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As funcionalidades dos Institutos Industriais e Comerciais

2. A OPÇÃO DO ENSINO TÉCNICO

2.3 As funcionalidades dos Institutos Industriais e Comerciais

O aguardado Regulamento dos Institutos Industriais e Commerciais, aprovado a 3 de Feve- reiro de 188855

, materializava a desejada aplicação da legislação anterior. Vinte dias passa-

52 Diário do Governo n.º 34, 14 de Fevereiro de 1887, Art. 4.º 53 Referimo-nos às seguintes cadeiras:

_17.ª Desenho linear, de figura, ornato, paisagem do natural e modelação; _19.ª Desenho arquitectónico e topográfico. Cortes e plantas de minas; 54 Diário do Governo n.º 34, 14 de Fevereiro de 1887, Cap. V, Art. 39.º § 3.º

55 Diário do Governo n.º 32, 9 de Fevereiro de 1888. O decreto, exibia com louvável (e inédito) porme- nor, a organização detalhada dos cursos professados nos institutos. Assim, no ramo industrial, exibia-se a seguinte estrutura:

A) CURSOS ELEMENTARES DE: _ Operários de artes químicas; _ Operários de artes mecânicas; _ Operários de construções. B)CURSOS SECUNDÁRIOS DE: _ Mestres de artes químicas; _ Mestres de artes mecânicas; _ Mestres de obras.

C)CURSOS ESPECIAIS DE: _ Condutores de obras públicas; _ Condutores de minas;

_ Directores de fábrica, mecânicos; _ Directores de fábrica, químicos;

_ Construtores de máquinas e instrumentos de precisão; _ Correios e telégrafos;

_ Desenhadores.

Ao ramo comercial, atribuíam-se os seguintes cursos: A)Curso elementar de comércio;

dos56

, promulgava-se o Regulamento das Escolas Industriaes e de Desenho Industrial, intro- duzindo escassas novidades. As escolas preservavam a tarefa de leccionar o ensino do dese-

nho com applicação á industria ou industrias predominantes nas localidades onde se acha- rem estabelecidas. A colagem à legislação decretada por Aguiar havia quatro anos, era óbvia.

Navarro, mantinha a estrutura pedagógica já existente, estendendo-a a ambos os sexos. A aprendizagem do desenho industrial, acrescida de pequenas nuances, ganhava progressiva- mente em pendor artístico. O ramo ornamental, passava a acolher desenho de paisagem e copia de modelos do natural, disponibilizando mais duas novas aquisições: Conhecimento dos

estylos e noções de Composição. O ramo architectural, complementava-se com o Desenho á vista de modelos de architectura, e ao mechanico juntava-se a Composição e elaboração de projectos de machinas. Um facto positivo se consumava: os três ramos do desenho industrial,

limitados no tempo de Aguiar às escolas anexas aos museus de Lisboa e Porto, alcançavam agora presença garantida no currículo de todas as escolas.

A inclusão do ensino especial do desenho de figura, marcava uma declarada aproximação aos conteúdos programáticos dos cursos de Belas-Artes. Cópia de gessos (extremidades, ca-

beça e seus detalhes, meia estatua, figura inteira), panejamentos, desenho anatómico, Pro- porções, Desenho do natural, Modelação e escultura57

, integravam o percurso formativo do operariado, mas não de uma forma inocente. Na verdade, expressavam um sintoma de impas- se inerente ao nosso ensino industrial, sempre oscilante entre dois pólos: formar artistas ou meros industriais? O resultado era uma espécie de compromisso intermédio – o artista-artesão –, provável protótipo do primeiro designer.

Por seu turno, as escolas industriais assumiam uma transposição sem mácula, dos intentos delineados no decreto de finais de 86. Aliás, o objectivo das escolas parecia confundir-se com as motivações do próprio ensino industrial. Pelo menos, ambos concorrem para o mesmo fim: leccionar noções úteis aos operários, oferecer preparação para os cursos industriais e ministrar o ensino técnico teórico-prático a operários das manufacturas locais. Embora, na aparência algo mude, o intuito das escolas é sempre o mesmo: desenvolver as indústrias existentes.

A ligação das escolas com os museus desaparece. O inspector, outrora encarregue de sub- meter os programas criados pelo Conselho Escolar à apreciação da Direcção dos Museus,

C)Cursos especiais de:

_ Cônsules;

_ Verificadores de alfândega. D)Curso superior de comércio.

