1 A NOÇÃO DE COMPETÊNCIA PLURILÍNGUE E PLURICULTURAL E O
1.2 O PLURILINGUISMO E SUAS MANIFESTAÇÕES INDIVIDUAIS: ASPECTOS
1.2.4 As formas do falar plurilíngue: as marcas transcódicas
A fala do sujeito plurilíngue tem merecido a atenção dos pesquisadores do campo da Linguística no que concerne ao funcionamento das formas linguísticas (MEISEL, 1989; GROSJEAN, 1985; MYERS-SCOTTON, 1993a; LANZA, 1997; PY; LUDI, 2013). Observa-se que, tanto em situações do cotidiano, quanto em contextos de aprendizagem, esse sujeito constrói estruturas linguísticas, no mínimo, curiosas. Essas produções linguísticas, a depender da corrente teórica, recebem nomes variados. Por exemplo, o pioneiro Weinreich (1953) nomeia esse fenômeno de interferência. Meisel (1989) o chama de ―code-mixing” e Lanza (1997) o denomina de ―language mixing‖. Porém, atualmente, sobretudo na literatura anglófona, tem-se percebido o uso mais unificado da expressão “code-switching‖40 para nomear o
40 Gumperz (1982, p. 59) foi o primeiro a usar a expressão code-switching na ciência anglófona. A definição dada por ele muito se parece com a Ludi e Py (2013), levando os autores francófonos a usarem, recorrentemente, o termo code-switching para o fenômeno transcódico, algo que poderemos
fenômeno da miscibilidade de línguas (TREFFERS-DALLER, 2009; CLYNE, 2003; GROSJEAN, 1993; MYERS-SCOTTON, 1993a).
A orientação francesa, ligada à Didática das Línguas (DDL), identifica essas ocorrências simplesmente como marcas transcódicas (LÜDI, 1987; PY, 1992; LÜDI, PY, 1995; LÜDI; PY, 2013; CASTELLOTTI; MOORE, 1997; PORQUIER; PY, 2004; MOORE, 2006; DAHLET, 2009, 2012). Lüdi e Py as definem como ―qualquer observável, na superfície de um discurso em uma dada língua ou variedade, que representa, para os interlocutores e/ou o linguista, o traço da influência de outra língua ou variedade‖ (2013, p. 142)41.
As operações de alternância parecem ser regidas por regras de funcionamento e têm levado estudiosos da área a cogitarem regularidades nas operações linguísticas da alternância. Essa sistematização vale para todos os sujeitos com competência (aprofundada ou limitada) em mais de uma língua. Na verdade, passar de uma língua para outra exige certo domínio de todos os sistemas em contato. Numa sequência alternada, cada idioma segue regras. O falar plurilíngue pressupõe a manutenção de sistemas distintos, com regras superordenadas que determinam a forma e o funcionamento das mudanças de códigos no discurso, com uma utilização estratégica dos efeitos de sentido relacionados com a alternância.
Lüdi e Py (2013, p. 143, 144)42 escalonam algumas ocorrências de marcas
transcódicas, conforme relação abaixo:
a) interferências: são traços regulares da LM ou L1 nos momentos de uso da LE ou L2, muito frequentes na manifestação da interlíngua; b) transferências: são elaborações discursivas do falante em LE ou L2 que utiliza, sem perceber, estruturas de outra língua, remediando
também fazer oportunamente (DABÈNE; MOORE, 1995). O linguista americano define o code- switching como ―a justaposição dentro da mesma troca discursiva de passagens de discurso pertencentes a diferentes sistemas gramaticais ou subsistemas. (no original: ―[...] the juxtaposition within the same speech exchange of passages belonging to different grammatical systems or subsystems‖).
41No original: ―On désignera par marque transcodique tout observable, à la surface d‘un discours en une langue ou variété donnée, qui représente, pour les interlocuteurs et/ou le linguiste, la trace de l‘influence d‘une autre langue ou variété".
