5. Centralidades Mediáticas
5.2. As Inteligências Colectivas e a Web Semântica
O conceito de inteligência colectiva, embora surja associado às mais recentes potencialidades de interacção da rede, é subjacente à lógica inicial da Internet. A disseminação do poder de interacção por uma multiplicidade de terminais, sendo que cada um deles possa a qualquer momento assumir a função de centro difusor de controlo e de comando, pressupõe a assumpção do conceito de sistema e da inteligibilização da interactividade.
Esta disseminação do conhecimento em função do contexto específico de cada terminal requer a constituição de uma centralidade coordenadora para que, efectivamente, possamos admitir a existência de inteligências colectivas na sociedade em rede interactiva. Se considerarmos que o sistema poderá desempenhar esta função e controlar o conhecimento e a inteligibilização da sociedade, teremos de admitir que os sistemas de inteligência artificial tenderão a constituir centralidades mediáticas e centros de poder e de coordenação da rede global.
Por outro lado, se admitirmos que cada terminal gera informação específica e particular, passível de interpretação apenas por um sistema que permita cruzar a perspectiva sistémica e particular desse mesmo terminal com a perspectiva sistémica da rede global, então o conhecimento só pode ser gerado pela articulação das diferentes perspectivas, nomeadamente através de processos comunicacionais e não meramente interactivos.
Neste caso, poderá efectivamente legitimar-se o conceito de inteligência colectiva, uma vez que estaremos a analisar um sistema interactivo e não apenas uma rede interactiva. Estaremos a analisar conhecimento e cultura, ainda que artificialmente gerados, e não apenas inteligência artificial baseada num sistema unívoco e totalitário. Ou seja, o conceito de inteligência colectiva relativo à sociedade em rede interactiva pressupõe a existência de um sistema constituído por sistemas e não um sistema
constituído por terminais, quer sejam mediaticamente independentes quer estejam dialecticamente agregados a indivíduos ou entidades.
O conceito de inteligência distribuída por toda a parte tem, em simultâneo, duas centralidades comunicacionais e mediáticas: uma ao nível dos terminais como sistemas potencialmente autónomos, e outra ao nível do conhecimento que se possui quando se cruzam todos esses terminais, constituindo um sistema global de inteligibilização da sociedade como rede e como sistema colectivo.
Lévy223 aborda a questão das inteligências colectivas considerando que a
tecnologia constitutiva do ciberespaço promove um encontro das mentes através da rede global, em vez de representar uma sociedade regulada por essa mesma tecnologia. Esta perspectiva implica considerar que a dimensão sistémica da rede e a centralidade mediática global se fortalece através da soma e da articulação dos conhecimentos e das inteligibilizações particulares dos vários terminais, individuais, autónomos e subjectivos, e não pela constituição de uma inteligência artificial central.
Esta seria, à partida, uma perspectiva favorável ao contributo da chamada sociedade em rede para a instituição de uma verdadeira sociedade da comunicação, com liberdade mediática e igualitária por parte dos indivíduos e das entidades para usar o sistema mediático, influenciar proporcionalmente a comunicação em sociedade e, desta forma, partilhar também o sistema de poder da nossa sociedade.
No entanto, não poderemos excluir a hipótese de afirmação de uma possível tendência para esta liberdade sistémica poder reconduzir a uma massificação da comunicação, com base na constituição de centralidades mediáticas a partir dos movimentos interpretativos formadores de opinião.
Neste caso, a própria remassificação da comunicação, enfraquecendo as inteligibilizações individuais e o possível sistema de inteligibilização colectiva, poderá favorecer a emergência de um sistema baseado na inteligência artificial, uniforme e potencialmente unificador dos processos de inteligibilização e de interpretação da realidade.