Para as estruturas de cada curso [ver anexo]

56 Decreto de 23 de Fevereiro de 1888 (Diário do Governo n.º 44, 24 de Fevereiro de 1888). 57 Idem, Art. 12.º 1.º

limita-se agora a apresentá-los directamente ao governo58

. Banido o intermediário responsável pela descentralização do ensino, perdia-se o apelo da especificidade local a favor da uniformi- zação curricular. O provimento do pessoal docente das escolas industriais e de desenho indus- trial – equiparado em categoria e honras aos professores dos lyceus centraes –, fazia-se por

concurso de provas publicas e documentaes A novidade do diploma, consistia na descrição ao

pormenor dos ditos exames59. O futuro professor de desenho via o seu ingresso dependente da

superação de diversas provações, incluindo a entrega de uma dissertação escripta versando uma temática relevante da cadeira em questão, a realização de um desenho de machinas em

papel, a execução e exposição na pedra de um desenho de architectura e a modelação em barro, de uma figura ou ornato, á escolha do jury.60

.

Sem surpresa, omitia-se a referência ao ensino normal, destinado por Aguiar à formação de futuros professores de desenho. A elisão – deveras criticável –, confirmava um afastamento anunciado: a profícua influência pedagógica das instituições anexas aos museus de Londres e Viena, sucumbia ao mais profundo letargo. Em substituição, promovia-se uma medida há muito enunciada, mas só agora posta em prática em larga escala: a contratação de professores estrangeiros61

. A ideia, advogada em 1879 por Rangel de Lima no periódico A Arte, fora fi- nalmente concretizada. Sobre os novos docentes, vindos essencialmente de Itália, da Alema- nha, da Áustria e da Suíça62

– países onde o ensino do desenho alcançara elevado nível evolu- tivo –, caía enorme expectativa.

58 vide decreto de 6 de Maio de 1884 (Diário do Governo n.º 103, 7 de Maio de 1884, Art. 15.º § 6 e Art.º 26 § 4.º) e decreto de 23 de Fevereiro de 1888 (Diário do Governo nº 44, 24 de Fevereiro de 1888, Art.º 75.º 1.º e Art. 98.º 10.º).

59 O decreto de 3 de Fevereiro de 1888 (Diário do Governo n.º 32, 9 de Fevereiro de 1888), também in- cluía a descrição das provas a que se deviam submeter os candidatos a lentes catedráticos, lentes auxilia- res e professores auxiliares de determinadas cadeiras.

60 Diário do Governo n.º 44, 24 de Fevereiro de 1888, Art.º 101.º

61 Já no decreto de 30 de Dezembro de 1852, Fontes Pereira de Melo previa a hipótese de contratar pro- fessores estrangeiros, promulgando: O Governo, se o julgar indispensavel, nomeará temporariamente

professores e mestres estrangeiros para constituir o ensino normal da industria. (Art.º 36). Passados

quase doze anos, João Crisóstomo de Abreu e Sousa reforçava a ideia expressa pelo anterior ministro, afirmando: Quando se não encontrarem pessoas com os requisitos necessarios para o ensino theorico e

pratico, é o governo auctorisado a procurar nos paizes estrangeiros individuos com as necessarias habi- litações; e poderá na conformidade do artigo anterior, emprega-los temporariamente no referido ensino.

(in Diário do Governo n.º1, 2 de janeiro de 1865, Art.º 32.º) O intento é renovado em 1884 pela mão de António Augusto Aguiar e, expresso novamente em 86 e 88 nos diplomas assinados por Navarro. 62 Os professores estrangeiros foram essencialmente contratados para ensinar desenho, embora algumas excepções se verifiquem. Na circunscrição do sul, no ano lectivo de 1887-88, a Escola Industrial das Caldas da Rainha recebia Carl von Bonhorst, para professar Química Industrial Aplicada à Cerâmica. Em 1888-89, o especialista alemão, transitava para a escola Marquês de Pombal em Lisboa, onde se haveria de juntar a mais três professores de desenho vindos de fora: os italianos Cesare Ianz e Cesare Formilli e o alemão Guido Richter. Nas Caldas da Rainha, Émile Possoz assumia o lugar de substituto de Karl Holthof, nas disciplinas de Química Industrial e Cerâmica.

