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3. A FORMA FAMILIAR DE PLANTAR MANDIOCA PARA FAZER FARINHA EM LAJE (BA)

3.2.1 As formas espaciais de beneficiamento da mandioca em Laje (BA)

No município de Laje, existem seis tipos diferentes de unidades de beneficiamento da mandioca. Estas se distinguem pela finalidade da produção (autoconsumo e/ou comercialização), pelas condições técnicas do estabelecimento e pelo tipo de subproduto que se almeja fabricar (farinha e/ou amido):

a) Casa de farinha comunitária: construída e equipada pelo poder público com o objetivo de atender os camponeses que não possuem a unidade produtiva em suas próprias comunidades;

124  b) Casa de farinha particular: abarca tanto as casas de farinha do campesinato,

quanto as unidades produtivas dos médios e grandes produtores rurais;

c) Cooperativa de farinha: construída e equipada pelo poder público com o objetivo de centralizar a produção e a comercialização de farinha dos camponeses do município, ou seja, visa atender aqueles que não tem a unidade produtiva e que possui dificuldades para comercializar sua produção; d) “Fábrica” de farinha: são armazéns onde os comerciantes locais ensacam a

farinha comprada “na mão” dos camponeses locais ou nas farinheiras do Centro-Sul do país;

e) Farinheira: planta industrial com elevada capacidade de processamento de mandioca e fabricação de farinha;

f) Fecularia: indústria onde se extrai o amido de mandioca.

Identificou-se no município de Laje, a existência de uma cooperativa de farinha; uma “fábrica” de farinha; uma farinheira industrial; uma fecularia; e 190 casas de farinha espalhadas por 35 comunidades rurais e na sede do município de Laje80.

A cooperativa de farinha, ou COOPERFARINHA, foi construída na gestão do então prefeito Luiz Hamilton de Couto Júnior (2009-2012). A unidade produtiva, nunca funcionou e está abandonada, conforme Figura 5. Sua localização foi pensada estrategicamente, pois está perto da BR 420, num trecho que dá acesso a Engenheiro Pontes, comunidade que se destaca pela produção de farinha da forma comercial.

Figura 5 – Sede da COOPERFARINHA em Laje (BA):

FONTE: Trabalho de campo (2017). AUTORA: Aline dos Santos Lima.       

125  Estima-se que a sede da COOPERFARINHA tenha custado cerca de R$ 150 mil. A unidade produziria três tipos de farinha, mas a resistência no trabalho coletivo teria sido o motivo da falta de sucesso dessa cooperativa (TRABALHO DE CAMPO, OUTUBRO DE 2015). Na tentativa de reverter essa situação, o então gestor da Secretaria da Agricultura de Laje, HMS (2013-2016), tentou reativar a unidade produtiva. Sua meta era comercializar não apenas a farinha, mas todos os produtos do campesinato lajista. Por isso, sua proposta de reativação da unidade não contemplaria as pretensões da COOPERFARINHA e sim sua substituição pela Cooper Laje. Seus esforços tiveram início em setembro de 2013, seu mandato findou e todas as estratégias usadas não foram capazes de reverter esse quadro de desperdício dos recursos públicos.

A “fábrica” de farinha foi identificada na comunidade de Borges. Nessa “fábrica”, como é chamado o armazém onde se mistura e ensaca a farinha, o proprietário mantém uma equipe responsável por empacotar e usar sua marca na farinha comprada “na mão” dos camponeses do próprio município, do Território de Identidade Vale do Jiquiriçá ou de outras cidades baianas, como Vitória da Conquista (TRABALHO DE CAMPO, AGOSTO DE 2016). Em Laje, essa situação é pontual. Mas, em São Miguel das Matas, essa realidade é complexa81.

A farinheira industrial, construída na Fazenda Novo Horizonte Sede, tem capacidade de processamento de 10 toneladas de farinha por dia. A obra foi concluída em 2015, mas não tem licença ambiental para funcionar (TRABALHO DE CAMPO, 2015). Já a fecularia é a planta industrial onde se extrai o amido de mandioca, como ainda será detalhado.