Uma concepção recente da rede global, a chamada Web semântica, vem posicionar esta questão num novo patamar, ao preconizar a cooperação entre
223
LÉVY, Pierre. Collective Intelligence: Mankind's Emerging World in Cyberspace, Plenum Trade, Michigan, 1997.
computadores e humanos. A Web semântica procede à interligação de significados, definindo sentidos partilhados entre humanos e máquinas, para os conteúdos presentes na Internet. Os desenvolvimentos da rede global, numa perspectiva sistémica, apontam para a procura de uma síntese entre uma inteligência artificial, baseada na mera interacção, e uma inteligência colectiva fundamentada na massificação das interpretações. Persiste, portanto, a busca de uma sociedade da verdadeira comunicação e de uma inteligibilização da sociedade, na qual se verifique um equilíbrio e um sustentabilidade entre as interpretações individuais e colectivas.
De qualquer modo, a emergência desta Web semântica ou desta suposta versão 2.0 da Web, de acordo com a lógica do programador, confirma a emergência dos mecanismos de comunicação automática, ou da «comumática», conforme aqui é designada. Com efeito, a automatização dos processos de comunicação tende a acentuar a clivagem entre a interacção e a comunicação, entre os meios interactivos e os indivíduos, entre a inteligência artificial e a inteligência colectiva.
Para Shaviro, «o grande problema actualmente é como colocar toda a agente on-
line, como conseguir colocar todos em rede. A nossa tarefa é ultrapassar a divisão
digital, de modo a que a Internet móvel fique disponível para qualquer um, em qualquer
lugar, em qualquer altura».224 Esta é uma problemática que promove a questão da
comunicação automática no âmbito do estudo das ciências da comunicação, uma vez que a rede como sistema global exige a permanência on-line praticamente como requisito para existir na chamada sociedade em rede.
No entanto, o autor questiona: «mas o que queremos desta ligação permanente à rede? O que realmente pretendemos?» A resposta a esta questão, curiosamente, depende do nível de consciência que tivermos sobre os processos de comunicação e sobre o conteúdo das interacções que se operam nessa rede sistémica de dimensão global. Não poderemos ignorar que parte dessa comunicação e dessa interacção é efectuada automaticamente, com independência e autonomia dos meios interactivos.
Neste caso, será a nossa vez de questionar se o nível de consciência que temos sobre a comunicação ainda nos permite responder à questão colocada por Shaviro. A consciência da comunicação é, nesta perspectiva, também relevante para identificar e
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SHAVIRO, Steven. Connected or What It Means to Live in the Network Society, University of Minnesota Press, 2003. (P. 3).
analisar as centralidades mediáticas de uma comunicação em sociedade submetida a um paradigma sistémico de dimensão global.
Além da questão da comunicação automática, o conceito de meta-interactividade é também fundamental para entender e analisar uma rede global que promova a comunhão de interpretações e de sentido entre os conteúdos individuais e os meios, uma vez que o próprio conceito de código da comunicação em sociedade poderá sofrer mutações resultantes dessa procura de colaboração entre os dois sistemas de inteligibilização da realidade sócio-comunicacional, ou seja, conforme referido anteriormente, entre os humanos e os dispositivos de processamento cibernético.
Por outro lado, a própria questão do estabelecimento de centralidades mediáticas poderá ser influenciada pela lógica programadora da rede global, nesta busca de cooperação entre a génese da inteligência artificial e a formação de inteligências colectivas, ambas dependentes da existência das próprias centralidades mediáticas. Isto é, as inteligências colectivas e as inteligências artificiais inter-dependem dos centros mediáticos de difusão e de interacção.
Para Buckingham, «o ideal mobilizador da informática já não é a inteligência artificial (tornar uma máquina tão ou mesmo mais inteligente do que o homem), mas a inteligência colectiva, a saber a valorização, a utilização óptima e a sinergia das competências, das imaginações e das energias intelectuais, seja qual for a sua
diversidade qualitativa e situe-se ela onde se situar».225
No entanto, ainda que admitindo esta nova tendência a propósito dos processos de inteligibilização sócio-comunicacional, deveremos admitir de igual forma a hipótese de os sistemas de inteligência artificial poderem eles próprios constituir paradigmas de interpretação colectiva, a par das inteligência colectivas que actualmente se concebem como pólos de cooperação entre indivíduos e meios, entre humanos e máquinas. A colectivização da inteligência constitui um conceito próximo da massificação do pensamento e da comunicação, ainda que possam emergir inteligências colectivas independentes.
