A ORDEM EM ESPETÁCULO
TERROR DO SUBLIME
Temos acompanhado ao longo deste livro o modo como o Brasil foi cenário da realização de uma obra restauradora pelos católicos, desenvolvida com base numa dinâmica produzida na articulação entre a doutrina, a hierarquia, os intelectuais, os grupos intermediários e os movimentos religiosos de massas. A ênfase dada aqui aos princípios da ordem e da submissão permitiu que identifi cássemos, no discurso religioso, a produção de uma doutrina sobre a autoridade. Os múltiplos exercícios para forjar a referida doutrina não desconsideraram os processos políticos pelos quais passava nosso país. O louvor à submissão e à ordem, tuteladas pelos valores sagrados, fornecia elementos legitimadores para formas de dominação administradas pelo Estado ou aquelas vigentes, há muito tempo, no âmbito desta sociedade.
Os cultores do tal modelo de autoridade focalizam o princípio da unidade como o paradigma fundamental para diagnosticar o mal, isto é, para explicar desobediências e revoltas e, também, para indicar o remédio, no reordenamento dos grupos sociais e no cultivo da submissão individual. Percebemos ainda como o apelo à unidade se faz também pelo recurso a imagens. É como se atribuíssem a estas as características necessárias para um instrumento de controle das massas. Porém, o fortalecimento das bases para o exercício seguro de uma autoridade dependeria de uma ação doutrinária ampla. Aí, o recurso principal seria o conceito.
A imagem integra a essência do catolicismo, e foi utilizada no decorrer de sua história com aplicação em três campos: o teológico, o estético e o político. Notemos algumas implicações destas formas de funcionamento das imagens na Igreja.
Na reflexão teológica, é por meio da imagem que o infinito encontra-se com o finito. O verbo retoma a forma do visível "fazendo-se carne e habitando entre nós". Na Idade Moderna, o protestantismo rompe esse vínculo entre o finito e o infinito por meio da recusa da imagem. Em contrapartida, nas várias igrejas protestantes, enfatiza-se de outra forma essa recusa da imagem, e isto de certo modo valoriza a Igreja invisível mais do que a visível, a doutrina de Lutero mais do que a proeminência da autoridade civil sobre a religiosa.2
No século XIX, os românticos, sobretudo Novalis (Gusdorf, 1982, p.181), valorizam a Igreja da Idade Média como uma maneira de fortalecer um projeto de recuperação da religiosidade estética. Em Novalis encontramos o povo defi nido como uma eterna criança, que precisava ser dirigida sempre pela imagem.
O esmero na produção das imagens e o seu uso na consolidação de doutrinas e práticas religiosas, por si só, mostram-se como elementos insuficientes para classificar o catolicismo como autoritário. Toda vez que, na Igreja Católica, se questiona o valor da imagem ou do imaginário, está-se na iminência de uma heresia sobre um elemento essencial da Igreja, ou de uma ruptura com ela, como aconteceu com Lutero. O processo de dessacralização ou desestetização do culto, ocorrido após o Concilio Vaticano II, deparou-se também com esta problemática. Não é por acaso que os maiores concorrentes do catolicismo buscam apropriar-se dos meios de comunicação ou das grandiosas manifestações de massas, como vemos acontecer várias vezes pela televisão, pelo rádio, nos estádios de futebol e em tantos outros lugares.
A Igreja participa de todo um processo de cultura no qual alternam-se a imagem e o intelecto, em uma tentativa de síntese. Isso aconteceu de uma forma
evidente durante a Contra-Reforma, quando ela utilizou a imagem para propagar a fé. Outras tentativas de síntese são encontradas na obra de arte, no ensino e no aprimoramento da memória, realizados pela Igreja e/ou por pensadores laicos, do Renascimento até o século XVIII (Spence, 1986).
A imagem é uma via para a transmissão do pensamento. Não se pode dizer que o mero uso da imagem seja um elemento característico de autoritarismo, e nem que ocorra um processo de reflexão em nível menor. De fato, para se observar a tensão na relação entre o conceito e a imagem, seria necessário remontarmos a toda a história da filosofia.
O uso político da imagem, como é feito pelo catolicismo no século XX, constitui um tema nuclear a que chegou o nosso trabalho. As falas erigidas sobre termos excessivamente grandiosos rompem as regras de um discurso decoroso, que sabe articular imagem, conceito e realidade. Neste tipo de discurso há uma profusão de adjetivos tendendo para o ilimitado. Esse rompimento com o decoro constitui ao mesmo tempo uma ruptura com a ordem. Este fenômeno ocorre também no nazismo e no fascismo, com importante repercussão no pensamento
católico (Richard, 1988).
O germe comum desse trabalho conjunto, dessa possibilidade de emergência de um discurso sem decoro, pode ser identificado no pensamento da contra- revolução.3 As doutrinas que rompem com o decoro no século XX ampliam desmesuradamente a força da autoridade e das massas, ao mesmo tempo que anulam o indivíduo. Este transforma-se em nada diante daquela. O volume de massa colocado de forma ordenada nas ruas é um modo de demonstração de poder, numa tentativa de ostentar a onipotência divina no evento. O recurso ao sublime, realçado na categoria da quantidade, está muito distante do catolicismo. Vemos nisto a ação de grupos em consonância com o pensamento contra- revolucionário, acentuando o terror da onipotência divina. Esta via de reforço da autoridade e de utilização das massas, paralela aos movimentos totalitários, ajudou e, de certa forma, prejudicou a Igreja. Hoje ela é uma instituição forte e, paradoxalmente, a que mais vem se enfraquecendo.
3 Cf. Romano, 1979, capítulo intitulado "A astúcia do Positivismo" no qual o autor demonstra a percepção que a Igreja tem sobre sua colaboração com o positivismo, cujos resultados beneficiam mais ao Estado, do que a si própria. Ver, também, Romano, 1990, p.39-62.