vigente nos poucos estudos sobre sua obra, a do memorialista180. Refiro-me aos jornalistas que o entrevistaram como testemunha dos governos brasileiros desde Getúlio Vargas até os sombrios anos de chumbo da ditadura militar de 1964. Neste mesmo campo do
177 O conceito sublime é central na estética romântica. Para o debate, é preciso pensar como Joel Silveira utiliza em sua obra. Para a discursão recorro às seguintes obras: BURKE, Edmund. Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias do sublime e do belo. Tradução de Enid Abreu Dobránszky. Campinas: Papirus, 1993; KANT, Emmanuel. (1764) Observações sobre o sentimento do belo e do sublime; Ensaio sobre as doenças mentais, tradução de Vinicius de Figueiredo. Campinas: Papirus, 1993.
178 RICHARDS, Robert J. The Romantic Conception of Life: Science and Philosophy in the Age of Goethe. Chicago: University of Chicago Press, 2002; GUINSBURG, J. (Org.) O Romantismo. São Paulo: Perspectiva, 2008; BERLIN, Isaiah. Ideias políticas na era romântica. Ascensão e influência no pensamento moderno. Tradução de Rosaura Eichenberg. Org. Henry Hardy; São Paulo: Companhia das Letras, 2009; EAGLETON, Terry. A ideologia da estética. Tradução de Mauro Sa Rego Costa, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010; SALIBA, Elias Thomé. As Utopias românticas. São Paulo: Estação Liberdade, 2003; WEISKEL, Thomas. O sublime romântico. Estudos sobre a Estrutura e Psicologia da Transcendência. Tradução de Patrícia Flores Cunha. Rio de Janeiro: Imago, 1994. 179 NEGRI, Ana Camilla. Mediações políticas na história da reportagem do Brasil: a produção de Joel Silveira, Mestrado em Comunicação Social, 2001; FERRARI, D. W. A atuação de Joel Silveira na imprensa carioca (1937-1944), Mestrado em História. Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Campus de Assis, 2011.
180Cf.: FERRARI, D. W. Construindo uma autoimagem: as memórias de Joel Silveira. In: SILVA, Zélia Lopes da; ANHEZINI, Karina. (Org.). A escrita histórica e suas múltiplas faces. A escrita histórica e suas múltiplas faces. 1º ed .Assis: UNESP/Assis Publicações, 2011, v. 01, p. 281-302.
testemunho, soma-se o jornalista que acompanhou a FEB na Itália durante a participação na Segunda Grande Guerra.
Ao tomar um roteiro contrário, apesar de não negar a validade destes enfoques, minha proposta traz o primeiro livro ficcional de Joel Silveira, como parte de uma trajetória muito mais ampla que a atuação no jornalismo brasileiro. O literato surge nas diversas novelas, contos e poesias, escritas para periódicos, mas, sobretudo, para o espaço editorial brasileiro do final dos anos 1930 em diante. Livros como Onda Raivosa (1939) e Roteiro de Margarida (1940) introduziram o autor ao campo literário ficcional. Acompanho algumas das opções estéticas e políticas deste intelectual como parte da pesquisa.
O primeiro conto do livro Onda Raivosa, também leva a mesma alcunha, e lá o leitor encontra uma das peculiaridades de Silveira, associar-se aos problemas sociais tratados em diversos romances da década de 1930181. Notadamente, a vida citadina é o foco de problemas, de dores sufocantes. Essa constitui a marca dos personagens que sofrem condições precárias, especialmente, por força da doença e do desemprego. O pai desempregado se aflige para encontrar uma farmácia aberta onde pudesse comprar um narcótico para aliviar as dores da filha Lucinha. Na farmácia ainda aberta às duas horas da madrugada, o vendedor não consentiu em vender sem receita médica. Todas as estratégias para dissuadir o jovem vendedor fracassaram, em vista da possibilidade da fiscalização o autuar por vender medicamento sem receita. Assim, fala do pai percorre outra linha de argumentação, a da compaixão182:
- O senhor sabe. A menina é fraquinha, sempre foi fraquinha. Começou a caminhar com três anos, assim mesmo com muita dificuldade. Sempre tinha daqueles acessos, uma febre estúpida que
181 No meu trabalho de mestrado, analisei as construções estéticas do escritor Amando Fontes, autor do consagrado, Os Corumbas (1933). O foco da narrativa é o processo de mudanças ocorridas no norte brasileiro, com as secas que impeliram populações inteiras para as cidades fabris. Trabalho orientado pela professora Dra. Maria Stella Martins Bresciani. Conferir: LIMA, Cleverton Barros de. Imagens do povo: Política e literatura na obra de Amando Fontes. Dissertação de Mestrado em História. Campinas: UNICAMP, 2010.
