1
A noite passada tive um sonho. Encontrava-me num imenso campo aberto, a erva alta fazia-me cócegas na barriga das pernas e uma geada finíssima tornava a noite húmida, ensopando a terra e as árvores, deixando-me os sapatos frios e a roupa molhada. Sonhei que o orvalho da manhã se levantava como uma espuma branca e desvanecia os contornos das coisas, transfigurando tudo. Tal como quando uma sombra é engolida por um clarão, também as imagens do sonho desapareceram repentinamente, desintegradas por raios de luz que acompanharam o meu despertar.
– Estava em Cupertino – murmurei, e tornei a fechar os olhos.
Imaginei os fios de erva, as fileiras imprecisas de choupos ao longo da alameda do cemitério. As libélulas que passavam ao meu lado de raspão com o seu fulgente azul-elétrico. Os abelhões que ficavam presos nos cabelos muito pretos de Angelina. O sonho e os fragmentos da realidade misturaram-se num híbrido frio, inconsistente.
Angelina. Pronunciei o seu nome em silêncio.
Quase consegui cheirar o seu perfume. Redemoinhava no meio do cheiro denso a fumo de cigarros que envolvia o meu quarto. Um odor a lavanda, a flores do campo.
Quantos anos passaram, Angelina? Quão intensamente te amei? Quando éramos crianças, se procurassem descrever-nos, as comadres poderiam dizer que eu era a incompreendida, a taciturna, a esquiva, a espectadora. E tu? Tu, Angelina, eras o sol. Nos nossos dias mortais, a mamã arrumava a cozinha, lavava as mãos e a cara, punha um pouco de creme no rosto e de batom nos lábios. A seguir, penteava-se, mas ao fazê-lo vestia sempre um penteador preto para evitar que os cabelos se introduzissem na densa trama das camisolas invernais. Usava um espelho para admirar o penteado de todos os lados possíveis. Em seguida, pousava todos os instrumentos
no pequeno armário da casa de banho e ia sentar-se para a porta de casa, defronte da janela, à espera. Sempre achei que, no fundo do seu coração, ainda esperasse ver-te aparecer da viela escura. Nesta ou na próxima vida.
Nem mesmo a makara teria podido salvá-la do buraco negro onde ela tinha caído.
*
Lembras-te, mamã, quando o papá te obrigou a ir à bruxa?
Tinha pedido a Angelina para ficar com a avó porque era demasiado pequena para assistir a certas bruxarias, mas quis que eu estivesse presente.
Desde que voltara da guerra, o papá tinha recomeçado a amar tudo o que dizia respeito à minha mãe: a sua pele imaculada, os reflexos acobreados do cabelo, o castanho líquido dos olhos, mas consumia-se com o pensamento de que ela não fosse já a mesma, que lhe escondesse um segredo.
Eu observava-a de tempos a tempos, enquanto segurava entre as mãos a fotografia do costume pousada em cima da cómoda. Afloravam-lhe aos lábios palavras breves e inconsistentes, como se aquele mesmo daguerreótipo que os retratava juntos pudesse pronunciar a terrível verdade que ela escondia. Quando repunha sobre a cómoda a foto, vi-a sentar-se desfeita e exausta sobre a cama, ajeitando os caracóis do cabelo e a combinação torcida abaixo dos seios. Algumas vezes, esse retrato inanimado incluía igualmente o papá, que a encontrava seminua e ficava a admirá-la. Lia-lhe o desejo nos seus olhos e na sua boca, nos músculos do braço que vibravam. Respirava-a, sentia-lhe o cheiro. Logo a seguir, porém, como tomado por um ardor endemoninhado, aproximava-se dela e sacudia-a segurando-a pelos ombros. Nesses momentos, a cadeira, a cómoda, os ladrilhos bem alinhados, os mensageiros dos santos pendurados nas paredes, cada coisa perdia os seus contornos definidos e a vista turvava-se-me.
«Cateri’», ouvia-o gritar, «Cateri’.» Uma e outra vez, até o próprio ar se tornar saturado com a sua raiva. Depois acalmava-se. O silêncio dela uma vez mais triunfava. Nunca perdi o hábito de a observar às escondidas.
Enquanto pude, espiei sempre a minha mãe. Queria conhecer-lhe as
debilidades e os segredos íntimos, desejava sentir-me parte daquele seu novelo emaranhado.
