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6. Cidade, Genialidade e Tempo

6.3 O cansaço do tempo

Contemporânea: “Em toda a obra humana, ou não humana, procuramos só duas coisas, força e equilíbrio de força – energia e harmonia, se V. quiser.”170

6.3 O cansaço do tempo

A esta altura, qualquer possibilidade de reconhecermos o heterônimo Álvaro de Campos enquanto gênio pessoano, nos parâmetros que esboçamos no terceiro capítulo, parece improvável. Muito menos devemos encarar o heterônimo como uma tentativa de Pessoa em concretizar seu ideal de gênio, mas sim de discuti-lo.

Mesmo ao admitir diversas vezes sua propensão para o extravasamento das emoções, para a suscetibilidade aos estímulos sensoriais e para a imaginação, notamos que a poesia de Campos é a representação do desejo de racionalização da subjetividade.

O que a passagem do tempo evidencia, para Campos e seus leitores, é que o equilíbrio supervalorizado pelo gênio pessoano, é delicado e passageiro. Podemos ler todos os escritos sobre gênio e loucura e não encontraremos sequer um nome apontado por Pessoa como sendo o gênio por excelência. Poe, Camões, Shakespeare, Wilde são mencionados como gênios, porém sempre acompanhados por alguma anotação, um “entretanto”. O controle absoluto dos sentimentos demonstra-se falho inclusive em Ricardo Reis, que mesmo ao provocar Campos e seus versos desregrados, tampouco conseguiu conter sua obsessão pela morte em sua métrica clássica.

Pensando na proposição de Fernando Pessoa sobre a formação do gênio ser possível apenas nas civilizações avançadas, atinamos que, no caso de Álvaro de Campos, herdeiro de um Decadentismo finissecular aparentemente insuperável – mesmo com todas as possíveis respostas que o sensacionismo e o futurismo pareciam lhe oferecer – a cidade é, ao mesmo tempo, sua estimuladora e seu calvário:

“O que eu queria ser, e nunca serei, estraga-me as ruas.”171. Mas o que queria Campos ser? Uma identidade delimitável? Alguém que se destacasse no meio da multidão, se demonstrasse diferente, desviado do caminho mecânico da

170 PESSOA, 2000, p.187.

171 PESSOA, 2012, p. 257.

modernidade? Em certa medida ele o conseguiu. Seu verso acompanhou o ritmo das máquinas não por vê-las como irmãs e aceitá-las de bom grado, mas porque não foi capaz de controlar suas emoções e lidar com seus paradoxos. A máquina poderia silenciar seus pensamentos e sentidos, como fez com tantos outros seus contemporâneos. Mas Campos não foi apenas mais um no olho do furacão modernista.

Certamente, ao acompanharmos a trajetória de Álvaro de Campos disponibilizada pela edição e organização de Teresa Rita Lopes, percebemos a diminuição da profusão de versos e da voz exaltada. Mas isso não nos revela um poeta resignado com sua condição moderna. É comum encontrarmos, próximo ao que seria a produção final de Campos (1931 – 1935), ainda aquela insistência na busca da indiferença pelos elementos cotidianos da vida, pelos sentimentos que não compreende, e a continuidade de seu cansaço. Mas não devemos confundir o cansaço dessa fase do poeta com aquele de origem decadentista. Agora sua estafa não está diretamente relacionada com o processo de modernização acelerado e maquinal, ou com o sentimento de declínio civilizacional, mas com a procura pelo equilíbrio pessoal que empreendeu ao longo da vida, constituindo um cansaço mental que podemos identificar em três poemas. Isto nota-se, primeiramente, nos versos de “Notas sobre Tavira”, de 8 de dezembro de 1931, poema em que Campos revisita sua cidade natal:

Cheguei finalmente à vila da minha infância.

Desci do comboio, recordei-me, olhei, vi, comparei.

(Tudo isso levou o espaço de tempo de um olhar cansado).

Tudo é velho onde fui novo.

Desde já – outras lojas, e outras frontarias de pinturas nos mesmos [prédios –

Um automóvel que nunca vi (não os havia antes) Estagna amarelo escuro ante uma porta entreaberta.

Tudo é velho onde fui novo.

[...]

Paro diante da paisagem, e o que vejo sou eu.

Outrora aqui antevi-me esplendoroso aos 40 anos – Senhor do mundo –

É aos 41 que desembarco do comboio [? indolentão?].

O que conquistei? Nada.

Nada, aliás, tenho a valer conquistado.

Trago o meu tédio e a minha falência fisicamente no pesar-me mais [a mala...

De repente avanço seguro, resolutamente.

Passou toda a minha hesitação

Esta vila da minha infância é afinal uma cidade estrangeira.

Estou à vontade, como sempre, perante o estranho, o que me não é [nada)

[...]

(PESSOA, 2012, p.406).