182 Para um debate sobre a compaixão na política recorro aos trabalhos de Stella Bresciani, Cf.: BRESCIANI, Maria Stella Martins. A compaixão na política como virtude republicana. In: Brepohl, Marion; Capraro, André Mendes; Garrafoni, Renata Senna. (Org.). Sentimentos na História. Linguagens, práticas, emoções. 1ª. ed.Curitiba: Editora UFPR, 2012, v. 1, p. 115-151; BRESCIANI, Maria Stella Martins. A compaixão pelos pobres no século XIX: um sentimento político. In: Márcio Seligman-Silva. (Org.). Palavra e Imagem, Memória e Escrita. 1ª. ed. Chapecó: Argos, 2006, v. 1, p. 91-126.
chega sem ninguém esperar. Se dormir à noite amanhece melhorzinha, é capaz mesmo da febre ir embora. Caso contrário...nem é bom falar, ficar como um cadáver, tossindo como uma tísica. Queria qualquer coisa que ela tomasse e dormisse. Um narcótico leve, tolo, que desse para algumas horas183.
O vendedor propõe a solução do quinino como único remédio a ser administrado sem receita. Aos gritos, o homem inquiriu o rapaz: “- Para que diabo eu quero quinino?!”184. O desespero pela perda do filho, ainda recente, foi sua última estratégia frustrada para convencer o vendedor implacável. Optou por não insistir e saiu às pressas pelas ruas do centro comercial do Aracaju.
O relato185, então, se apresenta marcado por indicações verossímeis de espaços como o Parque Teófilo Dantas e a Igreja da Catedral. Referências reais da capital sergipana que passava por embelezamento de suas praças e áreas centrais em forte contraste com a imagem sufocante do pai desempregado, em busca de auxílio médico. No conto de Joel Silveira, a cidade se recobre da cor cinza, somada ao apito da fábrica têxtil Confiança. São alusões, verossímeis de uma literatura marcada pelo realismo praticado naquela década de 1930. Penso ainda, numa acepção proposta por Roland Barthes186, há uma ilusão referencial para assim gerar os marcadores de credibilidade unida a situações dramáticas da condição social no Brasil, elemento central de um debate importante do campo político vigente.
A figura do médico187 no tratamento das febres188 constitui outro detalhe importante no conto. O médico da família já tratava Lucinha como a “minha doentinha”, denotando, assim, aproximação afetuosa, ou seja, sua atitude não alude a uma família pobre: “médico antigo da família, cabelos brancos, uma roupa preta de sempre, parecia que só tinha
183 SILVEIRA, Joel, Onda Raivosa. 1939, p, 9-10. 184 SILVEIRA, Joel. Onda Raivosa, 1939, p.10.
185 BARBOZA, Naide. Em Busca de Imagens Perdidas 1900-1940. Aracaju: Fundação Cultural Cidade de Aracaju, 1992.
186 BARTHES, Roland. O efeito de real._____. et. al. Literatura e realidade. (que é realismo?) Apresentação Tzvetan Todorov. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984, pp.87-97.
187 O escritor Ranulpho Prata também publicou o romance Dentro da Vida em 1922. Esse romance trazia o dilema do médico em tratar das enfermidades dos pobres como razão central do seu ofício. A ideia do cuidado dos pobres é regida pela ideia de sofrimento de matriz católica romana. Sem dúvidas, diverge da visão do personagem de Joel Silveira, mas é instrutivo enquanto um problema literário e político presente na literatura brasileira.
188 SANTANA, Antônio Samarone de. As febres do Aracaju: dos miasmas aos micróbios. Dissertação (mestrado) São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, 1997.
aquela”. Ou seja, o personagem médico remete a um personagem abnegado, com roupas rotas, sem a epiderme dos homens ricos. O diagnóstico médico naturalizava a condição de dor e da progressão da doença189, pois a febre seria fruto, segundo ele, da “marcha da moléstia, tem que ser assim”190. Não convencido pelo diagnóstico do médico Lopes, o pai pensou em chamar outro especialista, o Dr. Benedito. Mas, a esposa, Pureza foi contrária à ideia. A criança não dormia a várias semanas e levou o pai a pensar em outras alternativas, inclusive, a médica.