Diante da bruxa que esperava por nós à porta, o rosto da mamã coloriu-se de vermelho-púrpura, e parecia que coloriu-se incendiaria de um momento ao outro. Era a primeira vez que eu entrava na casa da makara, que habitava os bosques como as criaturas das histórias dos velhos da aldeia. Estava convencida de que ela era capaz de voar montada em vassouras e de queimar objetos ou de sugar a alma simplesmente com o olhar. A sua casa era velha e cinzenta. Na parede da direita de um pequeno pátio que dava para o bosque, havia uma fonte que gotejava. Mais além, havia marmeleiros e um canto sombreado, onde cresciam hortênsias e silvas. No chão, excrementos de galinha e merda de cão. O triste definhamento das paredes escalavradas fez-me gelar o sangue.
A makara convidou-nos a entrar e durante alguns minutos não fez outra coisa senão andar para a frente e para trás, acendeu o fogo, embora fizesse calor, arrumou as chávenas na bancada da cozinha, meneando a cabeça cada vez que o papá chamava por ela.
– Maka’? Sempre fazemos este ritual?
E a cabeça meneava para a direita.
– Maka’?
E a cabeça meneava para a esquerda.
Então, o meu pai foi buscar o capão e os ovos. Eram a sua dádiva para a bruxa, a paga pelos seus serviços. E antes de encontrar a direção certa para onde se virar, a cabeça da makara parecia ter-se esquecido do motivo pelo qual nos encontrávamos ali. Eu estava muda e olhava em redor. A fuligem por cima da chaminé que enegrecera as paredes. O chão esburacado em vários sítios. Uma panela furada em cima da mesa. Ao lado das paredes da entrada velhos cântaros e paus de vassoura. A makara continuava a caminhar com passos misteriosos. Apercebi-me só nesse momento de que um dos seus olhos era verde e o outro castanho. Tinha-a visto tantas vezes sem nunca ter reparado nisso. Aquela estranheza hipnotizou-me. Ela era uma bruxa. Provinha de outro mundo. Também ela se convertia em brasas como o demónio ao assumir a aparência de uma mulher, aliás, provavelmente ela era o próprio demónio. Assim, comecei a contar para mim mesma.
Um, dois, três.
Esse mundo calculado, os números em sequência, nada podia transbordar, tudo tinha contornos definidos. Os números tranquilizavam-me.
Um, dois, três.
A mobília antiga. A pequena cozinha cheia de fumo, as poucas cadeiras em torno da mesa. Os ladrilhos cor torrão de terra. Cada coisa me parecia agora menos estranha. Era triste e desbotada, deteriorada como a velha makara, mas pertencia novamente àquele mundo. Ao nosso mundo.
– Sentai-vos – disse a determinado momento. A cabeça deixou de menear.
Retirou da gaveta da mesa um baralho de cartas, fixou-o durante algum tempo e aproximou-o do peito.
A mamã observava-a com apreensão.
– Retirai uma carta – ordenou ao meu pai.
Abriu-as em leque diante dos nossos olhos e deixou a mão do papá tocar numa delas e só numa.
– Estais seguro da escolha?
Ele fez sinal que sim.
Nesse momento, a makara voltou as cartas e colocou-as em cima da mesa. Eram diferentes de todas as que eu conhecia. Numa delas estava reproduzido um homem pendurado de cabeça para baixo com um odre em cada mão, noutra, um imperador, noutra ainda, a morte com um pano vermelho, e depois o diabo com feições de homem, cornos e grandes seios de mulher.
A mamã observou com horror aqueles estranhos símbolos e benzeu-se repetidamente.
– Acalmai-vos, Cateri’, as cartas não fazem mal. Apenas dizem a verdade.
Mas era precisamente da verdade que a minha mãe tinha mais horror.
– Nardino, haveis escolhido o Ermita.
A makara levantou a carta que o meu pai tinha extraído do baralho e mostrou-a também a nós. Um velho barbudo com uma vestimenta comprida caminhava apoiado a um bastão iluminando a estrada com uma lanterna.
– Procurais a sabedoria, Nardi’. Desejais que alguém vos ilumine a estrada. Mas vós conheceis a verdade?
O papá fixou a minha mãe nos olhos.
Era essa a verdade que ele procurava. Por que razão os olhos da sua mulher não eram os mesmos desde que ele regressara daquela maldita guerra?
– Ah. Não – disse secamente, fazendo estalar a língua no céu da boca –, vim cá por causa disso. Para conhecer a verdade.
– Então, tirai outra. Outra carta.
A makara retirou o baralho da mesa, baralhou-o, deu-o a partir precisamente a mim e virou-o de costas para que o meu pai escolhesse outra carta.
Observei a mamã. O lábio superior atormentava o inferior e um ligeiro tremor empossara-se dos seus belos olhos.
– Que carta é?
Uma jovem donzela nua, debruçada sobre um rio, derramava água de dois jarros. Sete estrelas luzidias iluminavam tudo em redor dela.
– Esta é a carta das estrelas – anunciou torcendo os lábios num leve sorriso. – Mas vedes como ela está? Está virada ao contrário.
– E isso quer dizer má sorte? – questionou-a o meu pai.
– A má sorte sois vós quem a chamais, a pensar mal de tudo.
Depois fez o sinal da cruz na testa da minha mãe.
– Abri o vestido, Cateri’.
– Como assim, Maka’?
– A menina fecha os olhos e tu desabotoas o vestido.
A mamã, ao ver a obstinação da makara, ganhou coragem e desabotoou a camisola. Eu tapei os olhos com uma mão, mas estava habituada a espiar, e também o fiz nessa ocasião.
O papá viu a sua mulher abrir o vestido e mostrar à velha bruxa o peito cândido e redondo, a carne rosada. Também a makara o observava. O seu olho verde parecia assumir tonalidades variáveis, do cinzento ao azul, como se o rosto da velha se transfigurasse. Uma parte de mim queria fugir, outra, ao invés, queria estar exatamente sentada naquela cadeira decrépita a perscrutar os olhos infernais da bruxa. Talvez ela conseguisse ver todos os sinais invisíveis existentes no corpo da minha mãe. As mãos do barão que lhe removiam os vestidos, lhe cingiam a carne, ele que respirava o seu cheiro.
– Vesti-vos agora – ordenou à minha mãe. A makara tinha readquirido de novo o olhar apagado, cansado.
– A vossa mulher é santa, Nardi’. Não tenhais medo. Não há nenhuma verdade para descobrir.
A mamã caiu de joelhos e pôs-se a beijar os dedos que depois pousava sobre os tornozelos da makara. Chorava, e as lágrimas leves caíam sobre os pés da velha.
– Não chores, Cateri’, pareces a Maria Madalena – sussurrou a makara, depois inclinou-se para ela e segurou-a pelo queixo: – Quando Maria Madalena beijou os pés de Cristo, caíram deles gotas de sangue. Dessas gotas brotaram anémonas, as flores do vento. Porque depois do sangue vem a vida. Depois da dor vem a esperança. E agora, Cateri’, abandona a dor. Regressa à esperança.
A mamã enxugou as lágrimas e deu o braço ao meu pai. A makara tinha uma vez mais visto tudo, como no caso do futuro esposo de Lollina.
Há um fio de seda que liga este mundo ao outro. Em certos momentos é o mundo de cima que se adelgaça progressivamente, como uma membrana em vias de se romper. Outras vezes, quando o mundo de baixo se torna incompreensível, o de cima vem em seu auxílio. O fio encurta-se, até desaparecer.
2
A primavera de 1949 ia já adiantada. A minha irmã tinha apenas dezasseis anos, mas transformara-se como aqueles meninos das fábulas que se tornam grandes de um dia para o outro. A ela tinha-lhe bastado um inverno para que aquele milagre se concretizasse. Tornara-se uma mulher, doce e convidativa, de ar selvagem e lânguido, com ancas de égua que inspiravam repouso e confidência. Assumira as formas de uma criatura perfeita como a matéria inorgânica. Eu também me tornara mulher, mas vivia na sua sombra. Os campos do Arneo floriam e desabrochavam à vista desarmada. Era a primeira vez que o papá nos deixava ir a um desses salões de baile improvisados que se organizavam nas caves das casas, mas tratava-se de uma ocasião especial: o noivado de Lollina. O facto de que o seu jovem futuro marido fosse negro não despertava nenhum alvoroço em nossa casa. De resto, a makara era ou não era uma bruxa? Desde há gerações que a sua família carregava esse dom – ou essa maldição. As velhas da aldeia contavam que a avó da makara tinha inclusivamente visto em sonhos a sua própria morte. Tinha esvaziado os armários e empilhado a roupa, vestindo-se somente com aquela com que desejava despedir-se do mundo, e, depois de ter acendido quatro velas em redor da cama grande do seu quarto, deitara-se sobre a mais bela das colchas que as suas mãos haviam alguma vez bordado. «E agora já podem vir despedir-se de mim pela última vez», sentenciara. Morrera nessa mesma noite. A única que não tinha acreditado nas suas palavras tinha sido a Ti Nenenna. O jovem, como se veio a saber, não era um soldado americano, como todas tinham insinuado – o que até teria sido motivo de orgulho –, mas filho de um emigrante de Nardò que tinha regressado d’América com uma esposa negra e com aquele filho que tinha a pele brilhante, aveludada, e os olhos como duas azeitonas pretas.
– D’América? – tinha gritado a Ti Nenenna quando Lollina o apresentara a ela. – Qual d’América qual quê, este mais parece vir de África.
Isto porque o rapaz, que usava o nome do avô paterno, Vincenzo, e que a sua mãe afetuosamente chamava Vincent, ostentava uma sumptuosa carapinha e um nariz grande e achatado.
– Tens a certeza de que gostas dele? – perguntara-lhe com as lágrimas nos olhos. Nunca se lhe tinha ouvido tanta ternura na voz.
– Sim, mamã, gosto. – A resposta da filha foi rápida e seca.
Nada a fazia mais sofrer do que aquelas más-línguas que a apodavam de
«solteirona», ou outras, ainda mais venenosas, que insinuavam que ela inclusivamente lançava enguiço, mau-olhado, a todos os rapazes que a abordavam. Não era feia, mas o azar tinha-a perseguido desde menina, quando tinha sido afetada por uma perigosa infeção; a partir desse dia nunca mais tinha sido a mesma. Enquanto a perna direita crescera saudável e robusta, a esquerda seguira um caminho próprio, como aqueles rebentos que ao mínimo sopro de vento se quebram em dois. Lollina ficara aqui na terra a adoentar-se um dia sim, um dia não, mas tinha sobrevivido, com uma perna mais curta e seca como um ramo, um tórax raquítico e dois ombros franzinos. Salvavam-na, porém, os olhos, grandes e doces, e uma gargalhada que agradava a todos: começava com um ri ri surdo, como as primeiras gotas lentas de uma tempestade estival, e depois explodia num clamor fragoroso.
Agora que estava para se casar, até as más-línguas tinha convidado para a sua festa de noivado. Inclusivamente a makara, que lia nas borras de café a vida de todos.
O noivo negro apresentou-se com a cabeça rapada destapada, uma camisa branca com o colarinho liso por baixo de um casaco de cor cinzenta que lhe estava demasiado grande, calças de fazenda e sapatos de tipo barato.
– Minha Nossa Senhora das Dores! – imprecou a namorada. – Que fizeste aos teus belos e densos caracóis?
O rapaz – que para a aldeia era u bbampatu, o queimado, o tostado, por causa da sua pele cor de carvão – tocou na sua cabeça rapada todo contente. Já não aguentava mais ser gozado por causa daqueles caracóis de mulher que tinha exibido até então com tanto orgulho.
Lollina, pelo contrário, começou a bater-lhe no peito com os punhos.
Ela tinha-se posto toda elegante, tinha frisado os cabelos como o das bonecas e posto um vestido com um fio de lantejoulas em redor da gola alta. A Ti Nenenna tinha-se gabado diante de todos quão bela estaria a sua filha no dia do seu noivado oficial.
– E pouco importa se u bbampatu é preto retinto como o chocolate, ele é verdadeiramente um bom rapaz, um grande trabalhador.
Porém, agora que o via desleixado, desmazelado, com a cabeça lisinha como o rabo dos bebés, vieram-lhe lágrimas aos olhos.
– Negro retinto como a merda – desabafou em voz baixa diante de mim e da minha mãe. – E não como o chocolate.
A seguir, com o ar prosaico que tornava determinadas mulheres da minha aldeia imunes a qualquer golpe do destino, foi de braço dado à sua filha ajudá-la a cumprimentar os parentes e os amigos que se tinham reunido ali na sua cave para a ocasião. Embora se tratasse do andar subterrâneo degradado de uma casa degradada, a Ti Nenenna procurara de todas as maneiras tornar aquele lugar o mais sumptuoso possível. Uma longa fila de cadeiras empalhadas fechava num círculo o centro da sala, em cujo teto tinham sido pendurados enfeites florais feitos pelas mãos de Lollina. A Ti Nenenna pedira emprestado um gramofone luzente de uma parente do seu falecido marido que habitava em Manduria. A música fazia soltar as línguas e dissipava a tensão, e rapidamente a cabeça rapada do bbamptu não suscitava mais nenhuma reação nos presentes.
A mais beddrha, a mais bela de todas, porém, era ela, Angelina. Trazia um vestido cor-de-rosa com as mangas em balão, apertado na cintura e levemente decotado nas costas.
– Tens demasiada pele à mostra – resmungara o papá, vendo-a chegar do lado de lá da cortina que separava a cozinha das camas.
Eu e a minha irmã tínhamo-nos vestido diante do espelho do armário.
Ao crescer, eu permanecera magra como um palito, afuselada como uma beleza nórdica, com os cabelos da cor da uva luglienga.
– Toma lá, põe estes. – Angelina passou-me para as mãos uns flocos de algodão enquanto palpava os seus seios abundantes.
Os meus continuavam a ser pequenos. Dois marmelos muito duros.
Enfiei o algodão no decote do vestido e ajustei-o bem com as mãos.
– Agora pareces mesmo a Rita Hayworth – disse ela agarrando-me pela cintura.
A minha irmã tinha um fraquinho pelas atrizes norte-americanas.
Quando no oratório passavam filmes do outro lado do oceano, eu e ela sentávamo-nos na primeira fila. Os olhos de Angelina iluminavam-se diante dos rostos de Judy Garland, Lana Turner ou de Bette Davis. Queria ser como elas. Viver as suas vidas.
– E tu pareces a camponesa Lucrezia – disse eu –, a fascinante Luisa Ferida. – Referia-me a uma personagem que tinha feito enlouquecer todos os homens de Cupertino.
Também Angelina surtia o mesmo efeito sobre os homens reunidos no salão de baile da Ti Nenenna. Era visível que suspiravam todos por ela.
Alguns, mais descarados, quando tinham a certeza de que o nosso pai não estava a ver, faziam com as mãos a figura de um coração. Ela sorria e desviava-se daqueles olhares com coqueteria. Sentia-se em paz com o mundo. Vivia a exuberância túrgida do corpo e no fundo dos olhos reluziam-lhe faíscas de luz.
As comadres sentadas em círculo nas cadeiras de vime fixavam os olhos nela e inundavam o ar de suspiros. As maldições que haviam lançado à mamã direcionavam-nas agora para a filha. A beleza marcava ambas como uma cicatriz indelével, mas, à época, a minha irmã não o sabia ainda. Estava ingenuamente convencida que o inebriamento da juventude a faria evitar todas as asperezas da terra.
Lollina e o seu namorado negro bailavam no centro do salão. Ao seu lado, vários pares de homens com homens e mulheres com mulheres.
Lollina e u bbampatu provavam que homem e mulher também podiam estar próximos sem que um dos dois pegasse fogo. A mamã bailava com Giulietta, a parteira, e até mesmo a makara ocupara um lugar no centro da sala agarrando-se com força aos braços de uma prima da noiva, uma matrona toda ela mamas e rabo e pés bem assentes no chão.
Virei-me à procura do meu pai. Naquele dia tinha empomadado o bigode e penteado os cabelos com uma comprida risca ao meio que o tornava atraente e elegante. Veio-me à mente o pensamento absurdo de que se assemelhava ao barão Personè, o qual há muito tempo não via a exibir os seus fatos caros pelas ruelas da aldeia. Talvez se tivesse fechado
na sua casa de algodão doce e lá dentro movesse os fios que nos mantinham a todos nós indissociavelmente ligados ao seu destino.
Descobri o meu pai num canto escuro da entrada, juntamente com um grupo de homens. Enquanto conversavam, exalavam das bocas círculos de fumo e levantavam o queixo como se pretendessem seguir o rasto que os
Descobri o meu pai num canto escuro da entrada, juntamente com um grupo de homens. Enquanto conversavam, exalavam das bocas círculos de fumo e levantavam o queixo como se pretendessem seguir o rasto que os