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Mapa 5 – Caracterização da região hidrográfica amazônica

2 A ÁGUA DOCE NA ORDEM AMBIENTAL INTERNACIONAL

2.1 MEIO AMBIENTE, ÁGUA DOCE E DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO

2.1.1 As fontes do Direito Internacional do Meio Ambiente

Conforme já abordado, o Direito Internacional do Meio Ambiente não é um ramo autônomo, estando diretamente relacionado ao Direito Internacional Público. De forma que suas fontes formais são as tradicionalmente utilizadas neste último, com as devidas particularidades relacionadas a matéria ambiental, no intuito de serem criadas regras jurídicas de amplitude global. Estas fontes tradicionais, de acordo com o art. 38, do Estatuto da Corte Internacional de Justiça (CIJ), são os Tratados, os princípios gerais do Direito Internacional, as decisões judiciárias, a doutrina e o costume internacional.

Sobre as características dos Tratados, Varella (2012, p. 25, grifo nosso) infere que: O Direito Internacional é guiado por milhares de Tratados, com diferentes graus de normatividade, conforme atribuição pelos Estados. Alguns tratados têm caráter mais obrigatório (jus cogens), outros menos (soft norms), mas não há uma norma comum, que direcione a evolução do Direito Internacional como um todo. Neste sentido, o Direito Internacional evolui em geral pela concordância dos Estados. Estes aceitam submeter-se a determinadas regras gerais, com o objetivo de atingir seus interesses comuns em relação aos demais membros da sociedade internacional.

Por certo, os Tratados internacionais se destacam como a principal fonte do Direito Internacional do Meio Ambiente, segundo Silva (2002, p.8, grifo nosso) “[...] têm a virtude de determinar, de maneira nítida, ou quase nítida, os direitos e as obrigações das partes contratantes [...] podem ser genéricos ou específicos; ou, encarados geograficamente: globais, regionais, sub-regionais ou bilaterais”.

Cabe destacar que, costumeiramente, tem se atribuído aos Tratados ambientais o conceito de soft law, ou melhor, soft norm, em contradição ao tradicional parâmetro de direito imponível, isto é, restritivo. De maneira que, estes se caracterizam pela não obrigatoriedade expressa em regras taxativas, mas no livre compromisso dos Estados signatários de cooperarem e cumprirem o acordado, podendo inclusive serem dirigidos a atores não estatais (VARELLA, 2012, p. 75).

Com efeito, na seara do Direito Internacional do Meio Ambiente se destacam duas modalidades de Tratados multilaterais: os umbrella conventions, usualmente identificados

como “tratados guarda-chuva” por sua generalidade, cunho principiológico e conexão a protocolos adicionais para a construção das regras objetivas (SILVA, 2002, p. 9); e os tratados- quadro ou convenções-quadro, caracterizados pela fixação das bases jurídicas do acordo, inclusos os direitos e obrigações das partes, contudo mitigando sua regulamentação detalhada para um momento posterior (MAZZUOLI, 2015, p. 1087).

Decerto, que na tutela de um bem difuso e fundamental à vida como o meio ambiente, as referidas características se justificam em face das particularidades do próprio Direito Internacional, haja vista, que este depende sinteticamente da concordância dos Estados, em face da inexistência de uma subordinação que os vincule efetivamente a toda sociedade internacional.

Outra fonte do Direito Internacional Público são os princípios gerais do Direito Internacional, fundamentais a estruturação do referido sistema jurídico, dentre os quais, convém avultar: a igualdade soberana; a solução pacífica de controvérsias; o respeito aos direitos humanos; e a cooperação internacional. Varella (2012, p. 144, grifo nosso) define os princípios como:

[...] regras amplamente aceitas pela sociedade internacional, consolidadas por costumes internacionais. A consolidação pode decorrer da repetição em tratados, ou no uso em razões de julgamento comumente aplicadas nos tribunais nacionais e internacionais. Nem todo princípio jurídico é um princípio geral de Direito Internacional, porque certos princípios apenas aplicam-se a alguns sistemas jurídicos nacionais, não sendo amplamente aceitos pela prática internacional.

