1 A NOÇÃO DE COMPETÊNCIA PLURILÍNGUE E PLURICULTURAL E O
1.1 A COMPETÊNCIA PLURILÍNGUE E PLURICULTURAL
1.1.2 Uma competência imperfeita e desequilibrada
1.1.2.2 Interlíngua e competência plurilíngue e pluricultural
Quando a CPP é tratada como uma competência que abarca também línguas pouco ou parcialmente dominadas, isso não significa aceitar tal condição como algo satisfatório. Entende-se que, pelo seu caráter evolutivo, é uma competência que pode ser enriquecida, notadamente nas línguas de domínio ainda vacilante. Esse desequilíbrio é uma característica marcante da CPP. A gestão estratégica desse desequilíbrio pode conduzir a saltos qualitativos das línguas que formam o repertório do falante (COSTE; MOORE; ZARATE, 1997, 2009).
O próprio discurso do sujeito plurilíngue, ao lançar mão de línguas parcialmente dominadas, assinala que há um gerenciamento, por parte dele, desse desequilíbrio a partir do uso racional dos recursos linguísticos para negociação dos sentidos. Esse trabalho de interação pode resultar em reestruturações linguísticas no repertório do indivíduo. Lüdi e Py (2013, p. 128), referindo-se à situação do migrante, observam que ele é levado a encarar e a tentar resolver as dificuldades que aparecem no momento de suas atividades verbais e que, ao fazê-lo, alimenta sua interlíngua, fornecendo-lhe novos recursos.
O conceito de interlíngua é bem conhecido dos estudiosos da área de aquisição e aprendizagem de segunda língua (PY, 1991). Seu criador, Selinker (1972), concebe-o como um sistema linguístico à parte, criado pelo próprio aprendente, diferente tanto de sua língua-alvo, quanto de sua língua materna. Esse
20 No original: ―[...] le bilíngue possède une compétence originale qui n’est pas caractérisée par une simple addition de L1 et L2. Cela ne signifie naturellement pas qu‘il n‘utilise pas L1 et L2. Mais justement, il exploite les possibilites propres à un répertoire double. Ainsi par exemple, face à d‘autres bilingues, il peut utiliser des formes mixtes parfaitement régularisées".
sistema muda à medida que o aluno vai evoluindo no incurso de aprendizagem até alcançar a condição de falante da língua-alvo.
Para Coste, Moore e Zarate (1997, 2009, p. 18):
A interlíngua serve para designar um estado do sistema transitório de língua na aprendizagem, que resulta da operacionalização e da confrontação sucessiva das hipóteses do aprendente sobre a natureza e os funcionamentos da língua alvo, em função dos dados com os quais ele se acha confrontado. Essas hipóteses, confirmadas ou rejeitadas pela testagem de novos dados linguísticos, fazem evoluir o sistema intermediário (ou interlíngua) em espiral21.
Porém, no contexto onde a competência plurilíngue é levada em consideração, a IL ganha contornos bem mais relevantes e abrangentes (CORDER, 1971; ADJÉMIAN, 1976; PY, 1980; VOGEL, 1995). Não se reduz a interlíngua a um mero caminhar de uma competência incompleta ou deformada para uma condição de excelência que tem como parâmetro o nativo. Também, não se trata de entendê- la como uma simples versão inacabada da língua alvo, de onde toda sua formatação deriva e todas as imperfeições se justificam a partir de um modelo de língua que o aprendente tenta alcançar.
A partir do conceito de CPP aqui adotado, compreende-se que a interlíngua advém dos sistemas linguísticos interligados e manifestados com alguma frequência pelos aprendentes na forma de transferências das formas verbais e das regras de funcionamento das línguas. O primeiro passo para essa compreensão é dado por Adjemian (1976, p. 308), que adiciona a noção de ―permeabilidade‖ à interlíngua. Para ele,
A penetração no sistema de regras da interlíngua, independentemente de sua sistematicidade interna, ou da hipergeneralização ou distorção de regras da interlíngua, é uma das características que tornam as interlínguas diferentes de todos os sistemas das línguas naturais. À propriedade das interlínguas que permite essa penetração ou generalização, eu chamo de permeabilidade da interlíngua22.
21 No original: ―l'interlangue sert à désigner un état de système transitoire de langue dans l'apprentissage, qui résulte de la mise en oeuvre et la confrontation successives des hypothèses de l'apprenant sur la nature et les fonctionnements de la langue-cible, en fonction des données auxquelles il se trouve confronté. Ces hypothèses, confirmées ou infirmées par la mise à l'épreuve de nouvelles données linguistiques, font évoluer le système intermédiaire (ou interlangue) en spirale".
22 No original: ―The penetration into the system of rules of the interlanguage, regardless of its internal systematicity, or hipergeneralization or distortion of rules of interlanguage, is one of the characteristics that define the interlanguage as different from all the natural language systems. The property of interlanguage that allows this penetration or generalization, i call the permeability of Interlanguage".
Ele entende que essa permeabilidade se traduz na possibilidade de penetração de regras gramaticais e de elementos da língua nativa dos aprendizes na interlíngua. Isso é interessante, pois ela era vista como um estágio de aprendizagem da língua-alvo, cujas regras de funcionamento advinham apenas desta última.
Corder (1971) também define a interlíngua de modo bem integrativo, como um sistema dinâmico, não institucionalizado e mutuamente permeável entre L1 e LE/L2. Os aprendentes levantam hipóteses concernentes às regras gramaticais, socioculturais, pragmáticas da ―língua alvo‖, testam-nas, negociam o sentido e constroem a sua identidade cultural por meio da sua própria produção oral e escrita. A interlíngua é, assim, uma manifestação linguística, autônoma e identitária dos usuários não-nativos daquela língua (MUKAI, 2009).
O resultado dessa nova compreensão de interlíngua se traduz numa mudança de atitude. Ela não é mais reduzida a estágios de erros, próprios da aprendizagem, conflitantes com o grau de competência do nativo. Os ―erros‖ ganham uma concepção positiva, merecendo uma observação adequada, tais quais conhecimentos intermediários. Trata-se agora fundamentalmente de entender o funcionamento desta interlíngua. Assim, propõe-se uma sistematização dos conhecimentos intermediários que possuem regularidades que não correspondem necessariamente às da língua alvo.
Avançando na discussão sobre CPP, destacamos na próxima seção aspectos contextuais e percursos de vida que impactam a formatação dessa competência.