42Na categorização dos autores francófonos, distribuem-se esses fatos linguísticos conforme os níveis de competência do falante. Essas situações de maior ou menor domínio de LE ou L2 são chamados perspectiva exolíngue e bilíngue. Na perspectiva exolíngue, as interações correspondem às enunciações entre interlocutores de competência assimétrica, agregando os elementos a, b e c da lista acima. A perspectiva bilíngue corresponde às produções comunicativas entre sujeitos de competência simétrica, que dominam apropriadamente as línguas envolvidas e reúnem os elementos d e e da lista de Lüdi e Py (2013).
lacunas linguísticas na língua em execução. Exemplo: He is funny. His words in class laugh me [make me laugh]
c) formulações transcódicas: são usos conscientes em LE ou L2, num dado momento da interação, de LM ou L1, com intuito de superar uma dificuldade comunicativa;
d) empréstimos lexicais: são entradas lexicais simples ou complexas que servem para fins referencialmente argumentativos, constituindo- se como parte do repertório vocabular do falante;
e) empréstimos morfossintáticos: são produções em que se percebe a transferência de uma unidade gramatical vinda de outra língua. Exemplo: Eu estou morrendo de fome, but vou ao restaurante só mais tarde.
A notação dessas regularidades reúne vários fenômenos nas quais é possível observar como as línguas se relacionam nos discursos dos sujeitos plurilíngues. Portanto, para qualquer tipo de abordagem – linguística ou didática – que se queira fazer, é importante saber distinguir os tipos mais frequentes de mescla linguística. Essas manifestações podem aparecer em vários estratos da língua (fonético/fonológico, morfológico, sintático), por exemplo, em uma palavra, em uma frase, em um sintagma.
No esquema abaixo, apresentamos a rede de conexões que pode gerar sequências mistas:
Figura 1 - Esquema de ocorrência de alternância
A partir do esquema acima, Dabène e Moore (1995) apresentaram um modelo derivado no qual as alternâncias são classificadas como intrasentenciais ou intersentenciais.
A alternância Intrasentencial acontece dentro de uma sentença formada por, pelo menos, dois idiomas. Muito frequentemente, isso ocorre com a entrada de uma palavra estrangeira na sequência dominante da língua que estava sendo usada. Por exemplo: ―je veux um pouquinho de vin‖. Já a alternância Intersentencial ocorre no nível da frase, entre os enunciados realizados pelo mesmo falante. Por exemplo: ―I‘ll start in english y termino en español.
As alternâncias não são aleatórias, nem produzirão, necessariamente, novas línguas43. Nos estudos de Myers-Scotton (1993a), referência para área, há uma
explicação bem simples e lógica para o funcionamento da alternância. A autora sustenta que gramática e léxico se relacionam mutuamente. O falante elege uma língua-base (matrix language) como alicerce gramatical dos enunciados. Desse modo, elementos de ordem lexical podem ser incorporados a essa língua que fornecerá esses itens vocabulares. É o que chamamos de língua incorporada (embedded language) (MYERS-SCOTTON; JAKE, 2001; AUER; MUHAMEDOVA, 2005).
Portanto, a lógica existente nessa harmonização de línguas ocorre haja vista a produção dos enunciados deve fazer sentido ao coprodutor do texto no momento de trocas. O diálogo entre os elementos linguísticos evidencia uma coerência que segue padrões baseados numa organização negociada e reconhecida pelos falantes, expressa na forma como os itens das línguas se dispõem no dizer, contrário a uma suposta desordem unilateral.
Esse uso da discursividade humana deve ser tratado com a devida importância, principalmente em ambientes onde os sujeitos são marcados pela heterogeneidade linguístico-cultural. Dentre esses locais, está a sala de aula de ensino-aprendizagem de línguas, com destaque, para os contextos nos quais os aprendentes se enquadram em vivências plurilíngues. Esse fenômeno didático será discutido no próximo capítulo.
43 O estágio embrionário do nascimento de uma nova língua começa com o contato de línguas e evolui para um período de maior consolidação na forma de pidgins e línguas crioulas (HOLM, 2000).
2 O ENSINO DE LÍNGUAS E O ESPAÇO DO REPERTÓRIO LINGUÍSTICO