Das 190 casas de farinha, 164 casas (86,3%) são particulares (forma familiar e forma comercial) e 26 (13,7%) são comunitárias. Entre as 164 casas de farinha de caráter particular 106 (64,6%) estão funcionando, 33 (20,1%) estão desativadas e sobre outras 25 (15,3%) não se tem informação. Já em relação as 26 casas de farinha de caráter comunitário, sobre 12 (46,1%) não se tem informação, 10 (38,5%) estão funcionando, 4 (15,4%) estão desativadas, conforme Tabela 7.

      

81 Em São Miguel das Matas, há uma empresa atacadista especializada no fracionamento,

acondicionamento e comercialização de farinha. Essa empresa, fundada em 1997, compra, semanalmente, vários caminhões tipo carreta carregadas de farinha nos estados do Sul e Sudeste. O saco de 50 kg de farinha em São Paulo custa R$ 39,00. Com o frete chega em São Miguel por R$ 51,00 (TRABALHO DE CAMPO, OUTUBRO DE 2015).

126  Tabela 7 – Natureza e situação funcional das casas de farinha identificadas no

município de Laje (BA):

Situação funcional Comunitária Particular

Quantidade (%) Quantidade (%)

Casa de farinha desativada 4 15,4 33 20,1

Casa de farinha em funcionamento 10 38,5 106 64,6

Casa de farinha sem informação 12 46,1 25 15,3

TOTAL 26 100,0 164 100,0

FONTE: Trabalho de campo (2014-2017)

ELABORAÇÃO: Aline dos Santos Lima.

Dentre as 190 casas de farinha identificadas no município de Laje, 127 (66,8%) foram georeferenciadas e espacializadas, conforme Figura 6. Das 127 casas de farinha georeferenciadas, 113 (89%) são particulares (forma familiar e forma comercial) e 14 (11%) comunitárias. Das 113 casas de farinha de caráter particular georeferenciadas, 88 (78%) estão funcionando e 25 (22%) estão desativadas. Já em relação as 14 casas de farinha de caráter comunitário georeferenciadas, 10 (71,4%) estão funcionando e 4 (28,6%) estão desativadas, conforme Tabela 8.

Tabela 8 – Natureza e situação funcional das casas de farinha georeferenciadas no município de Laje (BA):

Situação funcional Comunitária Particular

Quantidade (%) Quantidade (%)

Casa de farinha desativada 4 28,6 25 22

Casa de farinha em funcionamento 10 71,4 88 78

TOTAL 14 100,0 113 100,0

FONTE: Trabalho de campo (2014-2017)

ELABORAÇÃO: Aline dos Santos Lima.

Como exposto acima, a situação das 190 casas de farinha identificadas são as mais diversas. Algumas estão desativadas (37). Sobre outras não se sabe a situação funcional (37). Muitas continuam funcionando (116), algumas de modo eventual, outras com maior regularidade. Mas, muitas outras, já foram fechadas. Identificá-las na paisagem não é fácil, pois uma parte já foi demolida e seus equipamentos vendidos. Outra parte, cujos equipamentos também foram vendidos, foi aproveitada para guardar os instrumentos de trabalho, criar galinha, servir como local de brincadeira das crianças, estender roupa em dia de chuva, etc. Existem explicações distintas e uma datação também distinta para as duas situações.

127  Figura 6

128  A primeira situação é o fechamento (desativação) das casas de farinha. A segunda, é a irregularidade no funcionamento das casas de farinha que estão em atividade. É importante registrar que a identificação desses marcos temporais só foram possíveis, porque os agricultores entrevistados associaram esses processos – de desativação e/ou de irregularidade no funcionamento das unidades produtivas que pertenciam a sua família, ao seu vizinho ou aos seus conhecidos que viviam em outras comunidades – a partir de acontecimentos de ordem pessoal. As principais referências usadas foram o nascimento de um filho ou de um neto, a morte de um ente querido, o casamento de filho ou, ainda, o próprio casamento. Dito isto, o auge do fechamento das casas de farinha em Laje ocorreu há, aproximadamente, duas décadas atrás. Para tanto, foram apresentadas duas versões complementares para a desativação das casas de farinha em Laje.