Ainda inadaptado, ainda estrangeiro – até mesmo na própria vila de nascimento – , mas agora tendo provado dos avanços do que se poderia chamar de civilização naquele momento. As mudanças da modernidade sempre prometeram progresso, mas o Álvaro de Campos que retorna à Tavira, não parece ter observado grandes mudanças positivas, apenas a intensificação do seu cansaço após os anos de vivência nas grandes cidades e a constante investigação de sua subjetividade em contato com a urbe. Não deixemos passar despercebidamente que, no instante do retorno, Tavira não é mais uma vila, mas já uma cidade em crescimento, e Campos se dá por isso – “Esta vila da minha infância é afinal uma cidade estrangeira.”. É a esta pequena cidade que o poeta retorna, (se) olha, (se) vê e (se) compara, e sem ela, assim como todas as outras cidades em que esteve a repetir essas atitudes, não haveria o revirar-se interno que tanto caracteriza sua poesia. Há uma espécie de espelhamento entre a cidade – que em seu processo de modernização está sempre a um passo de tornar-se estrangeira, possuindo apenas pontos quase apagados, resquícios, capazes de recuperar uma cidade anterior – e a inquietude de Campos, que também se coloca como estrangeiro, tanto em relação a cidade quanto para si. Aqui, novamente, estamos diante do “eu” indissociável da paisagem – “Paro diante da paisagem, e o que vejo sou eu” – em uma relação que, ao extremo, não é de diálogo, mas sim de inescapável interdependência.O sonho de ver-se ali, aos 40 anos, “Senhor do mundo”, não se concretizou, atrasando seu retorno ainda em um ano. Se a mudança em Lisboa dava-se em passos lentos, em Tavira não deveria ser diferente, e o olhar de Campos percebe que a transformação da cidade dá-se por fachadas novas e por uma fina e frágil camada de tinta. Se havia no engenheiro qualquer esperança de encontrar em Lisboa ou Tavira um porto seguro e tranquilo onde pudesse descansar, se reencontrar com seus sonhos, distante da violência sonora e dos nervos aflorados pelas grandes cidades modelares, como Londres e Glasgow, suas expectativas não se concretizam, pois não apenas as cidades mudam, como a inquietude não está só na modernização urbana, mas dentro do próprio Campos, como parte de sua personalidade.

Vejamos também aquele que seria o último poema de Álvaro de Campos172,

“Regresso ao lar”, com a data fictícia de 3 de fevereiro de 1935:

Há quanto tempo não escrevo um soneto Mas não importa: escrevo este agora.

Sonetos são infância, e, nesta hora, A minha infância é só um ponto preto,

Que num imóbil e fútil trajecto Do comboio que sou me deita fora.

E o soneto é como alguém, que mora Há dois dias em tudo que projeto.

Graças a Deus, ainda sei que há Catorze linhas a cumprir iguais

Para a gente saber onde é que está...

Mas onde a gente está, ou eu, não sei... Não quero saber mais de nada mais E berdamerda para o que saberei.

(PESSOA, 2012, p. 487).

O soneto parece lhe transmitir segurança por ser controlado, guiado por regras de metrificação e rima, em outras palavras, há previsibilidade em seus caminhos, o que simboliza o extremo oposto da poética de Campos, principalmente a partir da fase sensacionista/futurista. Em seu sentimento de ausência de identidade definida, de memórias imaginadas e falta de referências que lhe sirvam de corrimão, o soneto – curto e previsível – lhe figura como última saída literária, com sua contagem de linhas predefinidas e parcialmente limitadora da racionalização e da imaginação.

É desde mesmo período o poema intitulado “Psiquetipia, ou Psicopatia”:

Símbolos. Tudo símbolos...

Se calhar, tudo é símbolos...

Serás tu um símbolo também?

Olho, desterrado de ti, as tuas mãos brancas

Postas, com boas maneiras a inglesas, sobre a toalha da mesa, Pessoas independentes de ti...

Olho-as: também serão símbolos?

[...]

Símbolos...

Estou cansado de pensar...

172 LOPES, 2012, p. 550.

Ergo finalmente os olhos para os teus olhos que me olham.

Sorrir, sabendo bem que eu estava pensando...

Meu Deus! E não sabes...

Eu pensava nos símbolos...

[...]

Conversa perfeitamente natural... Mas os símbolos?

Não tiro os olhos de tuas mãos... Quem são elas?

Meu Deus! Os símbolos... Os símbolos...

(PESSOA, 2012, p. 433).

Dos poemas finais de Campos este, de 7 de novembro de 1933, talvez seja o mais representativo da intensidade que o pensamento e a busca atingiu no poeta. E aqui estamos falando do pensamento tanto como exercício de raciocínio quanto a sua soma com a imaginação e a obsessão pela sua subjetividade. O mundo externo passa diante de seus olhos como passam as paisagens nas janelas do comboio, e Campos as capta em frames e as transforma em reflexão, símbolos. Não sem razão o poema possui o termo “psicopatia” em seu título, pois é dessa forma que o pensamento ali se estabelece, como uma doença, uma obsessão incontrolável.

Sobre os elementos que compõem a cena exterior sabemos muito pouco: um restaurante ou café em algum lugar movimentado; alguém que conversa com o poeta e mantém as mãos sobre a mesa. Há os contornos de uma conversa, mas Campos está compenetrado nessas mãos e em símbolos. É aqui que se percebe a fragilidade do equilíbrio entre objetividade, subjetividade, e a predominância desta.

O “engenheiro em inatividade” aprofundou-se, agora de maneira quase irreversível, no abismo existente entre a vontade e a concretização de seus desejos.

Após anos afirmando sua histeria, reconhecendo possuir determinados desregramentos emocionais, ao fim da vida, já distante de Caeiro, Álvaro de Campos também assumiu a psicopatia do pensamento. E o tempo foi fator essencial para a concretização desse gesto. O confronto entre o passado e o presente, que se esbarram pelas ruas das cidades, demostrou que, do início ao fim, o cansaço físico e mental permeou toda a obra de Campos, o que terminou por o lançar em uma corrida desenfreada em direção à emotividade.