2. A OPÇÃO DO ENSINO TÉCNICO
2.2. Os ecos de Kensington: os Museus Industriais e Comerciais e as Escolas de Desenho
O inquérito, decretado a 7 de Junho de 1881 por Hintze Ribeiro, vinha finalmente materia- lizar um ensejo ha muito reclamado pela opinião publica. Baseado numa série de depoimen- tos sobre o estado, condições e necessidades da indústria nacional, o inquérito pretendia pers- crutar antes de deliberar: medida salutar, mas assaz superficial num panorâma industrial já por si profundamente desolador. À inconsequência das medidas tomadas, acrescia-se uma reali- dade progressivamente mais óbvia: a falência do ensino técnico profissional.
António Augusto Aguiar, como membro activo da comissão central directora dos traba- lhos do inquérito, não era de todo alheio a esse facto. Ao ser indigitado Ministro das Obras Públicas, depressa referenda novos decretos, na esperança de dissipar o usual estigma de atra- so que sempre ensombrou o ensino nacional nas suas diversas especialidades.
Vasconcelos que pugnara por uma reforma eficaz do ensino do desenho aplicado à indús- tria, expondo a metodologia utilizada nos principais países europeus, via agora parte das suas ambições cumpridas, com a criação a 24 de Dezembro de 188329
, dos museus industriais e comerciais de Lisboa e do Porto30
. Considerados um complemento indispensavel dos conhe-
cimentos obtidos nas escolas especiaes, os museus tinham por objectivo adquirir e expor ao publico collecções de productos e materias primas, acompanhadas de informações úteis sobre
o seu valor e aplicação31
.
A 3 de Janeiro de 1884, o ministro promulgava a criação de uma escola industrial na Covi- lhã, e oito escolas de desenho industrial em pontos nevrálgicos do país. Às principais capitais do reino atribuíam-se três instituições. Lisboa, recebia uma escola em Alcântara, outra em Belém, anexa ao Museu Industrial e Comercial, prevendo-se ainda a instalação de uma tercei- ra em qualquer dos centros fabris da cidade. A mesma lógica se aplicava ao Porto: uma escola no Bonfim, outra perto do Museu e uma última a inaugurar em área industrial a definir. Por fim, fundavam-se escolas nas Caldas da Rainha e em Coimbra. Os recém criados estabeleci- mentos leccionavam desenho exclusivamente industrial e com applicação á industria ou in-
dustrias predominantes nas localidades onde são estabelecidas. Assegurava-se igualmente, a
formação de novas escolas de desenho industrial onde a necessidade assim o ditasse32
. Tudo, em prol da instrução (essencialmente prática) do artífice, com o intento de o habilitar a produ-
zir em condições indispensaveis de barateza e perfeição.
Ora, a 6 de Maio do mesmo ano aprovava-se simultaneamente o Regulamento Geral das
Escolas Industriaes e de Desenho Industrial e dos Museus Industriaes e Commerciaes, aos
quais se atribuía um leque de finalidades complementares:
As escolas instituídas pelo Decreto de 3 de Janeiro de 1884, combinadamente com os museus industriaes e commerciais creados pelo decreto de 24 de De-
29 Diário do Governo nº. 297, 31 de Dezembro de 1883.
30 Segundo o Art. 1º. § 1.º, o museu da capital seria estabelecido no edifício da Real Casa Pia de Lisboa e o do Porto em qualquer edificio do estado, que, para este fim, possa ser aproveitado. Estes seriam extin- tos no final do século pelo decreto de 23 de Dezembro de 1899.
31 Os espécimes expostos deviam fazer-se acompanhar de completa rotulagem, incluindo as indicações de proveniência, produção, preço inicial, transportes e centros de consumo.
