6. Cidade, Genialidade e Tempo
6.2 As formas do passado
existe de forma dissociada da paisagem. É a partir dela que ele busca identificar a própria trajetória e as alterações em seu interior.
Não devemos nos enganar cogitando a hipótese de que Campos se considere no presente como sendo a soma de tudo pelo que ele passou ao longo da vida, e por isso não será possível retornar a um estado anterior. Campos não se vê enquanto totalidade, mas enquanto fragmentos, como nos mostram os versos finais do mesmo poema: “Outra vez te revejo,/ Mas ai, a mim não me revejo!/ Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,/ E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim –/ Um bocado de ti e de mim!...”165.
Nesse ponto devemos destacar duas declarações do poeta presentes na última estrofe: o reconhecimento do “espelho mágico” no qual a ilusão da unidade forçava um autoengano, e a fragmentação, não apenas de si, mas da própria cidade que também se refletia no espelho da memória como se fosse algo imutável, congelada no tempo. Esse é o reconhecimento de que o elemento urbano na obra de Campos também passou por transformações. Ele é tão múltiplo e inconstante quanto o engenheiro: moderna, apontando para o futuro, mas guardando fortes relações com o passado. Se há de fato uma alteração na forma de representação do espaço urbano nos 219 poemas de Campos na edição de Teresa Rita Lopes, essa alteração se deve tanto ao caráter fragmentário e mutável do poeta, quanto da modificação da própria cidade – nesse caso, especificamente, de Lisboa em processo de modernização. Passa-se, continuamente ao longo das fases iniciais e finais de Campos, da cidade enquanto conceito, para o caso específico lusitano.
6.2 As formas do passado
Conscientes do estímulo que a cidade oferece a mente de Álvaro de Campos no que concerne ao engendramento da memória, podemos distinguir duas formas com as quais o heterônimo se remete ao seu passado. A primeira, já esboçada no tópico anterior, ocorre durante a tentativa de Campos de reencontrar uma versão mais jovem de si, supostamente não maculada pela decadência, pelo intelectualismo, e que convivia em equilíbrio entre imaginação e pensamento. No entanto, nos casos em que a percepção da existência do “eu” presente e de um “eu outro” anterior, o
165 PESSOA, 2012, p. 271.
passado não é recuperado de maneira satisfatória, mas se faz enquanto um sonho esquivo e fracassado. O pessimismo marcado nesses poemas, como “Lisbon Revisited (1926)” e “Realidade”, está vinculado à não concretização do que foi sonhado durante a juventude. Campos lembra-se de caminhar “pensando alegremente no futuro”, mas em retrospecto questiona-se o que fez de si, de seus sonhos, de seus desejos. Vê-se fracassado, como expõe nos versos de “Tabacaria”:
“Fiz de mim o que não soube,/ E o que podia fazer de mim não o fiz./ O dominó que vesti era errado./ Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me./ Quando quis tirar a máscara,/ Estava pegada à cara.”166.
Mesmo considerando o passado intelectualmente menos complexo, não há prazer nessa forma de retomá-lo, pois ao caminhar pela cidade, revisitando lugares em que já esteve, Campos lembra-se também dos descompassos entre o querer e o ser, entre o imaginar e o concretizar, ocorrência que o afasta, como devemos recordar, do homem de ação do gênio pessoano. O escapismo da imaginação decadente que deveria colocar-lhe em um mundo que compensasse esteticamente a degradação social e o não alinhamento com a prática cotidiana da vida, parece não surtir efeito, mergulhando-o em um estado melancólico profundo, cuja saída é encontrada, por vezes, no humor provindo de uma ironia cáustica: “Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:/ É estar ao lado da escala social,/ É não ser adaptável às normas da vida,/ [...] Coitado do Álvaro de Campos!/ Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!/ Coitado dele [...]”167.