No ano lectivo seguinte, a escola de Alcântara inaugurava uma oficina de ourivesaria e escultura em me- tal, dirigida pelo italiano Giovan Battista Christofanetti, a Escola Campos de Melo abria um curso de te-

Após ter criado várias escolas industriais e de desenho industrial63

, seguidas de diversa le- gislação sobre a matéria64

, o mandato de Navarro haveria ainda de produzir o Regulamento

dos Museus Industriais e Comerciais de Lisboa e Porto. O decreto de 19 de Novembro de

1888, exacerbava o fito pedagógico das instituições museológicas, aprumando simultanea- mente a sua estrutura. Cada museu ficava incumbido de proporcionar instrucção pratica pela

exposição permanente de bons padrões e modelos das artes industriaes de todos os paizes e de todos os estylos, sempre com o salutar intuito de educar o gosto de produtores e consumi-

dores, fazendo-os apreciar o que ha de valioso, de original e de caracteristico nas tradicções

celagem sob a orientação do suíço Martin Kuratlé e, no Funchal, a recém inaugurada Escola Josefa de Óbidos, atribuia a cadeira de desenho ao austríaco Hans Nowack. Pelas escolas da província, dispersa- vam-se ainda os seguintes professores de desenho: o suíço Joseph Bielmann em Leiria e os alemães Hu- go Richter nas Caldas da Rainha, Theodore Rogge em Setúbal, Adolph Haussmann em Torres Novas, Jo- seph Füller em Tomar e Edward Wustner na Covilhã. Xabregas admitia o italiano Nicola Bigaglia (De- senho).

Na circunscrição do norte, a escola Infante D. Henrique no Porto, recebia logo no ano lectivo de 1889-90, três docentes italianos: Giuseppe Cellini (Desenho), Michelangelo Soà (Desenho Arquitectónico) e Victtorio Fiorentini (Desenho de Máquinas). A Escola Brotero em Coimbra, contratava o italiano Leo- poldo Battistini (Desenho Ornamental), os austríacos Émile Jock (Desenho de Máquinas, Física e Mecâ- nica) e Hans Dickel (Desenho Arquitectónico) e o francês Charles Lepierre (Química Industrial). Um vasto grupo de suíços, disseminava-se pelas escolas nortenhas: Bragança contratava Walter Müller para professor de desenho, Chaves atribuía a disciplina de Desenho Decorativo a Gerard von Rickon e Braga acolhia Ernest Korrodi (Desenho Ornamental), August Stamm (Desenho Arquitectónico) e Robert Roginmoser (Desenho de Máquinas). Por seu turno, a escola de Guimarães contratava o austríaco Alfred Schwartz (Desenho de Máquinas), o alemão Paul von Wagner (Desenho Decorativo aplicado à decoração de tecidos) e o belga Martin Albert Edouard Braun (mestre de fiação e tecelagem).

A ausência de professores oriundos de França, ficou a dever-se à escassez de bons docentes de desenho nas escolas desse país. Recorde-se que ao longo deste período a França debateu-se com uma profunda es- cassez de bons docentes de desenho. O fracasso das artes decorativas francesas na Exposição de 1889, te- rá finalmente imposto uma nova política educativa, baseada na remodelação do ensino normal do dese- nho.

63 Por decreto de 4 de Agosto de 1887, Emídio Navarro, funda a escola de desenho industrial de Peniche,

destinada a ministrar o ensino do desenho com applicação á industria em geral e em especial ao fabrico das rendas (in Decretos Creando Escolas Industriaes e Escolas de Desenho Industrial, Ministério das

Obras Publicas, Commercio e Industria, Lisboa, 1888, p. 6) e a escola industrial das Caldas da Rainha (neste caso, incorporando a aula de desenho industrial criada a 3 de Janeiro de 1884). Diversos decretos datados de 13 de Junho de 1888 (Diário do Governo n.º 185, 16 de Agosto de 1888), consagram a passa- gem das escolas de desenho industrial Marquês de Pombal (Alcântara) e Faria Guimarães (Porto) a esco- las industriais. Aprova ainda a criação de oito escolas de desenho industrial em Bragança, Faro, Figueira da Foz, Leiria, Setúbal, Viana do Castelo e Vila Real. Três decretos de 10 de Janeiro de 1889 (Diário do Governo n.º 44, 23 de Fevereiro de 1889), elevam as escolas de desenho industrial de Braga e de Coim- bra (Brotero) a escolas industriais, criando igualmente uma escola de desenho industrial no Funchal e ou- tra em Matosinhos. Junto a cada uma das escolas estabeleceram-se pequenas oficinas.

64 A 23 de Abril de 1888 (Diário do Governo n.º 93, 24 de Abril de 1888), Navarro segue o exemplo de Aguiar, atribuindo às novas escolas, os seguintes nomes: Rainha D. Maria Pia à de Peniche, Princesa D.