32 Diário do Governo nº 5, 7 de Janeiro de 1884, Art. 3º. § unico. O decreto determinava ainda, a divisão do país em duas circunscrições, Norte e Sul, para as quais seriam nomeados dois inspectores escolhidos
zembro de 1883, têm por fim lançar os primeiros lineamentos de uma institui- ção análoga ao real-imperial museu austríaco de Arte e Indústria, em Vienna, e ao museu inglês de South Kensington, promovendo a restauração do ensino industrial e tomando como ponto de partida para esse fim a difusão do ensino racional do desenho elementar e do desenho industrial.33
António Augusto Aguiar, visitante entusiasta do célebre museu londrino, decidira transpor para a realidade nacional, os métodos de ensino aí observados. Divididos em duas secções – nacional e estrangeira –, os museus adoptavam o carácter de exposições permanentes, consti- tuídas por amostras de espécimes industriais e comerciais, fornecidas (sempre que possível) pelos próprios fabricantes. A produção industrializada, fazia-se acompanhar de uma série de protótipos elucidativos do seu processo de fabrico, revelando o objecto em progressivas fazes de materialização. Aos directores e conservadores cabia a tarefa de organizar colecções, dota- das do mais completo manancial de matérias primas e produtos industriais, sem descurar o importante espólio regional provindo das diversas indústrias caseiras34
. Para o fim de coligir exemplares da pequena indústria, o governo ordenará ás auctoridades da sua dependencia,
que attendam aos pedidos e instrucções das direcções dos museus, sendo esse serviço consi- derado como official35
. Os acervos acolhiam ainda, quaesquer objectos aproveitaveis, (restos
de antigas collecções, duplicados do museu colonial, etc.), incluindo as copias de todos os
33 Diário do Governo nº 103, 7 de Maio de 1884, Regulamento Geral das Escolas Industriais e Escolas
de Desenho Industrial, Cap. I, Art.1.º
34 À semelhança da divisão do ensino em circunscrição Norte e Sul, também os museus obedeciam a essa divisão. Segundo o Art.º 6 do decreto de 6 de Maio de 1884: Na zona nacional metropolitana cada um
dos museus abrirá uma secção especial regional, que será constituida:
Para o museu de Lisboa, pelos districtos de Faro, Beja, Evora, Portalegre, Santarem, Leiria, Lisboa, Castello Branco, com o das ilhas adjacentes, Funchal, Angra, Horta e Ponta Delgada; e
Para o museu do Porto, pelos districtos de Vianna, Villa Real, Braga, Porto, Bragança, Aveiro, Coim- bra, Vizeu e Guarda.
35 Diário do Governo nº 103, 7 de Maio de 1884, Regulamento dos Museus Industriais e Commerciaes, Cap. II, Art.12.º
Recorde-se que Joaquim de Vasconcelos antes de ter sido nomeado director do Museu Industrial do Porto em 1889, exerceu durante cinco anos o cargo de Conservador da mesma instituição. Numa carta datada de 13 de Dezembro de 1884, endereçada a António Augusto Gonçalves, com quem manteve uma estreita amizade, o historiador dava conta das complicadas peregrinações pelo país em busca de produtos das pe- quenas indústrias. Atentemos ao seu testemunho:
” […] O Governo quer o despacho das circulares prompto até fins de Dezembro, porque deseja mandar- me em expedição ás provincias da circunscripção do Norte (que se estende até á Guarda e Coimbra como sabe) p.ª colleccionar especialmente os productos das indústrias caseiras. Dão-me só um mez; porque o Gov.no (Sr. Aguiar) pretende abrir o Museu em fins de Fevereiro; deste modo teria só 30 dias p.ª uma via- gem por quatro provincias, incluindo Traz-os-Montes, que é como se estivesse no centro de Africa, com tres provincias do Sul e p.ª uma só industria (ceramica) gastei em 1882 trez mezes e meio. Elles nem sa- bem o que são, e o que significam as industriais caseiras; que não ha quasi nada feito; que é preciso en- commendar tudo, esperar e gastar m.to tempo p.ª se saber primeiro: a quem se pode pedir, como se deve
pedir, e antes de tudo: onde estão as cousas, e se a gente popular está disposta a mostrar os seus segre-
projectos e memorias descriptivas dos apparelhos a que já tenham sido ou forem concedidas patentes de invenção.36
As escolas de desenho criadas junto dos museus estavam destinadas a permanecer dentro dos seus recintos e subordinadas às suas respectivas direcções37
. Muito ao sabor da geração de 90, os cursos de desenho aí ministrados deviam apresentar tanto quanto possivel, um caracter
util e nacionalista, inspirando-se nos modelos e fórmas artisticas dos objectos da industria tradicional popular38
. A criação de prelecções ou cursos industriaes, liderada por convidados de aptidão reconhecida, constituía o louvável remate do ideário enunciado.
