A opinião sobre as diferentes fontes de energia que podem ser mobi- lizadas para suprir as necessidades energéticas da sociedade é uma das questões que surgem com alguma frequência nos inquéritos do Euroba- rómetro que se debruçam sobre temas relacionados com a energia.
O primeiro resultado a sublinhar é o de que as fontes de energia reno- vável são as que claramente reúnem maior apoio entre os europeus e entre os portugueses, em particular a energia solar e a eólica. De facto, quando se analisam os dados relativos à média europeia (UE25) as ener- gias renováveis surgem em primeiro lugar, seguidas dos combustíveis fós- seis e, por último, pela energia nuclear.
No caso de Portugal, há a registar o facto de o gás surgir com uma opi- nião mais favorável do que a utilização da biomassa, mas, em contrapar- tida, é no nosso país que se regista o segundo apoio mais claro à energia das ondas (apenas ligeiramente menor do que o apoio registado na Di- namarca), muito provavelmente devido ao desenvolvimento, ainda que experimental, que esta fonte de energia conheceu nos últimos anos no
país, com o consequente debate público que, certamente, terá contri- buído para o relevo atribuído a esta fonte de energia.
Portugal está também entre os países europeus que são mais favoráveis aos restantes combustíveis fósseis (petróleo e carvão) e entre aqueles que tendem a assumir um apoio menos expressivo às fontes de energia reno- vável (ainda que estas, como foi referido anteriormente, continuem a reunir as opiniões mais favoráveis) (quadro 3.8 e figura 3.6).
Quadro 3.8 – Opinião sobre as fontes de energia (%)
A favor Nem a favor Contra NS/NR nem contra
EU25 PT EU25 PT EU25 PT EU25 PT
Solar 89 83 4 2 3 4 4 12 Eólica 83 78 6 3 7 4 5 16 Hidroelétrica 79 78 7 5 4 5 9 13 Biomassa 69 59 9 6 12 10 10 24 Gás 63 71 17 11 16 14 4 8 Ondas 73 78 8 3 6 4 14 16 Petróleo 45 58 20 14 31 19 4 8 Carvão 42 53 18 15 35 19 5 13 Nuclear 32 19 13 13 48 53 6 16 Fonte: Eurobarómetro 65.3 (2007).
Figura 3.6 – Comparação da distribuição das respostas «A favor» em relação a diferentes fontes de energia (EU25 vs. PT) (%)
100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 Carvão Petróleo Ondas Gás Hidro- elétrica Eólica Solar Nuclear A favor PT A favor UE25 Biomassa Fonte: Eurobarómetro 65.3 (2007).
De facto, apesar de as diferenças percentuais serem ligeiras, Portugal é o nono país menos favorável à energia solar e o sexto menos favorável à energia eólica (figura 3.7), sendo o terceiro mais favorável ao carvão. Este aparente menor apoio às fontes de energia renovável, quando em com- paração com a média da UE25, fica a dever-se mais a um elevado número de não respostas, do que à expressão de uma opinião desfavorável. A di- ficuldade em responder tende a ser muito mais frequente entre as res- postas portuguesas quando as questões se centram nestas fontes de ener- gia do que quando se centram sobre as fontes de energia fósseis.
Variáveis como o género, a educação, a idade e o tipo de comunidade não introduzem alterações significativas nos padrões de resposta.
Entre os especialistas e stakeholders entrevistados para este projeto, e tal como é observável através da análise dos resultados do Eurobarómetro, também é muito comum que se considere que os portugueses, de uma forma genérica, têm uma opinião globalmente positiva sobre as energias renováveis. Isto independentemente de situações locais onde se mani- festam conflitos associados à localização de infraestruturas de exploração de fontes de energia ou das alterações políticas registadas nos últimos anos, que reduziram os apoios públicos nesta área e fizeram eco de algu- mas vozes dissonantes do aparente consenso anterior:
Vão aparecendo uns senhores com uns manifestos e a dizer coisas que não são, que não são sequer corretas do ponto de vista técnico, umas inver- dades ou umas meias verdades, ou um conjunto de coisas que cada uma delas de per si pode ter qualquer ou alguma razoabilidade mas que misturado dá uma salada que depois... para no fundo criar nas pessoas uma ideia errada de que as renováveis são as grandes responsáveis pelo preço elevado da eletrici- dade que pagamos lá em casa. E isso é completamente falso. [...] Hoje existe em Portugal uma maior consciência do ambiente, sobre estas questões da energia, quer dizer, e as pessoas espero que deem o desconto que têm que dar a estas, estas tentativas, de perpetuar uma situação que é verdadeiramente uma situação passada [Entrevista associação 2].