Amélia à de Setúbal, Pedro Nunes à de Faro e Domingos Sequeira à de Leiria. Dois decretos de 13 de Ju-

nho desse mesmo ano (Diário do Governo n.º 185, 16 de Agosto de 1888), definem a introdução de mais duas disciplinas – Princípios de Física e Elementos de Mecânica e Língua Francesa – no currículo da Es- cola Industrial Francisco de Holanda (Guimarães) e francês no elenco de cadeiras da Escola Industrial Campos de Melo (Covilhã). A 10 de Janeiro de 1889 (Diário do Governo n.º 44, 23 de Fevereiro de 1889), estendia-se igualmente a Língua Francesa à Escola Industrial Faria Guimarães (Porto).

artisticas da industria nacional65

. Seguia-se a tarefa de patentear a história das indústrias e artes industriais, sobretudo em terreno pátrio, dando a conhecer as suas origens, processos de trabalho e progressos, por meio de collecções retrospectivas de ferramentas, utensilios, ma-

chinismos e productos (originais ou reproducções)66

. Munidos de oficinas de reprodução gráfica e em gesso, os museus encontravam-se aptos a (re)produzir, toda a sorte de modelos para o ensino do desenho, sem descurar a ampliação do seu próprio acervo. Integrando uma via de progresso, passavam também a dispor de colecções itenerantes, em prol da democrati- zação dos espécimes industriais.

Às originárias secções industrial e comercial, acrescentava-se uma terceira vocacionada pa- ra o espólio da arte industrial, sujeita às rigorosas regras de apresentação e catalogação, her- dadas de decretos anteriores. O espírito nacionalista da época, reforçava antigos imperativos: coleccionar os designados typos nacionais, bem presentes nos produtos de inúmeras indústrias caseiras. Viajar pelo país em busca da vernacular criação popular, revelava-se um procedi- mento necessário e deveras útil, não só à salvaguarda dum património inestimável, mas à avaliação dos benefícios do ensino do desenho industrial e da modelação, nas localidades onde fora estabelecido. Das excursões pela província, nem sempre fáceis e por vezes ingratas, resultava uma espécie de cartografia da produção nacional: uma rede de objectos que se dese- java, perfeitamente documentada.

Com Emídio Navarro, estreitava-se a ligação das escolas com os museus. Aguiar batera-se sobretudo por uma aproximação aos cânones estrangeiros, mimetizando os seus modelos de ensino, sempre na expectativa de difundir à escala nacional os profícuos feitos das indústrias estrangeiras. Navarro, aprimora os pressupostos de Aguiar, lançando uma estratégia política em prol da instrução artística dos operários, a bem da elevação do objecto industrial, revelan- do preocupações tipicamente finisseculares, no cultivado apego à produção pátria. Movia-os um objectivo comum: estimular a competitividade da nossa indústria, criando as condições necessárias para a implantação de um ainda pré-design industrial. Excepção feita a pequenos pormenores – como a almejada descentralização do ensino, cuja materialização nunca se veio a cumprir –, os mandatos de Aguiar e Navarro coincidiam, em diversos pontos, com o pro- grama proposto por Vasconcelos, havia cerca de dez anos. Apesar da euforia legislativa e do consequente impulso dado às escolas industriais e de desenho industrial, como se explica o

65 Diário do Governo n.º 15, 18 de Janeiro de 1889, Regulamento dos Museus Industriaes e Commerciaes, Cap. I, Artigo 1.º d).

malfadado insucesso da nossa industrialização? Dever-se ia à falta de desenho ou de projecto, ou, simplesmente, a algo mais?

Certo é que em 1890, a propósito da criação do Ministério da Instrução Pública, João Fran- co reiterava uma ideia transversal ao pensamento oitocentista: um povo sem instrucção é defi-

ciente, não póde occupar condignamente o logar que deve ambicionar entre as nações cultas, prosperas e independentes da epocha moderna. A via do progresso, associada por herança

iluminísta à educação, pouco alento imprimira ao país. Apesar do esforço, Portugal continua- va a ser – sem nenhum rasgo de surpresa –, um dos povos da Europa menos adiantados na

diffusão da instrucção publica pelas classes populares. E, mais se acrescentava: as bellas artes são o ornamento da cultura intellectual, e o seu estudo e a difusão do gosto que ellas trazem consigo não são tambem causas indifferentes ao progresso industrial. N’este ramo, a nossa inferioridade é ainda maior do que no da instrucção propriamente dita67

.