A primeira versão é a seguinte: quem fabrica farinha são os pequenos agricultores. Como os fazendeiros da região começaram a comprar as terras “dos pequenos” para fazer pasto, os camponeses começaram a se espremer entre as cercas das grandes propriedades. Sem ter a posse da terra, esses camponeses não podiam plantar mandioca. Como os fazendeiros priorizavam criar gado, já não cediam suas terras para os camponeses plantarem mandioca em regime de meia. Sem o acesso a terra para plantar a mandioca, não tem raiz para as casas de farinha. Resultado: sem matéria-prima, muitas casas de farinha fecharam as portas.

Essa versão encontra respaldo na medida em que observamos um aumento contínuo do Índice de Gini no município de Laje. Esse indicador que era de 0,655 (em 1980), passa para 0,725 (em 1985) e para 0,762 (em 1996). Ou seja, está confirmado o processo de concentração fundiária e de compra das terras dos camponeses na década de 199082 (TRABALHO DE CAMPO, ABRIL DE 2017).

Outro dado que atesta essa primeira narrativa, é que a década de 1990 representa a maior expansão da “pecuarização” em Laje, com uma média anual de quase 32 mil cabeças de gado e um aumento de quase 85% em relação a década de 1980 (Quadro 9). Porém, se se observar a média da área plantada com lavoura de

      

82 A versão de que as casas de farinha fecharam porque os camponeses compraram as terras dos

pequenos foi apresentada por agricultores das comunidades de Baixa de Areia, Cariri e Ronco d´água. Porém, “andando” pelo campo lajista, é visível que algumas comunidades estão cercadas de pasto (Cariri, Ceasa, Corta-mão, Dendezeiro, Esconça, Terra Seca e Tourinho) ou com monocultura de mandioca (Gameleira, Jacaré, Km 17, Km 22, Nova Luz, Outeiro, Pindoba, Riachão, Riacho da Lama, Rio de Areia, Sobradinho) e os camponeses estão espremidos no meio (TRABALHO DE CAMPO, ABRIL DE 2014-2017).

129  mandioca em Laje, na década de 1990, ficará explicitado que essa versão não se sustenta (Quadro 11). Entre 1990-1999, a média da extensão territorial com plantio de mandioca em Laje é de 3.676 ha/ano. Ou seja, é mais que o triplo do período anterior, pois, entre 1980-1989, a média era de 1.177 ha. Conclusão: é preciso estudar melhor os números.

Deixando a média de lado e “olhando” o rebanho bovino e a área destinada ao plantio de mandioca em Laje, ano a ano, será possível verificar que, de fato, no final da década de 1990, especialmente 1995-1998, há uma brusca redução da área territorial destinada ao plantio de mandioca. Ou seja, existe verossimilhança para o argumento de que os fazendeiros compraram as terras e os pequenos não tiveram onde plantar mandioca83.

A segunda versão para o fechamento das casas de farinha em Laje, foi a “chegada” da luz elétrica, o que, em Laje, ocorre a partir de 1927 (IBGE, 1958, p. 386). Porém, nem todas as comunidades rurais foram assistidas na primeira metade do século XX. Na verdade, algumas nem são assistidas ainda84. Mesmo assim, há quem

atribua a desativação de parte das casas de farinha do município à “chegada” da luz. Na comunidade de Outeiro, por exemplo, o serviço de eletricidade data dos anos 1990. Ora, muitas das casas de farinha da forma familiar eram manuais, puxadas pela força animal e/ou humana. Na medida em que a “luz chega”, muitas dessas casas de farinha são fechadas. Nesse processo, outras unidades produtivas que tem eletricidade e, portanto, equipamentos elétricos, são criadas, especialmente as comunitárias que atendem a forma familiar. Estas casas de farinha mais “modernas” (leia-se com equipamentos movidos a eletricidade) são capazes de abarcar, e até superar a capacidade de processamento de muitas outras manuais.