Também o facto de a presença da exploração de fontes de energia re- novável estar a tornar-se mais marcada na paisagem e no quotidiano das pessoas pode levar a alterações na perceção. Alguns dos especialistas en- trevistados alertam para isso mesmo, muito em particular em relação à energia eólica:
Esse é o ambiente nacional sempre de grande aceitação, ali na zona oeste há muitas turbinas, a meu ver demasiado próximo, nalguns casos, das po- pulações, o que criou algum antagonismo. Mas estamos a chegar a um ponto
em que as pessoas começam a dizer – enough is enough. E gostam das turbinas mas das turbinas lá nas serras, e de preferência de modo controlado. [...] Vamos lá, a nível social, eu sinto as pessoas a começarem a achar que assim já chega, já está composto [Entrevista cientista 1].
Não obstante a marcada preferência por fontes de energia renovável, é sabido que estas ainda não assumem o protagonismo enquanto fontes
Fonte: Eurobarómetro 65.3 (2007).
Figura 3.7 – Comparação da distribuição das respostas «A favor» em relação à energia solar e à energia eólica nos diferentes países europeus (%) LV LT IE UK IT FI EE ES PT SK EU25 PL HU MT DE SE CZ LU BE FR AT SI NL EL CY DK IT UK FI ES FR PT EU25 DE LT CZ IE SE LU SK MT LV HU AT EE NL BE SI PL CY EL DK 0 20 40 60 80 100 0 50 100
principais dos países da UE, incluindo em Portugal, particularmente quando se tem em linha de conta o consumo total de energia e não ape- nas o consumo de eletricidade. É, por isso, importante compreender até que ponto os portugueses são conhecedores da importância que cada fonte de energia assume no consumo nacional. Quando questionados
Quadro 3.9 – Três principais fontes de energia usadas no país na opinião dos inquiridos (%)
EU25 PT Petróleo 81 73 Gás 77 64 Nuclear 36 2 Carvão 35 15 Hídrica 17 61 Eólica 7 11 Solar 6 9 Biomassa 3 1 Ondas 1 2 Fonte: Eurobarómetro 65.3 (2007).
Figura 3.8 – Ranking das principais fontes de energia primária em 2006 em Portugal Fonte: DGEG (2013). 1.º Petróleo 2.º Gás natural 3.º Carvão 4.º Biomassa 5.º Energia elétrica
sobre quais as três principais fontes de energia usadas no seu país, os dados do Eurobarómetro indicam que os portugueses tendem a sobres- timar o papel desempenhado por duas fontes de energia renovável (a solar e, principalmente, a hídrica, que surge em terceiro lugar) e a subes- timar o papel que o carvão e a biomassa desempenham (quadro 3.9 e fi- gura 3.8).
Perante os dados anteriores que indicam uma valorização das fontes de energia renovável em detrimento das restantes, é frequente procurar saber-se até que ponto as pessoas estão disponíveis para arcar com um aumento das despesas do agregado para que seja possível concretizar um novo modelo energético mais rapidamente. Neste contexto, quando questionados sobre a disponibilidade para pagar mais para poder dispor de fontes renováveis de energia, os resultados demonstram que os por- tugueses estão entre os europeus que, com maior frequência, respondem de forma negativa e assumem esta postura com maior frequência do que a média dos europeus (figura 3.9). Aliás, Portugal demonstra o segundo nível mais baixo de disponibilidade para pagar mais por energias reno- váveis em toda a UE, precedido apenas pela Lituânia.
Tratando-se de uma questão que surgiu em mais do que um estudo do Eurobarómetro, é possível identificar uma tendência de redução da disponibilidade para suportar custos mais elevados para poder dispor de energias renováveis entre os dois momentos de inquirição. Esta tendência é identificável não apenas em relação à realidade portuguesa, mas tam- bém quando se olha para a média da UE.
Ainda que não tenha sido possível aceder a dados mais recentes sobre a disponibilidade para pagar mais por fontes de energia renovável, tendo em consideração que os estudos foram realizados ainda antes do período de crise financeira que marcaram os últimos anos, quer em Portugal, quer na UE, é expectável que a tendência observada há quase uma década se mantenha hoje (senão mesmo que se tenha acentuado). Paralelamente, vários estudos internacionais têm demonstrado que para além do custo existem várias barreiras à disponibilidade para pagar mais por eletricidade «verde», como o desconhecimento destes programas ou a preferência por comportamentos de eficiência energética ou «prosumo», bem como ou- tros fatores que influenciam essa disponibilidade, como o tipo de fontes de energia renovável, o modelo de propriedade dos equipamentos de ge- ração de energia (cooperativas vs. empresas privadas), a localização destes equipamentos em áreas protegidas, a participação na tomada de decisão, ou a transparência na faturação (Borchers et al. 2007; Hobman e Frederiks 2014; Sagebiel et al. 2014; Ek e Persson 2014).