O conceito de comunidade, ainda que sendo fulcral para a definição dos modelos de comunicação em sociedade e da própria ideia de comunicação social, é independente do conceito de inteligência colectiva. A comunidade estabelece-se através de um padrão
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de relações e posições comuns a um determinado grupo, independentemente da condição geográfica do mesmo, e a inteligência colectiva constitui um sistema operacional de relacionamento e interacção fundamentado na lógica do programador ou organizador do sistema. Ou seja, a comunidade corresponde à formatação prática das relações e a inteligência colectiva depende do código sistémico e dos meios de interacção.
Nesta perspectiva, sobrepondo num plano único os conceitos de comunidade, inteligência colectiva e centralidade mediática, poderemos definir um modelo de comunicação em sociedade o qual, em teoria, poderá corresponder ao modelo mass mediático que tem vigorado nas nossas sociedades. No entanto, será necessário ter em conta, além da questão das centralidades, o domínio das unidades mediáticas, uma vez que a formação das comunidades depende do poder dos indivíduos para formatar a sua própria relação com os media.
Zittrain relembra que «a Internet é uma rede básica, flexível, que se iniciou sem qualquer conteúdo». Com efeito, a Internet é, no fundo, um sistema informático operativo, um software que opera sobre uma rede essencialmente telefónica, estabelecendo ligações e relacionando contactos. São os conteúdos que em função de centralidades mediáticas, inicialmente externas à própria rede, que estabelecem comunidades, criam novas centralidades e levam a que os programadores desse sistema reconfigurem novas forma de interacção.
De acordo com Zittrain, «a Internet existe em camadas e, devido à modularidade da sua estrutura, os programadores e gestores de conteúdos podem tornar-se experts
numa camada específica sem saber muito sobre as outras».226 Esta observação vem
complexificar de uma forma ainda mais profunda a definição das centralidades mediáticas no domínio de uma rede global que pretende tornar semânticas as suas interacções e, com isso, colocar em competição, para além da cooperação anteriormente referida, as inteligências colectivamente formadas e as inteligências resultantes de processos cognitivos artificiais.
A rede, como sistema global, segmenta o conhecimento com a mesma profundidade com que viabiliza a emergência de inteligências colectivas, fazendo com
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que o modelo de comunicação predominante em sociedade dependa definitivamente dessa rede e com que as comunidades se formem cada vez mais nessa mesma matriz.
A disseminação do conhecimento ocorre em paralelo com a disseminação dos media e as novas centralidades mediáticas são, também, novas centralidade de conhecimento. Em última instância, serão novos centros de poder. Na sociedade em rede, sistémica ou não, os media continuam, nesta perspectiva, a estar associados ao poder. Por outro lado, as inteligências colectivas continuam a ser susceptíveis em relação às tendências de massificação da informação, da interpretação, da comunicação e do conhecimento.
Perante toda esta disseminação, torna-se relevante questionarmo-nos se o estudo da formação de novas centralidades mediáticas e das eventuais tendências remassificadoras da comunicação em sociedade serão ou não relevantes para a definição e para a análise da chamada sociedade em rede. O presente estudo representa um impulso para o incremento dessa reflexão e pretende acrescentar à rede global a dimensão de sistema, expondo as lógicas do programador e do utilizador como vertentes distintas da mesma realidade sócio-comunicacional.
Tapias confirma esta perspectiva: «as novas tecnologias da informação e da comunicação ajustam-se em plenitude a uma época de fragmentação do sujeito, de expansão ilimitada das diferenças, de identidades mutantes ou identidades múltiplas difíceis de aguentar; em suma, de reconfiguração da realidade a partir de novas
coordenadas».227
A chamada fragmentação dos sujeitos e das suas identidades justifica-se pelo facto de esses sujeitos e essas identidades terem sido relativizadas em função de um sistema de comunicação em sociedade massificado. Porém, a sociedade em rede representa uma evolução relativamente a esse estágio e, se a considerarmos numa perspectiva sistémica, teremos ainda uma mutação acrescida. A Web semântica e a tendência de fusão entre a dimensão humana e a dimensão cibernética, no que se refere à inteligibilização da sociedade e da comunicação, promove de facto novas centralidades mediáticas, começando pelo nível dos indivíduos e da formatação das suas identidades.
