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Os movimentos religiosos de massas promovidos no Brasil pela Igreja Católica, entre 1922 e 1935, fizeram permanentes referências a um conjunto de temas com sentidos aproximados aos princípios da doutrina elaborada por pensadores contra-revolucionários europeus no século XIX. Dentre esses princí pios, receberam maior ênfase os da autoridade e da ordem. Os documentos de registro desses movimentos nos permitem identificar o empenho, por parte dos líderes religiosos, em formar entre os fiéis uma mentalidade que ia se consoli dando progressivamente, à medida que os eventos se realizavam, e que perma necia posteriormente, como um saldo satisfatório para a hierarquia, no que se refere à legitimidade da chamada obra restauradora.

Retomemos alguns elementos do contexto social da época, relacionando-os a esses princípios mencionados acima.

A sociedade brasileira apresentava, em 1922, sinais de um processo de eman cipação, conforme se percebe na Semana de Arte Moderna, em São Paulo, e no desencadeamento do movimento tenentista que culminou com a Revolução de 1930. Há quem se refira a esta data, como notaremos adiante, como o ano das três "grandes revoluções" do Brasil. A cultural e à política, acima mencionadas, acrescenta-se a revolução espiritual liderada por Jackson de Figueiredo. Esta, realizada com um sentido contrário à emancipação do homem na perspectiva da conquista da maiori- dade, contribuiu para ampliar a influência da Igreja Católica em nossa sociedade. Com a chamada obra restauradora, a Igreja afirma-se como instituição, desenvolvendo um trabalho de autofortalecimento no campo da doutrina, esten-

dendo-se em seus desdobramentos práticos, com visíveis interferências na orga nização política de nosso país.

Nosso interesse nesta parte do estudo consiste em identificar alguns elemen tos da doutrina orientadora de toda essa obra católica em nosso meio: tanto aquela presente na ação do episcopado e dos intelectuais como a que aparece nos temas divulgados em meio aos movimentos religiosos de massas. Com isto, queremos notar como se engendram os seus princípios, originários, como dissemos, de uma doutrina elaborada no século passado por pensadores católicos dispostos a combater a Revolução Francesa e seus efeitos.

A análise de qualquer ação política ou corrente de pensamento situados no século XIX requer como referência necessária a Revolução Francesa, já que ela "atuou como agente catalisador em relação com os diferentes tipos de ação política e com os diferentes estilos de pensamento" (Mannheim, 1963, p.90). O comentário de um representante da cultura católica da época não deixa dúvida quanto à associação entre uma mentalidade que estava sendo forjada e o movi mento de 1789:

O ódio a toda ordem religiosa e social não estabelecida pelo homem e sobre a qual ele não exerça uma soberania absoluta; a Proclamação dos direitos do homem em todas as coisas contra os direitos de Deus; numa palavra, a apoteose do homem, essa é, como demonstramos, a revolução que atualmente ameaça a Europa e da qual toda sorte de desordem não será senão a atuação. (Menozzi, 1989, p.76)

Como este, outros textos do magistério estabeleciam uma distinção entre o evento revolucionário e a mentalidade que o acompanhava. A hierarquia católica manifestou total inaceitabilidade em relação ao primeiro e assumiu para si a missão de impedir o desenvolvimento da segunda. Percebemos, no enfrentamen- to aí delineado pela apreciação católica, uma ameaça subjacente: a chamada "apoteose do homem" apresentava riscos para a soberania eclesiástica. Nesse sentido, conforme o intérprete católico acima citado,

a Revolução Francesa fora o tornassol destinado a revelar um processo que atormentava há muito a humanidade: a tentativa de secularizar completamente a sociedade civil, de arrebatar à Igreja a direção da sociedade, de excluir toda influência do catolicismo sobre os modos e as formas de agregação humana. (1989, p.77)

No debate estabelecido no meio católico vemos a formação de uma menta lidade que vai da recusa absoluta dos princípios revolucionários ao julgamento do mundo moderno como aquele que rejeita a autoridade da Igreja. Em alocução pronunciada em 1793, Pio VI, ao expressar o contraste entre catolicismo e

Revolução, assumia uma perspectiva na qual definia a responsabilidade da hierarquia diante das mudanças sociais: "apelar para que os homens novamente se submetam às suas decisões em matéria político-social". Diante dos aconteci mentos, a Igreja assumia duas tarefas: primeiro, indicar os "remédios mais oportunos" e, segundo, "lembrar que as calamidades são fruto da desobediência" (p.82). O afastamento de Deus foi apontado como um dos mais graves males da sociedade moderna. As propostas restauradoras de uma ordem social, tendo como base os valores cristãos, alimentavam o mito do retorno à cristandade medieval. Daniele Menozzi comenta deste modo o paralelo estabelecido pelos católicos do século XIX entre os acontecimentos revolucionários e a Idade Média:

as massas populares em revolta reproduziam na idade contemporânea o mesmo ataque contra a civilização que haviam desfechado as hordas dos bárbaros na Idade Média. A única diferença consistia no fato de que agora a agressão era desfechada do próprio interior da civilização, e não do exterior. Essa avaliação foi logo retomada por ambientes católicos, acentuando que a Igreja—e sobretudo o papado—deviam voltar a desempenhar na crise contemporânea o mesmo papel diretor e civilizador assumido na Idade Média. Dessa forma a concepção de que o mundo moderno se afastara da Igreja após a Reforma conjugava-se perfeitamente com a instância de uma superação dos erros modernos mediante uma volta à Idade Média. (p.82-3)

O mito da volta a uma cristandade medieval estava presente nas doutrinas elaboradas por Joseph De Maistre e De Bonald. Para estes pensadores, diz ainda Menozzi, "reconstrução da civilização e restauração do controle papal sobre a sociedade humana, em sua forma teocrática, estão ligadas por um nexo agora indissolúvel" (p.84).

A leitura das encíclicas lançadas pelos pontífices do século XIX nos permite observar que "é o próprio magistério papal quem assume o esquema surgido nos ambientes tradicionalistas e o propõe a todos os fiéis" (p.85).

Antes de passarmos aos comentários sobre documentos produzidos no centro eclesiástico, fazem-se necessárias algumas breves observações sobre os princí pios doutrinários definidos por pensadores católicos contra-revolucionários da Europa, nesse período.