Certamente, no estado de Sergipe, faltavam especialistas capacitados a resolver o problema das febres que assolaram a população do Aracaju nas primeiras décadas do século passado. O problema, recorrente na cidade, foi tratado, inclusive, por Amando Fontes na obra Os Corumbas191, romance, publicado em 1933, no qual, a penúria de uma família fugida da seca no interior do estado é posicionada como imagem central. A mortandade dos filhos, em decorrência da varíola, se apresenta como problema social e Joel Silveira expõe o importante problema da mortalidade infantil, em decorrência das febres da capital sergipana em defesa de seu argumento.
O desempregado surge como personagem central do conto “Onda Raivosa”. Não é uma figura totalmente derrotada. Há uma verve de lirismo referida ao poema do escritor Tagore Rabindranath que o pai lera para a filha febril: “No meio do riacho soltei o meu barquinho de papel... O barquinho de papel era a vida, o poema dizia mais adiante. No fim, quando o menino já era homem feito, o barquinho voltava. Mas voltava diferente, bem devagar, todo amassado e desbotado pela constância das águas”192. O poema do escritor indiano se apresenta como metáfora193 da vida boa que o personagem levava ao trabalhar e perceber o resultado de seus esforços: tudo ia bem, inclusive, com sua filha, e até o cachorro Bijú revelava o lado benéfico da vida. Mas, a vida do homem tornou-se como o barquinho do poema de Tagore - “encontrara a onda raivosa”. Referência ao título da obra e assinala o uso de metáforas poéticas que traduzem a condição de personagens submetidas ao ritmo e às
189 A respeito do tratamento das doenças e como a reação participa de um debate político conferir a leitura: SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
190 SILVEIRA, Joel, Onda Raivosa, 1939, p. 14.
191 FONTES, Amando. Os Corumbas. Rio de Janeiro: Schmidt, 1933. 192 SILVEIRA, Joel. Onda Raivosa. 1939 p. 16.
193 Dois textos referência para o uso de metáforas: Essa discussão encontra-se: BRESCIANI, Maria Stella. Século XIX: a elaboração de um mito literário. História: Questões & Debates, Curitiba 7(13): 2009-244, dez, 1986; ainda, a obra teórica de Paul Ricouer: A metáfora viva. Trad. Dion Davi Macedo. São Paulo: Loyola, 2000.
exigências do capital. Pode-se atribuir “o recurso às metáforas à dificuldade de nomear” 194. Na narrativa de Joel Silveira é uma das formas habilidosas de argumentar. Fora assim que a onda raivosa batera no barquinho e o amassara quando de sua demissão do emprego: - “Lamento muito, o senhor nos tem sido um ótimo auxiliar. Mas fizemos o balanço anual e nada mais nos resta senão acabarmos com a firma”195.
A “onda raivosa” exprime a condição do trabalhador, agora desempregado no contexto da cidade. Ou, como o personagem do conto, alguém que tem uma ocupação, sem dela auferir as mínimas condições de subsistência. Os quatro meses de desemprego levam as economias, juntamente com a saúde de Lucinha, a alegria de Bijú, e as lágrimas diuturnas de Pureza. Até a natureza sente os revezes dos personagens, pois os bogarís, os girassóis, agora refletem a morte presente entre os personagens: “Lucinha sofria, Pureza sofria, ele sofria, todos sofriam...”196.
Numa linha estética romântica, Joel Silveira figura personagens que sofrem envoltas pelo o curso da natureza. A onda raivosa remete para o lado sombrio, “como se um frígido inverno houvesse conseguido atravessar a porta e as janelas e ali ficara para sempre”197. Nesta condição, o barquinho tinha a sua frente um novo timoneiro, “um timoneiro inexperiente que não conhecia mistério das ondas e a linguagem do mar”198.
O desfecho da narrativa traz a ideia de alegria depois de uma tempestade. Ao chegar à casa, o homem ficou hesitante, parado, mas a esposa Pureza o conduziu pelo braço para os aposentos da filha doente. Lucinha conseguiu descansar após vários dias de febre intensa. A esposa assim o acalmou ao afirmar que a filha estava melhor, a febre passara, “ela dorme como um anjo...”. O final emblemático do texto atesta o peso das adversidades sofridas e as marcas permanentes deixadas no pai: “o sorriso continuava, mas descia uma lágrima pela face magra”.
Não saber aonde ir, em virtude das incertezas decorrentes do desemprego, remete a uma leitura crítica da condição do trabalhador brasileiro daquela agitada década de 1930. Período este, em que Joel Silveira escreve em oposição ao governo do Estado Novo no jornal literário Dom Casmurro. Periódico no qual aprimora seu estilo literário e onde se agregavam
194 BRESCIANI, Maria Stella. Século XIX: a elaboração de um mito literário. História: Questões & Debates, Curitiba 7(13): 2009-244, dez, 1986, p.214.