Essas duas explicações ajudam a entender a situação das casas de farinha em Laje. Entre 1974-1990, quando o rebanho bovino, praticamente, aumentava a cada ano, a extensão territorial das lavouras de mandioca não ultrapassa 1.300 hectares. Deduz-se: aumento do pasto, redução da área de mandioca e fechamento das casas de farinha manuais. Entre 1990-2004, quando o rebanho bovino lajista nunca foi

      

83 Relação entre o rebanho bovino e a extensão das áreas plantadas com mandioca no município de

Laje 1974-2015, Apêndice I.

84 É importante registrar, que a universalização do acesso e uso de energia elétrica não atingiu as 46

comunidades rurais de Laje nem mesmo após o Programa Luz para Todos, instituído pelo Decreto Presidencial 4.873 de 11/11/2003. Durante o trabalho de campo foi identificado, por exemplo, que na comunida de Ceasa, até março de 2014, não tinha eletricidade. Outro caso, foi o da comunidade de Sambambaia que tem problemas com o fornecimento desse serviço, como será tratado adiante.

130  inferior a 21 mil cabeças ao ano e a área de produção de mandioca passa por variações entre 1.100 a 6.500 hecatres, é que a luz elétrica chega em algumas comunidades. Desde 2005-2015, as casas de farinha manuais já estão fechadas e as elétricas assumem a produção oriunda da área plantada com mandioca no município, que se mantém, em média, com uma extensão de 3.782 ha/ano.

Por outro lado, a situação da irregularidade no funcionamento das casas de farinha em Laje tem outra explicação. Trata-se de algo mais recente, cerca de dez anos. O motivo para tal situação é a concorrência da farinha produzida em outras regiões do país, especialmente São Paulo e Paraná. A estratégia é a seguinte:

a) O comerciante da região de Laje compra a farinha do Centro-Sul por um preço atrativo, o que se explica do seguinte modo: nesses estados privilegia-se a produção de mandioca para extração de amido, notadamente pelo valor agregado85. Somente, após a “retirada” desse subproduto “nobre” é que se faz

a farinha. Consequentemente, o preço da farinha, com menor teor de amido, é mais baixo.

b) Como a farinha “importada” tem menos teor de amido, ela não é muito apreciada pelos clientes que irão consumi-la (seja a população local, regional, de outras partes da Bahia e até de outros estados do país). Diante disso, o comerciante da região de Laje adquire uma parte de farinha produzida no município e ajacências com a quantidade integral de amido. Isso garante o funcionametno das casas de farinha, ainda que eventualmente. A farinha “importada” é “traçada” (misturada) à produção local nas “fábricas” de farinha e comercializada.

Além das situações descritas acima, existem outras duas que complementam o quadro de desmantelamento das casas de farinha em Laje. Seguindo a lógica temporal, há que se mencionar a criação da Cooperativa Estratégica do Amido, em 2009. Em 2010, o setor primário daquele complexo agroindustrial entra em atividade. Em 2013, o preço da farinha de mandioca aumenta bruscamente86 (BRITO, 2014). Só

      

85 É possível ter uma noção do valor agregado ao amido de mandioca em relação a farinha a partir dos

dados sistematizados pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (CEPEA/ESALQ). Em dezembro de 2013, o CEPEA cotou uma tonelada de amido em R$ 2.799,74 e uma tonelada de farinha por R$ 545,58. (CEPEA/ESALQ/USP, 2013).