O novo projecto reformista dividia a aprendizagem do desenho em dois graus distintos: elementar ou geral e industrial ou especial. O primeiro destinava-se essencialmente a crianças com menos de doze anos (idade considerada propícia ao ingresso no aprendizado fabril ou profissional), o segundo fora pensado sobretudo para adultos, aprendizes ou mestres de várias indústrias e ofícios39
. O ensino elementar compreendia duas classes: preparatória e comple- mentar. A classe preparatória levará os alumnos até ao ponto de desenharem francamente á
vista os contornos dos objectos (desenho linear á vista) com uma observação exacta e rapi- da.40
Os aprendizes, iniciavam-se no traçado de linhas rectas e curvas (isoladamente e em conjunto), até se acharem aptos a representar figuras planas combinadas de ambas. Por fim, dedicavam-se ao esboço de objectos sólidos, trabalhando os contornos e a perspectiva, de modo a alcançar uma noção da belleza da fórma, procurada especialmente em objectos de
uso commum. Modelos sólidos, estampas e quadros parietais, serviam de referência ao dese-
nho, executado sempre (e preferencialmente) com o auxílio de lousas stymographicas. Dese- nhava-se, alternando os métodos de ensino (ditado, de memória, de invenção, a tempo fixo, etc.) conforme a indole, aptidão e preferencia dos alumnos, e os resultados praticamente
obtidos pela experiencia.
A classe complementar levantava acrescidas dificuldades, apurando por via da prática o
conhecimento e aptidão do desenho linear á vista.41
Os discípulos, incitados a desenvolver a sua capacidade de observação, exploravam a representação de elementos do ornato vegetal e
geometrico, combinando as duas especies. Seguia-se o aperfeiçoamento da perspectiva, o
36 Diário do Governo nº 103, 7 de Maio de 1884, Regulamento dos Museus Industriais e Commerciaes, Cap. II, Art.14.º e 15.º
37 Idem, Cap. III, Art. 17.º 38 Idem, Cap. III, Art.18.º
39 Diário do Governo nº 103, 7 de Maio de 1884, Regulamento Geral das Escolas Industriais e Escolas
de Desenho Industrial, Cap. II, Art. 4.º
40 Idem, Art. 6.º 41 Idem, Art. 7.º
estudo do claro-escuro e da teoria das cores, de fórma que os alumnos, ao terminarem o cur-
so, possam reproduzir á vista qualquer objecto, não já somente nas suas linhas ou contornos, mas tambem na sua apparencia real. A metodologia preconizada, incluía a presença do con-
troverso papel stymographico, em amarelo ou cinza, sobre o qual actuavam diversos meios riscadores: desde o carvão, ao lápis preto, branco e de cor.
Por sua vez, o ensino industrial ou especial do desenho, dividia-se em três cursos bienais –
ornamental, architectural e mechanico –, todos de carácter essencialmente prático e tanto quanto possivel experimental. Com óbvia naturalidade, desenhar constituía uma actividade
dominante nas estruturas curriculares então projectadas. O ramo ornamental dispunha de duas disciplinas comuns aos restantes cursos: desenho geométrico, rigoroso (auxiliado pelos devi- dos instrumentos de precisão) e noções de perspectiva e aguadas, às quais se acrescia o dese- nho de ornato (respeitante a elementos naturais e geométricos)42
. O desenho arquitectónico (incluindo ornatos) e o topográfico, perfaziam o ramo architectural, orientado para a elabora-
ção de cortes, plantas, perfis, projecções, detalhes e épures, sem descurar o emprego das tintas convencionaes43
. No ramo mecânico, alternava-se entre o desenho á vista de machinas e apparelhos industriaes, em croquis exactos e rapidos e a construcção minuciosa e geral de machinas motoras e industriais44
.
A mimese dos modelos estrangeiros fazia-se estruturando o ensino em três níveis distintos: primeiro incentivava-se a frequência das escolas de desenho, seguidas das escolas industriais e posteriormente das escolas de aplicação anexas aos museus de Lisboa e Porto. As oito esco- las previstas no decreto de 3 de Janeiro (vocacionadas para a aprendizagem do desenho ele-
42 A completar as cadeiras de desenho, incluía-se o estudo da modelação – em cera ou barro, de figuras,
animais, flores, frutos, etc,– constituía uma estreia da tridimensão nos currículos industriais. E mais se
acrescentava: Os aprendizes e officiaes bordadores, tecelões de lã, linho, algodão e seda, os estampado-
res, os fabricantes de oleados, de papeis de casa, etc., aos quaes basta o conhecimento do desenho em plano, poderão ser dispensados do estudo da modelação. (in Diário do Governo n.º 103, 7 de Maio de
1884, Art. 9.º § 2.º) O curso do ramo ornamental, estava especialmente destinado aos aprendizes e offici-
aes estucadores, pintores, douradores, lythographos, gravadores, encadernadores, correeiros, esculpto- res em madeira ou pedra, marceneiros, entalhadores, torneiros, serralheiros, ourives, louceiros, e em geral aos que directamente reclamam o conhecimento do desenho completado pela modelação. (Idem,
Art. 8.º § 1). Aqui se encontram alguns ofícios, antepassados do actual design de comunicação. No decre- to assinado por João Franco a 8 de Outubro de 1891, também os tipógrafos passam a constar da listagem de profissões a que se destina o ramo ornamental. (in Diário do Governo n º 227, 9 de Outubro de 1891, Art. 119.º § 1.º).