Em contrapartida, o segundo modo com que Campos revisita seu passado tem como proposta a criação de uma espécie de oásis mental, no momento presente, fundado em um período ainda mais recuado no tempo do que a juventude retratada nos poemas anteriores. Mecanismo semelhante é o utilizado na “Ode Triunfal”, na conhecida passagem entre parênteses – “Na nora do quintal da minha casa [...]” –, que insere um espaço de calmaria em meio aos versos calorosos e enfáticos que pintam a modernidade urbana. A infância se projeta na mente de Campos e se constitui como o lugar da simplicidade, em que as coisas apenas existiam e o mundo que precisava ser conhecido tinha a extensão de seu quintal.
Na “Ode Marítima” temos uma melhor exemplificação da memória como a criação de um oásis mental:
166 PESSOA, 2012, p. 290- 291.
167 PESSOA, 2012, p. 266- 267.
[...]
A lua sobe no horizonte
E a minha infância feliz acorda, como uma lágrima, em mim.
O meu passado ressurge, como se esse grito marítimo Fosse um aroma, uma voz, o eco duma canção
Que fosse chamar ao meu passado
Por aquela felicidade que nunca mais tornarei a ter.
Era na velha casa sossegada, ao pé do rio...
(As janelas do meu quarto, e as da casa de jantar também, Davam, por sobre umas casas baixas, para o rio próximo,
Para o Tejo, este mesmo Tejo, mas noutro ponto, mais abaixo, Se eu agora chegasse às mesmas janelas não chegava às mesmas janelas Aquele tempo passou como o fumo dum vapor no mar alto...)
(PESSOA, 2012, p. 123).
Sem dúvida não há diferenças entre o resultado final das duas formas de revisitação do passado empreendidas por Álvaro de Campos. Ambas desencadeiam em seu interior a melancolia, a percepção de que o passado “inocente” destoa do
“eu presente” cansado que reconhece a impossibilidade de retornar a qualquer forma de estado de origem. No entanto, o primeiro tipo de rememoração possui concepção imaginativa/intelectual, enquanto o segundo se constrói sobre uma experiência imaginativa/sensitiva.
Se em poemas como “Realidade” Campos cria o confronto entre o “eu antigo” e o
“eu moderno” a partir de um esforço intencional – mesmo que estimulado pela visão da cidade –, na “Ode Marítima” a retomada da infância ocorre por um despertar das sensações – “um aroma, uma voz, o eco duma canção” – surgindo quase repentinamente no meio do frenesi moderno. O fator emocional e as impressões sensoriais são os verdadeiros guias dessas lembranças168: um cheiro, o calor do
168 Sob esse aspecto, Richard Sennett faz o seguinte comentário em O declínio do homem público:
“As personalidades, portanto, não são apenas compostas de variações de ira, compaixão ou confiança entre pessoas; a personalidade é também a capacidade de ‘recobrar’ as próprias emoções. Saudade, lamento e nostalgia adquirem na psicologia do século XIX uma importância de um tipo peculiar. O burguês do século XIX está sempre lembrando como era aquele tempo de juventude, quando ele realmente vivia. Sua autoconsciência pessoal não é tanto uma tentativa de contrastar os seus sentimentos com os dos outros, quanto tomar sentimentos conhecidos e acabados, quaisquer que tenham sido, como uma definição de quem ele é.” (SENNETT, 2002, p.
193). Sendo o fim do século XIX, como vimos, um período encarado como socialmente crepuscular na cultura ocidental e ponto originário do Decadentismo, a observação de Sennett é pertinente, posto que a retomada do passado visa preencher o vazio e a frieza do tempo presente em questão. A busca pela identidade se estabelece pelo mergulho no interior, na autoanálise e na retomada das emoções sentidas em outro momento da vida, na juventude. Esse comportamento encontra correlação ao que se desenrola nos poemas de Álvaro de Campos que analisamos neste capítulo.
Campos, buscando uma solução para seu vazio identitário e para a melancolia do seu tempo presente, busca respostas e refúgio no passado.
sol, o vento, um cenário e a suposta felicidade presentes nesses momentos são recriações mentais que visam restituir-lhe uma paz inalcançável.
Em alguns registros, principalmente ao nos aproximarmos dos poemas finais do engenheiro, é perceptível a intensificação do uso da imaginação, ao ponto de Campos não recorrer apenas a memória, mas a lembrança da lembrança:
Na ampla sala de jantar das tias velhas O relógio tictaqueava o tempo mais devagar.
