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As infra-estruturas de interesse coletivo

A execução de infra-estruturas de interesse coletivo é um elemento essencial para que os agricultores possam modificar os seus sistemas de produção. O aumento da produtividade do trabalho agrícola não raro está condicionado à implantação de novas infra-estruturas destinadas a facilitar o abastecimento de insumos, a proteção dos materiais, o controle da água, a proteção e a recuperação dos solos, o armazenamento e a conservação das colheitas, a comercialização e a transformação dos produtos, etc.

Muitos são os autores de projetos que dão prioridade à construção de infra-estruturas porque elas aparecem como realizações concretas e as pessoas podem perceber a sua existência por longos anos. Ademais, a sua execução depende tão somente de procedimentos técnicos diretos, sob controle direto assegurado pelos engenheiros encarregados, obedecendo a um cronograma que não está condicionado à boa vontade de um conjun- to significativo de camponeses. O problema é que, na maioria das vezes, as condições que seriam necessárias para que essas novas infra-estruturas pudessem vir a ser plenamente utilizadas pelos seus beneficiários acabam ficando em segundo plano. É muito comum, entre os técnicos, a tentação de se querer realizar obras de grande vulto, dotadas de equipamentos sofis- ticados. Todavia, esse tipo de investimento acaba imobilizando uma quan- tidade enorme de capital para infra-estruturas que depois só serão parcialmente utilizadas. Assim se explicam os inúmeros “elefantes brancos” cuja existência tem sido denunciada em quase todos os países do terceiro mundo: estradas de cascalho utilizadas apenas por pedestres e animais de tração, usinas de transformação que esperam pelas matérias-primas agríco- las, barragens-reservatórios cuja água represada não pode ser levada até os lotes, etc.

As infra-estruturas relacionadas com a hidráulica agrícola são geral- mente consideradas como o meio privilegiado de possibilitar aos agricul- tores a intensificação das suas atividades, sem o risco dos seus esforços virem a ser brutalmente reduzidos a nada, devido a acidentes climáticos.

A drenagem e a irrigação podem contribuir para regularizar e aumentar a produção agrícola através da redução significativa dos riscos de inundação e de secas nas parcelas cultivadas. Assim, as variedades da “revolução ver- de” têm sido preferencialmente cultivadas, recorrendo-se aos fertilizantes químicos e produtos fitossanitários, nas regiões do mundo onde o controle da água tem sido previamente garantido. Entretanto é preciso lembrar que, até hoje, inúmeras obras hidro-agrícolas só vêm funcionando muito abaixo da sua capacidade. A história tem provado que tais obras só podem ser plenamente utilizadas se a distribuição de água e a manutenção das infra- estruturas estiverem subordinadas a uma organização rigorosa e livremente estabelecida. Todavia, isso também não funciona nos perímetros irrigados onde reina a insegurança a propósito da posse e uso das terras e onde existem fortes desigualdades sociais.

A experiência mostra que as populações envolvidas nas questões relacionadas com o controle da água devem se engajar nos projetos, desde a sua elaboração, a fim de que o traçado das obras e as normas relativas à posterior repartição da água, à manutenção dos equipamentos e ao paga- mento das despesas concernentes, sejam definidas desde o início, de co- mum acordo, entre os diversos produtores. Os projetos hidro-agrícolas mais bem administrados e mais eficientes são aqueles para os quais existem ver- dadeiras associações de usuários, organizados por setores, e cujos repre- sentantes democraticamente eleitos reúnem-se regularmente para fixar ou atualizar de comum acordo os direitos e deveres de cada um. Mas tais associações só conseguem funcionar se as desigualdades sociais e as con- tradições de interesses não forem demasiadamente fortes. As obras de pe- queno porte são, em geral, muito mais fáceis de administrar do que as de grande porte.

As infra-estruturas destinadas à proteção e recuperação dos solos de- vem ser escolhidas e planejadas dentro do mesmo espírito. Convém man- ter uma atitude pragmática, sem perder de vista os objetivos efetivamente realizáveis apenas para atender aos princípios tecnocráticos. Com efeito, é quase sempre necessário buscar um compromisso entre o “ideal” técnico e as limitações camponesas. O planejamento das diversas obras destinadas a sistematizar as bacias vertentes e os terrenos encharcados (barreiras anti- erosão, cais de proteção, canais de desvio, sustentação de colinas, taludes, terraços, barragens...) deve cuidar para que as operações agrícolas e o des- locamento dos animais não venham a ser de nenhum modo dificultados,

ao contrário, devem até ser facilitados. O desejo de ver realizada uma in- tervenção completa na totalidade de um terreno encharcado ou de uma bacia vertente não deve fazer esquecer as conseqüências para o produtor e sua parcela cujas bordas não correspondem necessariamente a limites topográficos. Mesmo assim, nada indica que o critério hidrogeográfico, por si só, seja capaz de delimitar as melhores unidades de planejamento desti- nado à conservação das águas e dos solos, considerando que elas podem não coincidir, nem um pouco, com o território correspondente à área de influência da comunidade. Alguns fundos de pasto chegam a atravessar vá- rias bacias vertentes e os diversos agricultores de uma mesma várzea po- dem não ter interesse em cultivar plantas com as mesmas exigências. Em todo caso, é importante começar as obras somente depois de se ter conse- guido um amplo consenso sobre as modalidades concretas a serem introduzidas e posteriormente utilizadas nas áreas beneficiadas, bem como sobre a manutenção das obras.

A participação das populações na realização das infra-estruturas de uso coletivo pode ser conseguida por diversos meios, segundo as circunstâncias (oferta de trabalho voluntário, contribuições em dinheiro...), revelando-se quase sempre indispensável. Isso não significa, evidentemente, a exclusão da participação dos poderes públicos, notadamente quanto ao fornecimento do material e a realização de grandes obras, desde quando elas sejam ne- cessárias. Mas as obras destinadas à coletividade não devem ser recebidas como uma total doação do Estado. Só a participação efetiva e voluntária durante a sua realização permite garantir que essas obras correspondem mesmo ao interesse de cada um. Entretanto, a mobilização da força de trabalho camponesa não precisa ser efetuada em todos os instantes, deven- do-se levar em consideração os problemas relacionados com o calendário das atividades agrícolas. Os camponeses podem estar disponíveis para aju- dar nas obras durante os períodos de menor exigência de trabalho nas suas unidades de produção, devendo retornar às suas explorações durante os picos de trabalho.

Existem casos em que os camponeses se associam espontaneamente para oferecer trabalho voluntário nos canteiros de obras coletivas. Esse fe- nômeno é freqüente desde quando se trate de construir infra-estruturas em função das quais os agricultores esperam poder tirar logo vantagem. Mas a participação dos agricultores em muitos trabalhos comunitários não raro assemelha-se a uma corvéia nos casos em que as autoridades dos povoados

recorrem a formas mais ou menos sutis de coerção para realizar os bene- ficiamentos cujo interesse não parece evidente ou imediato. O sistema que consiste em fornecer víveres em troca de trabalho empregado (“food for work”) permite mobilizar facilmente a mão-de-obra camponesa mas não deixa de apresentar a inconveniência de desviá-la de certas tarefas agrícolas de primeira importância, notadamente no período que antecede a colheita.

A participação camponesa nunca deve limitar-se ao simples forneci- mento de trabalho durante a execução das obras. Ela deve ocorrer sobretu- do durante o seu funcionamento. Importa então organizar comissões de produtores-usuários visando assegurar, conforme o caso, a administração, a manutenção, os consertos e renovação das infra-estruturas, com um do- cumento definindo previamente os direitos e deveres de cada um.