43 Para além, das referidas disciplinas, leccionava-se estereotomia e corte de madeiras para construção. O curso do ramo architectural é especialmente applicado aos aprendizes e officiaes de pedreiro e carpin-
teiro, quer de casas, quer de machado, aos mestres de obras, aos constructores navaes, aos architectos, agrimensores, etc. (in Diário do Governo n.º 103, 7 de Maio de 1884, Art. 10.º).
44 O decreto advertia: Este curso é especialmente applicado aos aprendizes e officiaes serralheiros, mon-
tadores e ajustadores, machinistas, relojoeiros, telegraphistas, etc. (in Diário do Governo n.º 103, 7 de
mentar nos seus dois graus), passavam a 13 no Regulamento agora firmado45
, convertendo-se
nos nucleos das escolas industriaes futuras. Quanto à recém criada escola industrial da Covi-
lhã (projecto ainda isolado), decretava-se – para além da já enunciada presença do desenho –, a introdução de novas matérias, como a geometria elementar e a contabilidade industrial, a química e a aritmética46.
Mas, segundo António Arroio, um desastroso facto escapara a António Augusto de Aguiar:
a não separação do ensino do desenho industrial, ou de precisão, do desenho de arte indus- trial, ou desenho livre.47
O crítico abordava uma questão, cuja pertinência Vasconcelos de- monstrara, muito antes do ministro assumir a pasta das Obras Públicas. Perpetuar tamanho erro, parecia contaminar uma certa ideia de ensino industrial, baseada no asséptico predomí- nio da técnica. Arroio queixava-se da extraordinária valorização do ensino artístico em detri- mento do ensino propriamente industrial, aliás bem visível na forma como se atribuía a direc-
ção das escolas industriaes a artistas, e não a engenheiros, como deveria fazer-se. Nomear
artistas para leccionar desenho industrial era outra prática profundamente absurda e, a avaliar pelas circunstâncias, de todo a evitar:
Porque o artista nem tem a comprehensão das necessidades industriaes, nem pode conceber a pedagogia respectiva; o seu espirito, dirigido num caminho de processos intuitivos, é completamente avesso a esse outro campo de activi- dade mental.48
À apregoada especialização do ensino, Aguiar respondia com a unificação de saberes. E não seria essa uma medida correcta, positiva? O crítico parecia olvidar um pequeno pormenor:
45 As cadeiras de desenho também designadas no próprio decreto de escolas, apresentavam a seguinte distribuição geográfica: Belém (junto ao Museu de Lisboa), Alcântara, Xabregas, Vilar (Palácio de Cris- tal, junto ao Museu do Porto), Bonfim, Vila Nova de Gaia, Coimbra, Caldas da Rainha, Covilhã, Portale- gre, Tomar, Guimarães e Torres Novas. (in, Diário do Governo n.º 103, 7 de Maio de 1884, Art. 12.º). A 9 de Outubro de 1884 (Diário do Governo n.º 234, 14 de Outubro de 1884) Aguiar decretava que às oi- to escolas da circunscrição do sul, fossem atribuídos os seguintes nomes: Gil Vicente à de Belém, Mar-
quês de Pombal à de Alcântara, Afonso Domingues à de Xabregas, Rainha D. Leonor à das Caldas da Ra-
inha, Victorino Damásio à de Torres Novas, Jácome Ratton à de Tomar, Campos de Melo à da Covilhã e
Fradesso da Silveira à de Portalegre . Por decreto de 5 de Dezembro de 1884 (Diário do Governo n.º
282, 11 de Dezembro de 1884) o ministro determinava que as escolas da circunscrição do norte passas- sem a designar-se da seguinte forma: Infante D. Henrique a de Vilar, Passos Manuel a de Gaia, Faria
Guimarães a de Bonfim, Brotero a de Coimbra e Francisco de Holanda a de Guimarães.
46 O seguinte artigo dava continuidade ao leque de disciplinas estabelecidas. Atentemos ao seu conteúdo:
Na escola da Covilhã, bem como nas que sucessivamente se forem creando, juntar-se-hão, ás cadeiras acima mencionadas, em tempo devido e com auctorisação do parlamento, cadeiras de geographia com- mercial e demographica, e de geologia applicada á industria (in, Diário do Governo 103, 7 de Maio de
1884, Art. 23.º § 2.º).