Cabe a ressalva, que tais princípios na seara ambiental estão fundados, precipuamente, nas Declarações que tratam do assunto, em especial a de Estocolmo (1972) e a do Rio (1992), condicionando a soberania estatal ao interesse global na conservação dos recursos ambientais, dando realce, sobretudo, aos princípios: do desenvolvimento sustentável; da precaução; do acesso equitativo aos recursos naturais; da informação; e do poluidor-pagador.

Quanto a aplicabilidade dos referidos princípios, a jurisprudência dos Tribunais, em especial da CIJ, é a fonte capital, cuja essência traduz a relevância atual da temática ambiental, com decisões fundadas nestes e em regras jurídicas bilaterais e multilaterais, alicerçadas nos fundamentos, que buscam assegurar às gerações do amanhã o acesso aos recursos naturais existentes nesta época.

Silva (2002, p. 15, grifo do autor e nosso) assere que: “[...] ‘as decisões judiciárias’, ocupam uma posição importante no campo do Direito Ambiental Internacional, dada a influência exercida por três decisões [...] o Trail Smelter Case, o Caso do Canal de Corfu e caso do Lago Lannoux”. Tais casos são considerados emblemáticos, verdadeiros precedentes sobre

poluição transfronteiriça (atmosférica e hídrica) e violação do dever de informar perigo entre Estados, por terem ocasionado danos, entre os quais, ambientais, que ensejaram decisões judiciais e arbitrais favoráveis aos países lesados, respectivamente, Estados Unidos, Grã- Bretanha e Espanha.

Já a doutrina internacional, se fundamenta nos estudos de renomados internacionalistas, consubstanciados em livros, artigos e outras fontes de consulta, sobre temas relevantes e pertinentes de Direito Internacional. Prestando-se como argumento e fundamento para sustentar determinados posicionamentos, inclusive, na esfera ambiental. Outrossim, esta última, também pode se fundar em trabalhos de órgãos colegiados, como a ONU e suas comissões; bem como de organizações não governamentais (ONGs), como a International Law Association (ILA) e o Institut de Droit International.

Os costumes internacionais, usualmente, são considerados fontes do Direito Internacional, por se constituírem regra jurídica fundada em uma prática geral e reiterada, de aceitabilidade social global. Contudo, segundo Mazzuoli (2015, p. 1089, grifo nosso):

[...] o costume internacional ligado ao meio ambiente é relativamente recente. Disso resulta certa dificuldade em visualizar, com contornos bem definidos, uma prática constante e uniforme dos Estados, num mesmo sentido, com a crença de convicção de tratar-se de uma regra jurídica.

Cabe ressaltar ainda, que modernamente, promovido pelo processo de globalização econômica, há existência do intitulado processo de descentralização de fontes, conforme endossa Varella (2012, p.26, grifo nosso):

Os Estados atribuem constantemente e cada vez com maior velocidade capacidades soberanas para instâncias internacionais de produção normativa. De fato, há uma autolimitação à produção normativa, em diversos temas, ou seja, o Estado aceita que a regulação jurídica de certos temas será feita por outros atores, o que significa na prática uma limitação que o próprio Estado se impõe. É um cenário marcado por uma multiplicação dos assuntos tratados pelo Direito Internacional. Além do próprio Estado, há a participação de diversas Organizações Internacionais, com maior ou menor poder de impor normas obrigatórias (chamadas no direito de normas cogentes), e a criação de redes paralelas ou que interagem tanto no nível nacional como regional ou internacional. Entre esses novos atores do Direito Internacional, encontramos, por exemplo, as organizações não governamentais, as empresas ou os cientistas.

Ou seja, neste processo os Estados têm estimulado a complementação das fontes do Direito Internacional com atos unilaterais de organizações intergovernamentais, bem como destas com os próprios Estados. De forma, que as decisões e resolução de várias organizações internacionais, de caráter global ou regional, têm se manifestado formalmente em relação à proteção do meio ambiente, constituindo-se assim fontes de Direito Internacional do Meio Ambiente.

Finalmente, pode-se perceber a importância da temática ambiental no âmbito do Direito Internacional, de modo, que esta inclusive, dispõe de uma gama mais ampla de fontes, todas de grande relevância para sua sustentação jurídica, visando efetivar a tutela do meio ambiente no cenário internacional contemporâneo, extremamente dinâmico e, por vezes, hostil.