86 Segundo matéria publicada pela jornalista Juliana Brito, no jornal A Tarde, no início do segundo

semestre de 2012, o preço do saco com 50kg de farinha oscilava em torno de R$ 125,00. Contudo, no ano de 2013, houve aumento no preço da farinha. Essa alta foi provocada, em parte, pelas condições

131  para ter uma noção dessa alta, em dezembro de 2013, um saco de farinha (50 kg) era vendido pelos agricultores de Laje ao atravessador por R$ 250,00. No mês de fevereiro de 2014, esse mesmo saco passou a ser vendido por R$ 80,00. Em outubro de 2015, os 50 kg de farinha “saía das mãos” do agricultor por R$ 60,00 (TRABALHO DE CAMPO, 2013-2015).

O aumento repentino do valor da farinha foi causado pela seca que, por sua vez, provocou a escassez do produto no mercado. Diante desse quadro, alguns fazendeiros da região desfizeram parte dos pastos e plantaram mandioca. Inclusive, o Banco do Nordeste concedeu crédito para estimular essa produção (TRABALHO DE CAMPO, JUNHO DE 2015). Essa informação procede na medida em que o próprio Banco divulgou nota informando que investiria mais de R$ 350 milhões para crédito emergencial na linha “Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste-Estiagem”, em 201387. Parte desse recurso, mais especificamente R$ 200 milhões, seria

direcionado aos beneficiários do PRONAF. A outra parte, R$ 150 milhões, para produtores rurais não participantes do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar.

De acordo com o trabalho de campo, a aplicação dos recursos do PRONAF teria provocado um aumento na área plantada com mandioca, já que os fazendeiros teriam substituído uma parte do pastos por mandioca usando o crédito público. Parte desse crédito também teria sido acessado pelo campesinato. Porém, a liberação do recurso via PRONAF, passou a ser feita por etapas, ao invés de liberada de uma única vez antes de iniciar o plantio, e isso provocou o desinteresse dos agricultores familiares (TRABALHO DE CAMPO, AGOSTO DE 2016). Como os dados estatísticos não apontam uma ampliação da área cultivada com mandioca para Laje, entre 2009- 2014, imagina-se que os investimentos foram insuficientes.

Levada por essa mesma conjuntura, a COOPAMIDO, em articulação com a Cooperativa de Produtores Rurais de Presidente Tancredo Neves (COOPATAN), também passou a produzir farinha de mandioca. Inicialmente, de modo pontual até

      

climáticas. A seca “fez o preço da mandioca disparar nos últimos 18 meses”. A matéria, que expôs os dados do CEPEA da USP apontou que a “tonelada da raiz chegou ao final de 2013 ao valor médio de R$ 535,00 uma variação de 71% em relação a janeiro”. Contudo, a estimativa feita pela Associação Brasileira dos Produtores de Amido de Mandioca (ABAM) era a de que “esse valor tenha uma redução de 30% em 2014, reflexo da expansão de 9,8% da área plantada, podendo descer para R$ 300,00”. O que de fato ocorreu, pois entre dezembro e janeiro “houve uma queda no valor médio da raiz de 7,7%” (BRITO, 2014).

87 A matéria foi “Nordeste recebe crédito emergencial para minimizar efeitos da Seca”. Disponível em:

132  tornar essa prática comum entre as duas “Cooperativas”. O agricultor que concedeu a Entrevista 5, e que vive na comunidade de Ceasa, à beira da Rodovia BR 101, afirma

Dizem que a COOPAMIDO, é que esse projeto não era pra se fazer farinha. Esse projeto era pra fazer o amido e o resíduo da mandioca ia ser feito ração, farelo, alguma coisa assim, mas já tão se levando a mandioca pra COOPATAN pra fazer farinha (...) COOPAMIDO pra COOPATAN, que é tudo da mesma família. Porque de certeza eu já vi que eles trabalham num contêiner, né? naqueles cacambão, eu já vi passar o carro subindo e passar uma raiz de mandioca passando aqui sem querer, eu já vi, subindo. Poxa, se a fábrica não é lá é cá e gente no Entroncamento de Laje já viu, fica assim em cima do corte passando (...) (TRABALHO DE CAMPO, MARÇO DE 2014).