Ah o horror da felicidade que se não conheceu Por se ter conhecido sem se conhecer, O horror do que foi porque o que está aqui.
Chá com torradas na província de outrora
Em quantas cidades me tens sido memória e choro!
Eternamente criança, Eternamente abandonado,
Desde que o chá e as torradas me faltaram no coração.
Aquece, meu coração!
Aquece ao passado,
Que o presente é só uma rua onde passa quem me esqueceu...
(PESSOA, 2012, p. 425).
O texto acima transcrito é datado por Teresa Rita Lopes como sendo do entorno de 1933. Nele, Álvaro de Campos recupera a lembrança de estar em muitas cidades e encontrar refúgio em outra lembrança, a da sala de jantar das tias e da felicidade infantil, que era feliz simplesmente por não estar consciente de ser felicidade – como bem dito por Jeremoavo, personagem de Guimarães Rosa no conto “Barra da Vaca”: “Felicidade se acha é em horinhas de descuido.”169. A formulação nos remete ao paradoxo do hedonismo, no qual a felicidade não pode ser atingida diretamente, mas apenas quando não se está excessivamente aplicado em sua conquista. Tal estado, se observarmos o poema de Campos, só lhe foi possível na infância, fase da vida em que o ato de olhar e o de pensar não conheciam as amarras do raciocínio. Ainda assim, diante da criação desse oásis, a melancolia não se afasta e o convívio entre o interior e o exterior demonstra sua linha divisória tênue nos últimos versos – “Aquece, meu coração!/ Aquece ao passado,/ Que o presente é só uma rua onde passa quem me esqueceu...”. O dentro e o fora são indissociáveis:
um influencia e estimula as reações do outro, e no meio desse diálogo encontra-se
169 ROSA, 2009, p. 60.
a eterna busca de Álvaro de Campos, que certa vez afirmou em carta à revista Contemporânea: “Em toda a obra humana, ou não humana, procuramos só duas coisas, força e equilíbrio de força – energia e harmonia, se V. quiser.”170
6.3 O cansaço do tempo
A esta altura, qualquer possibilidade de reconhecermos o heterônimo Álvaro de Campos enquanto gênio pessoano, nos parâmetros que esboçamos no terceiro capítulo, parece improvável. Muito menos devemos encarar o heterônimo como uma tentativa de Pessoa em concretizar seu ideal de gênio, mas sim de discuti-lo.
Mesmo ao admitir diversas vezes sua propensão para o extravasamento das emoções, para a suscetibilidade aos estímulos sensoriais e para a imaginação, notamos que a poesia de Campos é a representação do desejo de racionalização da subjetividade.
O que a passagem do tempo evidencia, para Campos e seus leitores, é que o equilíbrio supervalorizado pelo gênio pessoano, é delicado e passageiro. Podemos ler todos os escritos sobre gênio e loucura e não encontraremos sequer um nome apontado por Pessoa como sendo o gênio por excelência. Poe, Camões, Shakespeare, Wilde são mencionados como gênios, porém sempre acompanhados por alguma anotação, um “entretanto”. O controle absoluto dos sentimentos demonstra-se falho inclusive em Ricardo Reis, que mesmo ao provocar Campos e seus versos desregrados, tampouco conseguiu conter sua obsessão pela morte em sua métrica clássica.
Pensando na proposição de Fernando Pessoa sobre a formação do gênio ser possível apenas nas civilizações avançadas, atinamos que, no caso de Álvaro de Campos, herdeiro de um Decadentismo finissecular aparentemente insuperável – mesmo com todas as possíveis respostas que o sensacionismo e o futurismo pareciam lhe oferecer – a cidade é, ao mesmo tempo, sua estimuladora e seu calvário:
“O que eu queria ser, e nunca serei, estraga-me as ruas.”171. Mas o que queria Campos ser? Uma identidade delimitável? Alguém que se destacasse no meio da multidão, se demonstrasse diferente, desviado do caminho mecânico da
170 PESSOA, 2000, p.187.
171 PESSOA, 2012, p. 257.