Essa mesma tendência é reconhecida por alguns dos especialistas en- trevistados:
Depende muito, repare, depende muito, numa altura de crise é um bo- cadinho mais complicado. A pergunta que me está a fazer é assim: quanto é que as pessoas estão dispostas a pagar para terem uma energia mais limpa, sendo que ela lá em casa tem toda a mesma potência e, portanto, não é me- lhor nem pior, por vir de um disjuntor de biomassa, de um moinho de vento, ou de uma barragem, ou de uma central a carvão. Portanto, as pessoas que têm mais recursos e que têm mais sensibilidade e, ao mesmo tempo, têm alguma capacidade financeira estão dispostos a fazer essa aposta, a dizer, a trocar um preço um bocado mais elevado da eletricidade pela preservação da natureza; as pessoas que têm uma vida mais difícil, e cada vez a vida está neste momento mais difícil para muita gente, já não estão em condições, querem é a eletricidade mais barata que houver, se houver uma eletricidade muito barata mesmo que seja muito poluente, as pessoas têm tantas dificul- dades que acabam por preferir [Entrevista secretário de Estado 2005-2009]. Em situações como esta que o país atravessa, que as populações atraves- sam, há, digamos, uma necessidade natural de dar resposta aos problemas mais graves, mais básicos e mais imediatos que se prendem até com a própria subsistência. E portanto, eu penso que a sensibilidade e a sensibilização que as pessoas têm para esta matéria não pode deixar de ser lida à luz desta rea- lidade e no quadro desta realidade [Entrevista representante PCP].
Figura 3.9 – Disponibilidade para pagar mais por fontes de energia renovável (%) Fonte: Eurobarómetro 65.3 (2007). 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 Sim Não UE25 2006 UE15 2002 NS/NR PT 2006 PT2002
Contudo, a perspetiva dos portugueses e mesmo dos europeus sobre a relevância das energias renováveis no quotidiano pode variar quando o debate surge enquadrado por outras questões sociais, nomeadamente a relevância do tema das alterações climáticas ou da poluição do ar. Se- gundo estudos do Eurobarómetro levados a cabo recentemente (mais concretamente em 2013 e 2014), a aposta política nas energias renová- veis tende a ser entendida como fundamental para ajudar a resolver ou minimizar outros problemas ambientais, mesmo alguns não tão direta- mente ligados à área da energia em si, mas mais aos efeitos colaterais em termos de poluição resultantes da utilização de diferentes formas de energia.
Num contexto de inquirição sobre qualidade do ar, nomeadamente quando foi abordado o tema do impacte da produção de energia na qua- lidade do ar, as energias renováveis surgem com grande destaque face a soluções energéticas convencionais e não convencionais baseadas nos combustíveis fósseis. Ainda que este resultado não seja em si muito sur- preendente face aos dados já apresentados anteriormente, parece-nos re- levante sublinhar que, não apenas a prioridade que deve ser dada às ener- gias renováveis nos próximos 30 anos é a resposta mais escolhida em todos os 27 países europeus envolvidos neste estudo, como é em Portugal que os resultados são mais expressivos em toda a UE (figura 3.10).
Quando o enfoque é nas alterações climáticas, as energias renováveis voltam a ser encaradas como uma parte relevante da solução, com nove em cada 10 europeus (na UE28) a considerarem que os governos nacio- nais devem estabelecer metas que conduzam a um aumento do uso de energias renováveis até 2030. De facto, 49% dos europeus consideram que o aumento da penetração das energias renováveis na produção de energia é muito importante e 41% consideram-na importante. No caso de Portugal, os valores são ligeiramente diferentes, sendo o sexto país da UE28 que com menor frequência assinala que esta aposta nas energias renováveis é muito importante (39%), mas uma vez que 51% assinalam a opção de resposta importante, se se juntarem as duas categorias, o valor é semelhante ao da média europeia. Ainda assim, a importância atribuída ao aumento do uso de energias renováveis é mais clara entre a média dos europeus do que entre os portugueses (CE 2014), resultado que corro- bora a análise feita anteriormente.
Para os entrevistados, sobretudo os da área política, a relação entre os dois temas por parte dos cidadãos surge já como um dado adquirido, corroborando a tendência observada através do Eurobarómetro:
Mas também por força das alterações climáticas, eu acho que são dois temas que as pessoas já ouviram falar, estão atentas e percebem que há uma relação direta e benéfica em apoiar e promover as energias renováveis de modo a combater e mitigar, digamos, a inevitabilidade dos impactes rela- cionados com as alterações climáticas [Entrevista a representante CDS-PP].