A última escola criada por António Augusto Aguiar foi a escola de desenho industrial de Braga, a 11 de Dezembro de 1884 ( Diário do Governo n.º 288, 18 de Dezembro de 1884).
47 Arroio, António José, Relatórios sobre o Ensino Elementar industrial e Comercial, Lisboa, 1911, p.14. 48 Idem, p. 314.
o ensino industrial da época tinha como objectivo premente (pelo menos teoricamente), indu- zir à criação de objectos inovadores, sem desvirtuar o binómio forma-função. Ora, nesse con- texto a coabitação com a expressão artística podia revelar-se um poderoso aliado da criação industrial. Ou, fazendo juz aos comentários de Arroio, constituia apenas um gerador de malo- gradas indefinições? Uma coisa é certa, nesse tempo o ensino do desenho continuava a agluti- nar duas orientações distintas: uma de carácter mais livre, moldada pelo género de Belas- Artes e outra rigorosa, baseada nos processos antiquados e absolutamente improficuos das
nossas Polytechnicas e Institutos.49
Ao contrário do intuito de António Arroio, o cerne do problema ultrapassava a bipolarização do desenho industrial, prendendo-se antes a uma inca- pacidade de aproveitar a influência da arte em proveito da indústria.
Os equívocos estendiam-se igualmente à estranha presença do desenho architectural (per- tença das Escolas de Belas-Artes) nos currículos das instituições industriais. Arroio, sugeria a sua substituição pelo desenho rigorososo da construcção civil ou a sua inclusão no ensino das
artes decorativas, temática ostensivamente ignorada nos programas escolares. Mas nem tudo
na legislação de Aguiar, desalentava o nosso crítico. Algo de positivo se incluía no paradig- mático decreto de 6 de Maio:
As duas escolas de desenho creadas junto aos museus de Lisboa e Porto, e nas quaes se professam por completo todos os ramos do ensino de desenho indus- trial, tornar-se-hão, com auctorisação do parlamento, e quando as circumstan- cias o permittam, em escolas normaes de ensino de desenho e artes industria- es, alargando-se-lhes os programmas e o quadro professoral. Estas duas esco- las serão destinadas a crear o pessoal de professores que de futuro ha de exer- cer por todo o reino o ensino de desenho e artes industriaes.50
Aguiar, que conhecia de sobremaneira os frutos alcançados pela escola anexa ao Museu de South Kensington, tentava transpor para a realidade nacional a metodologia aí observada na formação de docentes de desenho. Ainda assim, mantinha-se (e manter-se-ia por longo tem- po), como opinava António Arroio, uma completa desorientação na comprehensão do dese-
nho e do que no estrangeiro se avançara nesta especialidade.51
Emídio Navarro, fiel sucessor da política de Aguiar, assume com esmerado afinco a tarefa de incrementar o ensino industrial. Logo em 1886, assina uma série de decretos onde define o
Regulamento provisorio para o ensino profissional nas oficinas anexas às escolas Fradesso da
Silveira, Gil Vicente, Marquês de Pombal e Afonso Domingues.
49 Idem, p. 20.
50 Diário do Governo n.º 103, 7 de Maio de 1884, Art.º 32.º
51 Arroio, António José, Relatórios sobre o Ensino Elementar industrial e Comercial, Lisboa, 1911, p. 15.
A 30 de Dezembro de 1886, fazia aprovar o Plano de Organização do Ensino Industrial e
Comercial, a ser professado nas instituições habituais: institutos e escolas industriais e de
desenho industrial. Mantendo uma estrutura praticamente imutável na essência, faseia o ensi- no industrial em três estágios consensuais: elementar, destinado a ministrar noções uteis aos
operarios e communs a todas as artes e officios ou especiaes a certas industrias, preparatório, destinado a dar instrucção preliminar necessaria aos individuos que se dediquem aos cursos especiaes e por fim o especial, destinado a habilitar pessoal technico para determinadas especialidades da industria ou do serviço do estado52
. O Ensino Comercial adoptava a mesma divisão, apenas com a particularidade da sua aprendizagem se cingir aos institutos industriais e comerciais. O desenho marcava presença no currículo dos institutos nas variantes habituais: o desenho rigoroso, de machinas, construcção de peças elementares e respectiva technologia, ficava entregue a engenheiros; o de expressão mais livre53
(contrariando os argumentos de Arroio), exigia professores com o curso completo de desenho na academia das bellas artes de
Lisboa ou Porto ou equiparação afim54
.