195SILVEIRA, Joel. Onda Raivosa. 1939, p.17. 196 SILVEIRA, Joel. Onda Raivosa. 1939, p. 18. 197 SILVEIRA, Joel. Onda Raivosa. 1939 p.18. 198 SILVEIRA, Joel. Onda Raivosa. 1939 p. 18.
autores como Jorge Amado, Álvaro Moreyra, Dias da Costa, Brício de Abreu, Wilson de A. Louzada.
Os contos são provas de que o autor não deixou de tratar de problemas políticos. Nesse sentido, o tema do desemprego, os sofrimentos decorrentes das doenças e dos sonhos não realizados são objetos de sua escrita. No conto Onda Raivosa, as imagens da dor e do desespero configuram o pai aflito para encontrar remédio para filha febril. Mas, não só a dor configura a preocupação da aflição. Há também outro personagem criado para descrever a força do trabalhador obstinado que conseguiu espaço em meio a tantas adversidades. Refiro- me ao conto “Pensão Sagrado Coração de Jesus”. Nele, o protagonista vitorioso sonhara toda vida em abrir seu negócio. Ao compor sua narrativa, o autor coloca a seguinte questão: E quem era o dono? “Um rapaz trabalhador, honesto, que soube economizar e que não se deixou vencer pelos infortúnios”199. Ou seja, mesmo quando a tensão se apresenta resolvida, as figurações de êxito propostas por Joel Silveira trazem implícita a crítica social. É sobre este escritor, envolvido com as questões políticas que minha inquietação se sobrepõe a crítica que limitam sua obra ao campo jornalístico.
No conto “Um homem acordado na noite fria”, a trama200 envolve a experiência de um morador de rua. Novamente faz opção por uma literatura de cunho social, ou que trabalha com novos problemas que surgiram na urbe. A cidade aparece ruidosa e, por isso mesmo, traz incômodos ao personagem que pretende dormir no “batente da porta da padaria”. No descanso, este personagem se sente incomodado pelo frio intenso da noite, assim como, pelo assovio dos transeuntes.
Nesta narrativa, o rádio se insere como um dos elementos modernos; acorda e importuna o protagonista que desperta de cara amarrada por não conseguir o descanso e seus “olhos estão pesados e inchados”201. O narrador sugere que o “rádio é uma coisa insuportável” para os que tentam adormecer na rua ao relento. Nas noites de verão a tarefa do descanso parecia menos inglória, o personagem “ficava a olhar para o céu estrelado, contando estrelas, fazendo comparações abstratas (cada estrela que aparece no céu é uma pessoa que morreu no dia) ”202. Sua mente é enriquecida pela relação com os sinais da natureza, mais um elemento de característica romântica:
199 SILVEIRA, Joel. 1939. Onda Raivosa, p.140.
200 Pensando sobre como funciona a literatura, James Wood trata do poder do enredo. Conferir: WOOD, James. Como funciona a ficção. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Cosac Naify, 2012.
201 SILVEIRA, Joel. Onda Raivosa. 1939, p.86. 202 SILVEIRA, Joel. Onda Raivosa. 1939, p. 86
Ou então acompanhando, com os olhos secos, o rastejar monótono das nuvens esgarçadas. A lua furava os flocos brancos, atravessava o mar azul imenso. Havia sempre uma estrelinha acompanhando a lua nas suas carreiras, como uma dama-de-honor (se aquela estrelinha se encontrar com a lua, o mundo se acaba …)203.
Os estímulos destes elementos da natureza conferiam um descanso pleno após os vários pensamentos fluírem em sua mente. Assim, “abria a camisa encardida, de quadrinhos, o peito cabeludo aparecia. Um sorriso ficava bailando nos lábios arroxeados, circundados pela barba por fazer”204. Nas noites de inverno, o céu aparecia “como uma placa de chumbo”, por isso, impossível contatar as estrelas, visto que “os olhos não conseguiam penetrar a escuridão”. O influxo da natureza agora não desvia seu pensamento, de tal modo que tudo “diluía-se, como o silêncio, como as vozes, como tudo, na treva impenetrável”205.
Ele está submetido ao deserto206, longe das suas referências, sem auxílio de outros. No silêncio propiciado pelo inverno, o passado o atormenta furtivamente com reminiscências sem consolo, triste, impactante na voz irada da esposa Zéfa a lhe questionar todas as noites a respeito da sua busca por emprego: