Rosa Ventrella
A MALEDICÊNCIA
Romance
Tradução de
Diogo Madre Deus
Ficha Técnica
Título: A Maledicência Título original: La Malalegna
Autor: Rosa Ventrella Edição: Cecília Andrade Tradução: Diogo Madre Deus Capa: Maria Manuel Lacerda
Fotografia da capa: © Ferdinando Scianna/ Magnum Photos/ Fotobanco.pt ISBN: 9789722071260
Publicações Dom Quixote uma editora do grupo Leya Rua Cidade de Córdova, n.º 2 2610-038 Alfragide – Portugal
Tel. (+351) 21 427 22 00 Fax. (+351) 21 427 22 01
© 2019, Rosa Ventrella
Publicado originalmente em Itália por Mondadori Libri S.p.A., Milão Publicado por acordo com Walkabout Literary Agency
© 2021, Publicações Dom Quixote
Este livro segue o Novo Acordo Ortográfico de 1990, por política da editora.
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Índice
Capa Ficha Técnica
A Espera 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12
As Flores do Vento 1
2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12
O Mosaico Grande 1
2 3 4 5 6 7 8
9 10
À Beira do Poço 1
2 3 4 5 6 7 8 9 10 11
Agradecimentos
Para os meus filhos
Olhei-a com os meus olhos mortais somente aquela vez.
E o seu silêncio foi igual ao de um jardim fechado.
Ela não disse nada.
Eu ia para onde todos iam…
CÉSAR ANTONIO MOLINA, Fuga do Amor
Terre d’Arneo, 1979 Que sei eu de nós?
Da minha irmã recordo o tule do seu vestido de casamento, a felicidade de quando se sentia uma rainha no seu reino de coisas e de olhares, a voz que gritava da viela o nome da minha mãe, um assobio agudo levemente distorcido.
Por vezes, dou comigo a sonhar com ela de noite, a ouvi-la. Vou atrás do eco de um som distante que me arrasta até às terras da minha infância.
Uma charneca matagosa que nos circundava a perder de vista, preenchida por pequenas bossas hirsutas, como uma imensa manada de búfalos.
Depois, de repente, a voz da minha irmã desaparece e precipito-me no vazio da noite. Agarro na fotografia da mesinha de cabeceira que nos retrata a todos: a mim, a Angelina, à mãe e ao pai. Sorrio perante o olhar torvo dele e a beleza da minha mãe.
Recordo as noites frias de vento mistral, quando eu e Angelina descalçávamos os sapatos e as meias grossas à frente da lareira acesa e cingíamos com as mãos os nossos pés. Nesses momentos, sinto uma felicidade imprevista, sem motivo, que não se compara a mais nada e que permaneceu intacta em algum lugar.
Recordo as vielas empedradas de Cupertino. Nem mesmo a luz conseguia penetrar naquelas ruas estreitas e tortuosas. E as casas estavam tão próximas umas das outras que de manhã as comadres se cumprimentavam da janela, à hora do almoço podiam cheirar a comida cozinhada da vizinha da frente e estendiam os lençóis de um lado ao outro dos edifícios. Mais além, campos sarçosos, bosques de azinheiras, montículos de terra embutidos de silvas. As lendas sobre os lobos e as bruxas que viviam nesses lugares desolados percorriam os bairros da cidade, voavam sobre o empedrado das ruas como as estriges da Idade Média. Nos dias de inverno, entravam nas casas através das correntes de
ar por debaixo das portas, envolviam os tornozelos das crianças em forma de risadas de espíritos malvados. A avó Assunta abraçava-me a mim e a Angelina, enquanto a mamã mexia as hortaliças na panela. A história ganhava vida. Como um sedativo, um narcótico, um líquido doce e licoroso e quente que se entranhava por baixo da pele.
Angelina interrompia continuamente a voz monocórdica da avó.
Perguntas impertinentes, expressão de desafio, o estalar sonoro da língua no palato quando discordava de algo. Eu anotava tudo. Registava tudo.
Quando penso em Angelina, ainda hoje sinto um nó na garganta que me impede de deglutir. E a nostalgia de uma dor querida. As recordações dos momentos que passámos nessa época fundem-se com aquelas, tristes, dos anos vindouros. A mamã entretinha-se durante horas no nosso quarto de criança a limpar o pó da boneca feita com um lenço enrolado, com botões a fazer de olhos e a boca cosida, a arranjar as cortinas, a mudar os lençóis da cama, a ajeitar a almofada, a dobrar a camisa de noite, a acariciar alguns cabelos ainda embaraçados entre as cerdas da escova, a ver-se definhar através do reflexo dos objetos, dos vidros e dos espelhos.
As últimas palavras que dirigi à minha irmã foram pronunciadas de longe, sussurrando-as apenas a mim mesma. O último olhar, ao invés, pousei-o sobre o seu corpo sem vida, sobre a alvura dos braços, sobre a pele que parecia inchada e flácida. Observei na sua carne todas as ações que nunca mais realizaria, os arranhões nos tornozelos, as unhas bem cuidadas, os dedos dos pés compridos e magros. Sempre achei feios os seus pés. Demasiado ossudos, os dedos compridos sem harmonia, com exceção do dedo grande, grosso e achatado. Talvez estivesse somente a procurar defeitos bastante evidentes para anular aquela aparência de perfeição. Contei os segundos decorridos a fixar os seus pés sem vida.
Vinte e dois. Tantos quanto os anos que viveu. Com os olhos marejados, espiei-lhe o corpo. Um pé direito, com os dedos rígidos, fixos na sua inação, o outro ligeiramente retorcido, como numa pose mal conseguida.
Agora sei por que razão restei eu: para contar a história de todos nós.
Devagarinho – como dizia a avó Assunta –, começando do princípio.
– E por onde é que vais começar? – pergunta-me o meu pai.
Talvez ele a veja, à tristeza que chega de longe. Surpreende-me repentinamente sobretudo durante o sono. Sinto o seu arquejo
impercetível na noite, como um rumor de passos distantes, um estrídulo de sapo. Que sei eu dele? Pergunto-me.
Que sei eu de nós?
– Pela maledicência – respondo-lhe.
É por aí que tenho de começar. Quando ela se insinuou nas nossas vidas.
A ESPERA
1
A casa era apenas um quarto, dividido em dois por uma cortina que servia para separar o sono da vigília, os colchões da loiça. Na metade mais próxima da porta, havia uma mesa e quatro cadeiras. Uma janela dava para a rua, a outra para o pátio, embelezado por um medronheiro. No chão, excrementos de galinha.
Eu era uma criança muito magra. Um passarinho de pele e osso. A mamã e a avó davam em doidas para me fazer engolir um pedaço de comida. Formava uma bola na bochecha e conservava-a dentro da boca sem conseguir degluti-la. A avó Assunta invetivava contra a minha mãe:
«De que estavas à espera? Ou tem a bicha-solitária ou lançaram-lhe um mau-olhado. Normal não é.»
Era também silenciosa. Gostava de poucas coisas. A ordem era uma delas. Na primeira classe, passava com as mãos a minha bata asseada, tocava no laço engomado e alisava os cabelos suaves e sedosos, presos em duas tranças de tal modo apertadas que quase me arrancavam o coro cabeludo. Se sentia o cabelo soltar-se, puxava o elástico até os meus olhos se esticarem numa tensão antinatural. Outra coisa de que gostava era de observar a minha mãe, o seu modo de caminhar. Movia-se com a graça de uma bailarina descalça, apoiando-se na ponta dos pés e mantendo o pescoço quase na vertical. Eu e a minha irmã imitávamos com frequência aquela sua pose altiva. Caminhava assim também pela rua e capturava os olhares dos homens que farejavam o rastro da sua beleza e das mulheres que a escrutinavam de soslaio. Inclusivamente as vizinhas lançavam-lhe olhares de inveja, ainda que escondidos pelas boas maneiras.
A maledicência estava por todo o lado e perseguia a minha mãe, que a cada passo se devia esquivar dela, caminhava pelas vielas, pela sinuosa escadaria em espiral que conduzia até à praça, batia contra os garrafões de azeite no exterior do lagar, entrava pelos olhos dos burros amarrados às
carroças da fruta, contagiava os vendedores de sardinhas, o padeiro, o vendedor de fruta, as comadres à porta, a makara com os olhos negros, o carroceiro que recolhia os desperdícios de ferro ou de tijolo e gritava pelas vielas: possuía uma voz gutural que se ouvia à distância, como o chamamento da cupa cupa1.
A minha mãe deslizava suavemente para se furtar ao olhar da Cimmiruta, uma velha feia e desdentada, com uma grande corcunda que a constringia a olhar perenemente para baixo. Essa escrutinava-a de lado, com o rosto deformado, enquanto esvaziava o penico na rampa de pedra sobre a qual passavam as rodas da carroça. Quando eu, a Angelina e a mamã desfilávamos diante dela, cuspia para o chão, envolta num xaile castanho que escondia o penico da vista. A minha mãe tinha também de se esquivar dos olhos do barão Personè, o dono de todas as terras de Cupertino, que era manhoso como um cavalo de raça, propenso a acessos de cólera e melancólico, mas que quando a via sorria como um menino e inclinava a cabeça como faziam os camponeses que se cruzavam com ele.
A avó Assunta dizia que a nossa família tinha aquela condenação, a beleza da nossa mãe.
Uma condenação que também tocaria em sorte à minha irmã.
Giulietta, a parteira que tinha ajudado a nascer todas as crianças de Cupertino e enviara várias para o outro mundo com infusões de salsa e a agulha de tricô, no nascimento de Angelina tinha sentenciado: «Esta menina tem os olhos mouriscos da mãe.» A seguir, olhara para mim, enrugando os lábios finos num leve sorriso: «Mas tu não fiques com vergonha, chega-te aqui, olha para a tua irmã.» Eu aproximei-me com passos curtos. Giulietta metia-me medo. Era gorda e desajeitada. Os seus olhos estavam ocultados por sobrancelhas grossas. Também o seu marido me causava medo. Na aldeia todos lhe chamavam magghiatu, como o macho das ovelhas. Alguns diziam que ele copulava com cabras, e Pasquina, a makara, a bruxa – os seus olhos eram negros como os de certas mulheres do Oriente –, tinha até jurado que o vira copular com o demónio. «Tinha feições de mulher», contava ela. «Só que a pele era vermelha e lançava fumo como as brasas. Era assim, como o carvão ardente. Possuía os cornos e a cauda de um búfalo.»
1 Instrumento musical popular característico das regiões do Sul de Itália. (N. do T.)
2
No inverno, quando o vento enfurecido fazia vibrar as portas e as janelas e produzia rangidos estranhos por todo o lado, púnhamo-nos em círculo em redor do braseiro: eu, a Angelina, a nossa mãe e o nosso pai, o avô Armando e a avó Assunta. O meu corpo magro inteiriçava-se. De vez em quando pousava o pé no chão e o pavimento gelado fazia-me tremer. O papá permanecia silencioso, assim como o avô Armando. Por vezes suspirava, como se uma grave aflição lhe desfigurasse as suas belas feições. No céu brilhava uma lua redonda e nítida. As árvores vergavam- se até tocarem na terra. Os olhos do papá brilhavam na trémula luz das chamas. Eram verdes como os campos de Cupertino na primavera. O avô Armando olhava para ele furtivamente, depois suspirava também. Os seus olhos pequenos e vivazes pousavam em cada um dos nossos rostos. Punha na boca alguns grãos-de-bico secos e aclarava a voz: «Já vos contei daquela vez em que os salteadores chegaram à Torre del Cardo?», perguntava, esfregando as mãos à frente do fogo. E as suas histórias ganhavam vida.
Na aldeia, contava-se que há muitos séculos um grupo de salteadores escondera um tesouro na Torre del Cardo. Nas histórias do avô, os vinte e quatro salteadores que tinham roubado o tesouro da baronesa Maria d’Enghen assumiam as formas de demónios. Imaginava-os a vaguear pelas charnecas matagosas da Murge, a dormir no meio dos arbustos e sobre as árvores, a comer os passarinhos sem penas que encontravam nos ninhos e as raízes que arrancavam da terra. Via-os furtivamente a arrecadar o saque na grande talha de barro escondida na torre e lançar o seu terrível encantamento:
«Quem se aproximar de lu tesoru do Cardo, acabará degolado.»
As almas dos salteadores agitavam-se em redor das brasas como sombras negras, com os cabelos compridos e as barbas hirsutas, os capotes
ornados de cornos. Havia também o demónio com rosto de mulher e a pele vermelha e fumosa como brasas. Fechava os olhos. Sentia os braços e as pernas enregelarem-se. O avô Armando tinha o dom de narrar. O meu pai o do silêncio. A avó Assunta o da sabedoria camponesa. A minha mãe e a minha irmã, a beleza. E eu? Ainda tinha de o descobrir. Durante grande parte da minha infância fiquei apenas a observar.
*
Foi num domingo de inverno que o meu avô me levou a mim e a Angelina a ver a Torre del Cardo. Eu tinha oito anos.
– Também quero ser uma baronesa – declarou de modo seco a minha irmã.
Meneava-se com as mãos na cintura e o queixo voltado para cima, como se quisesse cheirar o ar. O campo em redor era uma charneca densa de árvores e arbustos. Abracei-o com o olhar até onde podia. Pareceu-me um pequeno universo recolhido e delicado como uma concha, um lugar mágico que permanecera parado durante séculos. Quatro paredes, um chalé em miniatura, uma pequena porta ogival e janelas gémeas dos lados.
A antiga habitação da baronesa transformara-se nisto.
– A baronesa Maria deve ter sido uma mulher muito bonita, com os cabelos compridos e pretos como os da mamã – comentou Angelina, perscrutando com olhos curiosos as fechaduras da porta de entrada da torre.
Talvez acreditasse que a podia abrir somente com o olhar, mas isso nem mesmo a makara o conseguia fazer.
Eu, ao invés, imaginava a baronesa como uma mulher velha e carrancuda, com os contornos do rosto descorados, temperados pela solidão, e um pescoço amarelo e flácido que despontava do colarinho plissado da camisa branca.
– Já alguma vez alguém tentou descobrir o tesouro escondido pelos salteadores para o roubar? – perguntou Angelina.
– Ah – suspirou o avô, como se apenas falar o cansasse. Saiu-lhe através dos dentes cerrados um ligeiro suspiro, irritado mas quente. – Está demasiado frio para ficar aqui tanto tempo – justificou-se.
– Vá lá, avô, conta – insistiu Angelina, e, visto que era impossível resistir-lhe, o avô Armando começou a alisar um pedaço de erva, depois
acomodou-se em cima dele e convidou-nos a sentar ao seu lado.
– Uma vez, um velho sábio disse a um camponês corajoso que para descobrir o tesouro do Cardo deveria encontrar-se no cimo da torre na noite de Sexta-Feira Santa com um bebé e um cordeiro consagrado, e que uma luz o haveria de conduzir até à sala do tesouro. O camponês esperou ansiosamente pelo dia estabelecido, mas deslocou-se para o local sem o bebé e sem o cordeiro, seja porque estava convencido de que teria de sacrificar o petiz, seja porque, sendo aquela a noite dos sepulcros2, achava que não iria encontrar nenhum padre disponível para abençoar o animal.
Começou a subir a escada, mas logo aos primeiros degraus sentiu uma força estranha agarrar-lhe os ombros com violência e fugiu aterrorizado.
Eram os espíritos dos salteadores que guardavam o tesouro e impediam até os mais corajosos de se apoderarem dele.
– Nem sequer a makara alguma vez contou histórias tão belas – proferiu Angelina, entusiasmada.
– Ah, sim? – sorriu o avô. – Então agora sou eu a inventar um jogo. São vocês que me vão contar uma história.
Angelina, ficou imóvel por um momento, petrificada, com a sua grande boca entreaberta e os cabelos desalinhados sobre a testa.
– É a tua vez, Angelina – espicacei-a. – És a que tem mais imaginação.
Aclarou a voz e levantou-se. Já à época tinha dificuldades em pensar nela como uma criança pequena. Sabia sempre o que dizer, em qualquer circunstância, e possuía uma atitude confiante que, a meu ver, frequentemente se revelava insolente. Somente o sono lhe restituía a sua idade. Quando adormecíamos as duas na mesma cama, mas dispostas ao contrário, apoiava a minha face sobre a mão e ficava a observá-la. O seu sono era inquieto, com batimentos de pálpebras e trejeitos dos lábios, breves acenos como se se preparasse para falar, mas depois apenas suspirava, endereçando as palavras para o interior do sonho. Nesses momentos, meditava sobre a facilidade que ela tinha em exteriorizar os seus pensamentos, de modo sincero, sem filtros. Também eu produzia muitos pensamentos, só que refletia demoradamente neles. Na minha mente, as palavras amontoavam-se e perseguiam-se umas às outras, dando vida a ideias que amiúde me pareciam demasiado complicadas. No modo de me exprimir havia uma espécie de hesitação, um balbucio que acabava por irritar os outros. Mais tarde, retrospetivamente, percebi que o meu
problema era a minha dificuldade em colocar as palavras no interior de frases mais simples, mais comuns e espontâneas, como as de Angelina.
– Quem me contou esta história foi a makara – começou por dizer, gesticulando com amplos círculos das mãos. – Era uma vez uma rapariga que se devia casar…
O avô apoiou os cotovelos sobre as pernas e suportou a cabeça no encaixe das mãos. Já não parecia cansado, os seus olhos brilhavam novamente.
– Na noite anterior ao casamento experimentou o seu vestido de noiva, saiu de casa e foi para o lago para ver a sua imagem refletida na água.
Achou-se bela, muito bela. Para melhor se admirar aproximou-se o mais que pôde da água. Gostou tanto do seu rosto que tentou tocar o seu reflexo. Foi então que viu… – retomou o fôlego – o corpo inchado de um sapo morto!
– E que aconteceu a seguir? – interrompi-a.
– Tenho a certeza de que a pobre rapariga não viveu muito tempo – arriscou o avô.
– Como é que tu sabes? – perguntou-lhe Angelina.
– Tocar na mesma água em que um sapo está morto dá azar. Tenham cuidado, meninas.
Angelina voltou a sentar-se, mas estava contrariada por o avô já conhecer o final da sua história.
– Teresa, é a tua vez.
Por momentos permaneci imóvel, com as costas curvadas e a olhar para o chão, a seguir levantei-me titubeante. Falar diante deles causava-me embaraço, sentia uma ligeira pulsação que me puxava de lado a bochecha.
Para o resto da minha vida, seria para mim aquele o sinal que antecedia o mal-estar, o modo em que o meu corpo exprimia a sua inadequação.
– Mas sem gaguejar – instou Angelina.
– Chiu! – mandou-a calar o avô. – Ela primeiro tem de encontrar as palavras dentro da cabeça, e depois deitá-las cá para fora.
Mas não o consegui fazer. Não me veio à mente nenhuma história.
2 Noite dos sepulcros: tradição popular da Itália meridional, relacionada com a liturgia católica da Semana Santa, na qual, durante a tarde e noite da quinta-feira que precede a Sexta-Feira Santa, os crentes se deslocam às igrejas para visitar o «altar da reposição», ou seja, um altar ornado com composições florais ou outros símbolos, onde o tabernáculo com as hóstias a usar no dia seguinte é colocado. (N. do T.)
3
Quando o avô Armando morreu, eu tinha dez anos. Estávamos em 1941.
Fazia calor. Um ar pesado insuportável desfocava o azul do céu até fazê-lo fundir, absorvia os gritos das crianças que brincavam pelas vielas aos soldados com ramos secos apanhados nos campos. O cantar dos grilos, o tagarelar das mulheres sentadas ao abrigo dos muros de cal para roubar um pouco de sombra. O zumbido incessante das moscas. Cada som atravessava-me de um lado ao outro como se eu me tivesse tornado uma boneca feita de papel de seda. Ainda hoje, quando repenso nesse dia, sinto pulsar uma ferida infetada, a acidez queima-me a garganta.
Percorríamos a estrada ensolarada com a minha mãe. Angelina ia de mão dada com ela e chorava fazendo birra por uma coisa qualquer.
Um rapazito surgiu à nossa frente com a sua espingarda feita de galhos apontada a nós.
– Bum bum – gritou –, estão mortas.
Angelina agarrou-se à saia da mamã. O choro tornou-se inconsolável.
Fiquei parada a olhar para aquele soldado improvisado de calções curtos.
Tinha um rosto bonito, os lábios carnudos, os olhos como duas avelãs.
Uma sobrancelha cortada e cabelos eriçados.
– Deixa-nos passar, rapaz – murmurou a mamã. – Hoje perdemos o nosso avô e estamos muito tristes.
Estremeci, porque a ideia da perda ganhava consistência, tornava-se substância viscosa e peganhenta que fazia retorcer as entranhas. Se a mamã lhe dava voz, eu podia senti-la e tocar-lhe.
– Vocês não mandam em mim – ripostou secamente, e o braço ficou ainda mais esticado. O raminho podia golpear, ferir, fazer sangue.
Angelina enxugou as lágrimas e aproximou-se.
– Que é que tu queres de nós? – perguntou com ar insolente.
– Eu sou um soldado e estou a defender esta estrada.
Angelina vestia um vestido curto às flores, calçava socas que anteriormente tinham pertencido a mim, ainda demasiado grandes para os seus pés.
– Vais imediatamente deixar-nos passar – ordenou-lhe, pondo as mãos na anca.
– E quem é que diz isso? – O menino com os olhos de avelã tornou-se autoritário.
– Sou eu que digo.
– Ah sim, e tu quem és?
– Eu sou a neta do Mussolini – gabou-se Angelina levantando o queixo.
A mamã agarrou-a por um braço e pôs-lhe uma mão na boca. O rapazito fixou-nos nos olhos. Li o medo nos seus. Fugiu. Perdeu a espingarda de pau, tropeçou no empedrado da rua, quase caiu.
– Mas que disparates andas tu a dizer? – perguntou-lhe a mamã com apreensão; porém, Angelina sorriu-lhe. Tinha vencido.
Retomámos o caminho em direção à casa do avô. Quanto mais avançávamos, mais a cabeça me doía. Um zunir de cem abelhas acelerava- me a respiração e retardava-me o passo. Junto à praça, um grupo de garotos jogava ao berlinde. «Duce, Duce, dá-nos a luz»3, cantarolavam. A mamã pegou-nos nas mãos. Parecia que naquele momento inclusivamente as crianças lhe causavam medo.
Quando chegámos já o papá lá estava e um círculo de comadres rodeava o caixão como uma coroa de corvos. A avó Assunta encontrava-se prostrada sobre a cadeira, com os braços que pendiam ao lado do corpo e a cabeça que balançava para a direita e para a esquerda. Pronunciava palavras em voz baixa, uma longa litania indecifrável. O avô estava vestido com o fato domingueiro. Tinham-lhe posto as mãos em posição de oração e fechado a maxila com um lenço atado atrás do pescoço.
*
Quando eu e Angelina éramos pequenas, o avô Armando contava-nos amiúde sobre a guerra que ele tinha combatido, mas fazia-o omitindo as coisas piores. Falava-nos da péssima comida, da água contaminada que os soldados bebiam, da disenteria que os apanhava desprevenidos, forçando- os a expor vezes infinitas o seu rabo a moscas e pulgas como um troféu
macabro. Eu e Angelina ríamos imaginando uma longa fila de luas redondas que alvejavam na noite.
Agora que também nós vivíamos em guerra, não conseguia dizer exatamente o que ela representava para mim. De início era apenas uma presença quase inócua. Chegava aos nossos ouvidos aos soluços. Contudo, quando ela entrou sorrateiramente nas nossas vidas ganhei o hábito de contar os dias. Depois, comecei a contar tudo. Contava os degraus que desciam para a cave. Os passos que eram necessários dar desde a praça até à Rua Fratelli Bandiera, onde vivia uma velha louca que ruminava continuamente e atirava pedaços de salada aos passantes. Contava as estrelas e as formigas que, em colunas, recolhiam os restos de comida no pátio da nossa casa.
Sentia-me bem no interior dessa ordem mensurável. Inclusivamente, contei os minutos que a minha avó Assunta me obrigou a olhar para o corpo emagrecido do avô. A pele tinha amarelecido, o seu cheiro tornara- se acre, como o de algo estragado, podre, já em fase de decomposição. O rosto afuselado pareceu-me mais semelhante ao do papá. Nesses dias de luto este havia perdido a beleza que lhe tornava a pele lisa e os olhos brilhantes. O olhar aviltado e desgostoso assemelhava-se muito ao do avô Armando. Como se, envelhecendo, ambos tivessem preservado apenas o essencial das suas feições.
Nos seus últimos meses de vida, o avô tinha perdido partes da sua história. Já não recordava as coisas, trocava com frequência os nossos nomes, abanando a cabeça e fixando o olhar no chão, como uma criança apanhada em falta. Em certos momentos, via-o absorto na atividade intensa e silenciosa de recolher as migalhas da toalha, a enroscar os dedos de forma a agarrar firmemente com o punho cerrado o que quer que segurasse nas mãos. Era como se procurasse fixar a atenção sobre algo, de impedir que os pormenores, grandes ou pequenos, lhe escapassem. Tal como eu, também ele necessitava de dar um contorno às coisas, de conhecer o seu exato desenvolvimento. Passara as suas últimas semanas no quarto de dormir, que cheirava a charutos, a desinfetante e a mijo.
Aqueles, porém, eram tempos em que a morte estava em todo o lado.
O mundo dos adultos encontrava-se de tal modo imbuído dela que, no fundo, um velho a mais que se ia não mortificava particularmente os restantes habitantes da aldeia. Todos possuíam parentes ou amigos na
frente de guerra que lutavam todos os dias contra a morte. Todos sabiam que por vezes vencia-se, outras, perdia-se. Os únicos que se sentiam imunes éramos nós, crianças. Os meninos que brincavam com as espingardas de pau e as meninas que os observavam. «As crianças não vão à guerra. As crianças não morrem», dizia-nos sempre a avó. Deste modo, a infância protegia-nos como um amuleto.
*
Pouco tempo depois da morte do avô, também o papá partiu para a guerra. Comecei deste modo a contar os dias da sua ausência. A mamã tornou-se taciturna e a avó Assunta, inquieta, mas nenhuma delas comentava o facto de os homens serem enviados para a frente.
Exorcizava-se a morte com o silêncio. A Ti Nenenna e as outras comadres do bairro sentavam-se à porta de casa a fazer malha, a confecionar roupa quente para enviar aos soldados. De tempos a tempos, a mamã ia buscar a foto do seu casamento e fazia-a passar entre as comadres.
– Vejam como é belo – dizia –, como é belo o meu Nardino.
Todas as manhãs, assim que acordava, contava, depois agarrava na foto e fantasiava sobre o dia do casamento deles. Compunha os diferentes pedaços, reunia as histórias da mamã e, se fechava os olhos, parecia-me estar lá com eles.
Comecei a viver com esta alma falsa, que me defendia do que acontecia ao meu redor. Enquanto a mamã e a avó cosiam e remendavam à porta de casa, eu enroscava-me na cama, segurando nas mãos a boneca feita com o lenço enrolado. Eu e Angelina chamávamos-lhe Ninetta, porque se assemelhava a uma neta da Ti Nenenna que tinha morrido dois anos antes e ficara pequenina como quando nascera até ao dia em que abandonara este mundo.
– Olha, Ninetta – dizia-lhe, mostrando-lhe a foto da mamã e do papá casados. – Eles são o Nardo e a Caterina.
E Ninetta anuía, fazendo voar para a frente e para trás os cabelos feitos de fios de lã amarela. Então, a tristeza passava. Anulava-a piscando os olhos e segurando nas mãos a boneca de trapos. Os rostos sorridentes da mamã e do papá ganhavam vida e dançavam em meu redor como espíritos.
A felicidade chegava de longe. Sentia o frémito na minha pele.
3 Cfr.: Duce, Duce, portaci la luce. No original, a expressão é rimada. (N. do T.)
4
Uma manhã, apresentaram-se os enviados da Pátria em Guerra para levar consigo todos os objetos que pudessem servir à nação, tanto os objetos de valor como os de pouca monta que eventualmente pudessem ser fundidos e transformados em projéteis. Quebravam e furavam panelas, jarros e pratos, de modo a deixar claro a todos nós que aqueles objetos não podiam ter outro uso senão o de ajudar os soldados na frente de batalha.
O marido da parteira correu de casa em casa a avisar toda a gente que os agentes do fascismo estavam a passar a pente fino as casas. A mamã tinha reunido diversos jarros velhos com o bico partido e uma grande tina que servia para lavar os lençóis com cinza, dentro da qual eu e Angelina acabávamos depois por entrar para que a mamã nos esfregasse bem na água dos lençóis com a barrela.
– Agora não sei onde lavar-me – limitara-se a dizer.
Angelina foi buscar a boneca de trapos debaixo da cama e escondeu-a no contador da cozinha. Tinha medo que os fascistas também a furassem com os seus pregos afiados.
A avó estava igualmente bastante agitada. Levantava-se da mesa para ir até ao lava-loiça e de imediato voltava a sentar-se, levando a mão da boca à testa e novamente para a boca. Desde que o avô morrera chorava constantemente, por ele, pelo papá na guerra e por só Deus sabe quais outras desgraças. Tinha os olhos vermelhos e os lábios que tremiam.
Depois, de repente, retomava as forças, detinha-se no centro da sala com o pé direito para a frente a bater o tempo da sua indignação e imprecava contra este mundo e o outro. «Que me leve a mim», ouvia-se-lhe dizer.
«Que a senhora com a foice me leve a mim», e erguia o punho no ar em desafio.
Quando os enviados da Pátria entraram, estávamos todos em pé e imóveis em frente da mesa da cozinha, como um grupo de condenados
defronte do pelotão de execução. Reconheci entre eles o capo-fabbricato4 do prédio moderno que se erguia no final da nossa rua. Era lá que nós nos refugiávamos quando a sirene tocava. Ele posicionava-se defronte do portão de entrada e deixava-nos entrar um à vez. Era um homem amável.
Quando eu e Angelina passávamos ao lado dele, cumprimentava-nos com uma festa na cabeça. Tinha um olho estrábico e uma perna que, por qualquer razão, não crescera como a outra. Por isto não tinha ido para a guerra. Vê-lo naquela ocasião tranquilizou-me. Pensei que nada de mau nos poderia acontecer, porque o capo-fabbricato era um bom homem.
O primeiro golpe de marreta na tina onde tomávamos banho fez-nos dar um pulo. Angelina escondeu a cabeça entre as pernas da mamã e começou a soluçar. Eu cerrei os punhos e pressenti na cara a mesma tensão de quando não estava à vontade. Senti a bochecha contrair-se num esgar e depois distender-se, mas nenhuma lágrima brotou dos meus olhos. O meu corpo tinha aprendido a adotar as suas boias de salvamento. Cada uma de nós possuía uma, ainda que inconscientemente.
Se fosse o avô, teria praguejado contra o porco demónio, tal como tinha feito anos antes – ou assim nos contava sempre a avó –, quando o fascismo tinha lançado uma campanha de recolha das alianças de casamento em troca por anéis de ferro de nenhum valor. O avô Armando havia escondido as alianças dentro do montículo onde esvaziava o penico com os excrementos. «Podem procurar as alianças do meu casamento na merda», dizia.
Assim que os enviados da Pátria terminaram com os jarros, a tina e as panelas, perguntaram à mãe se podiam inspecionar o resto da casa. O capo-fabbricato não estava com uma cara contente e perscrutou na mãe sinais de reprovação. Ela não se manifestou. Limitou-se a acolher nas suas mãos o rosto da minha irmã. Também a avó Assunta, dessa vez, evitou imprecar, ainda que não tivesse conseguido evitar chorar.
– Coragem, comadre Assunta – confortou-a o capo-fabbricato –, no fundo estamos em guerra. São só objetos. No fim de contas não têm assim tanto valor, e ajudam os soldados, a causa da nação, a vencer a guerra.
Faça-o também pelo seu filho.
Foi então que as lágrimas da avó se transformaram em soluços profundos. Chorava intermitentemente, porque, cada vez que se lhes esgotavam as lágrimas, ia procurá-las mais em profundidade e tirava tudo
cá para fora como uma espécie de redemoinho que lhe abria uma voragem precisamente no interior do peito.
O capo-fabbricato, envergonhado, ajeitou os cabelos, em seguida saiu para fumar um cigarro, enquanto os enviados da Pátria procuravam nas gavetas e no contador.
Nenhuma de nós se moveu até quando se ouviu a voz do capo- fabbricato que cochichava com alguém. O seu discurso era todo ele um suceder de «sim, senhor», «peço que me desculpe», «com certeza», «por obséquio».
Minutos depois, o homem que conversava com o capo-fabbricato apareceu à porta. A primeira coisa que vi dele foi a ponta dos sapatos.
Mocassins de pele de cabrito engraxados. Não percebia nada sobre sapatos, mas sabia que aqueles eram de pele de cabrito porque, sempre que o papá via na aldeia os grandes senhores, cuspia no chão onde eles tinham passado e proferia uma frase deste género: «Arre! Se pudesse cuspia sobre o cabrito dos seus sapatos!»
Logo a seguir, reconheci a figura elegante do barão Personè. Cheirava a graxa recentemente espalhada sobre os mocassins de grande senhor e vestia um fato escuro que destacava a sua tez clara, delicada. Tinha os cabelos empomadados e penteados para trás, descobrindo uma grande testa. Podia ter a mesma idade do meu pai. Impressionaram-me os olhos, de um belo castanho líquido, estriados de faíscas vibrantes. As sobrancelhas eram encimadas por duas rugas profundas que aparentavam ter sido entalhadas por uma faca. Parecia-me que possuía o mesmo olhar torvo que tinha visto certas vezes impresso no rosto do papá.
Tirou o chapéu e apoiou-o nas costas da cadeira. Os enviados da Pátria detiveram-se de imediato. Fecharam as gavetas que tinham aberto e recolocaram as panelas dentro do contador.
Eu sabia tudo acerca dele, memorizara todos os pormenores da sua vida por ouvi-los nas histórias que contavam o nosso pai e os avós. O seu nome corria pelas praças e becos da aldeia como uma rajada de vento. Sabia que morava para lá de um bosque de azinheiras onde, quando éramos pequenas, eu e Angelina íamos em busca de bruxas e de duendes. Na minha aldeia, havia casas que os adultos envolviam com uma aura de mistério. Uma dessas era a herdade do barão Personè. As outras eram a casa onde vivia a makara e a Torre del Cardo. Para chegar até elas, era
necessário atravessar colinas de oleastros e figueiras-da-índia, ovelhas e pastores, terra vermelha fendida pela seca, antes de nos perdermos novamente entre pedras e arbustos de aloendros.
A avó odiava o barão, como a seu tempo o havia odiado o avô, e como o odiava o meu pai. Não entendia o que tinha ele de tão horrível. Não me metia medo como o marido da parteira, não lia as borras do café como a makara, não andava por aí, como certos homens e mulheres da aldeia, a contar histórias terríveis sobre salteadores e bruxas. Velhas enrugadas e animais fantásticos que viviam nos bosques e depois ganhavam vida no sono das crianças: os lobisomens, espectros que vagueavam pelos quartos envolvidos na escuridão, os cães com cabeça de leão e os ratos gigantes que nos vinham roer os pés durante o sono. O barão Personè parecia vir de outra dimensão, de um mundo paralelo ao nosso que jamais poderia cruzar-se com os nossos destinos. O nosso mundo era habitado pela fealdade, o seu pela beleza. Estava sempre bem vestido e cheirava a fragrâncias desconhecidas, que provavelmente provinham de países longínquos. Contudo, quando se falava dele, a avó dizia: «Ane, bellu bellu», que era a frase em que se convidava à prudência, a desviar-se dos perigos. O barão era o perigo do qual se devia estar atento, de olhos abertos. A mim, naquela ocasião, pareceu-me simplesmente um homem belo, dotado de movimentos lânguidos, uma boca carnosa de mulher e sobrancelhas arqueadas e finas.
– Bom dia – anunciou com um amplo sorriso.
Na sua boca vi reluzir um dente todo em ouro. Nunca tinha visto nenhum na minha vida. A avó perscrutou de esguelha a mamã, e Angelina, que durante aquela confusão não tinha apartado o rosto das pernas da mamã, finalmente voltou-se:
– Eu conheço-o. Ele é o barão – comentou ela, satisfeita.
Contudo, a visão de Personè só a alegrou a ela.
– Estes senhores já terminaram a sua tarefa – sentenciou pacatamente.
O capo-fabbricato dirigiu-se para a porta e os outros deram meia-volta e abandonaram a nossa casa depois de o terem saudado com uma vénia.
– Oferece alguma coisa ao barão – disse a avó, e a mamã correu de imediato ao balcão da cozinha para ir buscar os copos bons, aqueles com a borda dourada, a fim de oferecer um licor de louro que a avó preparava com as suas próprias mãos.
– Não se incomodem, estava só de passagem e decidi vir dar uma ajuda – replicou o barão, retirando o chapéu das costas da cadeira. – Não deve ser fácil para quatro mulheres sozinhas. – Olhou para baixo para cruzar os seus olhos com os meus e os de Angelina.
A mamã virou-se com o copo na mão. Estava pálida e emagrecida. Os cabelos sujos. Não cuidava muito de si desde que o papá tinha partido para a guerra. Ajeitou algumas mechas de cabelo por detrás das orelhas e olhou para si mesma do peito aos pés. Não gostava da figura que o seu corpo desenhava, porque o seu rosto evidenciou desconforto. Detive-me também eu a perscrutar o peito adornado por um espaço pálido entre os seios, a boca desbotada, os pés enfiados nos tamancos usados. Talvez aquela fosse a defesa que a mamã havia adotado para se proteger da guerra: ofuscar a beleza para que essa passasse despercebida. Para atravessar as vielas como uma presença não observada, um espírito inconsistente, como as fadas da casa que, mesmo que muito belas, permaneciam invisíveis.
O barão despediu-se com um ligeiro aceno da cabeça e saiu, sem acrescentar mais nada. Da sua presença ficou um rastro de perfume delicado que pairou pela sala durante muito tempo. Angelina pôs-se a rodopiar pela cozinha, entre a poeira de luz que crepitava entre o contador e a mesa, seguindo aquele rastro perfumado, como se o cheiro tivesse uma qualquer consistência palpável. Levantava no ar a boneca de trapos, de modo que também o corpo mole da boneca ficasse entranhado pelo aroma exótico do barão.
Ela já se tinha esquecido dos enviados da Pátria. Dos seus martelos e dos pregos. Os seus olhos cinzento-azulados tinham voltado a resplandecer, sem nenhum sinal do choro de pouco antes. Angelina era atraída pela beleza. Já à época a procurava. Era a beleza que a fazia esquecer o daguerreótipo a preto e branco que retratava a nossa vida, era essa que lhe dava cor.
Foi a avó quem nos fez regressar à terra.
– Arre! – exclamou, cuspindo para o chão. – Será melhor lavar o chão.
Onde quer que o barão Personè pisa, o terreno fica infecto, pútrido.
Em seguida, pôs-se de novo a andar pela sala e a imprecar contra a guerra, os patrões e até mesmo contra os santos.
4 Durante a Segunda Guerra Mundial, o Estado italiano criou a UNPA (Unione Nazionale Protezione Antiaerea), uma organização de proteção civil específica, a qual, entre várias medidas, instituiu nas cidades a nomeação em cada prédio habitacional de um capo-fabbricato ou
«responsável pela segurança»: normalmente um dos inquilinos do próprio prédio, com funções acrescidas de zelar pela ordem e segurança geral, nomeadamente, mas não só, de encaminhar os restantes inquilinos para os abrigos antiaéreos (normalmente situados na cave do próprio prédio) sempre que a sirene de alarme soava. (N. do T.)
5
Caminhávamos pelas ruas de Cupertino e a mamã relatava-nos as façanhas incríveis que o papá realizava na guerra: os costumes bárbaros dos inimigos, a fertilidade das terras de África que ele tinha ido conquistar, os novos lugares que iria ver e que, no regresso, nos descreveria. Como sempre, quando os olhos lhe começavam a marejar deixava cair algumas lágrimas durante alguns minutos. Logo a seguir, mais confortada, procurava concentrar-se sobre argumentos frívolos e fingia-se indiferente.
– E também voa? Andará nos aviões que nos passam sobre a cabeça? – perguntou Angelina.
A mamã fechou os olhos e suspirou. Parou para compor o vestido, embora não estivesse amarrotado. Ajeitou os cabelos e, em seguida, fixou- nos às duas nos olhos. Primeiro a mim, porque era a mais velha, depois a Angelina. Perceberia mais tarde, no decurso da vida, que ela recorria à fantasia quando a realidade era demasiado dura para relatar, quando a escuridão envolvia como um manto negro as paredes de casa, a esperança nos dias futuros, cada nova alvorada. Era assim que faziam todas as mulheres da aldeia. Os segredos e as pequenas mentiras das mulheres passavam de um ouvido ao outro, palrando e deformando-se. Era desta forma que salvavam os nossos sonhos de crianças.
– Angeli’, sabes o que faz o vento quando estamos dentro de um avião?
– começou a contar, como se conhecesse mesmo os aviões. – O vento bate-nos na cara cerradamente, como as gotículas de água perto de um riacho. A terra parece uma colcha colorida e os campos de Cupertino lenços de fantasia. As casas, pontinhos minúsculos…
Falava e gesticulava rápido e de modo intenso. Em seguida, aos suspiros e às palavras, juntou novamente as lágrimas. Um choro abafado. Aquelas palavras quentes, familiares, formavam um universo simples,
reconhecível, habitável para nós, crianças, criado propositadamente para nós.
Depois, como se nada fosse, começou a enumerar aquilo que via nas bancas do mercado:
– Isto é a salada, estas são as hortaliças, este é o pão.
Uma respiração novamente profunda e tranquila fazia-lhe vibrar o peito.
A realidade regressava e era brutal somente para ela.
Contou as moedas no bolso cosido dentro da saia.
– Uma lira, duas liras, três liras – enumerava devagarinho.
Se Angelina a interrompia, zangava-se. Mexia no cabelo, rebentava.
Compunha o vestido e recomeçava a contar.
Eu sabia contar bem – essa era talvez a minha qualidade –, então, eu tocava-lhe na mão, obrigava-a a cerrar o punho com as moedas dentro.
Depois fazia-a abrir a palma da mão e contava juntamente com ela. A mamã fitava-me com olhos sonhadores. Queria ainda acreditar que a realidade e o sonho pudessem verdadeiramente misturar-se, como nos seus relatos, trocar de vez como numa mão de cartas.
– Uma lira, duas liras, três liras – contava juntamente com ela.
– Uma lira, duas liras, três liras…
Meu Deus, como era bela. Enquanto fixava as moedas, tinha um ar contemplativo, concentrado num cálculo que lhe afastava para um lugar distante o olhar. As pupilas eram escuras. Um ou outro fio prateado embranqueciam-lhe os cabelos.
Comprou sardinhas a uma mulher corpulenta e azeda, com um nariz portentoso. Os olhos, muito belos, de um azul-celeste, brilhavam como dois rebentos no meio da terra árida.
Olhou de esguelha para a mamã, mas ela não fez caso disso. A peixeira usava um vestido castanho-acinzentado e uma camisa branca cujas mangas sujas de sangue haviam adquirido uma estranha coloração alaranjada. Pegou nas sardinhas e pôs-se a esquadrinhar a mamã de braços cruzados, com um ar quase de desafio. Depois, demorou-se com o olhar sobre o decote, do qual sobressaíam dois abundantes seios. Deslocou o peso do seu corpo gordo de uma perna para a outra, antes de retirar o peixe da balança e de o depositar nas mãos da nossa mãe.
Voltámos com passo apressado para casa, cumprimentando com rápidos acenos as mulheres que se cruzavam connosco na rua. A comadre Nunzia
recolhia a roupa lavada, estreitando entre os braços lençóis, guardanapos, aventais, lenços e cuecas de todos os tamanhos enquanto um volumoso maço de chaves lhe tilintava de lado, na cintura. A Cimmiruta, que passava os dias numa cadeira empalhada à frente de sua casa, de verão e inverno, desafiando as intempéries e o vento mistral, mastigava tremoços ou grão seco e sentava-se com a cadeira virada ao contrário, pondo os braços sobre as costas desta, como se estivesse na primeira fila do espetáculo da rua que se desenrolava diante dela.
À noite, comemos à mesa as sardinhas. Não gostava delas, cheiravam a erva podre, mas fingi que gostava, por amor a ela.
Estava taciturna e parecia triste. Angelina não parava de falar. Revolvia a comida no prato porque também não gostava de sardinhas.
– Estás bem, mamã? – perguntei-lhe.
Nesse momento, chegou a avó Assunta. Trazia uma carta do papá da frente. Tinham-na entregado enquanto estávamos no mercado.
– Lê, lê – pedia à nossa mãe, contando que a carta tinha sido trazida por um novo carteiro, com uma barbicha à moda de D’Annunzio5.
A mamã, porém, não a ouvia, concentrada na ideia de que não sabia ler.
Os olhos brilhavam-lhe como duas pequenas escamas de peixe.
– És a mais crescida, Tere’ – disse-me –, podes ser tu a ler.
A avó Assunta fixou-me como se me quisesse auscultar a alma. «Não gaguejes, Tere’, lê bem», advertiam-me os seus olhos pequenos e claros.
Agarrei com força a carta nas mãos e levei-a para perto da janela. O sol desaparecia dos telhados das casas com um raio em forma de cruz por detrás da torre do relógio. A igreja ficou por alguns instantes de uma bela cor alaranjada, na última luz do poente.
– Lê bem, Tere’. Devagarinho.
Aquela palavra penetrava na minha cabeça como a lâmina de uma faca.
Devagarinho. E respirava. Devagarinho. E a voz estrangulava-se-me na garganta. Eu queria que tudo fluísse de modo veloz. Que as palavras não tropeçassem nos meus dentes, como se não encontrassem o fôlego para saírem. Gostaria de me tornar invisível. Era isso que queria. Queria ir ter com a makara para lhe pedir que me pusesse esse feitiço.
A mamã enervou-se e estreitou-me a carta nas mãos. Angelina irritou-se e cruzou os braços no peito:
– Ela não consegue, tem medo. Sabe que não é boa a falar – sentenciou.
A voz saiu-me num tom perverso. Ela tinha a língua solta e eu não. Era bonita e eu não. Estendi a mão, impulsionada por uma força melancólica e por uma raiva que naquele momento me fazia odiar a minha irmã.
A carta principiava deste modo: «Minha cara mulher, eu estou bem.
Espero que tu também», e terminava assim: «Dá um beijo às meninas.
Regresso em breve. Marido e pai devoto.»
A voz titubeou um pouco, mas depois ficou segura e forte, como se uma força externa a prendesse a cada letra. A avó Assunta saiu com o lenço bordado sobre os olhos e a mamã arrumou tudo à pressa. Estava desejosa de se retirar para o quarto e refletir sobre as palavras do nosso papá com a carta nas suas mãos.
*
Eu não conseguia dormir. Observava Angelina que respirava de modo calmo e regular. Estendida sobre a minha cama, mas, como sempre, deitada em posição invertida. Os seus pés magros chegavam-me até ao rosto. Sobre a almofada, uma cabeleira de caracóis negros caía até ao chão.
Levantei-me lentamente para ir até ao quarto da nossa mãe. Não tive coragem para entrar. Espiei-a por uma fresta no umbral da porta. A mamã estava sentada numa cadeira encostada à mesa de cabeceira. Quatro velas dispostas nos cantos da cama criavam halos indefinidos, projetavam sobre os muros gigantes filiformes e assustadores.
Estava nua, imóvel como uma estátua de cera. O efeito do seu corpo atingiu-me com a potência de uma bofetada. Era ainda bela, mas o tempo, mago trapaceiro, havia dado início ao seu injusto desgaste. As mãos, estendidas ao lado das ancas, eram rugosas e cheias de bolhas. Os seus seios tinham-se transformado no peito acolhedor de uma matrona gorda.
Ouvi-a respirar profundamente umas dez vezes, sustendo o ar nos pulmões para em seguida expirá-lo muito lentamente. Quando se levantou vi-lhe as coxas ainda bem delineadas, o ventre levemente amolecido, o sexo escuro.
Voltou-se para o espelho e observou-se. As nádegas brancas destacavam- se na meia-luz do quarto como duas luas claras. Os dedos fechavam-se em forma de caracol, como que a agarrar algo. Olhava para baixo e observava o punho como se faz quando tentamos apanhar uma mosca com as mãos.
Seguramo-la com o punho bem cerrado e depois abrimos lentamente a
mão, regozijando-nos por a ter capturado. A mamã, porém, observava as mãos enrugadas com a desilusão estampada no rosto.
Sentia-me tão culpada, e ao mesmo tempo tão inocente que, se pudesse, tê-la-ia abraçado com força. Teríamos ficado assim, mãe e filha, a embalarmo-nos, como dois amantes debaixo de um céu de bombas.
Regressei para a cama com um nó na garganta e observei Angelina. Lá fora, o vento uivava com força. A avó Assunta dizia sempre que em noites destas o vento imitava o demónio e que seria melhor que todos evitassem sair. Concentrei-me naquele rumor, sentindo-me em segurança no interior da casa aquecida. Angelina dormia tranquila. As narinas abriam-se e fechavam-se devagar. Nutria um sentimento estranho pela minha irmã. Por vezes era amor, outras, ódio. Eu crescia e ao mesmo tempo crescia comigo também aquela espécie de ódio, semelhante a um substrato de alcatrão, sedimentado precisamente no fundo do meu coração. Tal como o amor, tinha mil razões e nenhuma para existir, e quando procurava uma explicação conseguia somente dizer a mim mesma: «Porque era ela, porque era eu.»
– Angelina, acorda!
De repente, tinha vontade de falar com ela, sentia a urgência de uma confidência íntima que só com a minha irmã poderia partilhar.
– Angelina.
– Que queres? É de noite. Não dormes? – respondeu-me com a boca empastada do sono.
– Alguma vez pensas no papá? – questionei-a, ainda que não existisse um verdadeiro motivo para acordá-la de noite e fazer-lhe perguntas sobre aquelas coisas; ou melhor, um motivo havia, mas escondia-o até de mim mesma. – Pensas no papá que está na guerra?
O barão Personè tinha entrado na nossa casa. Supostamente devia tê-lo odiado, devia ter-me causado asco. Deveria talvez ter coberto de escarros as pegadas negras deixadas pelos seus mocassins de pele de cabrito.
Contudo, ao invés, apenas conseguia sentir por ele o exato oposto. Nessa noite, não conseguia parar de pensar nos fatos desusados do papá, nas calças que bamboleavam em redor das meias, nos erros gramaticais das suas cartas, nas suas mãos calejadas.
Angelina esfregou os olhos e bocejou demoradamente antes de me responder.
– Sim, penso – disse finalmente, mas não me era suficiente como resposta.
– E da cara dele, recordas-te bem dela? Mesmo bem?
Fez sinal que sim, mas a sua afirmação foi logo depois desmentida pela cabeça que girou primeiro para a direita e de seguida para a esquerda.
Fez estalar a língua no palato antes de dizer que não, algo que fazia sempre, uma coisa de maria-rapaz.
– Na outra noite tive um sonho – retomei eu. – Vi-o no meio de outros soldados, vestido com uma farda enlameada e cheia de buracos.
– E que estava ele a fazer no sonho?
– Estava a escavar uma cova, e atirava para dentro dela, uma a seguir à outra, as espingardas dos seus companheiros.
– E a seguir?
Angelina tinha agora os olhos arregalados. Tinha ficado curiosa com o sonho, e também com o discurso sobre o papá.
– A seguir também ele se lançava lá para dentro. Ao longe chegavam os tanques dos russos.
– Como sabias que os tanques eram russos?
– Lembras-te do filme que fomos ver ao cinema?
Em duas ocasiões tínhamos ido ver ao oratório os filmes Luce6 que o regime difundia para demonstrar a bravura dos nossos soldados. Desde a última vez, porém, a mamã tinha-se recusado a lá voltar. As cenas de batalha deixavam-na inquieta e faziam-lhe pressagiar o pior para o nosso pai.
Angelina fez estalar de novo a língua.
– Os tanques russos tinham uma estrela vermelha. Os do meu sonho também a tinham.
– E, na tua opinião, o que quererá isso dizer? Os russos são maus?
– Não sei, Angeli’. Só sei que eu também não me recordo bem da cara do papá, ainda que no sonho a conseguisse ver nitidamente.
Calei-me porque o som do vento se tinha tornado muito forte.
Penetrava através dos espaços vazios das janelas, insinuava-se por baixo das portas, e causava-me arrepios.
– Tere’ – disse-me a certa altura Angelina –, mas tu tens medo que o papá morra?
– Porque é que me fazes essas perguntas? Sabes bem que as crianças não devem falar da morte.
– Mas os grandes morrem. Até o avô morreu. E foste tu a dizer que viste o papá a escavar uma cova. Pode ser a mesma cova que escavam no cemitério para aqueles que já não se encontram entre nós.
– Não devemos pensar nessas coisas. Isso são pensamentos reservados aos adultos.
Naquele momento, foi o amor que predominou sobre tudo o resto. Senti que tinha sido injusta e má por tê-la acordado e assustado com as minhas inquietudes.
– Escuta-me com atenção, Angeli’, pensa no secretè da mamã.
– E que tem ele que ver?
O secretè era o móvel secreto do quarto de dormir dos meus pais. Nós crianças estávamos absolutamente proibidas de o abrir e espiar o seu conteúdo. A mamã estava sempre a dizer-nos que abri-lo era pior do que partir um espelho e muito pior do que beber ou tocar com as mãos na água de um charco no qual estava depositado o corpo inchado e pútrido de um sapo morto.
– Uma vez abri-o e olhei lá para dentro – confessei a Angelina.
Ela levou as mãos à boca e arregalou os olhos.
– No seu interior não encontrei nada de mau, Angeli’, só cartas com a assinatura do papá e uma caixinha com alguns colares.
– E depois disso não te aconteceram coisas más?
Sacudi a cabeça.
– Nada. Estás a ver? Pensamos que uma coisa é má e, ao invés, não é.
Talvez estejamos convencidos de que a guerra é má e que onde se combate exista a morte, mas, ao invés, é como o secretè da mamã.
Ficou contente com a minha resposta. Aninhou-se debaixo do lençol e deixou que eu a aconchegasse.
Entretanto, o pensamento do secretè voltou-me à cabeça. O ouro, as cartas assinadas e as fotografias de todos aqueles familiares que já não existiam. Sobretudo os rostos de pessoas que eu nunca conhecera, retratados com a sua roupa boa, de pé sobre o empedrado da viela ou da praça. Uma série de sorrisos forçados e de rostos que acabavam sempre por se transformar em expressões abstratas, surreais. Desses, porém, evitei falar à minha irmã. Procurei afastar da minha cabeça aquelas imagens e
enfiei-me debaixo do lençol, deitando-me de lado e pondo a minha mão entre as pernas.
– Tere’?
– O que foi?
– O barão era bonito, não é verdade?
Fechei os olhos para rever de novo mentalmente a sua figura esbelta e o fato impecável. Recordei-me também dos mocassins de pele de cabrito engraxados.
– Sim, Angeli’, era bonito.
5 Referência ao famoso escritor Gabrielle D’Annunzio (1863 – 1938), cuja obra e excêntrica vida e carreira política marcaram o início do século XX italiano. (N. do T.)
6 Filmes produzidos e distribuídos pelo Instituto Luce, acrónimo de L’Unione Cinematografica Educativa (União Cinematográfica Educativa), uma empresa criada pela ditadura fascista italiana, em 1924, com propósitos de propaganda. (N. do T.)
6
Na manhã seguinte, a mamã vestiu-se de ponto em branco com um vestido de cor clara justo no peito. Passou pelos lábios um fio de azeite e penteou com cuidado os seus cabelos. Penso saber o que a levou nessa manhã a fazer o que fez. O amor. Era o amor, essa armadura de madeira dura, que lhe mantinha firme o pulso enquanto penteava cuidadosamente cada caracol preto do seu cabelo. Enquanto sacudia o tecido do vestido, sabe-se lá quantas vezes usado em ocasiões importantes da sua vida.
Enquanto ajeitava a fita branca nos cabelos de Angelina, enquanto fazia um pequeno golpe na ponta do dedo para colorir com um pouco de vermelho vivo as suas faces pálidas.
Até essa manhã, não fazia ideia de como era a herdade do barão Personè. E, embora já me tivesse cruzado com ele na rua, de ele inclusivamente já ter estado em minha casa, e de a sua vida ser revelada até ao mais ínfimo pormenor nas histórias que os mais grandes contavam, ele efetivamente continuava a ser um desconhecido para mim. Sabia que era viúvo e que tinha dois filhos, um rapaz e uma rapariga. Via ao longe a sua casa branca e rosa, colorida como os papéis dos rebuçados.
Imaginava-a mole e comestível, como a mais saborosa das delícias, e não propriamente igual a uma casa verdadeira. Paredes falsas, pessoas falsas, tudo falso.
A aldeia real estava aprisionada entre dois campos em forma de ferradura e fedia a estrume, a animais exaustos, a camponeses que trabalhavam sem descanso de sol a sol. Em criança, quando imaginava algo de belo, era a herdade dos Personè que me vinha à mente. Fechando os olhos, podia inclusivamente saborear essa casa de bonecas: sabia a algodão-doce.
Caminhávamos devagar pelas ruas de Cupertino. Eu segurava a mão direita da mamã, e Angelina a mão esquerda. As casas encavalitadas umas
nas outras, os telhados à medida, sem beirais, portas e janelas pequenas.
Cal viva deitada por cima da pedra nua. Atravessámos o centro histórico com a cabeça baixa, como se tivéssemos uma vergonha para esconder.
Ultrapassámos o santuário da Grottella, onde José tivera a experiência mística dos muitos êxtases que o haviam tornado santo. A mamã largou- nos as mãos e benzeu-se várias vezes. Eu e Angelina imitámo-la. Ao afastarmo-nos do casario, ficava-se com a impressão de se ter criado uma zona franca entre a natureza e o homem. A estrada que se percorria para deixar para trás o centro da aldeia era uma cesura que se abria por entre oliveiras e alguns vinhedos. Mais além, na linha de horizonte, elevava-se o muro do cemitério novo. Enquanto atravessávamos os campos amarelecidos pelo sol, demorava o olhar sobre as gotas de orvalho que pendiam dos fios de erva e oscilavam como pirilampos, sobre os troncos nodosos das oliveiras, sobre as ondas de luz que fendiam o ténue manto de nuvens e me ofuscavam. Aqui e ali alguns pormenores insípidos, como os grupos de velhos nos cruzamentos que anuíam constantemente por via de um incessante tremor da cabeça, ou os montes de lixo que desfeavam os muros caiados que davam para os campos, ou a visão dos camponeses de costas curvadas sobre a terra a apanhar ramos; tudo isto despertava em mim a suspeita de que a beleza tivesse desertado deste mundo, ou melhor, de que a beleza talvez até tivesse sido o ponto de partida original, mas que o tempo, a velhice, a pobreza ou a maldade tivessem acabado por deturpá- la, um pedaço de cada vez. Razão pela qual a beleza e a fealdade acabassem sempre por viver uma ao lado – ou dentro – da outra, como o depósito no vinho novo.
A mamã caminhou com um falso sorriso durante todo o percurso.
Guardou para si mesma aquilo que pretendia fazer. De tempos a tempos largava as nossas mãos e limpava os olhos com a palma da sua, como para enxugar as lágrimas que não saíam.
Quando a herdade Personè surgiu no horizonte, suspirou profundamente e encostou-se a um pequeno muro caiado. Estava uma manhã quente. O calor sufocante envolvia tudo, parecia um pano de caixão. O campo era silencioso. Eu e Angelina estávamos paradas e de pé. Não nos mexíamos, sustínhamos a respiração. Tínhamos ambas medo. Sob a sombra de um ulmeiro ouvia-se o som de um sapo, o seu coaxar rítmico era como um
soluço musical baixo e doce, uma bola de ar que rebentava num trilo argentino.
– Já vamos. Deixem-me só retomar o fôlego – a mamã sentiu-se na obrigação de dizer, como se o canto do sapo lhe tivesse recordado os seus deveres.
Assim que se restabeleceu, demos-lhe as mãos: sentíamo-nos estrangeiras naquele lugar e precisávamos da sua proteção. Percorremos deste modo a alameda que conduzia até à herdade. Eu e Angelina virávamos os olhos em todas as direções para admirar as árvores plantadas na bordadura do empedrado. As flores das cerejeiras atraíam vespas e abelhas. Podia-se vê-las a ir, vir, voltear, penetrar nos cálices para depois novamente voarem dali para fora. À medida que o grande portão de entrada da propriedade se tornava cada vez mais próximo, a mamã ia aumentando a força com que nos apertava as mãos, assim como a frequência dos seus suspiros. Conseguíamo-los contar. Um a cada passo dado. Um ritmo cadenciado, sem improvisação.
Veio abrir-nos a porta uma mulher seca e engelhada, com um olho estrábico e um tufo de cabelos claros que espreitava da touca apertada.
Esquadrinhou-nos a todas. Primeiro à mamã, depois a mim, por fim a Angelina.
– Que querem daqui? – inquiriu com um tom brusco.
Provavelmente tinha lido nas nossas caras os dias de privação, as noites passadas a comer couve cozida. A roupa remendada, o vestido da mamã, que tinha os mesmos anos que eu. Ou talvez tivesse ido para além disso e, somente ao fixar-nos nos olhos, tinha visto os quartos defumados e malcheirosos da nossa casa, os cortinados gastos, a cara da avó Assunta quando se lhe reviravam as entranhas porque já não restava nada para comer e ela e a mamã jantavam folhas de rabanetes. O reboco que caía aos bocados, as teias de aranha nas paredes, a lenha que faltava, o frio nos ossos, os pés inteiriçados. Aquela velha megera, azeda como a bruxa da aldeia, tinha lido tudo, do nosso presente e do nosso passado.
– Procuro o barão – respondeu a mamã, tentando mascarar o medo.
– E quem devo anunciar?
– Dizei-lhe que sou a esposa de Nardo Sozzu.
A criada disse para nós entrarmos e afastou-se subindo com passinhos leves uma escadaria que terminava com a visão de uma estátua de São
José que imperava do alto de um banco. Na sala exibiam-se objetos de todo o tipo e proveniência: quadros que retratavam cenas de caça, tinteiros finamente cinzelados, quatro pares de almofadas para cada poltrona.
Surpreendeu-me a penumbra da divisão, tantas janelas, mas com as portadas semicerradas. Se a nossa casa tivesse todas aquelas janelas, mantê-las-ia escancaradas, teria inundado a sala de luz.
Subitamente, vimos o barão descer pela escadaria com passo seguro.
Observando-o com atenção, notei que devia ser mais velho do que o meu pai, embora não deixasse de ser um homem muito belo, com os membros longos e os músculos bem desenhados por baixo da roupa. Angelina tinha razão. O barão Personè era mesmo belo.
A mamã levantou-se de rompante e clareou a voz. Conhecia-a como uma mulher forte, mas naquele momento imaginei-a igual à Ninetta, a minha boneca de trapos. Ter-se-ia deixado amarrotar, retorcer, ter-se-ia deixado dobrar e revolver para a esquerda e para a direita.
À época não podia ainda imaginar que ele, a sua casa de algodão-doce, a sua progenitura infecta, mudar-nos-iam toda a existência. Naquele dia ensolarado de julho apenas sabia que a minha mãe, pela primeira vez, enrubesceu quando o viu. Contudo, estava já habituada aos seus olhares lascivos, às reverências pomposas e ostensivas. Estava habituada a ler nos seus olhos a avidez, o desejo, a força; mas ali, no interior da sua fortaleza, ela era totalmente vulnerável.
Observei com admiração as suas mãos lisas e sem marcas de trabalho.
Mãos de senhor. Nunca mais as esqueceria.
Quando já estava próximo, o barão fez uma vénia. A mamã enrubesceu novamente e esboçou um trejeito de agrado que, porém, parecia falso.
– A que devo a honra? – perguntou ele, como se receber uma camponesa em casa fosse motivo de orgulho.
– Barão, preciso de vos falar – e desviou o olhar na nossa direção.
– Cesira! – chamou ele, estalando os dedos. A criada com o olho estrábico precipitou-se. – Leva as meninas a ir ver o jardim.
A mamã olhou para mim. Tinha os olhos da vergonha e os lábios belos, carnudos, dispostos numa prega de resignação, num sorriso forçado.
– Não fiques envergonhada, Tere’. Vês como a tua irmã já está a ir toda contente ver o jardim.
Porque deveria ser sempre eu a sentir vergonha? Parecia que esse sentimento cabia-me exclusivamente a mim. Deste modo, seguimos aquela mulher odiosa por entre os ramos das árvores de um jardim luxuriante. Angelina saltitava contente de um lado para o outro.
– Tere’, anda ver como é lindo. Parece a casa de uma princesa. Quando for grande também quero ter uma casa assim.
A criada carrancuda fixou-a e esboçou um sorriso sardónico e lento. Ao olhar para ela senti um frémito percorrer-me as costas. Fez-me arrepiar e ficar com pele de galinha.
«É quando a morte passa perto de ti», costumava dizer a avó Assunta quando isso me acontecia.
Voltei-me para a direita e para a esquerda, e a seguir olhei para trás de mim.