227
TAPIAS, José Antonio Pérez. Internautas e Náufragos – A Busca do Sentido na Cultura Digital, Edições Loyola, São Paulo, 2003. (P. 68).
Desta forma, a emergência das chamadas inteligências colectivas segue este padrão evolutivo desde uma disseminação extrema, resultante da desconstrução da comunicação massificada, até à formação de novas centralidades mediáticas e sócio- comunicacionais, de uma forma geral. Castells constata, de facto, que «agora, a tendência dominante na evolução das relações sociais das nossas sociedades é a
emergência do individualismo em todas as suas manifestações».228 Este individualismo
é favorecido pela disseminação mediática, que permite a cada indivíduo independência comunicacional e determinação não apenas da sua própria centralidade mas também a adesão a determinadas comunidades, influenciando desta forma autónoma a formação de inteligências colectivas.
Porém, a colectivização da inteligibilização da sociedade e do próprio sistema de interacção poderá conduzir à implantação centralidade mediáticas cuja matriz seja mais determinada pela lógica dos programadores ou organizadores dos sistemas do que pela lógica dos utilizadores individuais.
Webster229 refere que grande parte dos casos de interacção pessoal verificada
nos grupos de «discussão electrónica», de acordo com o padrão das redes sociais, não é adequada a alguns pressupostos associados ao conceito de comunidade. Para este autor, as redes de comunicação parecem assumir a forma de «extensões virtuais» e não de «comunidades virtuais», uma vez que são suportadas por minorias e pioneiros dos novos sistemas.
A concepção de comunidade virtual pressupõe a existência de um grupo que só existe como tal no plano do ciberespaço. No entanto, deveremos distinguir o conceito de grupo de discussão do conceito de rede social. Esta última poderá, de facto, constituir uma comunidade, uma vez que coloca os intervenientes em comunhão, em partilha de algo, enquanto um fórum de discussão não pressupõe o efeito de comunhão mas de conflito ou de simples troca de informação e de opinião. No entanto, tanto os fóruns de discussão quanto as redes sociais ou as chamadas comunidades virtuais, constituem centralidades mediáticas específicas.
Por outro lado, a concepção de inteligência colectiva não depende da formação de comunidades virtuais nem da existência de fóruns de debate. De um ponto de vista
228
CASTELLS, Manuel. The Internet Galaxy, Oxford Universtity Press, Oxford, 2001. (P. 128). 229
sistémico, existirão tantas comunidades quanto os sistemas de inteligibilização da sociedade e da rede que pudermos identificar. Se assumirmos a emergência de uma inteligência colectiva global, correspondente à rede sistémica que actualmente designamos Internet, então assumiremos que existe, de facto, uma comunidade global.
A Web semântica poderá trazer-nos ainda uma nova concepção de comunidade, independentemente da eventual tendência globalizadora e totalizante, neste caso, incluindo humanos e máquinas numa mesma comunidade e numa inteligência colectiva comum. Em termos de centralidades mediáticas, deveremos considerar dois termos fundamentais: um relativo à rede como estrutura e sistema global; outro concernente à intersecção entre o indivíduo e a tecnologia pessoal e personalizada de que dispõe.
Para Wolton, «mais ainda do que o computador ou a Internet, é o telemóvel que
melhor simboliza esta revolução da comunicação onde o outro está sempre presente».230
A presença constante do outro, quer seja um indivíduo ou o conjunto de todos os indivíduos, constituídos como inteligência colectiva, é o paradigma da comunicação na actualidade e corresponde à dicotomia entre os dois pólos extremos de centralidade mediática, o global e o individual.
A chamada Web semântica vem agora tentar cruzar estes dois planos através da fusão da inteligibilização humana com a inteligibilização cibernética, e da junção entre os respectivos códigos, assim como através da confrontação entre a lógica do utilizador e a lógica do programador do sistema mediático da sociedade em rede.
230
WOLTON, Dominique. É Preciso Salvar a Comunicação, Caleidoscópio, Casal de Cambra, 2006. (P. 11).
5. Centralidades Mediáticas