A Entrevista 14, com uma ex-cooperada, confirma o fabrico de farinha pelos cooperados da COOPAMIDO ao esclarecer que “Deixaro! Teve gente que fez até 10 sacos quando a farinha tava de R$ 500,00, eles deixara é, é...tirar e fizero um bom dinheiro” (TRABALHO DE CAMPO, MAIO DE 2014). Apesar disso, o presidente da COOPAMIDO, assegura que não fabricam farinha. O mesmo discurso foi adotado por um dos colaboradores da “Cooperativa” e que concedeu a Entrevista 12 (TRABALHO DE CAMPO, JUNHO E OUTUBRO DE 2013).

O projeto educacional e de geração de trabalho e renda da Fundação Odebrecht não foi o responsável pelo fechamento das casas de farinha em Laje. Essa situação até diverge de outros contextos em que a abertura de fecularias esteve relacionado com o fechamento de unidades produtivas onde se fabricava farinha, como ocorreu no Mato Grosso do Sul (COSTA, 2012). Entretanto, não se sabe até quando essa situação se manterá. Há uma forte tendência da Cooperativa Estratégica do Amido assumir o papel hoje exercido pelos estados do Centro-Sul do país, no que se refere a produção de amido e também de farinha de mandioca. As condições objetivas para isso já estão postas.

Nem mesmo o fato de existir uma premissa estratégica que afirme “não concorrer com o mercado local (farinha de mandioca)”, significa muita coisa. Não há garantias de que a CEA não provocará o fechamento de outras casas de farinha por três motivos. O primeiro, já apresentado, seria a “parceria” entre COOPATAN e COOPAMIDO. Em segundo lugar, como também já foi indicado, em 2015, finalizaram- se as obras da farinheira instalada na Fazenda Novo Horizonte Sede. E, por fim, as fazendas parceiras da COOPAMIDO estão espalhadas pelo município, o que pode

133  (futuramente) interferir na dinâmica das casas de farinha, especialmente da forma familiar.

É importante deixar claro que a Tese dá destaque aos contrastes entre produção familiar de mandioca e o sistema de produção proposto pela Odebrecht, além do suposto significado simbólico dessa mudança como “progresso”. Contudo, é preciso ter o cuidado de não atribuir ao projeto educacional e de geração de trabalho a ameaça exclusiva à reprodução da produção camponesa. A própria produção camponesa revela vários fatores que comprometem a continuidade da produção familiar, além da atuação da Cooperativa Estratégica do Amido, como: a própria fragmentação da estrutura agrária e a ameaça da produção industrial de outras regiões com custos menores. Ou, como será apresentado, a baixa participação dos jovens na produção familiar e não assimilação das práticas agrícolas por estes jovens, além da circulação da remuneração nas relações de trabalho, mesmo familiares.

Por fim, visando aprofundar a questão das formas espaciais onde se realiza o beneficiamento da mandioca, a próxima seção apresentará um perfil das casas de farinha de Laje, somente depois é que será discutido a forma familiar de fazer farinha nesse município.

3.2.1.1 Perfil das casas de farinha comunitárias em Laje (BA)

Como já sinalizado, durante o trabalho de campo, identificou-se parte das casas de farinha existentes no município de Laje. Algumas dessas unidades produtivas são comunitárias, como consta na “Relação de Bens Patrimoniais da Prefeitura Municipal de Laje em fevereiro de 2012”. Segundo o documento, no município existiriam 25 casas de farinha comunitárias construídas em 2008 com recursos públicos, conforme Tabela 9. Pelo documento, a construção das 25 unidades produtivas custou aos cofres públicos um total de R$ 287.344,04. Em média, cada casa de farinha teria sido R$ 11.493,76. Esse valor é incompatível com o orçado no documento “Projeto padrão