Mapa 5 – Caracterização da região hidrográfica amazônica
2 A ÁGUA DOCE NA ORDEM AMBIENTAL INTERNACIONAL
2.2 PRINCIPAIS REUNIÕES INTERNACIONAIS SOBRE ÁGUA
2.2.3 Conferência Internacional sobre Água e Meio Ambiente Dublin (1992)
Em 1992, foi realizada a 2ª Conferência Mundial sobre a Água e Meio Ambiente, na cidade de Dublin, na Irlanda, tratando da questão hídrica, haja vista o reconhecimento da escassez e mau uso da água doce como ameaças graves e crescentes ao desenvolvimento e proteção do meio ambiente sustentável.
Em Dublin, foram estabelecidos 4 (quatro) princípios orientadores das ações a serem desenvolvidas a nível local, nacional e internacional, no intuito de se enfrentar tendências quanto ao uso da água, levantadas à época e ainda atuais, como o consumo excessivo, a poluição e as ameaças crescentes de secas e inundações. Conforme destacados a seguir, in verbis:
Princípio n. 1 - A água doce é um recurso finito e vulnerável, essencial para sustentar a vida, o desenvolvimento e o meio ambiente. Desde que a água sustenta a vida, a gestão eficaz dos recursos hídricos exige uma abordagem holística, ligando desenvolvimento social e econômico com a proteção dos ecossistemas naturais. A gestão eficaz liga usos da terra e da água em todo o território de uma bacia hidrográfica ou aquífero de águas subterrâneas.
Princípio n. 2 - o desenvolvimento e a gestão da água devem basear-se numa abordagem participativa, envolvendo usuários, planejadores e formuladores de políticas em todos os níveis. A abordagem participativa envolve ações de sensibilização para a importância da água entre os decisores políticos e do público em geral. Isso significa que as decisões sejam tomadas no nível apropriado mais baixo, com ampla consulta pública e envolvimento de usuários no planejamento e implementação de projetos de água.
Princípio n. 3 - As mulheres desempenham um papel central na provisão, gestão e salvaguarda da água. Este papel central das mulheres como provedoras e usuárias da água e guardiãs do ambiente em que vivem raramente tem sido refletido nos arranjos institucionais para o desenvolvimento e gestão dos recursos hídricos. A aceitação e
implementação deste princípio exige políticas positivas para atender necessidades específicas das mulheres e para equipar e capacitar as mulheres a participar em todos os níveis em programas de recursos hídricos, incluindo a tomada de decisões e implementação, de formas definidas por eles.
Princípio n. 4 - A água tem um valor econômico em todos os seus usos competitivos e deve ser reconhecida como um bem econômico. Dentro desse princípio, é vital reconhecer primeiramente o direito básico de todos os seres humanos terem acesso a água potável e saneamento a um preço acessível. Fracasso passado para reconhecer o valor econômico da água levou a usos esbanjadores e ambientalmente nocivos do recurso. A gestão da água como um bem econômico é uma importante forma de conseguir uma utilização eficiente e equitativa, assim como incentivar a conservação e proteção dos recursos hídricos (ONU, 1992c, grifo e tradução nossa).
Cabe destacar dentre os mesmos, o reconhecimento do valor econômico da água como solução ao desperdício, atentando, contudo, para que sua valoração permita o acesso a todos. Para Amorim (2009, p. 170, grifo nosso):
Essa conferência tratou da inserção das questões relativas água, como encontro preliminar de discussão para ECO-92, destacando a importância de se envolver as partes interessadas no processo de tomada de decisões, e estabeleceu a necessidade do reconhecimento do valor econômico da água em todos os seus múltiplos usos.
Justamente sobre este último assunto, Ribeiro (2008, p. 82, grifo nosso) afirma que: [...] pretende-se com a cobrança da água coibir o uso inadequado, diminuindo o desperdício, em especial nas cidades. Mais uma vez emprega-se a coerção pela economia em vez de convencer pela educação. Preferiu-se tornar a água um bem, o que interessa bastante a grupos transnacionais [...] do que convencer a população mundial que o uso da água deve ser comedido.
Outrossim, na agenda de ação da Declaração de Dublin foram destacados como benefícios da implementação dos referidos princípios, entre outros: a redução da pobreza e da doença; a proteção contra as catástrofes naturais; a conservação e a reutilização da água; o desenvolvimento urbano sustentável; a produção agrícola e o abastecimento de água rural; a proteção dos ecossistemas aquáticos; e a resolução de conflitos de água.
Neste último benefício foi definido a bacia hidrográfica como unidade territorial adequada para o planejamento e a gestão dos recursos hídricos, incluindo águas superficiais e subterrâneas. Sendo previsto quanto a recursos hídricos transfronteiriços, ou melhor, rios internacionais que:
[...] o efetivo planejamento integrado e desenvolvimento de rios ou lagos em bacias transfronteiriças tem exigências institucionais semelhantes aos de uma bacia inteiramente dentro de um país. A função essencial das organizações de bacias internacionais existentes é de conciliar e harmonizar os interesses dos países ribeirinhos, monitorando a quantidade e qualidade da água, desenvolvendo programas de ação conjuntas, troca de informações, e acordos de cooperação (ONU, 1992c, grifo e tradução nossa).
Sendo assim, na declaração de Dublin foi deliberado a condição de bem econômico da água doce e proposta sua gestão internacional na escala da bacia hidrográfica, demonstrando a importância que o assunto teria no futuro. Tal concepção, atualmente, é utilizada sobremaneira por organismos internacionais, que reconhecem 276 (duzentas e setenta e seis) bacias transfronteiriças. Estas geram cerca de 60% da água doce da Terra, atendem 40% da população mundial e, talvez, sustentem mais de 90% da população dos países ribeirinhos. Além disso, cerca de 2 (dois) bilhões de pessoas no mundo dependem da água subterrânea abastecida por cerca de 300 (trezentos) sistemas de aquíferos transfronteiriços (ONU, 2015).
Por certo, em nosso tempo, a gestão de bacias hidrográficas transfronteiriças já se mostra de extrema relevância geopolítica, estratégica e socioambiental para todos os países. De forma que os países ribeirinhos devem priorizar à preparação e implementação de planos de gestão integrada de bacias transfronteiriças que estão inseridos, os quais devem ser aprovados por todos os interessados e firmados em acordos internacionais e/ou mecanismos de regulação transnacionais.
2.2.4 Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento - Rio de